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sexta-feira, 21 de junho de 2013

SONETO DO CORAÇÃO MALDITO...



 
O monge diante do mar de Gaspar David Friederich (1810), 110 X 172 cm, Museu Nacional de Berlin







– Ao velho pátio do colégio antigo
até a lua regressou mais triste
mas há tanto de mim nestes silêncios
que a própria morte se achará sozinha.

Recordar é adiar outros regressos
sem que me doa a pressa doutros dias
sem que eu invente a infância que não tive
nas voltas em que a vida é reinventada.

Agora o que me cabe é viver
simplesmente e deixar para outros dias
as minhas súplicas e este tempo

qual o velho pátio do colégio antigo
irmão de meu vazio e minha ruína
ou como fazem os cães por entre as noites.



terça-feira, 26 de março de 2013

SONETO DA DIVINA ESPERANÇA...

Fim da Glória Mundana de Valdés Leal (1670-72)
Óleo sobre tela (220 X 216), Hospital da Caridade, Servilha., 





SONETO DA DIVINA ESPERANÇA

(por Silvério Duque)




Não recordemos rotas nem retornos
que o verso nos refaça em seus silêncios
e que as águas nos confundam como as brisas
e tudo nos dê frutos como o fogo.

Não busquemos a paz da tarde escura
nem a manhã remida em meio às frestas...
– Teu corpo me é louvor e desengano
e eu sou como que um sopro em teus anseios.

Não aguardemos estas nuvens calmas
perdidas entre o Céu e suas formas
nem tampouco busquemos outros fossos

outros abismos. Mesmo no abandono
Deus nos concederá o amor e a guerra...
Deus nos trará ( de novo ) a nossa fome.



segunda-feira, 30 de julho de 2012

E SEMPRE EM MEU OLHAR O MESMO ROSTO...

A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto "E sempre em emu olhar o mesmo rosto...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú" e sua respectiva capa: http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html ...





E SEMPRE EM MEU OLHAR O MESMO ROSTO...

(por Silvério Duque)






E sempre, em meu olhar, o mesmo rosto,
a mesma noite, o mesmo labirinto.
O anjo que eu vi cair, já recomposto,
evola-se na luz – Eu não o pressinto...?

Avistei-o, através deste sol-posto,
sob o livor da morte e meus instintos,
ardente e triste sobre os céus de agosto
como as coisas que vi e agora sinto,

pois maior é o Mistério à minha frente.
( Nesse vento indo e vindo pelas portas,
eu penso em Deus e nada está ausente... )

– Somos memória e a morte a todos corta,
meu irmão Esaú precito e crente,
mas só a visão de Deus é o que te importa".




quarta-feira, 25 de julho de 2012

PESA-ME SOBRE OS OMBROS MEU SILÊNCIO...


A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto: "Pesa-me sobre os ombros meu silêncio...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html ...



 

PESA-ME SOBRE OS OMBROS MEU SILÊNCIO...

(por Silvério Duque)



Pesa-me sobre os ombros meu silêncio,
penso no fogo – renascer de tudo –,
na carne que perdi entre os escombros
do desejo, dos sonhos, dos sentidos...

Pesa-me esta saudade de mim mesmo,
esta vontade de partir, de estar
em toda parte e em tudo quanto vejo,
de deixar para trás tudo o que importa...

( Nada importa. Tudo é ilusão e instantes.
Entretanto, desejo, em vão, a vida
e a doce voz que o coração escuta.

Nada importa, pois tudo é solidão
e agonia; pois tudo é noite e assombro. )
Mas, a alma se deslumbra em meio às cinzas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

É PRECISO CRIAR PARA SENTIR...


A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto "É preciso criar para sentir...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html 






É PRECISO CRIAR PARA SENTIR...

(por Silvério Duque)


É preciso criar para sentir;
nada somos se nada construímos,
pois se nada inventamos, nada existe...
Somos a nossa ação por sobre o tempo.

No dia em que tecemos tudo vive,
realizar é escapar da morte... mas,
não durarei apenas entre os outros,
pois dou aos versos usos e clarezas.

De tanta falta e busca me revejo,
de tanto amor e anseio, me reinvento,
nessas rotas e fugas me refaço.

Necessário é criar e a vida é pouca,
no dia em que eu me faço estou e existo.
Neste poema há todos os meus passos.




sexta-feira, 13 de julho de 2012

TEU SORRISO NA FOTO ENVELHECEU... OU UMA CANÇÃO DE AMOR PARA LUCIFRANCE CASTRO

A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto "Teu sorriso, na foto, envelheceu...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html 




TEU SORRISO NA FOTO ENVELHECEU...
OU UMA CANÇÃO DE AMOR PARA LUCIFRANCE CASTRO

(por Silvério Duque)



Teu sorriso, na foto, envelheceu –
envelhecemos juntos... Tudo passa:
o que se achou perdido entre a gaveta
e os sonhos, as carícias no teu rosto,

a noite derramando-se em ternura
e sono, o amanhecer que partilhamos...
Tudo passa; até mesmo a tua ausência
e a saudade que trago de quem somos.

Mas, mesmo na saudade, há dor e abrigo;
vontade de ficar e desespero.
O teu sorriso envelheceu comigo,

e, eternamente, se entrelaça em mim,
pois, contra o tempo que nos aniquila,
há a persistência viva das lembranças.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

NUA, ÉS COMO OS FRUTOS CONTRA O VENTO...


A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto "Nua, és como os frutos contra os ventos...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html



NUA, ÉS COMO OS FRUTOS CONTRA O VENTO...

(por Silvério Duque)



Nua, és como os frutos contra o vento,
o contrair impuro de teus músculos,
como a transpiração das tuas flores,
vela chorando só em meio as preces...

És como um dispersar de velhas missas,
espaços partilhados pela ausência,
a sensação pesada, o Fogo Eterno,
és a falta, o princípio, o musgo, a fera...

Nua és como as frestas e as janelas,
as marcas de meus dentes em teu seio,
a certeza insensata das promessas...

És a busca e a descida a toda fonte,
o vento repetido em toda parte,
minha dor, minha paz e meu reflexo.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CONTEMPLO EM TUAS CHAGAS A BELEZA E A MEMÓRIA...


A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto "Contemplo em tuas chagas a beleza e a memória...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html




CONTEMPLO EM TUAS CHAGAS
A BELEZA E A MEMÓRIA...

(por Silvério Duque)



Contemplo, em tuas chagas, a beleza
e a memória de tudo o quanto é vivo.
A dor inda presente sente a carne
o amor nos oferece um gesto antigo.

As tuas mãos deslizam sobre as noites
mais escuras e a sombra de teus gestos
desenham novos rumos. Eu reclamo
em vão a tua morte e a minha vida

eu permaneço esquivo em meio as cinzas
e o que vejo me traz teu abandono –
recomeço das coisas esquecidas.

Uma palavra, só, e eu me refaço...
A fome, a sede, a espera... o desespero:
teu corpo vive em mim como uma praga.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

GRANDE CONFORTO ESTA VISÃO DA NOITE...


A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto "Grande conforto esta visão da noite...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html







GRANDE CONFORTO ESTA VISÃO DA NOITE...

(por Silvério Duque)



Grande conforto esta visão da noite,
esta noite existente em cada ouvido,
qual o mar encarcerado em cada concha...
Há, em cada sonho, um anjo adormecido,

a despojar, da dor, toda verdade;
a mesma dor que nos revela as faces
que escondemos outrora em meio aos gritos.
E há, em cada despertar, o mesmo sonho,

do íncubo anjo, em seus olhos, revivido,
e, em seus olhos, o mesmo e estranho brilho
desta escada submersa e intermitente

entre as vagas, o Céu e a noite escura:
é a solidez das horas de Esaú –
hirsuto hebreu sem paz e sem lentilhas.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

POEMA SOBRE OS SEIOS DA MULHER AMADA...



Femme assise dans un fauteuil de Pablo Picasso (1916), óleo sobre tela, 120cmX85; coleção particular.



Somente aqui eu deixarei meus versos
e os vestígios que o tempo traz à luz
gestos, carnes, desejos, rastros... eis
o meu poema inteiro de memórias

pois é chegado o tempo dos retornos
das coisas que colhi entre os escombros:
a ordem, a mesa posta, o arar do campo
as formas luminosas da existência

o vaso que se esconde em todo barro
este mover de tudo, o musgo, os muros
a terra, a sombra e o sopro em meio às cinzas...

Como quem redescobre antigas chagas
neste poema há todos os meus passos
e entre os teus braços mais que a minha vida.



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

PEDRO VIANNA: POÈMES DE MOI...


A pele de Esaú de Gabriel Ferreira (2010):
 Acrílico e fios de algodão sobre tela – 250 x 250 cm –
Coleção particular.  





JÁ TIVE A OPORTUNIDADE DE, AQUI, FALAR A RESPEITO DO TRABALHO DE PEDRO VIANNA. 

TRABALHO LOUVÁVEL, PRINCIPALMENTE PELA VALORIZAÇÃO DE MUITOS POETAS (NOVOS E VETERANOS) DE NOSSO QUERIDO BRASIL, PRINCIPALMENTE OS DA BAHIA, ALÉM DE POETAS PORTUGUESES, QUE ELE TÃO CAPRICHOSAMENTE CONSTRÓI EM SEU SITE.

PEDRO VIANNA, A QUEM EU COMHECI ATRAVÉS DA QUERIDÍSSIMA PESSOA DE MIGUEL ANTÔNIO CARNEIRO, MUITO ME HONRA AO SE APRESENTAR AQUI COMO TRADUTOR E CO-AUTOR – PORQUE TRADUZIR É TAMBÉM RE-CRIAR, TORNAR ALGO NOVO, NOVAMENTE... DESTE MEU POEMA, EXTRAÍDO DE MEU LIVRO A PELE DE ESAÚ.

***
QUEM QUISER CONHECER MELHOR O SEU TRABALHO E, CLARO, OUTROS POETAS QUE PEDRO VIANNA VEIO A TRADUZIR, ACESSE O SEU SITE: http://poesiepourtous.free.fr 




Que sabes tu dos frutos, das sementes,
da dureza das flores contra o vento ?
A aurora vem tragar a noite espessa
de onde brotou, sem dores, o teu grito.

Se a afirmação do amor nos aborrece,
morrer é mera vocação dos vivos,
pois, no morrer de tudo, há um recomeço.
Não queiras mal ao tempo ou ao espanto ;

não queiras mal ao grão, à terra escura...
Que sabes tu das trevas ou da carne ?
Que sabes tu das noites, dos princípios ?

Hoje, é chegado o tempo dos retornos,
e toda forma espera o seu ofício
como o vaso existente em todo barro.
...................................................................................

Que sais-tu des fruits, des graines,
de la dureté des fleurs face au vent ?
L'aurore vient engloutir la nuit épaisse
d'où a jailli, sans douleurs, ton cri.

Si l'affirmation de l'amour nous contrarie,
mourir est une simple vocation des vivants,
puisque, dans tout mourir, il y a un recommencement.
N'en veux pas au temps ni à la frayeur ;

n'en veux pas au grain, à la terre sombre...
Que sais-tu des ténèbres ou de la chair ?
Que sais-tu des nuits, des principes ?

Aujourd'hui, est venu le temps des retours,
et toute forme attend sa fonction
comme le vase existant dans toute glaise.


sábado, 16 de abril de 2011

UNIFICA, SENHOR, MEU CORAÇÃO...



Cristo crucificado de Diego Velázquez, (1639), Óleo sobre tela, 249 cm × 170 cm, Museo del Prado, Madrid, Espanha.





Unifica, Senhor, meu coração


e dá-me o espaço azul entre as palavras;


a Tua face inclui tudo o que existe,


e há em tudo o quanto existe o mesmo sopro;


dá-me os frutos refeitos entre as bocas,


a maciez da carne e seus suplícios,


estas cores advindas de Teus gestos.


Senhor, a noite é escura – e eu tão pouco –


e em tudo sou diverso e sou contrário:


o lugar, o desejo... estas distâncias;


vontade de partir entre os amplexos.


Torna, Senhor, um só o meu coração


perdido entre os cenários e as platéias;


faze de mim Teu instrumento e a Espera.