terça-feira, 4 de abril de 2017

JOÃO FILHO E A SOLIDÃO DO SANTO EM SUA SEDE...

Auto da Romaria
Autor: João Filho
Gênero: Poesia
Nº de páginas: 190
Formato: 15 x 19 cm 
Preço: 38,00 
Compre-o aqui: http://mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=135




A SOLIDÃO DO SANTO EM SUA SEDE:

ou a persistência  viva da memória
em auto da romária de joão filho


Whoever lights a light,
is the first to benefit from the clarity.
G.K. Chesterton

às professoras Ana Carolina Campagnolo e Marla Silva
porque, às vezes, podemos escolher a nossa cruz.










Após ganhar um dos mais importantes prêmios literários do país, o poeta João Filho poderia fazer como mais da metade dos escritores – ou aspirantes a tal – que conheço, passaria a viver de um marketing pessoal defasado, despreocupado com o próprio aprimoramento de sua escrita, legando ao público leitor não mais do que dois livros anuais carregados de lugares-comuns, versos desleixados e uma profusão de imagens toscas e sem nenhum sentido ou nexo com coisa alguma, apenas para ostentar eternamente a alcunha de “poeta premiado”.

No entanto, como grande poeta que é, João Filho não se deixou levar pela vaidade retumbante dos tolos, e, como nas antigas tragédias gregas que até hoje nos ensinam a viver, dedicou-se a um crescimento moral e intelectivo ainda maior, típico dos grandes heróis, ou dos poetas que nos deram esses grandes heróis. O resultado não poderia ser menos do que seu mais novo livro Auto da Romaria, que, ao lado de O Corpo Nulo, de Lorena Miranda Cutlak, e Natal de Herodes, de Wladimir Saldanha – todos lançados pela Editora Mondrongo –, compõem não menos que um verdadeiro milagre literário brasileiro, numa época em que boa parte de nossa literatura se afasta cada vez mais do que é realmente essencial.

Não se deve esperar menos de um livro de poemas, do que transmitir, aos seus leitores (através dos mecanismos mais diversos de que a poesia dispõe), o maior número possível de grandes ideias e temas, que devem ser recebidos pelas mais elevadas faculdades do espírito de quem os leem – ao mesmo tempo em que elevam tais faculdades. E se um poeta assim procede, então temos aí um grande poeta, fazendo uma grande poesia, pois um grande poeta é, segundo John Ruskin, aquele que mais corporificará, no conjunto de sua obra, o maior número de grandes ideias e temas. E ao escolher aquele que é o maior tema poético de todos os tempos, o próprio mito fundador do Ocidente, adequando-o à tradição popular de sua terra, e à memória de seus tempos de menino – só para dizer o básico –, João Filho, em seu Auto da Romaria, não pretende menos que ser um poeta maior a escrever uma obra que não se quer menos que grandiosa.  E, para isso, vale-se não só de um tema grandioso, mas esbanja um domínio técnico que não só o separa da maioria de nossos contemporâneos, bem como o aproxima de uma tradição que, em nossas Letras, remonta desde Gregório de Matos a Suassuna, mas que encontra sua voz maior em Alphonsus de Guimaraens, Jorge de Lima e Bruno Tolentino, com uma força que aumenta à medida que é desprezada por nossos mestres e críticos, e se renova quanto mais atacada e renegada ao canto dos esquecidos.

Um livro como Auto da Romaria não traz em seu tema e em sua forma não menos que um compromisso com a verdade, com aquela verdade que está comedida em toda religião, e vocifera em toda poesia que se preze: a de que não somos cães, nem devemos entrar de cabeça baixa nos cemitérios, como afirmara Petre Ţuţea. Na religião, evitamos o “desespero metafísico” das covas, e numa obra como Auto da Romaria, essa verdade nos é jogada à cara, verso a verso, pois como o próprio poeta afirma em um dos sonetos da série Nosso Senhor dos Passos: “certas coisas só podem ser vividas”, porque “a solidão do santo em sua sede”, como nos diz João Filho, não é muito diferente da “alma sedenta de si mesma”, como dissera Jorge de Lima, que todo poeta traz consigo. A travessia metafísica pela qual passa os santos não se faz maior ou menor do que os romeiros ou o próprio poeta – e vive versa –, muito pelo contrário, ambas são maneiras muito próximas de elevação pessoal e registro memorial, embora, na prática, se façam por meios, muitas vezes, diferentes.

De todos os elementos que moldam o grande arcabouço técnico deste livro, não há um em que João se apoie mais do que a memória, mas como ele mesmo deixa bem claro no prefácio de seu livro, não é apenas a sua própria memória, embora esse tom tão pessoal dê a este livro uma força vital e realista única, porque nenhuma grande arte pode fugir ou surrupiar a realidade, mas uma memória histórica que o próprio Cristianismo insere em todos nós. Por isso mesmo, toda procissão é memória; é a lembrança do sofrimento do Cristo, por exemplo, que é também o nosso sofrimento, pois todo sacrifício é troca, e o Cristo pregado à cruz, seu rosto, seu corpo, sua dimensão, não é senão a transfiguração de nosso próprio rosto, nosso próprio corpo, nossa própria dimensão ali pregados. Relembramos nos passos de Jesus os nossos próprios passos, na dor do Messias a nossa própria dor, e na Glória do Salvador a renovação de uma promessa que sempre se faz nova, porque ela nos dá algo com o qual é impossível vivermos: um sentido. Deus se faz maior quando desce à nossa condição e o livro de João deixa bem claro o quanto que a presença de Deus está em toda parte, não só naquilo que necessariamente se apresenta de natureza religiosa, como as igrejas, as imagens, ou os ex-votos, mas nas pedras, no vento, no calor do sertão da Bahia, nas águas do rio São Francisco; na dor, nas promessas, na fé (pouca ou inabalável); tudo é Deus falando, é Deus presente, é Deus conosco; é memória e é o agora.  

Diferentemente do Severino de João Cabral, que se perde e se anula ao buscar um caminho só seu, uma individualidade, achando-se somente quando se reconhece como mais um, num sofrimento coletivo, os romeiros e demais personagens de Auto da Romaria são diferentes, pois transformam uma dor comum numa busca pessoal, porque a dor de muitos foi suportada por um só, e, como queria Cruz e Souza: na dor, transcendentalizamo-nos. E é aqui, exatamente nesta troca e neste caminho, que reconhecemos uma miséria metafísica denunciada por Voegelin, mas não compreendida por Kant, confundida por Nietzsche e usada por Hegel, Comte, Marx e seus sequazes. Porém, todo o sentido, o mistério e a glória do Cristianismo se resumem aqui, nessa troca, nesse sacrifício, nessa tomada de lugar que cada um deve fazer, nessa cruz que deve ser retomada, devolvida aos ombros merecidos, e assim se completa, como João Filho escreve em Vozes anônimas em romaria, “vão muitas outras dores juntas” e reafirma: “Aquele Um, a fonte e a foz”, onde este “Um” estiver “ali está o Centro”, o sentido de tudo. E há mais sentido na crença do que na descrença, há tanta razão no homem ao conceber algo para fora dela, que pensar ao contrário é que seria uma grande burrice. Por isso mesmo, a força que a memória exerce neste livro, ou na procissão, é a mesma força daquela vida que se renova a cada dia, não por ela mesma, como no poema do Cabral, mas através daquilo que lhe dá não só um sentido, mas que é o próprio sentido em si e que, em Morte e Vida Severina, graças, àquela época, a certa inclinação ideológica de seu autor, Severino, convenientemente, se afasta, não sendo mais que um observador passivo e estúrdio.  Somos mais do que nós mesmos, e temos uma parte de nós para além desta matéria, e desta parte precisamos tanto; e se velamos, é porque há quem vele por nós.

Vejam, por exemplo, como tudo que eu quero dizer aqui se resume ao lermos um poema que não poderia ter melhor título, Romeiros:           


 Vão os que sabem das chagas,
vão os que sabem das dores,
e da alegria que escava
a pedra dos pecadores.
Esses nascidos da estrada,
amargando o sol de todos,
mas sabem do que não salva
e do que salva os horrores.

Vão os que sofrem as léguas
das vigílias das distâncias,
a insônia daquela espera
mais aguda em sua andança,
decerto da noite extra
quando o fel no fel decanta,
o sol, a fera das feras,
fez o que quer no que planta.

O sol de dentro pra fora
martelando mundo e povo,
expõe em sua bigorna
o metal d’alma e seus dolos
– qual parte não apavora?
– qual brilho quer ser de novo?
Vão os que sabem das covas,
os romeiros sem retorno.

Lonjura de onde procedem,
o tempo esconde no mapa,
mas são os mortos que regem
os vivos em sua lavra,
uma romaria segue,
horizontes rumo à Lapa,
outra já não mais terrestre
além se eleva calada.

Os mortos seguem na frente,
os vivos vertem as horas.
Mortos? Mentir, não mentem,
os vivos queimam agora,
os mortos são dissidentes
do tempo já sem manobra,
os vivos num movimento,
nele o cansaço vigora.

Vão os náufragos do pó,
os das ruínas dos céu,
sabem infernos de cor,
sofrem a vida a granel,
cobre-os a pele pior,
e todos eles são réus,
não do século sem dó,
mas do Velado sem véus.

Os estilhaços da fé,
as cisternas sem fundura,
os deuses de um deus qualquer,
a carne feita só fúria,
e sem sentido esmoler,
pois nada disso descuram
 – o real é seu mister –
os passos dessa procura.

Vão estes inumeráveis –
desejos, misérias tantas,
até na quietude ardem,
sabem que o vivido sangra;
sua primeira paragem?
Na Gruta, onde a luz descansa,
seguirão os indomáveis
seu fadário, estrela e canga.


ao mesmo tempo, a razão para tudo isso existir, encontra-se, por exemplo, naquilo que é relembrado nos poemas de Nosso Senhor dos Passos, porquanto, no Cristianismo, a memória nos empurra para o futuro... Vejamos o soneto X:

 “– A refletir o que da argila é sopro”
– diz a Voz. Quem a escuta sem favor?
“– Pois há maior nudez que a do corpo,
e o corpo é da alma um pobre andor,

que a cada vez um capricho novo,
mas Quem daria um corpo sem amor?
A via é um sudário, lá – o topo,
o fim dos sacrifícios sem valor.

Na túnica inconsútil lançam dados?
As outras vestes rasgam sem pudor?
Quem verdadeiramente desnudado?

A esperança sangrando se renova...”
– cala-se a Voz. Aguarda a luz transpor
e a morte ser somente a contraprova.


O poeta João Filho: foto de Alléx Leyla



Embora o título deste livro faça alusão direta à linguagem teatral, não consigo concebê-lo para além da musicalidade que lhe é inerente. O Auto da Romaria tem um tom que tanto acentua a sua voz poética quanto a busca de um ritmo que lhe afirme as diversas referências de que faz uso: salmos, cânticos, ladainhas, óperas, cantatas; muita coisa neste livro é demasiadamente concebida como música; não havia de ser diferente, pois já dizia um velho poeta português – falando pela boca de um neoclassicista que ele mesmo inventara – que a poesia é a música que se faz com palavras. No entanto, não descarto, deste Auto da Romaria, a força da oralidade popular que pulsa tão forte quanto à precisão e à cadência rítmica que João Filho dá a seu texto, características muito próprias dos poemas populares daqui do Nordeste, e que é uma herança tão ibérica quanto às diversas manifestações religiosas que servem de inspiração para este livro. Não esperem, porém, que João tome de empréstimo uma entonação cabralina para estes poemas (o que não consistiria em um problema, é claro), embora, em certos momentos, ele até o faça, mas seria uma maneira de ver preguiçosa e reduzida, em meu ver. Por isso mesmo, há uma diversidade tão grande de formas e métricas, sustentando, como disse a pouco, um ritmo muito dinâmico e aprumado, que as redondilhas maiores e menores, de alguns poemas, ou os sonetos e terza-rimas de outros, não são mais do que adequações às ideias preteridas pelo autor – e não mecanismos de criação –, e que trabalham diretamente para a música contida nos versos de Auto da Romaria.

         Quem não conhece a cidade de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, que não por acaso recebe o epíteto de “capital baiana da fé”, não deixa de, para ela, ser transportado. Não tenho nenhuma dúvida de que essa seja uma das principais intenções do autor. A própria história da cidade de Bom Jesus da Lapa se confunde com a história de fé que ela tanto transborda, mas não fica só na história, onde desde o século XVII, com a descoberta da gruta às margens do Rio São Francisco e com as peregrinações iniciadas desde a época de Francisco de Mendonça Mar, Bom Jesus da Lapa tem uma geografia que muito se assemelha, para quem quiser ver e sentir, à Galileia de Cristo: não lhe faltam calor (e que calor), uma aridez quase desértica, plantas semimortas que se arrastam pela aridez da caatinga, um rio, uma gruta; tudo favorável à imitação daquele ambiente onde a maior história já contada pela humanidade aconteceu. João Filho não perde isso, pelo contrário, ele supervaloriza esse ambiente reforçando palavras como “pedra”, “vento”, “gruta”, “rio”, “seca”, “estrada”, “sol”, “claridade”, que se juntam a “andança”, “ardor”, “espera”, “chaga”, “dor”, “milagre”. A poesia se apresenta aqui como um meio de transporte, para que cheguemos mais rápidos através tanto da história quanto da imaginação, porque em todo momento nesse livro há um meio de transporte, lento, arrastado, mas significativo à longa jornada em busca de nós mesmos e de nossa salvação: paus-de-arara, barcos, veleiros, carroças, mulas, e, é claro, nossos próprios pés, que se arrastam, mas persistem, porque sabem de sua recompensa. A história é um meio de transporte, o mundo é um transporte, a imaginação é nossa maior nave... Neste livro tudo segue um curso muito delimitado e preciso: o rio o segue, as brenhas abertas entre os morros o seguem, as procissões os seguem, a fé segue-o inabalável, os leitores desse livro segui-lo-ão independentemente de sua crença, até porque a poesia é também transporte, e, ao fim da jornada, apenas os que souberam realmente o que buscar encontrarão: seja um verso, uma resposta, uma nova dúvida, não é à toa que o poeta, mais adiante nos fala: “Se ao fim de tudo não restar mais nada...”, e às vezes no meio dos caminhos costumamos deixar tudo, o poeta completa: “relembra que a lembrança é também dádiva”, pois mesmo o que nos é negado é também consenso.

         Grandes poetas têm essa capacidade que é evidente em João Filho, a de nos arrebatar para outro estado tanto de consciência quanto de êxtase. Com sua poesia não poderia ser diferente, pois, para mim, sua obra sintetiza a força e a segurança da tradição com a versatilidade e a engenhosidade empolgante das produções mais atuais e atuantes, prestando-se tanto à reflexão temática, bem como à multiplicidade técnica, e, por isso mesmo, se faz digna tanto dos grandes e antigos quanto dos novos mestres. Daí eu ter a certeza de que uma poesia assim só pode ser uma poesia conservadora, mas – permitam-me um imediato esclarecimento – não àquele conservadorismo preso à mimese paupérrima ou à total minimização de ideias e temas outrora grandiosamente trabalhados. A poesia de João Filho – e, como já disse, os poemas de Lorena Miranda Cutlack e Wladimir Saldanha, só para ficar na mais nova lavra – é um dos exemplos mais novos e mais perfeitos de valorização daquela que é a peça mais importante de toda poesia: a palavra.

Entretanto, antes que alguém aqui considere minha declaração uma “pérola” da obviedade, é sempre bom lembrar que, nos últimos quarenta anos da história de nossa poesia, a desvalorização de seu elemento principal foi algo sumariamente propagandeado e seguido com o mais feroz afinco, da mesma maneira que, mesmo criticando os antigos poetas, os quais viam nas artes plásticas um modelo de elaboração a ser seguido pelos donatários da literatura, cobriram-se da mesma desculpa da maioria dos supostos pintores abstratos ao se utilizarem do falacioso argumento da não necessidade da figuração para esconder sua total falta de habilidade, técnica e talento.

A palavra, na poesia de João Filho, entretanto, volta a ganhar aquela profundidade de significados que, desde Cabral e Drummond, e com a exceção de Bruno Tolentino  e Alberto da Cunha Melo, não se ouvia ecoar a algum tempo na maioria de nossos poetas que, com a desculpa de um sintetismo necessário ao mundo veloz e desafiador em que vivemos, precisava falar rapidamente ao tempo que imprimia em seu leitor uma gana de impressões indeléveis em sua mente tão ocupada, todavia, o resultado que se via era um emaranhado de vocábulos dispersos em versos soltos e descompassados que mais confundiam e enojavam do que ensinavam ou traziam alguma impressão no mínimo agradável. Mas João dá vazão a essa ideia e a faz funcionar, não porque é um “moderninho” melhor intencionado e sim porque é um técnico, ao mesmo tempo que se mostra um sensível observador do mundo e das inúmeras oposições às quais esse mundo se presta e, à sua maneira, evidentemente, um conservador. Conservadorismo que amalgama uma série de elementos primordiais que, trazida do passado, tem o papel de alicerçar novas e diversas maneiras de se compreender o mundo a se abrir novíssimo e gigante a cada época, a cada novo dia para qualquer poeta. É aquele conservadorismo que estava tanto em Pessoa quanto em Bandeira, em T.S. Eliot e Carlos Drummond, Auden e João Cabral de Melo Neto, nos sonetos Vinicius e nos versos de Bruno Tolentino e Alberto da Cunha Melo e também se encontra na mais nova e melhor safra de poetas dos últimos anos: Patrice de Moraes, Emmanuel Santiago, Nívia Maria Vasconcellos, Fabricia Miranda, Wladimir Saldanha, Érico Nogueira, Bernardo Souto, Marco Catalão, entre outros... e, claro João Filho. Não e à toa que, ao final de seu Auto da Romaria, o poeta nos conduza a este “eterno retorno” que os grandes temas e a tradição sempre promoverão e estarão dispostos a também nos arrebatar. E que começa assim:

  A história foi contada,
mais alma do que chão.
– Termina aqui a estrada?
– Que borda esta manhã?

No horizonte da falta,
a luz que nela é órfã,
única e necessária
é a coisa que a exorta:

o caminho da volta;
regresso, mas sem fuga.
– A cada um seu Gólgota?
– Alma cansada de espumas.

Há uma casa que aguarda.
– Amar sem merecê-la?
– A história foi contada,
basta que reconheças.


E assim termina... ou recomeça:


Nasci antigo.
Bom Jesus da Lapa
                       nasceu comigo
Podia ser pior
                          e não ter nem chegado.
Todo caminho é um mistério.
                  Em que caderno amarelado
                          se perdeu o seu batistério?
                                 Amor de muito,
                                 afável conflito –
catar palitos para brinquedos
                       no velho mercado
                                            a marmita na bicicleta
                       a surra da matemática
                       na imperícia da queda
meu coração descura
          sua loucura atávica.

Mas Bom Jesus da Lapa
                              só me chamou
                      aos três anos de idade.
Assombro que não cessa,
                       primeiro voo  
ou alma que não sabe onde pousou?
Na porta da rua, na tarde imprecisa,
minha irmã valida
                    (presença sem resposta):
alguém passa, seu gesto se realiza
               na luz imposta
               assombro que atravessou a minha vida,
               e me transporta.















Salvador/Candeias, Semana Santa de 2017.





terça-feira, 15 de novembro de 2016

SILVÉRIO DUQUE NO PROGRAMA "ESTAMPA SONORA":

Silvério Duque no programa Estampa Sonora...





Aproveitando para deixar aqui o meus mais sinceros agradecimentos a Cesinha dos Olhos d'Água pelo convite e a todos da TV Monte Sião, pela oportunidade e pelo excelente trabalho que veem realizando...

domingo, 4 de setembro de 2016

"FELITA" (FESTA LITERÁRIA DE ITABUNA), 2016...

Na FELITA, 2016, para lançar os livros Do coração dos malditos e Cantares de arrumação, ambos pela Ed. Mondrongo.



Deixando aqui o meu muitíssimo obrigado aos organizadores da 3a FELITA, principalmente à pessoa de meu amigo Gustavo Felicíssimo, pelo convite e imenso prazer de participar de um dos eventos literários mais bonitos e bem organizados que já tive a honra de me fazer presente; em especial aos caríssimos Vicente Formigli Rebouças e Geraldo Lavigne de Lemos, pelo delicioso bate papo, e por rever e conhecer (de fato) artistas e poetas do mais alto nível, os quais orgulhe-me de ser amigo: João Filho, Wladimir Saldanha, Állex Leylla, Heitor Brasileiro Filho, Fabrício Brandão, Piligra, entre outros... Como em vários lugares que visito, palestro e lanço meus livros, menos em Feira de Santana, fui muito bem recebido, respeitado e cuidado...

Muito obrigado!!!

   

domingo, 12 de junho de 2016

À MÃO... FELIZ DIA DOS NAMORADOS PARA VOCÊ QUE É SÓ...




À MÃO...

(por Silvério Duque)






 À minha mão eu deixo a melhor foda
pois só com ela eu gozo um gozo pleno
tanto faz ter pau grande ou bem pequeno
buceta alguma tão bem o acomoda.

Em minha mão se faz perfeita roda
se nenhum cu se mostra mais ameno
nem obedece às ordens que eu ordeno...
Minha mão ao meu pau não incomoda.

À minha mão entrego o meu caralho
que explode em gala, em grito e em careta
– tanto prazer por tão pouco trabalho.

Quem me conhece mais que minha mão...?!
Sempre disposta a mais uma punheta
e a saciar de uma vez o meu tesão.








Candeias, 04 de junho de 2016.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O GALO...

O Galo de Aldemir Martins (1939). Óleo sobre tela 35x45 Coleção particular.





O GALO

ao poeta e amigo João Antônio Marra Signoreli





Se um galo cala o dia chega sem aviso.
Caberá à manhã uma nova arquitetura
para que o galo envolva o dia em sua moldura
que um galo é sempre o abrir do Sol com seu sorriso.

Se um galo deixa de passear pelo terreiro
é menos um guerreiro armado contra a morte
pois se é de crista e esporas sua voz e seu porte
um galo é a um só tempo um passo e o mundo inteiro.

Todo galo a si mesmo se completa. Um galo
como mar em si mesmo se mergulha. Um galo
será sempre a extensão do mesmo e esmero galo.

Um galo canta e o dia chega de um estalo.
Um galo sabe de sua voz... De seu abalo.   
A um galo nada cabe além do próprio galo.

domingo, 29 de maio de 2016

SONETO ERÓTICO-PORNOGRÁFICO...








SONETO erótico-pornográficO
de lo Siglo de Oro*


(Autor desconhecido, de um manuscrito do Século XVII)

(Tradução de Silvério Duque)




 -¿Qué me quiere, señor ? -Niña, hoderte.
-Dígalo más rodado. -Cabalgarte.
-Dígalo a lo cortés. -Quiero gozarte.
-Dígamelo a lo bobo. -Merecerte.

-¡Mal haya quien lo pide de esa suerte,
y tú hayas bien, que sabes declararte!
y luego ¿qué harás ? -Arremangarte,
y con la pija arrecha acometerte.

-Tú sí que gozarás mi paraíso.
-¿Qué paraíso ? Yo tu coño quiero,
para meterle dentro mi carajo.

-¡Qué rodado lo dices y qué liso!
-Calla, mi vida, calla, que me muero
por culear tiniéndote debajo.



***


– De mim, o que quer, Senhor? – Moça, foder-te.
– Diga-o com mais rodeios. – Cavalgar-te.
– Diga, ao modo cortês. – Quero gozar-te.
– Diga-mo feito um bobo. – Merecer-te.

– De certo, muito fiz por receber-te,
e fi-lo bem, pois sabes declarar-te!
– E logo, o que farás? – Arregaçar-te,
e, com minha pica em riste, vou comer-te.

Tu gozarás, enfim, em meu paraíso...
– Que paraíso? Eu quero é o teu rabo
e nele enfiar inteiro o meu caralho.

– Diga-mo, então, de um modo mais preciso!
– Cala, minha vida, cala, que eu me acabo,
tilintando em teu cu com o meu vergalho.








* De Pierre Alzieu, Poesía erótica del Siglo de Oro, Crítica, Barcelona, 2000.


domingo, 8 de maio de 2016

FALANDO SOBRE "CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL"...

A grande alegoria que Capitão América: Guerra Civil personifica é a imaginação moral, a única coisa que, de fato, permite-nos distinguir a respeito da pessoa humana, sua ordem, sua alma, seu papel social e sua capacidade em diferenciar o que realmente é bom ou mau, belo e feio, ofertando-nos uma visão geral da natureza humana e das leis que a regem. Somente essa imaginação moral pode nos dar a real ideia do cruel controle dos Estados totalitários em nossas vidas; por isso mesmo é tão combatida pela “educação” que tais Estados totalitários nos “oferecem”.







Meus alunos me perguntam: “Porque não gosto do PT ou de qualquer partido de Esquerda”? Inclua-se também qualquer pensamento ou doutrina semelhante. Costumo responder de forma simples e objetiva: “o PT é um partido de Esquerda, ponto final”. Todavia, décadas de uma educação, e isso se dá nas mais diferentes classes e instituições educacionais de nosso Brasil, voltada unicamente à dependência das estruturas de poder do estado e suas ideologias, não deixam que essa explicação se faça de modo fácil e contundente como deveria ser, e as explicações estendem-se à medida que as mentes se sujeitam a uma maneira única e rasa de pensar o mundo e a realidade; e quanto mais saliente mostra-se a mente de um indivíduo com relação a essas coisas, compreendemos o quão eficaz é o poder doutrinário de uma educação que transforma indivíduos em lobotomizados.

A verdade é que a Esquerda traz uma promessa maravilhosa, não se pode negar isso; daí a eficácia de sua sedução. É quase como a promessa de um Paraíso cristão, mas aqui mesmo na terra (nada mais herético, diga-se), onde Deus e anjos podem simplesmente ser substituídos por homens, e a graça pode ser alcançada sem os sacrifícios necessários para tanto. É uma maravilha, concordem. O Esquerdismo retira do homem a sua responsabilidade diante da existência, passando-a a um Estado que o representa ao ponto de pensar por ele mesmo... E aí começa o problema de um Jó sem Deus que o Marxismo sempre pretendeu implantar em cada homem existente na terra. O resultado disso não é menos que o caos moral e existencial, criado por um Estado totalitário que recebeu o “nosso” aval para agir descontroladamente, e esse é o maior trunfo de Capitão América: Guerra Civil (Marvel Studios, USA, 2016): mostrar a força destrutiva de um Estado totalitário, principalmente quando esse estado se mostra benevolentemente dedicado.
      
   Depois de uma ação desastrosa na Nigéria, com dezenas de “efeitos colaterais”, o Secretário de Defesa americano Thaddeus Ross (William Hurt), aquele mesmo que morre de amores pelo Hulk – que, aliás, como todos sabem, não está no filme –, resolve chamar Os Vingadores à razão e mostrar-lhes que, ao redor de suas ações, há vidas humanas inocentes pagando o pato, e faz isso mostrando imagens de suas ações em Nova York, Washington, Nigéria e nas fictícias Sokovia e Wakanda, o que é um belo tapa com luva de pelica tanto para a plateia quanto aos seus colegas diretores, como bem lembrou Isabela Boscov, que “não é correto que cenas de mortandade e destruição em massa sejam usadas para empolgar e fascinar sem que se pese o preço de cada vida tirada ou destruída”, assim como é feito também em Batman vs. Superman, de Zack Snyder, só quem com menos impacto e verossimilhança que os irmãos Anthony e Joe Russo, que dirigem o Guerra Civil. Por isso, a ação d’Os Vingadores, a partir da assinatura do Tratado de Sokovia, já acordado previamente entre 177 países, passará a ser monitorada e comandada pela ONU, e os heróis mais poderosos da terra não mais passarão a agir segundo as suas vontades ou necessidades alheias, ao menos que, como último recurso, sejam chamados a isso.

A notícia cai, como uma bomba, para todos os membros da “iniciativa”, mas principalmente sobre as mentes de seus membros mais antagônicos: Steve Rogers (Chris Evans), o Capitão América e Tony Stark (Robert Downey Jr.), o Homem de Ferro. Não pensem os desavisados e cabeças-ocas que os acontecimentos desencadeados a partir daí é uma mera divergência de opiniões. As questões abordadas são muito mais profundas e verossímeis do que qualquer fã de filmes de super-heróis está acostumado, o que dá ao drama um conflito e o porquê que serão muito bem explorados durantes as quase três horas de filme. Para acrescer, vários embates psicológicos também são travados no filme: a culpa de Tony Stark por ter criado Ultron, e consequentemente todo o estrago que veio com ele; a morte da agente Carter, levando Rogers a um abismo existencial ainda mais fundo; a escolha entre família e dever, por parte do gavião Arqueiro (Jeremy Renner); o dever moral e o espírito de vingança, por parte do Pantera Negra (Chadwick Boseman); sem contar a descobertas e incertezas de Visão (Paul Bettany) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), entre outros.

E, por falar em bomba, é justamente um atentado com explosivos, supostamente perpetrado por Bucky Barnes (Sebastian Sten), o Soldado Invernal, que conduz o grupo de heróis a uma divisão que também se faz pelo meramente pessoal. E é aí que Capitão América: Guerra Civil se mostra superior em seus temas e argumentos ao Batman vs. Superman, de Zack Snyder. As motivações que conduzem às amizades cada vez mais fortes, bem como a rupturas desastrosa de outras afeições são muito mais creditáveis e possíveis, além de condizer em muito com a realidade que todo o Mundo viveu durante boa parte do Século XX e ainda vive. Os motivos políticos e as ideologias por detrás de tudo isso não se fazem menos verdadeiros. Ponto para a habilidade dos irmãos Russo em emendar tantas considerações políticas e morais sem nenhum tipo de moralismo, o que explica a dor com que muitos deles se tornam “bandidos”, aos olhos de muitos. E já que a amizade parece ser um tema central em toda a história de Capitão América: Guerra Civil, algumas delas resistem a tudo, como a do Homem de Ferro e o Coronel Rhodes, o Máquina de Combate; a de Rogers e Martim, o Falcão Negro; Visão e Feiticeira Escarlate oscilam em muito; Viúva Negra (Scarllet Johansson) e Gavião Arqueiro só enquanto suas capacidades de serem cínicos lhes são necessárias.     
Rogers, imbuído de um forte espírito conservador (não pode esperar algo diferente de um soldado) não aguarda que a realidade se adeque às tentativas de transformá-la, nem muito menos que esta se lhe venha de forma débil e furtiva; ele a busca de forma sagaz e, por isso mesmo, muitas vezes violenta, mas sem perder a razão e nem fazendo dela seu único trunfo. A dicotomia soldado/político se completa com a posição favorável de Tony Stark ao Tratado de Sokóvia, relegando ao estado a tarefa de controle de absolutamente tudo, inclusive a ação de Os Vingadores; o Homem de Ferro, sem nenhum medo de viver e fazer o que tem e precisa fazer, pelo que o conhecemos, parece ser a última pessoa da terra a se iludir com as promessas utópicas de uma política de controle, todavia, como podemos ver nas cenas em que ele visita seus “companheiros” na cela de uma prisão de segurança máxima, Stark tenta até mesmo busca inventar razões para essa crença infundada, num exemplo muito simples, embora bem construído, de como a sedução dos regimes totalitários tem efeito tanto sobre céticos quanto crentes. E, acima das amizades, está a verdade, que nada tem de relativista, pelo contrário, toda vez que ela é aludida as coisas só se encaminham às mais desastrosas consequências.

A grande alegoria que Capitão América: Guerra Civil personifica é a imaginação moral, a única coisa que, de fato, permite-nos distinguir a respeito da pessoa humana, sua ordem, sua alma, seu papel social e sua capacidade em diferenciar o que realmente é bom ou mau, belo e feio, ofertando-nos uma visão geral da natureza humana e das leis que a regem. Somente essa imaginação moral pode nos dar a real ideia do cruel controle dos Estados totalitários em nossas vidas; por isso mesmo é tão combatida pela “educação” que tais Estados totalitários nos “oferecem”. O amor de nossos “educadores” por Paulo Freire, e sua pedagogia de opressão, é um exemplo irrefutável de tudo isso. Tudo que Capitão América: Guerra Civil que nos mostrar é que devemos lutar ao máximo para que nossas liberdades pessoais, ou seja, nossa inteireza, nossa autonomia e nossa nobreza e que elas não sejam reduzidas, quando não destruídas. As liberdades pessoais são a única coisa e meio para fugirmos ao domínio de um Estado totalitário. Steve Rogers é em tudo imbuído desse espírito, Stark ainda está longe disso, mas se matem em boa parte de toda essa saga no caminho certo. E porque isso acontece? Porque inteireza, autonomia e nobreza são conquistas caras, cujo preço é o sofrimento de uma disciplina interior muito rígida em comum acordo com uma consciência reta e perspicaz, o que, para um soldado como Capitão América, é uma questão de fazer o que se tem que fazer pelos motivos certos, e fazê-lo já e em toda a sua inteireza. Rogers não tem tempo para fazer de conta que a realidade pode ser controlada, que o mal é uma questão de mero ponto de vista, e não uma coisa concreta e presente; por isso mesmo, não se dá ao luxo de fazer as coisas certas pelos motivos errados. Tudo isso ainda falta em Tony Stark e, para piorar, ao se deixar abater por uma culpa que não lhe é imputada de fato, decide observar o desalinho mundano como um mero observador, transferindo ao Estado essa responsabilidade que não é de ninguém senão sua. Para sorte de todos, o Homem de Ferro não permanece o tempo todo um candidato a eleitor do PT, e quando ele deixa com que a voz de sua liberdade interior lhe grite aos ouvidos, tudo parece se resolver como deve ser resolvido, todavia, quando as coisas se encaminham para uma razão ainda mais profundamente pessoal, aí... aí é outra história.

Poucos filmes do gênero deixaram seus fãs e detratores em um estado de paranoia tão grande quanto Capitão América: Guerra Civil. As cenas de luta são tão bem coreografadas quanto verossímeis, com exceção do que diz respeito a certas habilidades especiais de alguns indivíduos; o ritmo do filme é devidamente acelerado e desacelerado para mesclar momentos de tensão com outros da mais pura ação; tanto as histórias de cada participante, como o decorrer de todos os acontecimentos que os envolvem, são muito bem alinhavadas durante todo o filme. Além disso, os apaixonados pelo universo Marvel podem conferir em primeira mão o que lhes aguarda com os filmes solos de mais dois de seus heróis que tiveram participação tão fantástica quanto decisiva em todo o filme: o Homem Aranha (Tom Holland) e o fantástico Pantera Negra, mas ninguém rouba mais a cena, em meu humilde ponto de vista, do que o Homem-Formiga (Paul Rudd) que se mostrará um herói bem maior do que aparenta... e isso não é uma metáfora.

Para terminar, uma nota de utilidade pública: filme tem duas cenas pós-créditos, por isso, se vocês ainda não assistiram ao Capitão América: Guerra Civil, não saiam do cinema mesmo que o pessoal da limpeza lhes ameasse com vassouras. Façam valer as suas liberdades pessoais e, assim como Steve Rogers, tenham coragem para se exprimirem com pessoas que ainda tem seus pés numa realidade concreta... O resto é conversa mole pra comunista dormir. A propósito, quando me perguntarem por que eu não gosto do PT e seus semelhantes, vou mandar-lhes assistir ao Capitão América, para me poupar de muitas explicações e esperar que eles vejam o quão frágeis certas ideologias são diante da realidade; tão frágeis que até um “homem comum” pode colocar heróis um contra o outro... Quem viver verá.       





Salvador, Dia das Mães de 2016.