segunda-feira, 16 de março de 2015

BRASIL... 15 DE MARÇO DE 2015!!!

Sem bandeiras partidárias, nem ideológicas, o Brasil disse NÃO a um governo corrupto!!!
EIS...



O grito daqueles que batem panelas, mas não vão para a rua com foices e facões...

O clamor daqueles que querem um Brasil grande e livre, e não uma extensão de Cuba ou da Venezuela... que não querem golpe; querem dignidade...

O protesto daqueles que pagam as suas contas, sustentam esse país, fazem com que os projetos sociais desse governo de canalhas sejam transformados em moeda para compra "legítima" de votos... daqueles que recebem salário pelo trabalho que fazem, e não vivem do auxílio eterno de um governo de cínicos que diz lutar contra a miséria, mas que transforma a miséria em massa de manobra... que não foram às ruas para receber trinta reais, mas para não pagar mais um centavo que financie a corrupção; que não têm vergonha de limpar privadas em Miami ou qualquer lugar que seja (trabalho é trabalho, principalmente se for digno), mas se envergonha de serem governados por uma quadrilha...

A indignação daqueles que sabem o quanto vale uma jornada de trabalho digno e mesmo assim são considerados indignos de protestar contra qualquer coisa que seja, pois são apontados como culpados de todas as desgraças alheias; e que muitas dessas desgraças poderiam ser resolvidas com uma boa administração governamental e espírito de iniciativa...

Não, eles têm direito sim: não porque são "brancos", não porque são "ricos", não porque são "elite", mas por fazerem parte do povo diverso e bonito desse país, que, ao contrário do que pensam muitos, não admitem a roubalheira, a doutrinação ideológica, a violência física e moral que nos assola a cada dia; eles têm direito porque pagam as contas e são vilipendiados por isso; eles têm direito por que conhecem seus deveres e são maltratados por isso; eles têm direito porque respeitam o direito dos outros, mas não admitem que lhes roubem esses direitos...

E, se mesmo assim, há quem acredite que vaiar um governo de ladrões é subir de classe social, então, hoje, eu entrei para a realeza...

Hoje, eu, Silvério Duque, professor, poeta, pai de família, trabalhador, brasileiro fui pra rua, pois quem gosta de bandido é quem vota no PT...!!!


sexta-feira, 13 de março de 2015

COLEÇÃO "HORIZONTES"... EDITORA MONDRONGO...

Todas as capas são de autoria de Gabriel Ferreira...







Quando meu amigo e poeta, Gustavo Felicíssimo, falou-me da ideia de fundar uma editora, juro a todos vocês – e só agora estou confessando isso, inclusive ao Gustavo – que isso não me soara muito agradável.



Não que eu desconfiasse de sua capacidade e ímpeto (não, isso ele tem de sobra), mas porque eu sei que, em se tratando de um país como o nosso, trabalhar com livros, e ainda por cima com poesia, constitui-se de uma verdadeira arte de colher decepções.



Mas, agora, agradeço, todos os dias, a Deus pelo facto de o Gustavo não ter mudado de ideia, e, hoje, com todas as dificuldades que este empreendimento envolve, a Editora Mondrongo tem se mostrado na vanguarda de muitas editoras, dedicando-se não só à publicação, mas à verdadeira divulgação e à apresentação da mais nova e melhor poesia feita hoje na Bahia, e, podem aguardar, em todo o Brasil.



Um bom exemplo disso está na ousadia de se criar toda uma série de livros com poetas, em sua maioria, inéditos, mas de inegável capacidade versânica. Vejam, por exemplo, a erudição e elegância dos versos de Henrique Wagner, em seu “A história decalcada”; a força melódica e o apuro técnico de Wladimir Saldanha, em “Cacau inventado” ou com João Filho, em “A dimensão necessária” – aliás, necessário mesmo, para mim, são versos como os de meu amigo João Filho –; a diversidade de formas e temas carregados de ousadia de Patrice de Moraes, em “Minha Bahia”, ou a profundeza psicológica de Nívia Maria Vasconcellos, em “A morte da amada...” E tem mais: a destreza poética de Heitor Brasileiro Filho, o autobiografismo poético de Herculano Neto e toda a experiência técnica e emotiva nos sonetos de Adelmo Oliveira, além dos livros que ainda não li, mas os lerei em breve, como “Saveiros de Papel”, de Ribeiro Pedreira e “Inúmera”, de Daniela Galdino... Sem me esquecer, é claro, do próprio Gustavo Felicíssimo, em versos onde tudo é demasiadamente sincero, como os presentes em “Desordem”...



Como se tudo isso já não fosse suficiente, há aquela carta na manga que definirá o jogo a favor de meu amigo: todas as capas têm desenhos exclusivos de Gabriel Ferreira e sua arte sincera, madura e excepcional... Se se for possível, realmente, julgar um, ou mais livros, por suas capas, os desenhos de Gabriel fazem justiça a toda qualidade impressa em cada uma das páginas da “Coleção Horizonte”...



Viva ao poeta e empreendedor Gustavo Felicíssimo! Viva à poesia que precisa fazer-se viva, e é através de homens como o Gustavo Felicíssimo e de poetas, como os citados acima, que saberemos sempre que tudo que é bom pode até se encontrar escasso, mas nunca findo... E um viva aos poetas e artistas que fazem da “Coleção Horizontes” aquilo que de mais surpreendente há em termos de edição de poesia em nosso Brasil... E quem quiser que faça melhor ou prove-me do contrário.




O desafio está lançado... 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PORRA, FHC...

"Ninguém pode ser verdadeiramente sincero com os outros sem que o seja sincero, primeiramente, consigo mesmo. A mesma coisa se aplica à mentira: nem Dilma acredita na merda que ela mesma falou com tanto afinco... Sua fala foi mais que um ato idiota de alguém que, por não ter o que falar, só disse besteiras".




 

Dilma Rousseff, a exemplo da maioria dos que votaram nela, “sumiu, desapareceu, escafedeu-se”... Será que ela estava “a dois passos do Paraíso”? Duvido muito. Ao reaparecer, tentou explicar os motivos de seu indiscreto emagrecimento, disse ter “fechado a boca”, feito dieta, aderiu à vida saudável e aos bons modos alimentares. Tudo conversa fiada...



Dilma desapareceu porque é uma figura execrável; a personificação de tudo que de pior seu governo e seu partido representam: dada como mentirosa, mostra-se incapaz de assumir seus erros e procurar uma maneira realmente válida para corrigi-los; seria, talvez, o único gesto verdadeiramente honroso de sua miserável vida política. Visivelmente desesperada, procura atirar para todos os lados em que exista um opositor, para acusá-lo dos crimes que ela mesma, e seu partido, supostamente veem cometendo durante anos da maneira mais descarada possível. Mesmo afogada em denúncias de corrupção, que proveem da conduta imoral de seus companheiros de partido e governo, o único esforço, de fato, de sua parte é o de encobrir e proteger todo tipo de criminoso – inclusive traficantes presos na Indonésia – nem que, para isso, crises diplomáticas sejam criadas aos montes. Prestativamente ridícula, ela é, hoje, sem sombra de dúvidas, o maior motivo de piadas nos programas de humor e, principalmente, na Internet... depois dela, só mesmo os seus eleitores.



Mas, não se enganem, Dilma Rousseff não é um motivo de piada porque é engraçadinha, uma coisinha fofa, no fundo, bem lá no fundo, um amor de pessoa. Dilma é risível porque, simplesmente, esforça-se para ser, ou pelo menos parecer, indigna de todo escárnio que ela mesma tem criado para si mesma. Quanto mais se esforça para parecer séria, mais espalhafatosa se nos mostra. Quanto mais ela luta para passar uma imagem de sapiência, mais incoerente e insensata se nos apresenta. Quanto mais nos obriga a ouvi-la, mais e mais facilmente a reconhecemos como débil, frívola, fútil, arrebicada, brutesca, anedótica e carnavalesca
... Aliás, uma imagem típica a todo ditadorzinho advindo de uma república de bananas.



Em sua última aparição – e uso a palavra “aparição”, aqui, no sentido mais fantasmagórico do termo –, fez, por merecer, todas as “cantigas de maldizer” que lhe foram imputadas. E mais ainda, mostrou-se digna de toda a carga de “memes” que os internautas estão fazendo para torná-la, sem nenhum esforço, ainda mais parva, espampanante e picaresca.



Ortega y Gasset dizia, em seu “O Livro das Missões”, que “podemos pretender ser o quanto queiramos; mas não é licito fingir ser o que não somos”; só que, às vezes, fico a me perguntar se Dilma esforça-se para fingir ser quem não é, ou se se empenha em ser o que ela, realmente, nunca deixou de ser.  Um bom exemplo disso foi dito e feito pela própria Dilma, ao declarar que todas as denúncias e acusações que envolvem o seu governo, seu partido e seus asseclas são culpa de uma má investigação do Governo FHC. Fazendo isso, nossa Presidente conseguiu tudo que ela não queria: ser motivo de zombaria de quase todos, pois seus defensores (acreditem... eles ainda existem), permanecem caladinhos. Ora, Dilma... Se a Senhora e seus antecessores sabiam que havia corrupção na Petrobras antes da era PT e que não fora investigado, investigassem vocês, prendessem os acusados e fizessem da Petrobras um exemplo contra todo e qualquer corrupto que quisesse “mamar nas tetas do Governo”... foi isso que a Senhora e a PTralhada fez...? Seu discurso, Dilminha, além de paradoxal, é, a você mesma, acusatório. 



A velha fórmula de atribuir, aos seus desafetos, as cagadas que ela, e seus “companheiros” de partido, fazem a torto e a direito já não funciona mais. Ninguém pode ser verdadeiramente sincero com os outros sem que o seja sincero, primeiramente, consigo mesmo. A mesma coisa se aplica à mentira: nem Dilma acredita na merda que ela mesma falou com tanto afinco... Sua fala foi mais que um ato idiota de alguém que, por não ter o que falar, só disse besteiras. As palavras de acusação ao Governo do PSDB saíram de sua boca como um exemplo vivo de desespero, mas não qualquer desespero: o desespero de um sínico, de alguém que desdenha, por pura insensatez, de uma situação que ele mesmo causou.



Se Dilma Rousseff fechou a boca, por dieta ou não, deveria ter ficado com ela fechada mais um pouco; se emagreceu, foi de ruim... e se pareceu a todos uma completa imbecil, bem... talvez isso também seja culpa do FHC.            

    

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DICA DE LEITURA... "PENSADORES DA NOVA ESQUERDA" DE ROGER SCRUTON...

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Vocês já se perguntaram o porquê de a PTralhada se incomodar tanto com o Bolsonaro, mas não ver nenhum problema na Graça Foster? De sair às ruas por apenas R$ 0,20... mas se calar por causa dos milhões que o PT roubou de nossas estatais, principalmente a Petrobrás? Das menininhas do partido saírem de peitola de fora para defender o aborto, mas se mostrarem horrorizadas e carolas se você dá uma palmadinha para educar seu filho...? 

Já se perguntaram o porquê de os PTistas chamarem a classe empresarial do Brasil de sonegadora, mas aceitar o mascaramento fiscal da Dilminha? Do porquê de eles defenderem tanto os traficantes de drogas, mesmos os que forem presos e condenados na Indonésia, mas se mostrarem incapazes de se sensibilizar com a morte sistemática de policias pelo narcotráfico, ou de pouco se importarem com a morte do Celso Daniel, chamando-a de “crime comum”? 

Já se perguntaram o porquê de o PTista não achar nada demais no desenvolvimento humano, econômico e cultural da Coreia do Sul, mas exaltar as “virtudes” da Coreia do Norte, um dos regimes mais fechados e cruéis de toda a história, ou de sempre se referirem a ação dos militares em 64 como golpe e ditadura, mas os crimes cometidos em cuba desde 1959 são chamados de “Revolução” e até de “democracia”? 

Já se perguntaram o porquê os PTistas não se importarem em mentir, mascará, vilipendiar, odiar, perseguir mesmo seus amigos em nome de algo que eles chamam de “ideologia”? 

Já se perguntaram o porquê de tantos gritos contra os crimes alheios e do enorme silêncio para os crimes do PT...?



***
Se vocês, meus amigos, já se perguntaram a respeito de tudo isso, mas querem se aprofundar ainda mais a respeito dos “porquês” desse comportamento tão contraditoriamente doentio, aconselho a vocês a leitura de “Pensadores da Nova Esquerda” (É Realizações, 2014), do filósofo inglês Roger Scruton. O livro é, na verdade, uma coletânea de textos, que Scruton publicou na revista “Salisbury Review” – revista conservadora que ele mesmo editou –, ao longo dos anos 80. Poucos pensadores se empenharam tanto na análise da maneira criminosa de pensar dos indivíduos de esquerda e seus esquemas discursivos e, neste livro, o que Scruton procura fazer, e o faz com a maestria de um pensador de sua estirpe, é a disposição que os esquerdistas e, principalmente, seus pensadores, têm em tolerar toda forma de crime e barbárie em nome de suas convicções ideológicas.


Um bom exemplo disso é quando, ao tomar convicção de que Pol Pot e seu Khmer Vermelho assassinava a população do Camboja de uma formal brutal e sistemática, a maioria esmagadora dos intelectuais de esquerda de todo o mundo ocidental fingia não saber de nada e até ironizava tais notícias, dizendo que eram invenções de uma mídia golpista e vendida ao monstro do capitalismo mundial, como fazem os PTistas quando são perguntados sobre os escândalos envolvendo as denúncias de corrupção da Petrobrás. Noam Chomsky, um desses ironizadores, quando não tendo mais como fugir a realidade que tanto lutara para disfarçar, como bom esquerdista que é, soltou frases de um cinismo digno de um político militante do PT, como essa: “meu julgamento fora acertado, diante das afirmações de que dispunha”. Jean Paul Sartre confessara, já no fim de sua existência, a matança de milhões de pessoas na antiga U.R.S.S., que ele tanto vira e negara, em uma vida dedicada à exaltação de Stalin. À busca de uma alternativa para o capitalismo, permitia-se qualquer coisa, corrupção ativa e deslavada, perseguição à imprensa, assassinato em massa, terrorismo, estados totalitários... Tudo mascarado graças à capacidade intrínseca que um esquerdista tem em menti... a começar para si mesmo.


Alguns pensadores analisados por Scuton são pouco conhecidos aqui no Brasil, tais como Galbraith e R.D. Laing; outros como Jürgen Habermas e Jean Paul Sartre são figuras tarimbadas nos discursos esquerdistas, nas Universidades brasileiras – verdadeiras instituições de adestramento esquerdista – e na maneira de pensar e agir dos políticos do PT e tutti quanti... E quem pensar que uma coletânea de artigos escritos há trinta, em pleno contexto da guerra fria, está fora de atualidade e praticidade... engana-se. Basta olhar tanto para o nosso Brasil, bem como para toda a América Latina, e facilmente se perceberá que, embora com técnicas mais elaboradas e eficientes, a maneira de pensar e os objetivos da Esquerda são os mesmos, assim como seus fins. Quando Scruton nos lembra que psicóticos intelectuais, como Antonio Gramsci, por exemplo, estavam convictos e dispostos a fazer do homem de esquerda um senhor de seu mundo e dos outros, pois, segundo o próprio Gramsci, o intelectual de esquerda teria o direito de “legislar sobre o homem comum”, entendemos quais os verdadeiros objetivos do PT e seus militantes, em tentar, desesperadamente, controlar a mídia e os meios de comunicação – como já o fizeram na grande maioria de nossas instituições de ensino há mais de 30 anos –, bem como minar, o quanto puderem, a constituição brasileira, tomando, como exemplo, as anomalias sócio-políticas implantadas na Venezuela, Bolívia e Argentina.


Presentes e devotados em nossas universidades, como santos entre as mais convictas das carolas, nomes como Lukács e Foucault versam entre nossos estudantes de ciências humanas como arautos do pensamento vitimista, ao tempo que são propagadores incorruptíveis do ódio e do mascaramento da realidade, onde o sucesso humano é julgado pelo fracasso de alguns, e o desprezo pelas instituições democráticas só não é maior do que seu amor visceral à violência e à intolerância e o desejo de tornar tais coisas verdadeiras virtudes, mas que competem somente aos homens de Esquerda. Scruton também nos lembra que, contra a democracia, a liberdade e outros valores “burgueses” não bastava apenas esbravejar, mas mentir, roubar, perseguir e, por fim, empilhar montanhas de cadáveres e depois lhes devolver apenas silêncio...



Leiam esse livro: 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

DA CRÍTICA EM "ESQUECIDOS & SUPERESTIMADOS" DE RODRIGO GURGEL...

Quem se volta contra a tradição acaba de um modo ou de outro se contaminando com o que dela há de pior, com a sua caricatura. E nesse complexo de Adão, os abusos formalistas, mais a crescente desfiguração da linguagem, com a posterior bênção acadêmica e sua formulação em decretos educacionais, criaram o isolamento do escritor que primeiro se ressentia de sua marginalização e depois a tornou numa ética - com licença da rima - de sua estética. Contra uma prosa que se pretende literatura porque se afasta do chão comum de cada dia é que se insurge, em continuação ao Muita retórica - Pouca literatura, Rodrigo Gurgel, que denunciou a cumplicidade da própria crítica literária nesse vício. Rodrigo Gurgel, diga-se, não escreveu esta obra com o intuito ranzinza de resgatar autores desconhecidos contra os escritores que se tornaram celebridades, o que seria outra forma de manifestar a sanha de originalidade dos modernistas, sob disfarce de arqueologia crítica. Está se falando, sim - pautado em princípios pedagógicos e de independência crítica, sem as comodidades ideológicas -, de ter curiosidade por saber o que foi produzido, de querer saber o que realmente diz o texto. - Jessé de Almeida Primo (Trechos do Prefácio, 'Literatura e verdade')

ESQUECIDOS E SUPERESTIMADOS










Da arte de admirar

ou a dignidade da crítica em Esquecidos & Superestimados de Rodrigo Gurgel

(por Silvério Duque)

ao professor e amigo Bel Pires,
esta sugestão de leituras.

...sente-se bem que cada um
traz a sua alma.
MANUEL BANDEIRA





Férias... Finalmente as férias... Professores gostam muito mais de férias do que qualquer aluno; e usam-nas das melhores e diversas formas possíveis – que não me cabe aqui discutir. Eu, particularmente, gosto de usá-las, entre tantas outras coisas, para pôr em dias as leituras pendentes; não àquelas, técnicas e obrigatórias de nossa profissão, mas as prazerosas, dedicadas, simplesmente, ao nosso bem estar mental e intelectivo. Na dianteira destas minhas leituras, encontrara-se o livro Esquecidos & Superestimados (Vide Editorial, 2014), do amigo e crítico literário Rodrigo Gurgel, o qual sorvo, alegre e compulsivamente.


Permitam-me, no entanto, caros amigos, antes de começarmos nossa conversa, uma – digamos – “simbólica” confissão: não gosto e, praticamente, não leio crítica literária. As exceções são as mínimas possíveis, e, como haveria de ser, é resultado de uma triagem que vem se reduzindo e se exigindo cada vez mais ao longo de anos. Não quero – por favor, não me entendam mal – que pensem em mim como um desses artistas repletos de vaidade extrema e orgulho vazio, incapazes de suportar quaisquer análises negativas ao seu trabalho, por mais didáticas e verdadeiras que lhes possam parecer. Poderia dizer que a culpa é de Rilke e seus conselhos a todo e qualquer jovem poeta, mas, além de mentiroso, estaria a dar a esta situação uma força e um colorido poético que não lhe caberiam, por várias razões...


A verdade é que boa parte da crítica literária que li, principalmente a brasileira, sempre me pareceu uma conversa de clubinho, onde afetação e ataques de mau humor somavam-se, na grande maioria das vezes, a uma completa má vontade de pensar, conhecer e sentir a respeito do que se estava, supostamente, analisando. Foi justamente com a crítica da crítica – assim é como eu gosto de me referir – que esta minha visão começou a mudar. Foi em épocas da famosa polêmica entre Bruno Tolentino e a rodinha de ciranda dos Irmãos Campos, onde as cortinas do teatro de fantoches da crítica brasileira começaram a cair escandalosamente – graças, em grande parte, pela atitude quase solitária do autor de O mundo como ideia e A imitação do amanhecer – que tudo aquilo que eu pensava a respeito de nossos críticos, bem como tudo aquilo que eu esperava deles, começava a desabotoar-se à luz de uma polêmica. Mais tarde, conheci a obra do professor Olavo de Carvalho, que elevou tal crítica não só ao campo de nossa filosofia, mas a toda nossa cultura: tanto Tolentino quanto Olavo me fizeram ver que o nosso problema não era “o da miséria que tínhamos ou criamos” – como era o fato de me fazerem acreditar que, no Brasil, não havia filósofos e, se os havia, eram chamados, assim, indivíduos do nível intelectual do senhor Leandro Konder ou a senhorita Márcia Tiburi, ou que Mário de Andrade, bem como Paulo Leminski, podiam ser chamados poetas –, mas da “riqueza que perdíamos ou desprezávamos”, como bem, certa vez, afirmou Arnaldo Jabor a respeito de João Cabral de Melo Neto.


Foi daí, também, que, através deles, e de meu amigo Jessé de Almeida Primo (que, aliás, prefacia o livro), que comecei a conhecer o que de melhor a crítica literária podia me dar, através de nomes como Carpeaux, Merquior, César Leal (o crítico e depois o poeta), Manuel Bandeira (não só o poeta, mas o crítico), os amigos e mestres Ildásio Tavares e Henrique Wagner; últimos herdeiros de um tempo onde crítica literária era formada por pessoas realmente compromissadas com a literatura e suas muitas maneiras de falar de uma única verdade, e não essa que está aí: entregue ao academicismo corporativista de professores medíocres que, imbuídos principalmente de um discurso esquerdista, não almejam menos que criar diferentes maneiras de não se fazer ou dizer algo realmente interessante.


A crítica literária, principalmente aquela que fui obrigado a ler na Universidade, e que serve de base para os livros didáticos que chegam às mãos de milhões de vítimas de uma educação miserável que impera em nosso país é, em sua maioria, uma variação de jargões técnicos institucionalizados, e para que uma seleção criteriosa seja substituída pelo simples papo furado ou, quando não, pelos tapinhas nas costas de algum amiguinho que, utilizando-se da máquina institucional, garantirá seu futuro salarial em uma de nossas Universidades. O resultado disso tudo não poderia ser pior àquele que se vê por aí, nos livros didáticos, nas críticas de jornal, nos ensaios especializados e tutti quanti, a fazerem de nossa literatura uma coleção grotesca de arquétipos reducionistas que mais atrapalham do que ajudam na compreensão do trabalho de um autor.


Não obstante, é justamente nadando contra essa maré de estereótipos e amarras ideológicas, que o trabalho de Rodrigo Gurgel, em Esquecidos & Superestimados, faz-se notório; quando ele nos lembra, por exemplo, que para lermos Euclides da Cunha, e seu Os Sertões­ – mas, se fosse pensar de igual maneira, em termos de poesia, bem se podia aplicar tal fórmula a um Augusto dos Anjos e seu Eu, por exemplo –, devemos esquecer coisas tão caras à maioria de nossos críticos, professores e demais artífices de teses de doutorado, como a linguagem científica e o conteúdo extremamente analítico, e nos ater ao valor estilístico, à força narrativa e à prevalência da fantasia em detrimento ao realismo determinista que parece predominar em toda a extensão de Os Sertões, mas que, por sua vez, servir-nos-á apenas à acentuação do poder ficcional de uma das obras fundamentais de nossa cultura... É quando, por exemplo, em Esquecidos & Superestimados, Rodrigo Gurgel nos admoesta:

“Um dos trechos mais belos e instigantes de OsSertões é ‘Higrômetros singulares’, no qual Euclides nos apresenta a ‘secura da atmosfera’, na região de Canudos, por meio de uma cena perturbadora. O leitor acaba de enfrentar as páginas inicias de ‘A Terra’, primeira parte do livro, e encontra-se dividido entre abandonar o volume ou seguir em frente. É a reação natural de quem, não sendo geólogo, pergunta-se o que significam, por exemplo, ‘assomadas gnáissicas caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares’”.

e reitera:
“Ele percebe, graças a seu instinto panglossiano e à euforia, a relativa beleza de dizer que: ‘pelas abas dos cerros, que tumultuam em roda – restos de velhíssimas chapadas corroídas – se derramam ora em alinhamentos relembrando velhos caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajes fraturadas, delatando idênticas violências’. Mas questiona-se se poderá suportar a descrição de ‘cristais de feldspato’, ‘estratos de talcoxisto’, ‘formações silurianas’, ‘cachopos de quartizito’ e quejandos. Nesse momento quando suas vísceras começam a gemer, salva-o da escuridão o narrador, abraçado à tarefa de explicar as características climáticas, mudando subitamente a inflexão da voz para tornar-se íntimo, lírico: ‘percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de uma canhoneiro frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeirosvirentes viçando em tufos intermeados de palmatorias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado de uma arvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina’”.  

retoma:

“Nesse cenário idílico, no qual ‘icozeirosvirentes viçando em tufos intermeados de palmatorias de flores rutilantes’ explodem não só graças ao brilho que ofusca, mas a aliteração da frase, um soldado ‘descansava... havia três meses’. A antinomia dos elementos seduz. Passadas dezenas de páginas em que o linguajar técnico enfastiava, no centro do jardim luxuriante surge o morto: ‘Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido’”.

e, finalmente, arremata:

“A cena, trágica, tem uma beleza que atordoa. Ali está o defunto, protegido pela longa sombra do sol poente, ‘braços largamente abertos, face volvida par os céus’. Euclides acrescenta um comentário enternecedor: ‘o destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante [...]’. E prolonga nossa pena por meio de uma sugestiva amplificação: ‘[...] e deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...’. As linhas finais servem não só à comprovação científica da ‘secura extrema dos ares’, mas acrescenta caráter filosófico ao texto. O narrador contrapõe uma nota de enlevo à sua constatação, lacônica e aguda, colocada em três travessões, sobre o fim da matéria, como se a degradação invulgar daquele corpo pudesse fugir à lei universal...”


É importantíssimo deixar bem claro que o trabalho que Gurgel desenvolve em seu livro não é o de ressuscitar velhos e obscuros autores pelo simples fato de estarem mortos e obscurecidos, até porque há autores que merecem estar mortos ou longe do clube dos cânones, incluindo autores que, infelizmente, não comungam de tal situação, mas, como bem acentuou Jessé de Almeida Primo no prefácio de Esquecidos & Superestimados, o critério de Gurgel é chamar nossa atenção à relevância que muitas obras ditas obscuras têm para conosco e com a literatura brasileira, e não o seu grau maior ou menor de obscuridade. Além do mais, ao escolher autores do início do século, Rodrigo Gurgel nos convoca a um ponto de vista bastante delicado, pois estes autores se encontram no limiar da cultura brasileira; entre seu auge e o início de sua decadência.


Se Rodrigo Gurgel atém-se à análise de nomes completamente desconhecidos da maioria dos leitores brasileiros (incluindo os professores universitários), e malogrados pela crítica literária de nosso Brasil varonil, como Lindolfo Rocha, Carlos Laet e mesmo Simões Lopes Neto, devemos nos atentar para o fato de ele também trabalhar com nomes notórios de nossas letras: Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Lima Barreto, Coelho Neto e Monteiro Lobato... vítimas de uma crítica incapaz, desmesurada e excessivamente laudatória que mais distancia do que aproxima os leitores e alunos de literatura da real essência de seus trabalhos, impedindo muitos leitores de ouvir aquilo que o texto tem a dizer, pois como o próprio Gurgel nos diz em determinado momento de seu livro, é preciso deixar que o texto fale, assim, divido muitíssimo que, depois de se aventurarem pelos 18 capítulos desse livro, pelas 18 obras nele analisadas, nenhum leitor de Esquecidos & Superestimados que, conferindo não só dignidade ao que analisa, mas como analisa, não se sinta arrebatado suficientemente por uma crítica séria e apaixonada  aponto de logo querer mergulhar de novo nas páginas de um Negrinha, de nosso mestre Lobato, ou nas quase desconhecidas paragens de Maria Dusá, de Lindolfo Rocha.


O que quero deixar bem claro, aqui, caros amigos, é que o autor de Esquecidos & Superestimados nos dá uma singela, amostra do papel de uma crítica literária realmente verdadeira. Singela, porém, precisa, pois, se é crítica, deve-se prezar pela independência, menosprezar as ideologias e a preguiça intelectual, e, acima de tudo, querer saber tudo aquilo de que realmente fala o texto. Rodrigo Gurgel, por fim, chama-nos a atenção para trechos como esses, encontrados na monumental obra euclidiana, nos quais, segundo ele, a fantasia estraçalha as amarras do ensaio histórico e da linguagem cientificista, justificando a leitura de Os Sertões:

“E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservado em traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra daquela arvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível”.

ou da força inigualável de uma continuidade persuasiva, repleta de força poética, onde horror e beleza arrebatam o leitor de Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, como nessa descrição de uma grande cobra de fogo – da Boitatá – seu nascimento e fome:

“uma luzerna, um clarão sem chamas,... um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos...”


mas nos fala, também,da capacidade que a injustiçada, e, por assim dizer, quase esquecida, Júlia Lopes de Almeida tem em criar personagens com profundezas psicológicas memoráveis, onde gestos diálogos e ambiente mesclam-se como um só corpo essencial à vida da narrativa, sem deixar de perceber a fraqueza do discurso panfletário de sua autora, atrelado à repetição enfadonha de certos detalhes descritivos, lugares-comuns de sua época e muito presentes em A Falência; de como Lima Barreto, na prática, muitas vezes abandona sua “literatura militante” para se entregar à tragédia tanto literária quanto pessoal, num “sentimento de derrota” indelével em toda a sua obra; a lucidez e grandeza de Monteiro Lobato; da contemporaneidade presente em A todo transe, de Emmanuel Guimarães... Em tudo isso Rodrigo Gurgel nos presenteia com duas coisas bastante importantes: o poder de uma análise contundente, pois toda crítica que se prese é análise (onde a relevância das obras deve vir antes de quaisquer arroubos pessoais ou ideológicos, doa em quem doer... a começar pelo próprio crítico) e a total falta de pudor que, em hora certa, não se contem em elogiar, admirar, enaltecer e enlevar-se. E por quê? Porque a crítica literária deve ser digna; digna da obra que analisa e, consequentemente, digna de si mesma. Além do mais, é dever tanto do artista quanto do crítico um compromisso com a verdade; um bom exemplo disso está no capítulo 15 de Esquecidos & Superestimados, onde Rodrigo Gurgel analisa ninguém menos que o “corrosivo e sempre contemporâneo” Monteiro Lobato. Ao comentar uma de muitas besteiras ditas por Alfredo Bosi sobre o autor de Negrinha e Urupês, Gurgel é catedrático:

“Para a maioria de seus detratores, o artigo Paranoia ou mistificação? – a proposito da exposição de Anita Malfatti –, estigmatizou o escritor, transformando-o em um inimigo de tudo o que significa avanço na arte brasileira. Lido com atenção, o texto apresenta inclusive elogios à obra de Anita Malfatti, porém, aos criadores do senso comum não importa a verdade – interessa, sim, preservar certa posição a qualquer custo. Passam a valer, dessa forma, as versões que, reafirmando a voz geral, garantem aos incansáveis repetidores a aprovação do partido, a chancela dos iguais. O gregarismo cobra, sem dúvida, alto preço da inteligência”.


Acredito,caros amigos,que a critica é, de certa forma, uma espécie de arte de admirar; é pelo menos assim como a vejo ao ler os trabalhos de um Benjamim ou de um Northrop Frye, por exemplo... Se o crítico se refreia em admirar, em dizer o quanto está encantado por aquela obra ou mesmo aquele mero excerto, é como um enólogo que não gosta de vinho, um comerciante que não acredita em seu produto ou uma bela mulher que ignora sua própria beleza.Gurgel sabe que a busca do verdadeiro sentido de se escrever é a busca de quem realmente somos; não podemos fazer isso sem, antes, entregarmo-nos à paixão pelo que fazemos, buscamos e queremos – e eis-me aqui, utilizando-me, como Bilac, de palavras em tríades encadeadas, em maneira maçante e acumulativa.

Sendo assim, qual é o papel de uma crítica literária realmente verdadeira? O papel de uma crítica literária realmente verdadeira é o de ser uma fresta de luz sobre a obscuridade de um texto que nos exige mais do que somos capazes de a ele devolver, sem que percamos, todavia, a beleza e o fulgor de mistério que tal obscuridade nos oferta. A crítica literária que se faz em boa parte no Brasil é justamente o contrário disso: é uma crítica que, vendo o leitor perdido na obscuridade, não hesita em jogar sobre ele uma camada extra de breu e burrice – quando não, toneladas inteiras –, excedendo para falar de pouco ou se restringindo ao mínimo por não poder ou não ter que falar do muito. Mas, graças a Deus, temos mestres como o Rodrigo Gurgel a escrever obras como Esquecidos & Superestimados... Amém!






Candeias, 13 de dezembro (dia de Santa Luzia) de 2014.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

UM POEMA DE NATAL...

A Adoração de Caravaggio (1609), Óleo sobre madeira, 314 X 211 cm, Museu Regional de Messina.


UM POEMA DE NATAL

(por Silvério Duque)






[à maneira de Jorge de Lima]



      Do alto 
      me vi:
meu coração é o mesmo sobre as pedras
ou no ventre faminto dos insetos
e tudo que ontem brilhou
será chama novamente
a noite então desaba por sobre os portos
e outras sombras cairão em meio aos olhos
que continuam abertos para a morte
e outros corpos em vão virão à praia
a procura de um mar para engoli-los
sonhando acordado vi o céu translúcido
oboés distantes
amantes perdidos
igrejas desertas
meus pés sobre a terra
minhas mãos por entre os céus
em minhas asas todos os infernos
já não sei o que existe no Universo nem por detrás das coisas obscuras dos eclipses das noites dos dias das coisas mudas das coisas sem nomes sem início sem retornos ou mar ou horizontes sol estrelas vidas desejos vãos razões necessidades loucuras diademas conspirações do amor e dos espinhos
sou todo asas
sou todo leis
sou cetro
escudo
verbo
a carne destes verbo
seu alimento
anjo arremessado e anjo terreno
estátua de sal e de espinhos
chagas
cruzes
inesperado caminho:
canto o que amo
amo tudo que morre
     o abandono
     o acabar-se
e em tudo existe o mesmo sopro
o mesmo brilho
a mesma razão e propósito
               a mesma noite

é este o meu amor e o meu lamento
tudo que fui e sou é só saudade
e a realidade é apenas doce invento
porque de sombras vive a claridade

jamais me transportei em pensamento
para além desta morte que me invade
e o que interessa a mim cada momento
se já não me apetece a Eternidade?

mas nunca é mais que idéias os instantes
essa pobre ilusão chamada vida
cheia de sons e lumes incessantes

 – recordas-te de mim, grande Lusbel
para além desta memória dolorida
e da torre maldita de Babel


e
tudo
tudo que o amor cegou agora vê
a já não eram mais nem
corpos nem escombros
barco sem mar
 sem céus
 e
 sem destinos
e há bocas bem abertas esperando
pr'um renascer de sombras e mistérios
assim
me convenci
destas presenças
destas estrelas que as manhãs engolem
porém
minha sede já não é de água
faminto fui das mais diversas fomes
sem retornar aos céus
ou a velhas ilhas
vi o mar devolvendo velhos corpos
e havia apenas pelo espaço inteiro
o mesmo
ar
que há nos ventos e nos vermes
e as coisa a que os anjos se assemelham
ah, sobre os olhos de
  Deus
tudo se acaba
e revive outra vez para o Seu nome...




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A MÁSCARA SEM FACE: A ARTE DO EMBUSTE ATRAVÉS DOS TEMPOS NO LIVRO "DA MENTIRA" DE GABRIEL LIICEANU ou UMA BREVE HISTÓRIA DO DIABO...

A litografia intitulada L'Enfer et les sept péchés capitaux (The Bridgeman Art Library – Inglaterra; de autor Anõnimofoi produzida no século XIX e nos mostra como alguns vestígios do passado podem ser encontrados em um contexto diverso ao de sua origem. As iniciais presentes no topo da litografia indicam cada pecado capital, que emolduram o relógio da eternidade. O diabo, localizado na parte central, ganha destaque nesta representação do inferno.





A máscara sem face:

a arte do embuste através dos tempos
no livro da mentira de gabriel liiceanu

ou UMA BREVE HISTÓRIA DO DIABO


aosprofessores e amigos
José Jerônimo de Moraes e Elói Barreto


O Prince de l’exil, à quil’on a fait tort,
et qui, vaincu, tourjourste redresses plus fort...
CHARLES BAUDELAIRE

O que me interessou nos marxistas e o que aprendi deles são os seus métodos... Todo o nacional-socialismo está contido neles... As sociedades trabalhadoras de ginástica, as células de empresas, os cortejos maciços, as brochuras de propaganda escritas especialmente para serem entendidas pelas massas, todos esses novos meios de luta política foram quase integralmente inventados pelos marxistas. Eu não tive senão de apropriar-me deles e desenvolvê-los, arranjando para mim desse modo o instrumento de que tinha necessidade.
ADOLPH HITLER









D
emônio, Satanás, Mefistófiles, Belzebu, Anticristo, Pazuzu, Baal, Belfegor, Asmodeu; Capeta, Cão, Bode, Capiroto, Cramunhão; Azarape, Coisa-Ruim, Sete-peles, Impostor, Mofento, Máscara-sem-rosto – esse eu roubei do subtítulo do livro de Luther Link–, Aquele-que-nunca-se-viu; Arrenegado, Mentiroso, Chifrudo, Pé-redondo, Pé-cascudo, Pé-de-cabra, Pata-preta, Coxo; Príncipe das Trevas, Anjo Caído, Dragão, Serpente, Besta; Jurupari, Anhangá, Barzabu, Beiçudo, Rabudo, Condenado; Catimbozeiro, Temba, Tisnado – esse eu retirei do Grande Sertão: Veredas – Tendero, Provinco, Sapucaio, Zarapelho, Cabrunco, Estupor, Exu... ou, simplesmente, Diabo. Não importa o nome ou epíteto atribuído, ele sempre será uma figura controversa por natureza e elusivo em suas mais diferentes formas e maneiras de se apresentar e de ser visto. Algo, todavia, é impossível de se desassociar de sua figura: a capacidade intrínseca de enganar e de fazer enganar. A própria Bíblia chama-o de “Pai da mentira” e é nesse contexto que a presença do Diabo, através da história, permanece linear e indissolúvel, embora as maneiras desse embuste primordial se apresentar sejam, também, elusivas e diversificadas. Com o tempo, a própria demonização será uma arma a serviço do próprio Lúcifer; uma arma eficaz e muito mais perigosa do que se imagina... Uma coisa é certa, estamos à sombra do Diabo, como afirmara o Apóstolo do Amor, no quinto capítulo (versículo 19) de sua primeira Epístola: “Sabemos que somos de Deus e que todo o mundo jaz no maligno”. Não estamos somente à sombra do Inimigo, mas de sua influência. E, se isso é fato, então... salve-se quem puder.



I
         As duas primeiras coisas que se podem concluir a respeito do Demônio é o seu papel sempre presente nos principais acontecimentos que os Textos Sagrados descreveram, ao tempo que este mesmo papel vem ganhando maior importância e abrangência. Ele estava presente na queda do homem e teve participação direta nisso – incutindo-lhe o mesmo tipo de pecado que também o fizera cair –; assim como na primeira profecia que o Livro Sagrado nos apresenta, seu papel vai além de um mero adjuvante; sua participação é fundamental para tudo que viria até o fim dos tempos, inclusive sua própria aniquilação.


O Diabo, ao longo da história, também assumiu muitas formas, desde as mais elaboradas aos disfarces mais ridículos, e acumulou mais funções do que pode imaginar a nossa vã teologia. Ele já passou de procurador a tentador, acusador e adversário; Legião ou mero espírito impuro; de Gênesis a Jó, do livro do profeta Zacarias às Cartas do apóstolo Paulo, não lhe faltaram nomes, atribuições, práticas...  Polimorfo e manifesto, o Diabo já foi serpente, dragão, gato preto, lobo, sapo, mulher, bruxa, feiticeiro, maniqueísta, vampiro, modelo de rebeldia para os ultrarromânticos, mostro do cinema, astro do rock, político brasileiro... Em algumas tradições ele sequer era danoso, em outras foi o próprio inverso do Deus altíssimo, antagonista da Divindade; corretor de pecados antes mesmo que se atribuíssem a ele, praticamente, todos os males da terra. Para Santo Agostinho, Deus ter permitido a existência de um Mal absoluto (e o Diabo muitas vezes incorporou esse personagem), era para que, do Mal absoluto, se extraísse o Bem absoluto. Por considerarem a mulher um ser naturalmente propenso à volúpia, muitos foram os religiosos que “diabolizaram” o sexo oposto; o corpo de uma mulher era uma verdadeira porta de entrada para o Inferno, e o Diabo não se poupou de se apossar, inúmeras vezes, delas e de torná-las, aos olhos dos caçadores de demônios, bruxas ou grandes devassas. Porém, mesmo Anjos e Santos viram-se aos trancos e barrancos para fugirem de sua influência terrível, como Teófilo de Adana, que, antes de se converter ao Cristianismo, teria feito um pacto com o Mafarro; Santo Agostinho, que resistiu ao Livro dos Vícios, escrito pelo mesmo São Teófilo, mostrado a ele pelo próprio Chavelhudo; até Lutero falou de seus muitos embates com o Tinhoso.


Na Mesopotâmia, ele tinha asas, patas de leão, rabo de escorpião e um pênis de cobra. Na Grécia e Roma antigas, ele era Hades, meros sátiros, espíritos errantes ou mesmo um Tirano. Da Idade Média ao Renascimento, assumiu formas monstruosas: ele tinha pelugem negra, com dentes afiados e bocas múltiplas para devorar quantos pecadores fossem precisos, como em um quadro de Fra Angélico (pertencente ao Museu de São Marcos, em Florença). Na pintura Inferno: a queda do Maldito, de Hieronymus Bosch, ele tem asas de morcego, pés de pássaro, cara de porco e bigodes felinos. Em um vitral da Catedral de São Pedro de Beauvais, datado do século X, ele já está dotado de todos os ícones destinados a impor medo e asco: chifres enormes, presas grandes e afiadas, olhos esbugalhados dentro de um olhar faminto e cruel, pele vermelha, etc. Já Andrea da Cella, por exemplo, põe semelhante rosto num belo corpo nu e sedutor de mulher a atentar os peregrinos, em um afresco do início do século XVI... Na verdade, os artistas, ao longo de séculos, sempre se empenharam em retratá-lo das formas mais hediondas – vejam, por exemplo, como ele é “visto” pelos pinceis de Giotto de Bordoni, Luca Signorelli, Michel Pacher ou Francisco Goya –, todos, procurando traduzir em seu exterior, a sua imensa e interna fealdade.  


Inspirados pelas ideias de Maniqueu, e se baseando em uma espécie de dualidade universal entre Bem e Mal, mesmo cristãos, a exemplo dos Cátaros, tiveram suas práticas atribuídas ao lá-Ele, e por isso foram terrivelmente reprimidos pela própria igreja romana. Aliás, correntes dualistas, principalmente entre os séculos III ao XIII foram responsáveis por boa parte da elaboração da figura do Demônio como hoje a conhecemos. No século V, o Papa Leão, o Grande, vociferou contra maniqueístas e cátaros, afirmando que, em sua insanidade dualista, encontrava-se a própria fortaleza de Satanás, onde ele reinaria absoluto e triunfaria insolentemente. Relegada à categoria de heresia cristã, o maniqueísmo e supostos seguidores, como os cátaros, constituíram-se no primeiro grande exemplo de perseguição cristã em grande escala, mesmo antes das Cruzadas, da Caça às Bruxas ou aos Hereges. Foi durante esta época que, já coincidindo com a solidificação do Cristianismo como religião mais que estabelecida no Ocidente, o Concílio de Latrão, entre tantas anátemas contra os supostos hereges – isso incluía até, entre tantas “medidas disciplinares”, a condenação do clero grego e a exortação às Cruzadas – instituiu a obrigatoriedade, pelo menos de uma vez no ano, da Confissão aos seus fieis adultos de ambos os sexos. A medida não visava, entre tantos outros objetivos, menos que a vigilância contra o Diabo – pois quando se fala em pecado, a proximidade do Capeta era algo iminente – e sua influência devassa, mesmo entre os grupos ditos cristãos, como foi o caso cátaro, precisava ser vigiada e combatida, tanto no corpo quanto no espírito.


Mas será a partir do século XII que o poder do Demônio parece ganhar um status como nunca havia antes alcançado: é a época da perseguição aos seus seguidores mais fiéis e poderosos, é a caça aos satanistas, aos hereges e às bruxas. A verdade é que, já no início da baixa Idade Média, a Igreja condenava a bruxaria menos em sua prática do que a crença em sua eficácia. O reconhecimento do poder maléfico seria o mesmo que reconhecer a existência de um poder oculto equivalente ao poder do Deus Altíssimo... e à Sua vontade eterna. Eles eram vistos como embusteiros e meros idiotas iludidos pelas artimanhas e superstições de um mal menor; essas sim, as superstições, altamente condenáveis e perseguidas... isso, no entanto, mudará. A partir do século XIII, a Inquisição, nascida do Excomunicamus, de Gregório IX, trilhará um caminho, até hoje, controverso na luta contra o poder e influência do Excomungado. Muitos acreditam que, como acontecerá ao longo de todos os períodos da história, foi um mal usado para combater outro Mal. Não podemos, entretanto, deixar de aceitar o fato de muitos cultos satânicos ou mesmo “reuniões anticristãs”, por assim dizer, constituíam-se, sim, em ações criminosas, onde o assassinato – inclusive o infanticídio –, eram práticas recorrentes – e a morte e uso de tantos animais para práticas satânicas não constituiriam menos do que um dos primeiros casos de saúde pública de que se tem registro – e coisas como essas, até mesmo por um dever moral, necessitavam de combate imediato, pois tinham tomado dimensões muito maiores do que se esperavam, constituindo um perigo tanto ao mundo espiritual da Igreja, quanto ao mundo ético e moral dos homens. Para piorar, tais ações, do contrário do que pensam muitos, eram praticadas por membros das mais diversas classes sociais: o uso das praticas satânicas poderia advir das mãos da mais humilde camponesa, como de alguém como Catarina de Médici.


Toda uma literatura, seja ela a favor ou contrária às práticas satânicas, foi produzida neste período; tanto se ensinava a combater um bruxo, como se era possível encontrar algum texto que ensinava, a quem assim o quisesse, a se transformar em um bruxo; tanto se podia aprender a enfrentar o Sujo cara a cara, como se era possível invocá-lo e dele tirar proveito. É dessa época as bulas SummisDesiderantesAffectibuse Cœlietterrae, além do famigeradoMalleusmaleficarum. Também são dessa época relatos extraídos – a maioria sobre os rigores de interrogatório – de práticas satânicas diversas; algumas carregadas de uma crueldade realmente infernais; já outras repletas de imagens ridículas, mas todas, ao final das contas, deixando claro duas coisas: o incrível crescimento da credibilidade do Diabo entre estas pessoas, mesmo sobre um rigor religioso tão grande, e de como, em determinado momento, o Anjo Caído rivalizou diretamente, em grau, inclusive de importância, com o Deus que, até então, era-lhe antagônico, mas não igual em poder. Para se tornar um bruxo ou uma bruxa, ou meramente adorar o próprio Belzebu, valia de tudo: automutilação, assassinato de recém-nascidos, orgias sexuais que levavam em consideração não só o número de praticantes, mas as “espécies” que dela participavam. Mas, nem tudo era (pelo menos aos olhos mais leigos) tão terrível quanto parecia: um conhecido sinal de adoração ao Condenado consistia em beijar-lhe o ânus... os valdenses, por exemplo, na falta do próprio Satanás para tal prática, contentavam-se com um bode mesmo. Para além do ridículo que isso possa parecer, há algo muito terrível a se elucidar aqui: o quanto que os seguidores do Diabo estavam dispostos a se humilhar para agradá-lo, e de como, diferentemente do que se espera de Jeová, por exemplo, o Lá-de-baixo não tem o menor respeito por seus adoradores. Mesmo no Renascimento, as práticas de bruxaria e satanismo se fizeram mais presentes e diversas; mas, será justamente nessa época que o Diabo começará a sofrer um suposto declínio que dura até os dias de hoje.


Com as descobertas de novos mundos e crenças, Lúcifer teve que dividir espaço, e mesmo rivalizar, com centenas de entidades que, em maior ou menor escala, foram lhe conferindo menor credibilidade e poder do que as atribuídas a ele desde a Idade Média. Mesmo assim, em lugares como em nosso Brasil-colônia, o Diabo servia de justificativa à ação dos missionários bem como à validação de medidas repressivas que a Inquisição fazia valer com toda a força, pois ninguém conferiu mais ao Demônio maior estatuto de grandiosidade do que as Reformas e Contrarreformas que surgiram entre os séculos XVI e XVII. Mesmo assim, é difícil falar do Diabo, bem como de todo o seu poder, para alguém que não acreditava em sua existência ou que já possuía um número tão grande de outros capetas que mais um não representaria nada; nem em medo ou numa possível adoração. O resultado disso é que, na cultura aqui do Brasil, o Diabo se insere muito mais nas ações do cotidiano, ameaçando muito mais padrões sociais do que o Reino de Deus propriamente dito. Todavia, o Diabo é astuto e metamórfico, e essa inserção que ele faz no dia a dia das pessoas só supervaloriza o fato de ele estar diretamente associado ao comportamento e às atitudes mentais das pessoas... e isso é um problemão. Mesmo perdendo sua imagem de arqui-inimigo de Deus e, muitas vezes, sendo visto como um tentador medíocre e uma figura risível que poderia ser facilmente enxotada (seja com uma simples oração ou com uma boa dedada no... deixa pra lá), tornando-se uma personagem inserida no cotidiano das pessoas; isso equivale a dizer que o Diabo diminuiu para crescer, ou, em outras palavras, tão logo perdeu seu caráter aparentemente onipotente, mais próximo ficou do homem para atentá-lo e enganá-lo.


Do século XVIII para a era das Revoluções Burguesas foi um pulo, e a decadência do Inimigo rolava ladeira a baixo. A busca desenfreada que o Iluminismo nutria por uma Razão que tudo explicava, tirou do Diabo qualquer forma de se apresentar como entidade autônoma... Os românticos, que não tardariam a chegar, torná-lo-iam um símbolo de sua rebeldia e enfrentamento do mundo. O Diabo não precisava ser seguido de fato (muito menos temido). O Príncipe das Trevas era apenas uma alegoria desprovida de poder ou influências reais. E, na segunda metade do Século XIX, a coisa desandou de vez: a máquina e a ciência tomaram o lugar da Divindade; o homem tornou-se perdido e vazio; niilista como nunca, já não havia razões ao homem para adorar e, muito menos, temer seja lá oque ou quem fosse. Havia teorias evolucionistas, seres microscópicos, tabelas químicas, leis da gravidade e relatividade, havia Marx, Nietzsche, Freud... Pestes antes atribuídas ao Diabo eram resultantes de infecções e doenças bacterianas; sintomas, antes pertencentes às possessões, agora pertenciam à Psicanálise. No século XX, foi o cinema se apoderou do Demônio, ele foi Nefisto, Drácula, Zé do Caixão; vomita vitamina de abacate, vira alvo de perseguição e não mais perseguidor, é derrotado pelos cavaleiros do Zodíaco (numa versão onde se mistura com a mitologia grega e o mangá japonês). Da segunda metade do século XIX para cá, Deus e o Diabo foram vitimados... mas, apesar de tudo, o Diabo ganhou com isso: o Papa Bento XVI precisou afirmar: o “Diabo existe” – oh, quão infelizes são estes dias, em que até o Papa precisa dar uma mãozinha à imagem do Rabudo. Nos canais religiosos e nas igrejas pentecostais ele ainda é responsável pelos males do homem, mas não mais como arquiteto de todos os malefícios, mas o “culpado”, pelos pequenos danos e incômodos da vida: álcool, cigarros, drogas, traições conjugais, xeques sem fundo... Como afirmou o professor Leandro Karnal, o Diabo passou “do atacado para o varejo”. Contudo, é justamente aí que mora o grande perigo.


E como “viver é muito perigoso”, a literatura de nosso tempo também se valeu da decadência do Cramulhano. Em Grande Sertão: Veredas, por exemplo, o Demônio é resultado de suas próprias metamorfoses, quando não, ele sequer existe. Hermógenes é o Demônio de Riobaldo, a trilha da vida é o próprio caminhar pelas estradas incertas e por isso mesmo demoníacas. Todo o livro do Guimaraes Rosa é um discurso alegórico sobre o Diabo, sua presença, manifestação, transformação e aniquilação – ele, o Diabo, vive nos crespos do homem; é o próprio homem “arruinado”. Mas a luta contra o Tentador não é uma luta improvável, pelo contrário, ela é continua e possível; a luta contra o Demo é uma luta contra nós mesmos. A realidade, então, seria apreendida nas travessias da vida para nela nos livramos do Maléfico, um Horror que se utiliza de muitos caminhos e portas, todos findando nas almas dos homens. Quando trilhamos “caminhos certos”, expulsamos nossos próprios diabos, pois O-que-nunca-ri não é uma possessão, não está em nós como uma entidade autônoma e poderosa... o Diabo, para Riobaldo, somos nós mesmos... Contudo, sendo assim, poderia haver, de fato, uma forma pior de manifestação por parte do Demônio...?!  



Como figura híbrida, o Diabo se reinventa, aprende a ganhar mais se ocultando, fazendo-se “zé ninguém”, torna-se cada vez mais astuto, à medida que tudo nele é posto à prova. Mas, ninguém duvide que ele, Satanás, é o Anjo Caído, o senhor do Inferno, o representante do Mal absoluto e, para muitos, o próprio oposto do Deus Altíssimo. É necessário nos certificarmos de uma coisa: o Diabo merece credibilidade; do contrário, tornar-se-á uma figura muito mais perigosa quanto mais o considerarmos menos significante... Ora, ele é o “Pai da mentira”, e é justamente sobre o uso da mentira, diabólica ou meramente política, que gostaria de falar agora; e, ao falar daquilo com o qual o Diabo mais se vale, equivale a falar dele, e de como ele está muito mais presente e ativo do que nunca.



Da Mentira de Gabriel Liiceanu, tradução de Elpídio Mário Dantas Fonseca.
 Vide Editorial; São Paulo, Vide Editorial, 2014.











II
Em um livro bastante emblemático para tudo isso que estamos a dizer, o filósofo romeno Gabriel Liiceanu, nos dá um bom exemplo da mentira em seu uso, digamos, pragmático, a começar por um questionamento que, em certo tempo, apresentar-se-nos-á, também, como uma afirmação: o de como pode ser possível que, da essência da língua, faça parte a perfeita ambiguidade de sua utilização...?!


Se a levarmos, como afirmação, para uma rápida análise teológica do Cristianismo, equivaleria a perguntar como que, pelo mesmo recurso da palavra, pode-se ver Deus criando o universo e tudo o que nele existe – e, inclusive, por ela fazer-se encarnado na figura do Filho –, e, ao mesmo tempo, o homem, através da própria palavra, deixar-se cair nas tentações de Satanás? Liiceanu, em tempo, não prefere empregar tal ideia em seu livro Da mentira – no original: Despre minciună –, traduzido, aqui no Brasil, entre tantas outras pérolas da filosofia romena, pelo meu amigo Elpídio Mário Dantas Fonseca, mas limita-se à análise tanto política quanto filosófica da mentira, dentro de um uso tão prático quanto necessário ao homem, o único, dentre todos os animais que, segundo Liiceanu, permite-se a tal ato, pois o ser humano é “o único que tem parte em ‘um algo’ que pode exprimir” e, uma vez se fazendo exprimir, pode “mover-se em duas direções totalmente opostas”; este algo, obviamente, é aquilo que os gregos chamavam de γλώσσα, e que nós conhecemos como “língua”.


Mas, logo em seguida, Gabriel Liiceanu não vê, para este curioso fenômeno da ambiguidade da linguagem, outra explicação mais contundente que não a perversão da língua, enquanto instrumento divino, pelo uso que os homens passam a fazer dela. Isso equivale à afirmação da liberdade e do decaimento do homem frente a Deus pelo pecado original e, por isso mesmo, indigno de se utilizar de tal instrumento, desvia-o de seu “modo originário de emprego”. Assim, sendo o homem livre e decaído, a utilização da linguagem por ele não poderia ser outra a não ser pela ambiguidade que o leva a passear tanto pelos caminhos da verdade quanto às veredas da mentira. Isso também significa que o uso da mentira, segundo Liiceanu, não pode ser nunca entendido, em sua essência, como algo positivo, ou, em outras palavras, como o bem produzido a partir da liberdade do homem, e, sim, como o mal resultante dessa mesma liberdade a qual o homem se faz destinado.


O fato de a palavra conter, em si mesma, preceitos que se negam mutuamente, serve-nos como uma explicação mesma à decadência e às misérias da humanidade, através de sua própria história. E a história humana, seja em um contexto teológico ou, simplesmente, sociológico é, meramente, uma história de engodos e embustes, onde apenas Deus aparece incólume a tal processo; Satã, como seu articulador maior; e o homem como manuseador do instrumento de sua própria perdição. É por isso, talvez, que, para Liiceanu, a mentira possa ser vista também sobre dois aspectos: a mentira particular, onde, segundo Liiceanu, “um homem engana outro” e a mentira vista em coletividade, onde “muitos enganam outros muitos”, e esses muitos também se deixam enganar.  O que me faz lembrar outro grande mestre romeno, o Nicolae Steinhardit, em O Diário da Felicidade, também traduzido, aqui em nosso país, pelo Elpídio Fonseca, que afirmara que a idiotice – talvez pelo próprio ato de enganar a si mesmo – é também um pecado. No entanto, como nenhuma afirmação filosófica se faz valer sem provas ou, pelo menos, análises, Gabriel Liiceanu não se faz de rogado e dialeta sobre a mentira e, digamos assim, seu uso pragmático; primeiro, através de três textos que, segundo ele mesmo, contém o uso da mentira como construção de um programa moral político de grande eficácia: Filoctetes, de Sófocles, depois Hípias Menor, de Platão, e, como não poderia deixar de ser, Maquiavel e seu O Príncipe... Em segundo, através da análise pessoal da história recente de seu país, a Romênia, principalmente a dos anos em que a antiga Dácia ficou submetida ao braço forte do Comunismo dos Ceauşescu. 



O primeiro trata de como a mentira é extremamente eficaz em roubar as mentes das pessoas, raptar as suas consciências e levá-las a fazer aquilo em que, sequer, acreditam ou deixaram de acreditar. É o caso em que Odisseu ordena a Neoptólemo que convença o arqueiro Filoctetes a voltar à guerra após ser covardemente abandonado em uma ilha por causa da picada de uma cobra. O que Odisseu diz, exatamente, ao jovem Neoptólemo, filho do herói Aquiles é: “τήνφίλοκτήτον ψυχήν λογίσίν ’έκκεψεις”, ou seja, “Para captares com as tuas palavras o ânimo de Filoctetes”, ou, melhor dizendo, “através das palavras se apossar da alma de Filoctetes”.


O que se pode tirar, logo de cara, desta ordem é: aquele que antes era estorvo torna-se a peça fundamental não só à guerra, mas a todo o processo de mudança moral que o fim desse conflito parece trazer, e onde a honra, a força e a coragem perdem lugar para um novo pensar das relações humanas através do “reassentamento político” que a necessidade da mentira traz para todos os homens. É por isso que, mesmo discordando de tal ordem, que vai de encontro a todas as suas crenças e preceitos éticos, Neoptólemo não vê outra escolha que não seja a de ceder às ordens do astuto Odisseu porque, antes mesmo de, com seus ardis, produzir algum engano a Filoctetes, o próprio Neoptólemo já se fez enganar pelas palavras desferidas pelo rei de Ítaca. O que se conclui, obviamente, é que a mentira é uma corrente de muitos elos, e nem sempre contínua; todavia, a sua eficácia mostrar-se-nos-á cada vez maior e perigosa, pois, se pensarmos em termos Cristãos, o pedido de Odisseu equivale a um dos melhores exemplos de uma brilhante ação do Demônio frente à compreensão dos homens, pois, ao pedir que Neoptólemo não escolha o bem que está em seu ser, mas aquele que será alcançado pelo mal que ele fará à sua própria natureza e consciência, não se espera de Odisseu mais que fazer o papel do próprio Diabo: que faz com que se ganhe, em um momento de desonra, toda uma vida de suposta glória e honradez. A falsidade e a contradição de tal ação são bem descritas nas palavras do Cristo que, no Evangelho de Mateus – capítulo 5, versículos 29 e 30 –, afirma:


Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um de teus membros do que seja todo o teu corpo lançado ao fogo. E, se a tua mão direita, escandalizar-te, corta-a a atira longe de ti, porque te é melhor que um de teus membros se perca do que seja todo o teu corpo arremessado ao Inferno.

O que Odisseu pede a Neoptólemo é que ele salve seu olho ou sua mão, mesmo que isso signifique arremessar ao Hades todo o resto de seu corpo e de sua alma. Odisseu fala de uma mentira que conduz a uma salvação... O problema é o tipo de salvação a que se refere Odisseu e das coisas que se deixarão de ser salvas em nome dessa mentira.


Ao analisar Filoctetes, Gabriel Liiceanu nos mostra claramente que não são os fatos que conduzem a história, mas é pelas mentiras que ela é construída.  O que o leva à análise do segundo texto: Hípias Menor, de Platão. Neste caso, em especial, não se trata, simplesmente, da mentira em si, e sim da eficácia com que se mente. Esse diálogo equivale a um jogo dialético entre aquele que profere e ama a verdade, contra aquele que se vale da mentira; em termos gregos, teríamos aí a velha disputa entre o ‘ό αλεθής e o ‘ό  ψευδες; a oposição não poderia se fazer de melhor maneira, a não ser pelo equivalente cristão daqueles que seguem a verdade ou a palavra de Deus, contra os que se utilizam dela.


A conclusão do diálogo, no entanto, não poderia ser pior àqueles que, por muitos motivos, querem se livrar da mentira ou dela manter grandes distâncias; assim sendo, Liiceanu conclui de Platão que há dois tipos de mentirosos: os meramente mentirosos, que facilmente se traem, e se arriscam, a um engano fácil, fariam parte do primeiro time; e aqueles cheios de recursos, sábios o suficiente para fazerem, da mentira, um recurso ilimitado, pois eles podem – e sabem – de muitas coisas, inclusive daquilo que é certo e errado – para que o seu mentir seja o melhor entre tantos outros – compõem, respectivamente, o segundo time. Ora, toda criatura sobre a terra, com o mínimo de consciência, sabe o que é certo e errado – e os relativistas mais do que qualquer outros, eu diria. Quanto mais sabedor da verdade, maior a qualidade do mentiroso; quanto mais conhecedor da palavra melhor serão os diferentes e antitéticos usos que dela ele poderá fazer; o exemplo bíblico aqui é aquele que se encontra no Evangelho de Mateus, mais precisamente no capítulo 4, entre os versículos 3 ao 11. O maior conhecedor aqui equivale ao “mais competente na esfera do mal”: mata melhor quem mais bem conhece o corpo; roubam seus dados àqueles que melhor conhecem os recursos digitais para isso... Em outras palavras, aquele que pratica o bem pode desempenhar o mal como nenhum outro, pois se utiliza do próprio bem para isso; vejam, por exemplo, a ação dos donatários do “politicamente correto”, os líderes dos grupos que defendem as “minorias”, e mesmo a ação de alguns pastores e padres a professar um paraíso financeiro na terra ou um marxismo-cristão dentro da Igreja. No final das contas, tanto para Platão, como também para Aristóteles, e, obviamente, para o Cristianismo em sua forma mais pura, o homem bom e verdadeiro é aquele que, podendo fazer o mal, mesmo que voluntariamente, não o fará por ser essencialmente bom... Não viria a ser esse o conceito mesmo de livre-arbítrio? Observem, por exemplo, que em todo caso de possessão (ou obsessão, como querem alguns teólogos) há sempre algo em comum: a perda da vontade. Seja na Bíblia, na literatura ou nas desculpas esfarrapadas dos assassinos, a possessão atacaria diretamente tanto a liberdade de um indivíduo quanto o seu livre arbítrio, impedindo-o de exercer poder sobre seu corpo, sua mente e, consequentemente, de exercer poder sobre suas escolhas, fazendo com que o bem não seja sequer uma ínfima possibilidade e o mal se faça reinar pela força. A mentira deve ser uma possessão, que, uma vez entrando pelo ouvido e se alojando no fundo da mente, não dê ao indivíduo a mínima chance de exercer sua vontade ou seu conceito de certo e errado.


Se pararmos para pensar, o ser humano possui muitos medos, mas dois em particular são primordiais tanto para o contexto filosófico que Gabriel Liiceanu trabalha em seu Da mentira, quanto em nossas reflexões sobre o Diabo: o medo do desconhecido e o medo de se reconhecer como algo tão mal quanto todo o mal que o homem pode temer. O primeiro é facilmente reconhecido pelo homem e muitas coisas, nos mais diversos campos do pensamento filosófico e da religião, existem para amenizar o assombro da humanidade diante daquilo que está além da sua razão e compreensão. O segundo, entretanto, é facilmente esquecido pelo próprio ser humano, por se chocar com espírito de autossuficiência do ser humano, e suas mais diversas vaidades, o que equivaleria a reconhecer-se dono das piores fraquezas de sua própria natureza e se aceitar tão decaído quanto o próprio Demônio. O que se conclui então seria o seguinte: Homem e Satanás deixaram-se cair por semelhante pecado, mas enquanto um faz uso desse deslize para dominar, o outro se deixa dominar por não querer reconhecer uma culpa ou fardo que acredita não lhe pertencer. Poucos lembram, por exemplo, de que a primeira atitude do Cristo, já reconhecido como o Messias, foi fazer-se humilde, como se pode ver no Evangelho de Mateus, mais precisamente no capítulo 3, do versículo 13 ao 15...


Não sei dizer, com exatidão, se foram os gregos que descobriram que o homem é o maior e mais assustador de todos os assombros, mas ninguém filosofou melhor sobre isso, nem atribuiu, a tal descoberta, um termo tão preciso e pertinente como o de δείνον. O homem, segundo reconhece Liiceanu, é o próprio τό δείνοτατον, a “coisa assombrosa por excelência”, oriunda de um, digamos, horror vicioso, por assim dizer, porque nada parece mais assombroso ao homem do que reconhecer que há forças maiores do que ele e que estão além de sua compreensão e alcance e que, para piorar, acabam formando um mal que se vale de muitos abismos por onde homem pode cair (e por onde o mal entrará), mas todos findando na própria consciência ou alma humanas... Eis aí algo realmente tenebroso. Tal reconhecimento vai imperar no ser humano um dialetismo muito intenso por causa da antagônica problemática encontrada na já citada questão da língua e de sua ambiguidade usual: o respeito a tudo que estava além de sua compreensão, o que no Cristianismo equivale ao temor a Deus, assim como ao fato de por ser, também, o homem, à medida que, graças à sua própria condição, não poderia ser definido, algo que escapa à própria compreensão do homem pelo homem; ou seja, o homem é também deίnoς, e o que faria com que o homem resolvesse esse problema seria, no equivalente às virtudes cristãs, a humildade. Todavia, depois de séculos de história e política, o Marxismo, o Positivismo, o Darwinismo, e tutti quanti, arranjaram uma solução ainda mais assustadora...


A partir daí, e reconhecendo de vez que a humanidade perdera sua inocência moral, por assim dizer, Liiceanu chega à analise de seu terceiro e mais contundente texto, um livro que, por si só, apropria-se de tudo que foi dito em Filoctetes e Hípias Menor e abre seu pensamento de uma forma não só filosófica, mas (acima de tudo) pragmática, colocando a mentira como um elemento de real necessidade à política e sua prática,  pois, para fazer isso, abre mão tanto daquela ética imprescindível aos helenos, quanto àquele temor metafísico comum aos homens do período medievo – ou, nas palavras do próprio Gabriel Liiceanu, o pensamento ali contido “se livra de dois momentos essências da tradição”: Aristóteles e a Igreja –; o livro em questão é O Príncipe, de Maquiavel.


 Na obra de Maquiavel, onde o discurso político passa a fazer parte – na prática – da própria política, o primeiro reconhecimento, e o mais importante à eficácia de seu plano político, é o de nos encontrarmos em um mundo profano e, por isso mesmo, passível de fazer uso, entre tantas coisas, do próprio mal. Nesse sentido, Maquiavel não seria um hipócrita, o uso do mal aqui não equivale à busca ou à afirmação de uma falsidade, mas, pelo contrário, é o reconhecimento da realidade: vivemos em um mundo decaído e que se reconhece repleto de autossuficiência. Essa autonomia é essencial aos objetivos almejados em O Príncipe, que é o de reconhecer o enorme poder e diversidade do mal que, de tão produtivo, pode servir, mesmo sem deixar de ser mal, ao próprio bem, e o de encontrar alguém que possa pôr em prática tamanho potencial. No mundo decaído, onde o homem se encontra, nada pode equilibrar melhor o caos proveniente dessa decadência do que o próprio mal e seu uso, para que o bem puro, frágil e fujão, faça-se cada vez mais presente. Eis a grande preocupação de O Príncipe, o de como encontrar alguém que, segundo Liiceanu, faça-se disposto a identificar-se com o mal e, ao mesmo tempo, almejar “atingir escopos nobres”, se quase não há homens bons que não se afastam do mau, nem homens maus que busquem caminhos de nobreza. Então, como encontrar esse alguém disposto a fazer, pelo bem, o uso do mal? Esse homem preterido por Maquiavel, não é, senão, o próprio homem moderno, mas esse mesmo homem encontrará não só o maior obstáculo que ele poderia encontrar, mas a mais demoníaca força que já pousou sobre a terra, depois do próprio Cão, é claro, e cuja meta não é menos que a anulação do homem pela falsificação daquilo que ele possui de mais subjetivo e, por isso mesmo, valioso; é uma força onde a mentira odisseica e o mal reparador que Maquiavel tanto falava não têm valor algum e se anulam completamente; uma força que, segundo Liiceanu, é a própria espinha dorsal do mal, ou melhor, do Mal, “sendo empregada não contra um inimigo externo que ameaça o ser de sua própria coletividade, mas contra a própria coletividade mesma”; uma força que não é “uma síncope maléfica posta a serviço do bem, mas o mal puro”, posto “a serviço” de nada menos que “do próprio mal puro”... Essa força chama-se Comunismo.






III
O Comunismo é uma ideologia; a pior delas, tanto pela sua abrangência geográfica e histórica, quanto pelo uso prático e real de duas forças igualmente destruidoras: a violência física e psicológica que não conhecem limites e cujo único objetivo é a total e absoluta destruição das liberdades individuais; é a destruição de todo o pensamento livre, de toda iniciativa, de toda ação autônoma; em outras palavras: uma possessão.


Para isso, o Comunismo se vale de uma característica muito comum às ideologias – mas, no caso, em especial, do Comunismo, essa característica é acentuada milhares de vezes aproximando-o do fervor religioso, mas daquela religiosidade despropositada e fanática, cujo princípio não é mais ligar, e sim corroer moral e espiritualmente – que é a sua capacidade de multiplicação e estimulação indefinidas, graças à sua demoníaca eficácia no mascaramento das verdades e, consequentemente a este mascaramento: seu modo preciso de alinhar aquilo que o filósofo romeno Andrei Pleşu, em seu livro, Da alegria do Leste Europeu e na Europa Ocidental – também traduzido, aqui no Brasil, pelo Elpídio Mário Dantas Fonseca –, chamará de “realidades específicas” às generalizações do real. Dois bons exemplos disso são os inúmeros livros didáticos (distribuídos pelo MEC), escritos por professadores das ideologias de Esquerda e indissociavelmente despreocupados com qualquer coisa que vá além delas, que, carregados de propaganda esquerdistas, vão minando as mentes de estudantes das mais diferentes classes sociais e níveis escolares contra tudo aquilo que não faz parte de seu pequeno mundo ideológico, e à maneira como os valores familiares mais sólidos e tradicionais são transformados em meros estereótipos de brutalidade e moral arcaizantes pelos filmes brasileiros, quase todos produzidos e dirigidos por dissidentes de partidos e grupos de extrema esquerda, ou por admiradores destes grupos e partidos, e, telenovelas, principalmente, aqui em terras tupiniquins, pelas da Rede Globo.  


O mal das ideologias é um mal que representa o Mal em seu sentido mais absoluto e que se vale da maior e mais eficaz arma que o Demônio dispõe: a Mentira. Não existe em nenhuma ideologia a necessidade de se buscar ou alcançar a verdade mesmo que pelos caminhos mais indevidos. O grande interesse das ideologias e, principalmente, a do Comunismo é a de fazer da mentira uma verdade por mais falsa que ela seja, uma mentira que se passe mesmo por verdade e, mais ainda, uma pseudo-mentira que se passe por verdade e verdadeutilizável, como quer Andrei Pleşu. A verdade não tem, para o Comunismo, e demais ideologias, uma função diferente que não seja a de manipular, pois, e aí podemos nos valer do próprio Karl Marx, ideologias como o Comunismo não possui nenhuma vontade de “interpretar o mundo” ou a realidade, mas “transformar” ambos numa coisa assombrosa e absurda, capaz de transformar erros em crimes e ambos em meios aceitáveis de dominação; é a interpretação errônea das coisas sem que estas saiam de seu lugar ou estado. O próprio Comunismo, com o tempo, transformou-se de uma ordem linearizada e sanguinária em uma união de subgrupos moderados, como as feministas, os gayzistas, os multiculturalistas, mas “de uma eficácia ainda mais insidiosa”, como nos diz Pleşu. O Comunismo, e as ideologias, ainda nos alerta o autor de Da alegria do Leste Europeu e na Europa Ocidental, são um mal tão grande que não veem outra saída senão se multiplicar e criarem mais ideologias, ou mesmo contraidologias, que não são combatidas senão por outras ideologias; é o circulo vicioso do Mal absoluto que está no próprio cerne do Comunismo.


 Gabriel Liiceanu viu este Mal crescer, multiplicar-se e agarrar-se ao seu país, a Romênia, como um câncer se agarra a cada célula de um corpo já debilitado. Ele, a exemplo de outros mestres e conterrâneos seus, como Noica, Steinhardit, Pleşu... viu, e vivenciou, todo o terror que um mal institucionalizado, como é o caso do Comunismo, é capaz de fazer a toda uma nação e por muitas e muitas gerações. Liiceanu nos fala do Comunismo como uma espécie evoluída de mentira que não tem mais o seu sentido odisseico, passando para forma de mentira pura, institucionalizada e coletiva; uma mentira que leva os homens a acreditar, e, consequentemente, a errar, quando creem, fielmente, que o Comunismo é algo bom e necessário às soluções de seus mais diversos problemas; que, também, levou outros homens a uma crença tão grande, ao Comunismo, que, em tempo, fizeram-se dispostos a morrer por ele e pelas mãos dele; e estes, os “comunistas propriamente ditos”, que, sabendo e reconhecendo o grande embuste que o Comunismo é, entraram na onda, por assim dizer, profetizando e proferindo o falso, mesmo estando completamente esclarecidos a respeito do grande mal que o Comunismo representa; estes, à semelhança daqueles que, na Idade Média, em nome do Diabo, abaixavam-se, humilhando-se – e não em estado de humildade – beijavam o ânus de um bode; estes que, igualmente àquelas mães que levavam seus filhos engelhados ao sacrifício satânico, como retratou Goya; estes foram, segundo o próprio Liiceanu, os emissários da Morte e os próprios comensais do Mal, responsáveis diretos da disseminação do Comunismo mundo a fora.       


Podemos entender tudo isso a que estamos a falar de duas formas: a mentiraproferida pela ideologia ou a mentira quea própria ideologia éedissemina, porque uma ideologia nada mais é do que uma mentira dita às claras e sustentada pela própria previsibilidade que a mentira traz em si mesma – parafraseando Andrei Pleşu. Não obstante, como se dissemina a mentira tida por verdade? De duas maneiras: pelo terror, à maneira leninista; e, da forma mais eficiente em muitos aspectos, pelo parasitismo que o Comunismo impõe às instituições que lhe são naturalmente contrárias, como à Igreja, às Universidades e mesmo ao Exercito... à maneira de Antônio Gramsci. Pelo terror, há aceitabilidade da mentira por não se encontrar nenhuma saída que não seja aceitá-la. Pelo parasitismo, se aceita a mentira porque ela não é mais uma mentira pura, mas uma mentira que se passa por verdade e, à medida que se aceita a mentira por verdade, é aceitável mentir para si mesmo, por conveniência ou comodidade... Sobre esse tipo de mentira, Liiceanu é catedrático:


Uma vez que aquele a quem se mentiu mente, a mentira no comunismo é uma pseudo-mentira [grifo nosso], é uma mentira falsa, não é uma “verdadeira mentira”. Às mentiras se tira sua força de engano porque já não enganam ninguém. A mentira, por assim dizer, não tem atração senão quando “ela pega”, por tanto tempo quanto aquele a quem se mentiu é induzido em erro. Mas então quando é insolente, atrevida, inchada, quando toma a forma “o branco é preto e o preto, branco”, e quando todo o mundo finge crer aquilo que todo mundo sabe ser falso, a mentira já não é operacional no sentido do pensamento e da prática política tradicional. Ela toma uma originalidade sem precedente: o mentiroso mente para aquele a quem se mentiu, mas este, por sua vez, mente para aquele que lhe mentiu (fingindo que crê). Mas o mentiroso mente mais uma vez quando, mentindo, finge que não sabe que aquele a quem se mentiu sabe que lhe foi dita uma mentira.


e completa:


Essa mentira infinita de espelhos, à medida que anula a mentira como “mentira verdadeira”, transforma esta em mentira coletiva: todo mundo mente, à medida que uns dizem mentiras, mas os outros, por não as denunciarem, deixam entender que as aceitam como verdades.



Sobre a força e eficiência desse parasitismo comunista à la Gramsci, extremamente capaz de se apossar das mais diversas e antitéticas instituições, inclusive aqui no Brasil, escreve, incisivamente, em uma edição de O Globo, de janeiro de 1999, o professor e filósofo Olavo de Carvalho:


Por uma coincidência das mais irônicas, foi a própria brandura do governo militar que permitiu a entronização da mentira esquerdista como história oficial. Inutilizada para qualquer ação armada, a esquerda se refugiou nas universidades, nos jornais e no movimento editorial, instalando aí sua principal trincheira. O governo, influenciado pela teoria golberiniana da “panela de pressão”, que afirmava a necessidade de uma válvula de escape para o ressentimento esquerdista, jamais fez o mínimo esforço para desafiar a hegemonia da esquerda nos meios intelectuais, considerados militarmente inofensivos numa época em que o governo ainda não tomara conhecimento da estratégia gramsciana e não imaginava ações de esquerdistas senão de natureza insurrecional, leninista. Deixados à vontade no seu feudo intelectual, os derrotados de 1964 obtiveram assim uma vingança literária, monopolizando a indústria das interpretações do fato consumado. E, quando a ditadura se desfez por mero cansaço, a esquerda, intoxicada de Gramsci, já tinha tomado consciência das vantagens políticas da hegemonia cultural, e apegou-se com redobrada sanha ao seu monopólio do passado histórico. É por isso que a literatura sobre o regime militar, em vez de se tornar mais serena e objetiva com a passagem dos anos, tanto mais assume o tom de polêmica e denúncia quanto mais os fatos se tornam distantes e os personagens desaparecem nas brumas do tempo.



Após a queda do Comunismo na Romênia, Gabriel Liiceanu chama-nos à atenção para o fato de a corrupção ter se instalado por sobre o Estado político como uma doença tão mordaz quanto o Comunismo, ou seja, o Comunismo deixou, após a sua destituição, o mesmo clima desfavorável à verdade, encontrado na época em que ele tomou o poder na Romênia, favorecendo, dessa maneira, às novas mentiras ou, pior ainda, a um novo período comunista.


Nenhuma sociedade, ou mesmo um indivíduo, deixa-se dominar por alguém ou algo, em sua totalidade – não só de corpo, mas também de alma –, se esta sociedade, ou indivíduo, já não apresente uma decadência interna e indissolúvel; dessa decadência, alimenta-se de algo que é a própria expressão e extensão do Demônio, como é o caso do Comunismo. Assim pensava Will Durant, assim me parece fazer-se cada vez mais no Brasil, e assim alerta Liiceanu, para o caso da Romênia. Sem a imposição de um mal depurador e de uso necessário, em nome do bem maior, velhas toxinas ideológicas continuarão no corpus social esperando o melhor momento para fazê-lo novamente doente. A corrupção existente tanto na Romênia, que viveu um regime comunista concreto e destruidor, quanto no Brasil, que há muito vive sobre o signo de um comunismo fantasmagórico, mas eficientemente presente, não são mais do que um campo arado e semeado para o nascimento de um novo regime demoníaco de mentiras e que se vale, entre tantos outros recursos, da demonização daqueles que, de uma forma ou de outra, lutaram contra ele. 




***

A demonização se encontra no princípio mesmo do Comunismo e sua atividade. O próprio Lenin ensinava que aos professadores do Comunismo cabiam acusar, aos outros, daquilo que eles eram; apontar aos outros crimes que eles não cometeram; crimes que, na verdade, eram cometidos pelos próprios comunas. E, daí, cria-se esta rede infinita de mentiras, “mentiras de espelhos”, como afirmara Liiceanu, mentira que, à medida que anula a mentira como “mentira verdadeira”, transformando-a em mentira coletiva, daí, fazendo com que todo mundo minta, e, à medida que uns dizem mentiras, os outros, por não as denunciarem, deixam entender a si e aos outros que aceitam tais mentiras como verdades. Todo comunista, seja ele um velho político tarimbado ou um mero militante cooptado em um dos muitos criadouros de maníacos esquerdistas a que chamamos universidade, está consciente de suas mentiras, bem como de seus crimes, e, por isso, mente a respeito mesmo dessa consciência. Ao lado dessa rede de mentira, advém uma fomentação de um ódio igualmente ilimitado, um ódio para além de tudo que não pertence ao Comunismo e que é parte de sua natureza. Não é o próprio Lenin que diz que o ódio deve ser exercitado, que “precisamos odiar”, e segue, “o ódio é a base do Comunismo” e que “as crianças devem ser ensinadas a odiar os seus pais se estes não forem comunistas”? Não foi Mao Tsé-tung que escreveu que “o comunismo não é amor. É martelo com que esmagamos o nosso inimigo”? Não foi Che Guevara, o queridinho da mocidade universitária brasileira e da indústria de camisetas, que pronunciou estas palavras: “O ódio intransigente do inimigo, que impulsiona o revolucionário para além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar: nossos soldados têm de ser assim”...? Não foi o próprio Karl Marx que, em um artigo publicado no jornal New York DialyTribune, de 22 de maio de 1853, meus caros defensores dos direitos humanos e das minorias, escreveu que as classes e raças, demasiado fracas para dominar as novas condições de vida “devem sucumbir”? Não foram essas as próprias palavras do Karl Marx: “A principal missão dos outros povos (exceto os alemães, os húngaros e os poloneses) é perecer no Holocausto revolucionário [o grifo é nosso]... Esse lixo étnico continuará sendo, até seu completo extermínio ou desnacionalização, o mais fanático portador da contra revolução?!


         Além de um mentiroso, o Diabo é um acusador, aliás, este é um de seus milhares de apelidos e uma de suas centenas funções. Acusação e mentira são duas coisas que funcionam muito bem e, no caso do Demônio, diria quase que perfeitamente. Acusar e mentir torna-se uma dobradinha extremamente eficaz, principalmente quando a acusação do Diabo é sobre seus próprios erros, mas, evidentemente, esses erros devem ser atribuídos a outros, que, pelo próprio Diabo, devem pagar em seu lugar. Assim é com o Diabo, assim será no Comunismo. É o mesmo que dizer que demonizar, depois de mentir, é a segunda melhor arma do Capeta... imagine estas duas bombas atômicas fundidas...!? Para justificar a sorte reservada aos seus muitos adversários e desafetos, tiranos e ditadores, ao longo da história, sempre usaram da demonização como meio de destruir a alma e a imagem de seus inimigos perante seus súditos, escravos, asseclas, neófitos, puxa sacos... Segundo Rèmi Kauffer, em L’herminerouge de Shangai, ditadores como Stalin, Hitler, Pol Pot, Mao Tsé-tung, Fidel Castro, Mussuline, Pinochet, entre outros, empenharam-se de maneira hercúlea na arte de “luciferar” seus inimigos.


É essencial aos regimes totalitários a negação de toda dignidade humana aos seus inimigos, é preciso rebaixar seus opositores a níveis inferiores ao animalesco ou mesmo à comparabilidade ao excremento. A absoluta negação de qualquer valor ao inimigo atesta a total falta de vontade dos regimes totalitários em enxergar qualquer coisa que esteja para além deles mesmos. Aos inimigos, a própria face do Demônio deve ser colada aos seus rostos, mas pouco importa se estes demônios são judeus, mulçumanos, capitalistas, ou meras pessoas que, dentre tantas muitas, não pediram mais do que a verdade. Contra esses, há toda uma dialética da satanização em oposição aos ditadores que são sempre vistos como heróis de um novo mundo, por mais velho que ele seja, ou como deuses vivos e benevolentes, pouco importando os inúmeros crimes por, eles, cometidos; há sempre um Füher, um Duce, um Pai dos Pobres, um Grande Timoneiro, um Farol do Marxismo, um Filho do Brasil a tirar 40.000,000 de miseráveis de sua miserabilidade (papai Noel, um dia, perde o emprego), etc... todos, à maneira de Moisés satânico, ardorosos e bondosos, a conduzir as massas oprimidas pela metralhadora ou, simplesmente, pela mentira, à estrada da felicidade eterna onde, no fim, há apenas a Terra das promessas inexequíveis.


         Não obstante, ninguém, nem mesmo entre os nazistas e fascistas do mundo inteiro, utilizou-se de forma melhor, nem mais abrangente, da demonização como os comunistas, pois como a demonização é primordial tanto ao pensamento, quanto à ação do Comunismo, ela se torna indissociável de sua prática e abrangência. Lênin, por exemplo, não poupava acusações aos Socialistas Democráticos, acusações que podiam ser imputadas ao próprio Lênin e que, por isso mesmo, eram imputadas a outros. Stalin “luciferava” rivais aos montes, a começar por Trotsky, que fora logo responsabilizado por todas as degradações do mundo; um mundo que escroques como o próprio Stalin tratavam de degradar ainda mais. Nem vou me ater aqui a nomes com Mao, ou casos como o ocorrido no Camboja dos Kmers vermelhos, por razões mais do que óbvias e conhecidas. 


Tudo isso serve para mostrar como, nos últimos dois séculos, o Demônio reinventou o seu próprio poder de ação, tornando-se cada vez mais forte quanto mais se fazia esquecido; uma força verdadeira e ativa. No século passado, através dos grandes demônios ideológicos que sobraram da Segunda Grande Guerra: Nazismo, Fascismo e Comunismo, este Lúcifer de três faces, à semelhança daquele descrito por Dante, na sua DivinaComédia, e cujo rosto mais cruel, mais sanguinário e enganador jamais fora exorcizado... Pouco importa, no entanto, o modo com que o Diabo possa nos enganar, nos acusar, nos ludibriar, se através de um sistema como o Comunismo, ou mesmo pela metralhadora de um terrorista suicida, de um traficante de drogas; se pela calúnia se seu vizinho, o olhar de desprezo que um abortista desfere a uma criança ou um feto; se pela rede de corrupção que os políticos de qualquer paizinho de meia tigela se utilizam para roubar seu próprio povo ou quando um padre e um pastor apoiam um governo de raízes marxistas. O Diabo sempre estará a se valer da mentira, principalmente, como nos alertou Baudelaire, a maior de todas as que ele poderia inventar e se valer: a de nos fazer acreditar que ele não existe. Desta maneira, a criação de descrentes de sua existência, acaba por gerar – nos fracos e decaídos corações dos homens de pequena fé –, descrentes da existência de Deus... Eis aí, pela força de sua mentira, a maior semente que o Diabo lançará no coração dos homens: o Ateísmo.











Candeias, início da primavera de 2014.