domingo, 8 de maio de 2016

FALANDO SOBRE "CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL"...

A grande alegoria que Capitão América: Guerra Civil personifica é a imaginação moral, a única coisa que, de fato, permite-nos distinguir a respeito da pessoa humana, sua ordem, sua alma, seu papel social e sua capacidade em diferenciar o que realmente é bom ou mau, belo e feio, ofertando-nos uma visão geral da natureza humana e das leis que a regem. Somente essa imaginação moral pode nos dar a real ideia do cruel controle dos Estados totalitários em nossas vidas; por isso mesmo é tão combatida pela “educação” que tais Estados totalitários nos “oferecem”.







Meus alunos me perguntam: “Porque não gosto do PT ou de qualquer partido de Esquerda”? Inclua-se também qualquer pensamento ou doutrina semelhante. Costumo responder de forma simples e objetiva: “o PT é um partido de Esquerda, ponto final”. Todavia, décadas de uma educação, e isso se dá nas mais diferentes classes e instituições educacionais de nosso Brasil, voltada unicamente à dependência das estruturas de poder do estado e suas ideologias, não deixam que essa explicação se faça de modo fácil e contundente como deveria ser, e as explicações estendem-se à medida que as mentes se sujeitam a uma maneira única e rasa de pensar o mundo e a realidade; e quanto mais saliente mostra-se a mente de um indivíduo com relação a essas coisas, compreendemos o quão eficaz é o poder doutrinário de uma educação que transforma indivíduos em lobotomizados.

A verdade é que a Esquerda traz uma promessa maravilhosa, não se pode negar isso; daí a eficácia de sua sedução. É quase como a promessa de um Paraíso cristão, mas aqui mesmo na terra (nada mais herético, diga-se), onde Deus e anjos podem simplesmente ser substituídos por homens, e a graça pode ser alcançada sem os sacrifícios necessários para tanto. É uma maravilha, concordem. O Esquerdismo retira do homem a sua responsabilidade diante da existência, passando-a a um Estado que o representa ao ponto de pensar por ele mesmo... E aí começa o problema de um Jó sem Deus que o Marxismo sempre pretendeu implantar em cada homem existente na terra. O resultado disso não é menos que o caos moral e existencial, criado por um Estado totalitário que recebeu o “nosso” aval para agir descontroladamente, e esse é o maior trunfo de Capitão América: Guerra Civil (Marvel Studios, USA, 2016): mostrar a força destrutiva de um Estado totalitário, principalmente quando esse estado se mostra benevolentemente dedicado.
      
   Depois de uma ação desastrosa na Nigéria, com dezenas de “efeitos colaterais”, o Secretário de Defesa americano Thaddeus Ross (William Hurt), aquele mesmo que morre de amores pelo Hulk – que, aliás, como todos sabem, não está no filme –, resolve chamar Os Vingadores à razão e mostrar-lhes que, ao redor de suas ações, há vidas humanas inocentes pagando o pato, e faz isso mostrando imagens de suas ações em Nova York, Washington, Nigéria e nas fictícias Sokovia e Wakanda, o que é um belo tapa com luva de pelica tanto para a plateia quanto aos seus colegas diretores, como bem lembrou Isabela Boscov, que “não é correto que cenas de mortandade e destruição em massa sejam usadas para empolgar e fascinar sem que se pese o preço de cada vida tirada ou destruída”, assim como é feito também em Batman vs. Superman, de Zack Snyder, só quem com menos impacto e verossimilhança que os irmãos Anthony e Joe Russo, que dirigem o Guerra Civil. Por isso, a ação d’Os Vingadores, a partir da assinatura do Tratado de Sokovia, já acordado previamente entre 177 países, passará a ser monitorada e comandada pela ONU, e os heróis mais poderosos da terra não mais passarão a agir segundo as suas vontades ou necessidades alheias, ao menos que, como último recurso, sejam chamados a isso.

A notícia cai, como uma bomba, para todos os membros da “iniciativa”, mas principalmente sobre as mentes de seus membros mais antagônicos: Steve Rogers (Chris Evans), o Capitão América e Tony Stark (Robert Downey Jr.), o Homem de Ferro. Não pensem os desavisados e cabeças-ocas que os acontecimentos desencadeados a partir daí é uma mera divergência de opiniões. As questões abordadas são muito mais profundas e verossímeis do que qualquer fã de filmes de super-heróis está acostumado, o que dá ao drama um conflito e o porquê que serão muito bem explorados durantes as quase três horas de filme. Para acrescer, vários embates psicológicos também são travados no filme: a culpa de Tony Stark por ter criado Ultron, e consequentemente todo o estrago que veio com ele; a morte da agente Carter, levando Rogers a um abismo existencial ainda mais fundo; a escolha entre família e dever, por parte do gavião Arqueiro (Jeremy Renner); o dever moral e o espírito de vingança, por parte do Pantera Negra (Chadwick Boseman); sem contar a descobertas e incertezas de Visão (Paul Bettany) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), entre outros.

E, por falar em bomba, é justamente um atentado com explosivos, supostamente perpetrado por Bucky Barnes (Sebastian Sten), o Soldado Invernal, que conduz o grupo de heróis a uma divisão que também se faz pelo meramente pessoal. E é aí que Capitão América: Guerra Civil se mostra superior em seus temas e argumentos ao Batman vs. Superman, de Zack Snyder. As motivações que conduzem às amizades cada vez mais fortes, bem como a rupturas desastrosa de outras afeições são muito mais creditáveis e possíveis, além de condizer em muito com a realidade que todo o Mundo viveu durante boa parte do Século XX e ainda vive. Os motivos políticos e as ideologias por detrás de tudo isso não se fazem menos verdadeiros. Ponto para a habilidade dos irmãos Russo em emendar tantas considerações políticas e morais sem nenhum tipo de moralismo, o que explica a dor com que muitos deles se tornam “bandidos”, aos olhos de muitos. E já que a amizade parece ser um tema central em toda a história de Capitão América: Guerra Civil, algumas delas resistem a tudo, como a do Homem de Ferro e o Coronel Rhodes, o Máquina de Combate; a de Rogers e Martim, o Falcão Negro; Visão e Feiticeira Escarlate oscilam em muito; Viúva Negra (Scarllet Johansson) e Gavião Arqueiro só enquanto suas capacidades de serem cínicos lhes são necessárias.     
Rogers, imbuído de um forte espírito conservador (não pode esperar algo diferente de um soldado) não aguarda que a realidade se adeque às tentativas de transformá-la, nem muito menos que esta se lhe venha de forma débil e furtiva; ele a busca de forma sagaz e, por isso mesmo, muitas vezes violenta, mas sem perder a razão e nem fazendo dela seu único trunfo. A dicotomia soldado/político se completa com a posição favorável de Tony Stark ao Tratado de Sokóvia, relegando ao estado a tarefa de controle de absolutamente tudo, inclusive a ação de Os Vingadores; o Homem de Ferro, sem nenhum medo de viver e fazer o que tem e precisa fazer, pelo que o conhecemos, parece ser a última pessoa da terra a se iludir com as promessas utópicas de uma política de controle, todavia, como podemos ver nas cenas em que ele visita seus “companheiros” na cela de uma prisão de segurança máxima, Stark tenta até mesmo busca inventar razões para essa crença infundada, num exemplo muito simples, embora bem construído, de como a sedução dos regimes totalitários tem efeito tanto sobre céticos quanto crentes. E, acima das amizades, está a verdade, que nada tem de relativista, pelo contrário, toda vez que ela é aludida as coisas só se encaminham às mais desastrosas consequências.

A grande alegoria que Capitão América: Guerra Civil personifica é a imaginação moral, a única coisa que, de fato, permite-nos distinguir a respeito da pessoa humana, sua ordem, sua alma, seu papel social e sua capacidade em diferenciar o que realmente é bom ou mau, belo e feio, ofertando-nos uma visão geral da natureza humana e das leis que a regem. Somente essa imaginação moral pode nos dar a real ideia do cruel controle dos Estados totalitários em nossas vidas; por isso mesmo é tão combatida pela “educação” que tais Estados totalitários nos “oferecem”. O amor de nossos “educadores” por Paulo Freire, e sua pedagogia de opressão, é um exemplo irrefutável de tudo isso. Tudo que Capitão América: Guerra Civil que nos mostrar é que devemos lutar ao máximo para que nossas liberdades pessoais, ou seja, nossa inteireza, nossa autonomia e nossa nobreza e que elas não sejam reduzidas, quando não destruídas. As liberdades pessoais são a única coisa e meio para fugirmos ao domínio de um Estado totalitário. Steve Rogers é em tudo imbuído desse espírito, Stark ainda está longe disso, mas se matem em boa parte de toda essa saga no caminho certo. E porque isso acontece? Porque inteireza, autonomia e nobreza são conquistas caras, cujo preço é o sofrimento de uma disciplina interior muito rígida em comum acordo com uma consciência reta e perspicaz, o que, para um soldado como Capitão América, é uma questão de fazer o que se tem que fazer pelos motivos certos, e fazê-lo já e em toda a sua inteireza. Rogers não tem tempo para fazer de conta que a realidade pode ser controlada, que o mal é uma questão de mero ponto de vista, e não uma coisa concreta e presente; por isso mesmo, não se dá ao luxo de fazer as coisas certas pelos motivos errados. Tudo isso ainda falta em Tony Stark e, para piorar, ao se deixar abater por uma culpa que não lhe é imputada de fato, decide observar o desalinho mundano como um mero observador, transferindo ao Estado essa responsabilidade que não é de ninguém senão sua. Para sorte de todos, o Homem de Ferro não permanece o tempo todo um candidato a eleitor do PT, e quando ele deixa com que a voz de sua liberdade interior lhe grite aos ouvidos, tudo parece se resolver como deve ser resolvido, todavia, quando as coisas se encaminham para uma razão ainda mais profundamente pessoal, aí... aí é outra história.

Poucos filmes do gênero deixaram seus fãs e detratores em um estado de paranoia tão grande quanto Capitão América: Guerra Civil. As cenas de luta são tão bem coreografadas quanto verossímeis, com exceção do que diz respeito a certas habilidades especiais de alguns indivíduos; o ritmo do filme é devidamente acelerado e desacelerado para mesclar momentos de tensão com outros da mais pura ação; tanto as histórias de cada participante, como o decorrer de todos os acontecimentos que os envolvem, são muito bem alinhavadas durante todo o filme. Além disso, os apaixonados pelo universo Marvel podem conferir em primeira mão o que lhes aguarda com os filmes solos de mais dois de seus heróis que tiveram participação tão fantástica quanto decisiva em todo o filme: o Homem Aranha (Tom Holland) e o fantástico Pantera Negra, mas ninguém rouba mais a cena, em meu humilde ponto de vista, do que o Homem-Formiga (Paul Rudd) que se mostrará um herói bem maior do que aparenta... e isso não é uma metáfora.

Para terminar, uma nota de utilidade pública: filme tem duas cenas pós-créditos, por isso, se vocês ainda não assistiram ao Capitão América: Guerra Civil, não saiam do cinema mesmo que o pessoal da limpeza lhes ameasse com vassouras. Façam valer as suas liberdades pessoais e, assim como Steve Rogers, tenham coragem para se exprimirem com pessoas que ainda tem seus pés numa realidade concreta... O resto é conversa mole pra comunista dormir. A propósito, quando me perguntarem por que eu não gosto do PT e seus semelhantes, vou mandar-lhes assistir ao Capitão América, para me poupar de muitas explicações e esperar que eles vejam o quão frágeis certas ideologias são diante da realidade; tão frágeis que até um “homem comum” pode colocar heróis um contra o outro... Quem viver verá.       





Salvador, Dia das Mães de 2016.   
        


sábado, 13 de fevereiro de 2016

CANTARES DE ARRUMAÇÃO: PANORAMA DA NOVÍSSIMA POESIA DE FEIRA DE SANTANA E REGIÃO, ORGANIZADO POR SILVÉRIO DUQUE...

Cantares de Arrumação: panorama da novíssima poesia de Feira de Santana e Região (Mondrongo, 2015).










“CANTARES DE ARRUMAÇÃO”
(por Lucifrance Castro)








Feira de Santana, além de ser um dos mais importantes polos industriais e comerciais do Brasil, há muito deixou claro que é igualmente importante culturalmente. Uma cidade que possui bibliotecas, Filarmônicas, centros culturais, Universidades, Faculdade de Música; rica de bons músicos, de teatro, e, claro, de grandes poetas e escritores. Algo que se pode perceber pelos muitos feirenses que se têm destacado no cenário literário nessas últimas décadas.

Muitos desses mais novos nomes podem ser conferidos na antologia Cantares de Arrumação: panorama da novíssima poesia de Feira de Santana e Região (Mondrongo, Itabuna, 2015), organizada por Silvério Duque, com lançamento marcado para o dia 03 de março, quinta-feira, no Radiola Lanchonete Cultural, que fica na rua 1o de maio, no 20, no bairro São João, rua que fica de frente ao Mercantil Rodrigues da Avenida Maria Quitéria, cuja proposta não é menos que compilar, em uma mesma obra, os principais nomes da literatura feirense e região; àqueles que lançaram seus livros a partir dos primeiros anos deste século, e que vêm, cada uma à sua maneira, garantindo destaque e prestígio nos meios literários desde então.

A ideia de organizar um panorama da novíssima poesia feirense e região, segundo seu organizador, parte de um projeto muito maior e há muito posto em prática pela Mondrongo, afirma Silvério Duque. Ao lançar sua antologia: Diálogos: panorama da nova poesia Grapiúna, o poeta e editor, Gustavo Felicíssimo, audaciosamente, achou por bem da literatura baiana e de seus poetas e leitores, estender tamanho trabalho a outras regiões do Estado, e, assim, traçar, da melhor forma possível, um painel com o que de mais novo e melhor se tem feito em matéria de poesia em toda Bahia; desta forma, foram-se editando um “panorama” da poesia da região norte, chapada, oeste da Bahia, etc.

A incumbência de traçar um retrato da novíssima poesia de Feira de Santana e Região ficou com o poeta Silvério, natural de Feira, que é também músico profissional e professor de Literatura Brasileira e História da Arte. Silvério, que é autor de cinco livros de poesia (três, pelo menos, no mercado): O crânio dos Peixes (Ed MAC, 2002), Baladas e outros aportes de viagem (Edições Pirapuama, 2006), A pele de Esaú (Via Litterarum, 2010), Ciranda de Sombras (É Realizações, 2011) e Do Coração dos malditos (Mondrongo, 2013), diz que a maior dificuldade de se fazer um trabalho como esse é estabelecer critérios rígidos para compilação em um universo tão vasto de ideias, estilos e temas; por isso mesmo, segundo ele: “tive que escolher não só autores nascidos em Feira, mas autores que escolherem a ‘Princesa do Sertão’ para morar, ou se fizeram, educaram-se e se descobriram versificadores por aqui, principalmente através da UEFS”. E completa: “a antologia era para destacar os principais nomes de nossa poesia entre os novos poetas, mas escolhi poetas mais experientes por terem lançado seus primeiros livros há pouco; ou seja, estão começando agora também; são tão ‘novos’ quanto os demais”.

    Além da organização de Silvério Duque, Cantares de Arrumação conta também com capa ilustrada por Gabriel Ferreira, artista plástico nascido em Tanquinho, ou seja, completamente inserido no contexto da obra, e texto do poeta Antonio Brasileiro. Cantares de Arrumação conta com nomes de significativo destaque na atual poesia baiana como Luiz Antonio Carvalho Valverde, Sandro Penelú, Anne Cerqueira, Araylton Públio, Patrice Machado de Moraes, Fábio Bahia, Idmar Boaventura, Herculano Neto, Ísis Moraes, Ribeiro Pedreira (Dado), Ronald Freitas Anunciação, Nívia Maria Vasconcellos, Valquíria Lima, Thiago El-Chami, Wesley Correia e Clarissa Macedo. Para o poeta Antônio Brasileiro, que também prefacia a antologia, são “todos herdeiros da grande linhagem que vai de Baudelaire, na França, a Drummond, entre nós, passando por Mallarmé, Rimbaud, Valéry, Eliot e o grande Fernando Pessoa, estão (e sabem disso) imbuídos daquela certeza maior dos criadores: há sempre que perguntar pelo sentido das coisas e do mundo. Como, sobretudo, quer a grande poesia”.

O livro conta também com um estudo de seu organizador sobre a história da poesia feirense, do século passado até agora. Segundo Silvério Duque: “a ideia do estudo é unir essa produção da poesia feirense desde Aloísio Resende, no inicio do século passado, seguindo com Eurico Alves Boaventura, e revista Arco & Flexa, não esquecendo, obviamente, do grupo Hera e seus representantes, unindo-os juntamente com seus contextos histórico-culturais a esses novos nomes que se descobrem agora em Feira de Santana”. Segundo o poeta e jornalista Emanoel Freitas, “a proposta de Silvério Duque em organizar uma antologia de novos poetas feirenses é mais um testemunho do desenvolvimento cultural de nossa cidade que agora ganha um registro especial” (Viva Feira, editorial; 25 de janeiro de 2016), e está mais do que certo.

O que esperamos de um trabalho como este é que ele seja lido e estudado, independentemente de concordar ou não com as escolhas e critérios do autor, para que estudos semelhantes surjam, e que a poesia baiana, e, juntamente com ela, a feirense, alcance alturas cada vez maiores.






 Candeias, 25 de janeiro de 2015.







***





ANTOLOGIA


Travessia

(por Luíz Antônio Carvalho Valverde)




 Pasmo de beira de rio
sofrendo vagar,
pelo que está no meio,
o impossível.

Na terceira margem do adeus
vasto céu, a suprema intriga,
onde sabemos que achar
é não ocultar o homem,
mas expô-lo por inteiro e perdido,
paralisado na travessia.





















Pedras e ruas

(por Sandro Penelú)




A rua não é mais a mesma;
a noite não é mais a mesma;
a Lua procura ansiosa;
o teu corpo que guarda um corpo.

As pedras da rua não são mais as mesmas...
Busco inútil pelo sorriso.
A roseira ainda guarda um fio de cabelo
que o vento brinca, balançando-o.

As pedras, a rua e eu
não são mais os mesmos...

























Poema revisitado

 (por Anne Cerquiera)




Quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado. Vou ler um dos meus poemas
preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa anos em quarenta
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.
Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta.
Sou infantil, egoísta e confusa e quero te dar um presente, meu amigo
para que você me odeie profundamente
e diga:
não sei o que fazer com isso. E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa
nem má. Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta. Mas pela graça de Deus
não nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Verbo.
Meu amigo, não sei para que serve
e talvez seja esta sua única função. 































Trato feito

(por Araylton Públio)




Meu rei, dê-me sua licença
Vou ganhar o mundo todo
Pra pegar tudo que é meu
Só lhe rogo a dita bença
Pra ventura deste seu
Ela há de ser a bonança
E me encher de confiança
Tocha aberta contra o breu


Dê-me logo a tal licença
Não posso me demorar
Sigo reto em minha crença
“Sei que um dia vou voltar”
Por ora me espera a prenda
Que tenho de conquistar
Coragem pra qualquer senda
Sei que sua bênção dá


Não se aperreie, eu volto
Dito e feito, pode crer
De promessa, jura ou voto
Como eu posso me esquecer?
Meu rei, deixe-me ir embora
Tenho muito a conhecer
Por mundos aí afora
Desejo me embevecer


Só lhe peço essa graça
Para em paz poder partir
Vou atrás da própria caça
Melhor forma de existir
Agradeço pelo amparo
Pela consideração
Mas o meu caminho é caro
Trato feito, beijo mão











































Amor, escreve em mim teu alfabeto...

(por Patrice de Moraes)




 Amor, escreve em mim teu alfabeto.
Registra a cor local do teu traçado.
Povoa cada milímetro ofertado
como povoa a planta o arquiteto.

Implanta introdução do bem concreto
que és tu, neste papiro rasurado.
Teu desenvolvimento inacabado
fará da conclusão pseudoprojeto.

Porque tudo que almejo é ser um texto
composto à densidade do contexto
do vernáculo em ti constituído.

Um texto de idioma universal
que assente o seu império lexical
fluente à proporção que seja lido.




















HAI-KAI

(por Fábio Bahia)




Onde está da vida, a magia?
Ora, até os animais sabem
vivemo-la todos os dias.


































Elefantes

(por Idmar Boaventura)




 Há algo de mágico nos elefantes;
estes, no trapézio, são só engraçados.
Ainda assim, há algo escondido
em seus olhos:
são elefantes, ainda lembram.

Se não havemos de saltar, por que
haveríamos de saltar?
Vejo do alto os homens, e os homens doem.
Há sempre algo de triste em ser uma estrela.


























Direito prescrito

(por Herculano Neto)




nasci
com defeito de fábrica
defeito na alma

minha mãe não notou
meu pai não notou
ninguém notou

só perceberam
quando achei de me remendar
me colar
me parafusar

aí já era tarde























Ultimato

(por Ísis Moraes)




Quem navega naufraga,
meu caro Ulisses.



































Pequeno tratado sobre a inveja

(por Ribeiro pedreira (Dado))




Hoje eu descobri
que a inveja envelhece.

Só que as rugas aparecem
não na pele, mas no olhar.






























Uma outra história

(por Ronald Freitas)




Na curva daquela estrada
a escuridão não veio.

(na curva, o dia era apenas sol)

Pena que não passamos por aquele caminho,
vivemos alheios às curvas.
































Escondedouro do amor

(por Nívia Maria Vasconcellos)




O amor não está na estrela
que, ao cair, carrega o pedido sussurrado,
ele está no olhar que a percebe e espera.

Não, o amor não está nas cartas
lançadas por mãos sobre mesas postas,
ele está na tensão de quem as ouve e deseja.

Búzios, números e datas
não contêm o amor,
ele não está numa procura.

Rezas, promessas e velas
não trazem o amor,
só a esperança de encontrá-lo.

Mas, ninguém encontra o amor,
ele é (misteriosamente) despertado...
num momento de distração e abandono.












Movendo-se...

(por Valquíria Lima)




 Como o vento,
assim meus pensamentos.
Como a brisa,
sempre precisa.

Como a tempestade,
baila o meu corpo.
Como os raios,
Explodo.

E de mim
eu saio,
ensaio
e volto sempre.

Na dança da minha cabeça
No bailar dos meus olhos.

No balançar da noite
e no movimento dos dias!

















O Herege

(por Thiago El-Chami)





"Meu irmão, tu és réu desta heresia!
 Grave abjuração, incúria extrema!
 Renegaste ao teu Deus em voz blasfema!
Pagarás com teu sangue à Confraria"!

"Há um engano, senhores! Na homilia
que ora vos submeto, a Lei Suprema
em mil versos proclamo. Vede o tema!
Eis que apelo à vossa fidalguia"!

 Veio então a sentença: "o teu Destino,
ao quebrar o silêncio do Divino,
e ao fazer desta quebra o teu ofício,

será errar pelo mundo, só, perdido
e falar, sem jamais ser compreendido:
ser poeta, homem: eis o teu suplício"!



















Ação de despejo

(por Wesley Correia)




Chegaram o promotor,
                    o juiz,
                    o policial.

Só os cristais,
na prateleira empoeirada,
permanecem incólumes.































Daniel

(por Clarissa Macedo)




 Vem descendo da torre
como quem desce ao Jardim.

O semblante em asas.

Caminha forte, assombrado
de luz, coberto de si.

Na cova, onde pasmado
contempla jubas alegres,
toca o fogo que aparece:
anjo comensal da Graça.

Nessa Fé, toda em redemoinho,
já não se sabe quem é
anjo, leão, homem ou nada.

Todos voam na cova
em aurora, todos passarinhos.







  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

VAMOS FALAR SOBRE AS FILARMÔNICAS?

Sociedade Filarmônica Ramo da Oliveira, sobre a regência do maestro Márcio Bandeira, durante a presentação na cidade de Santo Amaro e no distrito de Oliveira dos Campinhos.







VAMOS FALAR SOBRE AS FILARMÔNICAS?





Como que um homem, com as virtudes que lhe são próprias, pode cultivar a música?... A pergunta é de Confúcio, e ela leva-me a uma reflexão, primeiramente, muito pessoal, que tenho com a música e, especialmente, à minha formação de músico de Filarmônica.

Poucas coisas, incluídas no vasto campo do conhecimento, são tão importantes à formação tanto da inteligência, quanto do caráter, como o aprendizado da música. E não se enganem os teóricos de todas as imbecilidades que vemos e ouvimos por aí, não se pode executar a música em sua devida forma sem a total compreensão de sua finalidade, sem um compromisso verdadeiro com as virtudes que ela nos transmite, junto à disciplina necessária. É uma entrega tanto física quanto emocional, mas também moral e em certo ponto filosófica, mas, acima de tudo, é um aprendizado sem igual, na mesma medida que a música nos oferece.

É difícil determinar quando começaram as Filarmônicas e quando elas se tornaram populares aqui no Brasil, mas uma coisa é certa, elas tomaram como base as bandas militares; e não só em seu formato, mas em sua disciplina e austeridade. De certo, o melhor período para elas, ou a época em que ganharão as características que lhe são, até hoje, peculiares, foi justamente na virada do século XIX para o XX, mais precisamente durante a Belle Époque. Foi por esse tempo que elas se tornaram um braço dos muitos clubes e associações filantrópicas de que faziam parte, além de assimilarem muito bem o estilo de época que nada mais era do que um neoclassicismo tardio, mas muito pomposo e eficaz à identificação dessas bandas de música que logo começaram a ser chamadas de “Liras”, numa direta referência à cultura helênica e a receber nomes de deusas e musas greco-romanas, até hoje desconhecidas e até impronunciáveis para muitos dos componentes de seus corpos musicais, como Euterpe (a deusa da música, porém, mais tarde também associada à poesia lírica) e Terpsípore (a musa da dança), mas velhas e íntimas conhecidas dos bardos parnasianos, como Bilac, Correa e Alberto de Oliveira. Conclui-se, assim, que as fontes que servirão de base e inspiração às Filarmônicas estão repletas de história, de arte, de educação, boa conduta, de cultura e relações sociais com todas as maravilhosas diferenças que tudo isso nos tem a oferecer.






A existência, no entanto, de Filarmônicas em quase todas as cidades do Brasil, até meados do século passado, representava mais do que um mero atrativo artístico para as localidades. Algumas, inclusive, orgulhavam-se de ter, em seu município, mais de uma. Santo Amaro da Purificação, terra de mano “Caê” e “Bethaninha”, até hoje possui cinco, entre sede e distritos – isso é o que se podia chamar, àquela época, de “ostentação”. As Filarmônicas representavam, de fato, um imenso projeto social até hoje incomparável, levando-se em consideração os inúmeros fracassos de nosso ministério educacional em implantar, em nosso país, um aprendizado de música verdadeiramente eficaz e abrangente, entre outros fracassos. A fundação de uma Filarmônica não poderia ser feita sem, primeiramente, a implantação de uma escola onde a comunidade poderia aprender sem nenhum custo, a não ser a dedicação e a fidelidade à instituição. Isso era feito por um maestro, nascido e criado naquela localidade, ou que a adotara como seu berço e lar, conclamando, principalmente, crianças e jovens das mais diferentes classes e etnias a uma mesma causa e aprendizado, porém, obviamente eram os meninos mais pobres que melhor se encaixavam àquela academia, pois ali se encontravam as suas chances de serem e se criarem as suas próprias oportunidades para longe de quaisquer esteriótipos que deles se esperava.

Ser músico era, antes de tudo, ser visto com outros olhos naquela cidade; ser músico era ter uma profissão; era ter, em um instrumento, um bom caminho a se seguir. Nunca conheci músico de Filarmônica que, apesar dos vícios e dos deslizes comuns a nós, meros mortais, não tenha se tornado uma pessoa digna ou não tenha carregado a dignidade consigo. À música, como já foi dito acima, é necessário uma disponibilidade de caráter, seja ela do tamanho que for. Era através dela que se aprendia o significado do respeito, da obediência e outros valores muitas vezes perdidos em casa ou pela rua. Aplicado aos nossos dias, quando um garoto aprende um instrumento em uma Filarmônica, por exemplo, ele está dizendo adeus às drogas, à malandragem que leva às drogas, à malandragem e as drogas que levam ao crime e daí, sucessivamente. Quando um garoto entra para uma Filarmônica, ele abandona o tédio de uma vida sedentária, o despreparo humano de uma vida muitas vezes apenas “virtual”, o mau gosto por uma música sem sentido e incapaz de acrescentar o mínimo que seja a um de nossos milhões de neurônios, pois agora ele está munido do conhecimento e das estruturas que não só remodelaram para melhor sua percepção auditiva, mas sua maneira de ver e perceber uma serie de outras coisas, pois está mais que comprovado que poucas atividades lúdicas acessam um número tão abrangente de áreas cerebrais como é o caso da música.       

Projetos não faltam nem faltarão para a revitalização de Filarmônicas em todo o nosso país. Não só porque se faz extremamente importante o aprendizado musical, ou a necessidade de criar oportunidades a mais para muitas pessoas... Revitalizar Filarmônicas também é uma forma de “lavar dinheiro”, como se tem comprovado por aí. Por isso, só iniciativas individuais, para não dizer, muitas vezes, solitárias, são as que realmente conseguem construir, entre “trancos e barrancos”, algo realmente bom, verdadeiro e duradouro. Como é o caso, por exemplo, da Sociedade Filarmônica Ramo da Oliveira, do distrito santamarense de Oliveira dos Campinhos, erguida e regida por meu amigo e parceiro musical Márcio Bandeira, que a fundou procurando, principalmente, fugir às intrigas comuns que esses “clubes” por trás das escolas de música costumam realizar; e advinha quem perde? Os músicos que não recebem o seu devido “valor”, em todos os sentidos da palavra; o acervo, tão maltratado como a própria banda de música, os instrumentos; a comunidade, e a sociedade, que perdem com a destruição de todos os benefícios que uma Filarmônica carrega. Enfim, precisamos continuar aprendendo com as Filarmônicas, com sua música típica e seus compositores, verdadeiros eruditos que sofrem um desprezo horrível por escrever uma “música de filarmônica”, quando poderíamos pegar qualquer dobrado ou marcha de um Estevam Moura, por exemplo, retirar-lhe os títulos convencionais e encomiásticos, e, colocando algo do tipo, Grande Marcha Concertante para banda de música, Op. 1, n. 2, ninguém diria que não pertença a um gênio do nível de muitos metres por aí. Ou quem é que se atreveria a dizer que John Philippe Sousa não é um compositor erudito?

Por fim, alegra-me muitíssimo dizer que uma de minhas lembranças mais espantosas – uma verdadeira “memória base” – remonta ao início de minha pré-adolescência, quando dos festejos em homenagem a Santo Antônio, eu ainda morava na cidade Tanquinho, na Bahia, fui despertado pelos acordes poderosos que vinham da Filarmônica local, a Sociedade Filarmônica Maria Quitéria, sobre o comando de meu saudoso mestre Nilo Souza, um dos maiores professores e compositores de banda de música de que já tive conhecimento. Lembro-me de ouvir e ver aqueles músicos marchando com tanto vigor e ordenamento, executando a poderosa melodia do Dobrado n. 5, de autoria do maestro Nilo, que ia à frente do grupo, para ordenar e reger, acompanhados pelo estranho ritmo dos fogos e das pessoas que saudavam e aplaudiam, de suas portas e sacadas, a banda que avançava sem pedir licença, às 5:00 da manhã, e de como aquilo me encantou e se fez tão determinante para mim, como se fora um chamado, uma verdadeira convocação das musas àquele menino que mal terminara uma década de vida e que, daquele dia, ao início dos primeiros estudos musicais, não se demoraria muito, pois, se existe algo nesse mundo que eu posso chamar de vocação, eu soube àquela madrugada.