quinta-feira, 30 de setembro de 2010

SONETO PARA CASPAR DAVID FRIEDRICH


O viajante sobre o mar de névoa de Caspar David Friedrich, óleo sobre tela, 1818.



( Há, no entanto, a memória sem descanso,
o olhar sem paz fitando o seu destino,
a rosa inquieta em meio aos ventos mansos,
os silêncios dos musgos contra o muro;

a antiga casa – em sombras imergida –,
a distância entre as flores e as raízes;
o olhar de tua mãe, seu colo, as lágrimas,
os mimos e as carícias no teu rosto;

os conselhos que nunca foram ditos,
nem aceitos; a dor, o exílio, o ungüento;
o poema de amor, a falta, a busca,

a vida consentida em seus anseios –
nuvem fugaz despida de suas formas:
meu amor, nossa vida e a mesma angústia. )








Candeias, 03 de janeiro de 2010.







sábado, 25 de setembro de 2010

ALGUNS NASCEM GRANDES; ALGUNS ALCANÇAM A GRANDEZA; ALGUNS TÊM A GRANDEZA IMPULSIONADA A ELES... E ENTÃO... HÁ OS OUTROS...




Título Original: Harvie Krumpet
Gênero: Animação, Comédia, Curta, Drama...
Direção: Adam Elliot
Roteiro: Adam Elliot
Elenco: Kamahl (Estátua de Cícero), Julie Forsyth (Harvie bebê / Lilliana / Cantor da igreja)Geoffrey Rush, (Narrador), John Flaus (Harvie).
Duração: 23 minutos



Dos mesmos produtores de Mary e Max, e lá, poderás encontrar sua semente, por assim dizer. Harvie Krumpet, que pode ser conferido na íntegra através do link abaixo, premiado com o Oscar, em 2004, na categoria "Melhor Curta de Animação", é uma história de humor-negro, por assim dizer, em stop mution, sobre a vida de Harvek Milos Krumpetzki, nascido na Polônia em 1922. Pode parecer inacreditável, mas ele é um cara otimista mesmo com sua má sorte: sofre de síndrome de Tourette, teve o cérebro magnetizado, um testículo retirado, está desenvolvendo o mal de Alzheimer, entre outras agruras. Foi até por esses problemas que ele conheceu sua esposa, uma enfermeira com quem adotou uma filha. Harvie é um cara excêntrico, que fica andando pelado por ai, mas conseguiu encontrar o verdadeiro significado de ser humano.

Espero que assistam e gostem...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O NÚCLEO DE CULTURA POPULAR DO CUCA APRESENTA:



O Núcleo de Cultura Popular do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA) apresenta o Projeto “CHORINHO NO CUCA” que reúne as bandas “Chorinho entre amigos” e “Amigos do Arauá” numa noite de muita música instrumental para a nossa cidade.

Atualmente esses dois grupos vêm desenvolvendo um papel muito importante na nossa cidade quanto à preservação do gênero chorinho cuja à qualidade musical requer muito conhecimento técnico no instrumento daí a dificuldade de se achar músico para compor essa formação.



O Núcleo de Cultura Popular do CUCA que tem em sua coordenação de minhas amigas Suzani Caribé e Celiah Zaiin que têm se preocupado em valorizar os artistas de nossa cidade, dando a eles o reconhecimento de seus esforços pessoais. Então, trazer para o CUCA um Projeto, segundo Suzani e Célia, é, acima de tudo, oferecer um dos gêneros musicais de maior qualidade para satisfação de toda a platéia.



DIA 23 DE SETEMBRO, QUNTA-FEIRA, ÀS 19H30,

NO CENTRO UNIVERSITÁRIO DE CULTURA E ARTE

RUA CONSELHEIRO FRANCO, 66, CENTRO, FEIRA DE SANTANA - BA

A ENTRADA É FRANCA

NÃO DEIXEM DE IR...!



domingo, 19 de setembro de 2010

PEQUENO CANTAR ACADÊMICO...

Cangaceiro de Ademir Martins - Óleo sobre tela - . 100 x 81 cm. 1967. Museu Regional de Arte (CUCA), Feira de Santana-BA





PEQUENO CANTAR ACADÊMICO
A MODO DE REPENTE

ao escritor Raimundo Gomes... uma réplica


Caríssimo Raimundo Gomes,
não, o meu verso não é prece
como a todos, em vão, parece.
Sou de lugares sem seus nomes


e deles trago as minhas mortes -
todo amor que, por si, se esquece.
E do drama que me arrefece...?
dele é que eu tiro minhas sortes.


Meu verso é verso de galope:
de trote largo e olhar profundo,
com a dor e as voltas deste mundo.


Meu verso é verso de um só mote
e é verso assim, tão combalido...
mas bem dosado e bem medido.










terça-feira, 14 de setembro de 2010

"SILÊNCIOS": NOVO LIVRO DO POETA E ENSAÍSTA GUSTAVO FELICÍSSIMO...



SILÊNCIOS


Editora: Via Litterarum
Formato: 15 x 15 cm
Páginas: 92
ISBN: 978-85-98493-56-5
Valor: 20,00






Silêncios, de meu amigo e grande poeta Gustavo Felicíssimo, é uma obra imersa em formas oriundas do Japão e gestada durante os últimos dez anos. Essa obra foi organizada, originalmente, para atender a um edital do MEC (portanto, sem distribuição comercial), e traz como posfácio o ensaio Flores de Cerejeira, no qual o poeta, ele mesmo, traça os principais aspectos do haikai no Brasil.


Além da maturidade do conteúdo, apontada e elogiada por críticos como Carlos Verçosa, Silêncios traz um fato novo para a poesia baiana: a publicação em livro de diversas formas da poesia japonesa, fato raro também no país.


Com uma belíssima capa, que traz os elegantes traços a nanquim de Clóvis Márcio, e projeto gráfico muito feliz, Silêncios, está previsto para ser lançado no início de outubro em Salvador – data ainda a divulgar –; após, em Ilhéus, e, em seguida, em São Paulo e Marília (cidade natal de seu autor).



A tiragem, infelizmente, será de apenas 500 exemplares, o que ajudará a constituí-lo como um livro “raro”. Quem tiver interesse, ao custo de 20,00 (incluindo a postagem), pode me escrever enviando o endereço postal para: gfpoeta@hotmail.com – email do poeta, ou fazendo contato com a sua editora: vleditora@gmail.com e www.quiosquecultural.com.br.



Não deixem de adquiri-lo...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

UMA HISTORINHA PARA GENTE GRANDE...


Mary e Max... dor e amizade que não podem ser vencidas pela distância


Gênero: Animação
Duração: 80min
Origem: Austrália
Estúdio: PlayArte
Direção: Adam Elliot
Roteiro: Adam Elliot
Produção: Melanie Coombs







Alguns amigos meus reclamam por “nunca mais ter publicado algo sobre cinema”; a culpa não é minha, a verdade é que pouca coisa tem me tocado ultimamente, pelo menos até ontem, quando assisti à animação Mary e Max (EUA, Play Art, 2009), escrita e dirigida pelo australiano Adam Elliot, e que nada mais é do que a exploração de praticamente todas as improbabilidades.

É um desenho, uma animação em stop motion, mas não é uma história para crianças. É uma história que fala de dor, de solidão, de incompreensão, mas é, principalmente, uma história de amizade, de sinceridade e respeito capaz de vencer as piores barreiras, sejam elas físicas, geográficas ou psicológicas.

Depressivo no tom e no visual (seria mais sensato chamá-lo de desenho "desanimado", embora esteja carregado de emoções... emoções cruéis, mas emoções.), o filme acompanha dois personagens solitários, cujas vidas se cruzam pelo maior dos acasos: uma página aleatória aberta em uma lista telefônica. Motivada por uma dúvida infantil, a australiana Mary Daisy Dinkle, 8 anos, decide escrever ao nova-iorquino Max Jerry Horowitz, 44 anos. Junto à carta, alguns desenhos, uma barra de chocolate e a dúvida: "de onde vêm os bebês nos Estados Unidos". A correspondência inocente muda as vidas de ambos para sempre, iniciando uma história que transcorre por mais de uma década, para ser mais preciso de 1976 a 1996.

A direção de arte é inspiradora. Elliot, dono de um Oscar de curta animado (Harvie Krumpet, 2003), opta por protagonistas caricatos e quase malfeitos de tão simples. Os cenários são muito mais ricos - a Austrália, com seus tons terrosos, contrasta com a cinzenta Nova York. Os personagens principais estão perdidos em seus espaços e em suas solidões. O marrom australiano, refletido nos chocolates de Mary, pois tudo que ela tem são seus sonhos, e o vermelho da língua de Max, pois tudo que ele tem de melhor é a sua sinceridade... Ele tem 44 anos e seus desenganos; ela, 8 e ainda sonha com a felicidade. O que há em comum a ambos? Eles são sozinhos. É tudo proposital. Como os bombons e chocolates que um envia para o outro com suas cartas eles estão recheados; recheados de muita dor e dúvida, sem uma superfície fofinha e cativante da maioria dos desenhos que conhecemos.



Com o palco montado, inicia-se uma longa e verborrágica discussão filosófica sobre religião, vida em sociedade, sexo, amor, confiança e, principalmente, a importância e o significado da amizade. As cartas também refletem a caótica estrutura racional de remetente e destinatário, sempre com uma monotonia instigante. Ideias brilhantes ("se ao menos houvesse uma equação matemática para o amor") surgem e são abandonadas em função de outra melhor, mais inocente ou simplesmente irrelevante.






Apesar de tratar de um tema quase extinto, os pen pals, amigos de correspondência, algo bastante comum poucas décadas atrás, Mary & Max encontra reflexo curioso na modernidade de redes sociais e programas de mensagens instantâneas. Memórias de amigos virtuais não se apagam mais se queimando as cartas... mas nos blocks e deletes de perfil.








Além do mais, por usarem o bom e velho correio, as correspondências estão sujeitas ao atraso, ao extravio e a perda, além de provocarem, em seus correspondentes, toda a profunda angústia que isso acarreta, já que meio mundo de distância os separam, até, finalmente, se encontrarem num dos finais mais surpreendentes, ternos e trágicos que o cinema já produziu.






Mary e Max é emoção garantida... mas não das melhores.
























sábado, 11 de setembro de 2010

DICA DE LEITURA: "AS ALMAS QUE SE QUEBRAM NO CHÃO" DE KARLENO BOCARRO




O escritor Karleno Bocarro, que tem este nome por uma homenagem de seu pai ao velho karl Marx, nasceu em Fortaleza em 1964. Aos 23 anos partiu para a Alemanha onde permaneceu oito anos, vindo a cursar, na Universidade Humboldt, de Berlim, história, ciência da cultura e filosofia. Tem mestrado sobre a estética em Friedrich Nietzsche e é também tradutor e professor universitário.

Este seu romance, lançado pela É realizações, trata da história de projetos que não se concluem, de ambições jamais alcançadas, de pessoas que se tornam títeres das circunstâncias, e que, eternamente deslocadas, não encontram conforto senão em suas pequenas misérias. Ambientado na Alemanha Oriental de fins dos anos 80 – e, pois, da queda do muro –, o romance conta a história de um estudante brasileiro, perdido entre a euforia do novo e a nostalgia do velho regime. Entre as drogas e a ambição literária. Entre ser e não ser.

A analogia com Hamlet não tem nada de casual, sobretudo porque, como o príncipe da Dinamarca, o nosso herói passa muito tempo hesitando, em elucubrações e devaneios, e, sempre que age, é para deixar o ruim muito pior. Mas não pense o leitor que As Almas que se Quebram no Chão é um daqueles romances “psicológicos” em que nada acontece, tipo sessão de psicanálise. Longe disso. Ancorado na tradição de Memórias do Subsolo, de Dostoiévski, e do melhor beatnik norte-americano, o livro é cheio de energia, de ação, e muita coisa “acontece”, afinal.
Também vale apena conferir a entrevista que o autor conferiu ao Portal R7, no dia 09 de setembro de 2009:
ESTUDANTE CEARENSE VIU O MURO DE BERLIN SE DESMANCHAR...
O nome Karleno Márcio Bocarro foi uma "adaptação" que o pai deste cearense de 44 anos fez para homenagear seu ídolo - o filósofo alemão Karl Marx, que deu a linha para o comunismo e um dia disse que "tudo que é sólido se desmancha no ar". O pai de Karleno era do Partido Comunista em tempos que ser do "partidão" dava até cadeia no Brasil. O mundo da época pendia ou para os Estados Unidos (capitalista) ou para a União Soviética (socialista) e a fronteira era o Muro de Berlim, que dividia a Alemanha, a sua cidade capital e o mundo em duas partes.

Com 24 anos, seis deles vividos na pequena Brejo, no interior do Maranhão, Karleno inventou de estudar na Alemanha oriental comunista e de tanto tentar conseguiu uma bolsa de mestrado. Foi estudar primeiro em Leipzig, uma cidade industrial cinzenta onde desembarcou em agosto de 1989.

Naqueles dias, grupos de oração da Igreja Protestante começaram a ir para as ruas da cidade pedir mais abertura ao regime comunista, que os proibia de viajar e os isolava do mundo ocidental. O movimento se alastrou e chegou à Berlim, segundo os rumores que Karleno ouvia - a imprensa do regime de ferro censurava a informação. Karleno nunca poderia imaginar que dali a 11 semanas a sólida fronteira de concreto que dividia o mundo e as famílias alemãs fosse cair, se desmanchar no ar.

Em 9 de novembro de 2009, um funcionário do governo da Alemanha oriental deu uma informação equivocada numa entrevista com jornalistas. Ao anunciar que o regime comunista iria abrir as fronteiras para que os alemães dos dois lados se visitassem, disse que a fronteira já estava aberta. Em poucas horas uma multidão foi para o muro no centro de Berlim, no Portão de Brandemburgo, e os guardas sem saber o que fazer nem a quem telefonar (ainda não existiam celulares) deixaram a multidão passar, sem nenhum tiro.

Sem que as pessoas esperassem, o "muro da vergonha" caiu como pedra de dominó. Arrastou junto o sistema comunista, embaralhando o jogo de poder do mundo. Karleno viu tudo de perto. Sete anos depois voltou ao Brasil com um doutorado de outro país, a Alemanha capitalista e unificada. Sem querer, virou testemunha de uma das maiores transformações recentes. O então garoto de Brejo viu um capítulo se fechar e outro se abrir na história do mundo. E ele nem falava alemão nos primeiros dias...

Veja a entrevista:

R7 - Qual foi a sua impressão ao desembarcar em um país socialista?

Karleno Bocarro - Para um militante de esquerda à época foi decepcionante. O sistema não era o que eu imaginava, violava muito a dignidade do ser humano. Eu conheci um alemão que queria fazer Filosofia, mas o governo disse que não, que ele teria antes de servir três anos no Exército da Alemanha oriental. A impressão era a de descer num mundo totalmente diferente. Era um mundo pálido, sem cor. Leipzig era uma cidade industrial, muito poluída. A impressão era de um mundo parado no tempo, com os carros e as roupas das pessoas muito antiquados. Havia também uma atmosfera de medo e pânico. As pessoas não se expressavam porque tinham medo. Um em cada três alemães era espião da Stasi, a polícia secreta.

R7 - Como era a vida no dia a dia?

Karleno - Eu não sabia cozinhar e lá não se encontrava facilmente lugares que vendiam comida. As lojas que eram do Estado demoravam para abrir e sempre tinha fila. No supermercado também não havia variação de produtos. Era uma marca de xampu, uma marca de creme. Só.

R7 - Você chegou às vésperas do Muro cair. Dava para saber que isso iria acontecer?

Karleno - Acho que ninguém sabia, nem o governo, porque se soubessem eles não nos teriam dado bolsas de estudo, por exemplo. Mesmo as manifestações que começaram a acontecer não eram para derrubar o sistema, mas para haver abertura. Ninguém poderia pensar que tão rapidamente o Muro iria cair e um país deixar de existir.

R7 - Você já sabia das manifestações antes de ir para lá?

Karleno - Havia certamente uma insatisfação não expressada. As manifestações começaram pequenas, mas ganharam rapidamente uma grande proporção nas segundas-feiras. Começou como um grupo de oração na Igreja Protestante, mas aí eles tiveram coragem de ir para a rua e enfrentar a polícia. Nós que éramos estrangeiros fomos orientados pelos professores a não participar dos protestos. As manifestações foram se espalhando e a notícia chegava à gente por boatos, principalmente porque eu não falava alemão direito.

R7 - A TV mostrava as manifestações?

Karleno - A gente se reunia toda noite para jantar no refeitório da universidade. Quando as manifestações começaram a se tornar mais intensas nos disseram para voltar diretamente ao alojamento. Naquela noite eu fui dormir e só fiquei sabendo da queda do muro no outro dia, quando cheguei à escola e a professora estava muito agitada. Ela estava super feliz e muito ansiosa, porque ela poderia viajar, que era o grande desejo das pessoas. Neste momento ainda não havia percepção de que era o fim da Alemanha Oriental.

R7- Quais eram os anseios dos jovens da época?

Karleno - O grande sonho era viajar, poder conhecer outros povos. Havia também uma grande insatisfação com o sistema, a ausência de perspectivas e de escolhas pessoais. No fundo eles não queriam mais aquilo ali.

R7 - E os dias seguintes?

Karleno - Foi nos dias seguintes que eu soube que minha universidade seria em Berlim e eu não sei se a queda do Muro teve a ver com isso. Fui para Berlim oriental, que era semelhante a Leipzig, cinzenta. Foi interessante ver a mudança. Eu fui à cidade em julho de 1990. Eles estavam reunificando os sistemas de comunicação, de água, de transporte. Antes o metrô de Berlim Ocidental tinha estações fantasmas, já que a linha passava em partes de Berlim Oriental, só que as estações eram fechadas. Eram muitas construções. O guindaste virou uma imagem de Berlim. Os supermercados da Alemanha Oriental, que tinham uma marca para cada produto, foram inundados com produtos ocidentais. Eles pegaram as pessoas pela boca para fazer a unificação.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

TVE DA BAHIA HOMENAGEIA O POETA DAMÁRIO DACRUZ




A TVE da Bahia fará uma homenagem ao poeta Damário Dacruz, na próxima sexta-feira, dia 3 de setembro, às 20 h.

A festa será no Teatro do IRDEB, na Federação e será filmada, para depois ser transformada em um especial sobre o poeta, a ser transmitido pela TVE.
O evento terá depoimentos, declamações de poesias, músicas e histórias engraçadas!
Vejam e divulguem o convite anexo.

A entrada é franca.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

UM DIÁLOGO COM PABLO NERUDA...


Eurótico de Gabriel Fereira, Betume da Judéia e carvão sobre tela (40x30 cm), 2007.





Desnuda eres tan simple como una de tus manos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tienes líneas de luna, caminos de manzana,
desnuda eres delgada como el trigo desnudo.



Desnuda eres azul como la noche en Cuba,
tienes enredaderas y estrellas en el pelo,
desnuda eres enorme y amarilla
como el verano en una iglesia de oro.



Desnuda eres pequeña como una de tus uñas,
curva, sutil, rosada hasta que nace el día
y te metes en el subterráneo del mundo



como en un largo túnel de trajes y trabajos:
tu claridad se apaga, se viste, se deshoja
y otra vez vuelve a ser una mano desnuda.




* * *



Nua, és como os frutos contra o vento,

o contrair impuro de teus músculos,

como a transpiração das tuas flores,

vela chorando só em meio as preces...


És como um dispersar de velhas missas,

espaços partilhados pela ausência,

a sensação pesada, o Fogo Eterno,

és a falta, o princípio, o musgo, a fera...


Nua és como as frestas e as janelas,

as marcas de meus dentes em teu seio,

a certeza insensata das promessas...


És a busca e a descida a toda fonte,

o vento repetido em toda parte,

minha dor, minha paz e meu reflexo.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

DICA DE LEITURA: "AS HORAS DE KATHARINA" DE BRUNO TOLENTINO


O poeta Bruno Tolentino (1940-2007)





Após quase uma década esgotado nas prateleiras das livrarias e de um trabalho meticuloso de três anos, As horas de Katharina será finalmente relançado no dia 30 de julho, e desta vez com um brinde: a peça inédita A andorinha ou: a cilada de Deus, que Bruno Tolentino deixou pronta meses antes de sua morte, ao 66 anos. Com a introdução de Alcir Pécora, com o rigor de Juliana P. Perez nos comentários, com as notas de variação de Jessé de Almeida Primo e ficar hipnotizado com a capa de Cláudio Pastro. E, claro, aguardem em breve mais novidades sobre o lançamento. Juliana tem uma percepção muito aguda da obra de Bruno Tolentino, e nosso amigo Jessé, prestem bastante atenção, tem, segundo as palavras de Pedro Sette Câmara, e o meu próprio testemunho, o “melhor ouvido para poesia no Brasil. Segue um dos poemas do livro...

O ANJO ANUNCIADOR

— Ouve, Maria, a nossa
(não, não te assustes!) é uma luminosa
tarefa: retecer
o pequeno clarão que abandonaram,
o lume que anda oculto pela treva!
Porque irás conceber!
Porque a mão, desejosa
e tosca, que O tentara
reter, ainda que leve,
desfez-se ao toque, assim como uma vez
tocado o sopro se desfaz a avara,
a dura contração do peito ansiado...
Mas a haste, o jasmim despetalado,
é tudo o que ainda resta
dos canteiros do céu aqui na terra,
que um seco vento cresta
e uma longa agonia dilacera.
No entanto a morte há de morrer se tu quiseres,
ó gota concebida
bendita entre as mulheres
para que houvesse vida
outra vez, e nascesse desse fundo
obscuro do mundo,
o ninho incompreensível do teu ventre.

Não, não toques ainda
nem a fímbria do manto nem o centro
do mistério que anima a tua túnica:
aguarda, ó muito séria, a ave mansa
e recebe em teu corpo de criança
a Verônica única,
a enxurrada de pétalas te abrindo.

Em tumulto reunidas,
as cores da perdida Primavera
vão retornar, virão
numa enchente de asas, aluvião,
púrpura, sempre-viva, nascitura
estranheza do amor da criatura,
constelação descendo ao rosto teu:
é Ele, é O que reúne o coração
e o grande anel da esfera,
o fogo, a língua ardendo, o incêndio vivo,
a coluna de luz, o capitel que se perdeu...
Que eu

venho anunciar apenas a um esquivo,
humílimo veludo, a frágil chama
que há de crescer em ti, que hás de ser cama
ao parto do Perfeito, e hás de ser cântaro
e fonte e ânfora e água,
hás de ser lago
em que as sombras se afogam, que naufragam
no imenso, ó jovem branca como um lenço;
hás de conter a lágrima
do Infinito, o Seu vulto
e os tumultos da luz na travessia
entre a dádiva, a perda e a renúncia:
quando de um certo dia
cheio de luz amarga

em que serás enfim a sombra esguia
que O deu à luz e que O assistiu morrer...
Atravessa, ó Maria,
os abismos do ser,
ouve este estranho anúncio
e deixa-te invadir para colher,
mais fundo que a razão
e o corpo, o sopro cálido, o prenúncio
da mais viva alegria:
entreabre-te ao clarão
da visita suave,
mas terrível, terrível, deixa a ave
do imenso sacrifício te ofender.

Ó pétala intocada,
hás de sofrer
intensa madrugada
e num lago de luz como afogada
hás de durar suspensa
entre a graça imortal e a dor imensa.

Mas canta, canta agora
como a fonte borbulha, como a agulha
atravessa o bordado,
canta como essa luz pousa ao teu lado
e te penetra e tece a nova aurora,
a nova Primavera e a tessitura
do ramo que obedece e se oferece
para o mistério e pela criatura.

Canta a alucinação,
o toque enfim possível dessa mão
que há de colher para perder e ter
o infinito que nasce do deserto
e a semente que morre se socorre
tudo o que no estertor tentava ser.

Canta a canção do lírio e do alecrim,
essa canção que és e que na treva,
na escuridão da carne, andava perto
da imensidade que te invade. E assim
como o imenso te ampara,
ó voz tão clara
que consolas e elevas,
vem, desperta,
matriz da eternidade e d'O sem-fim,
ó mãe de Deus, canta e roga por mim


VOCÊ JÁ FOI A CAYMMI...?



No próximo dia 27, às 21hs na Casa da Música, Abaeté o gênio Dorival Caymmi será homenageado com um show intitulado “Você Já Foi A Caymmi?”.Com roteiro e direção de Ildásio Tavares, contando no elenco com a experiente cantora Márcia Short, que acaba de chegar de uma turné na Europa, Edu Nascimento, que responde pela direção musical, arranjos e violão, a percussonista internacional Mônica Millet, e no baixo acústico o talentoso Ângelo Santiago.

Este espetáculo faz uma varredura na obra de Caymmi, mostrando seus vários aspectos, desde as canções praieiras, músicas de base afro e os samba urbanos, revivendo no palco a grandeza deste gênio da música popular.

Projeto antigo do poeta Ildásio Tavares, foi idealizado para homenagear Dorival Caymmi, este que o poeta considera o melhor letrista da Música Popular Brasileira, e com quem mantinha uma relação de afeto e de grande admiração.Espaço da Fundação Cultural do Estado da Bahia, a Casa da Música vem-se notabilizando pela autenticidade de seus espetáculos que têm, inclusive, uma intenção didática, além do entretenimento com alto nível.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

SHOW DE LANÇAMENTO DOS LIVROS ABRUPTA SEDE E CLUBE DA HONRA









Na quinta-feira 26 de agosto, os escritores Emmanuel Mirdad e Aurélio Schommer estarão lançando o livro de contos e o premiado romance Clube da Honra. Até aí, tudo normal, mas para estes dois artesãos da incorreção e da polêmica, o ambiente engessado e tradicional de um lançamento de dia e em livraria seria incoerente com suas obras. Então, em vez de um mero boca-livre sem graça, acontecerá um Show de Lançamento, à noite (a partir das 22 horas), durante o evento “Night on Fire”, com o rock ao vivo das bandas traVoltA e Miss Blue, e as pickups do DJ Roots e DJ Pinguim.



Abrupta Sede reúne a melhor tradução do universo cosmopolita baiano do século XXI. São 25 contos densos em virtuose verborrágica, fluxo contínuo de emoções intensas e inesperadas, ácido, urbano, sexual e psicodélico, revelando um autor que faz jus à rica tradição literária local. É a estreia em livro de Emmanuel Mirdad, que é jornalista, produtor cultural, blogueiro e, sobretudo, observador do bicho humano aquém da superfície.



O chocante, original, irônico e devastador Clube da Honra, obra premiada pela Fundação Pedro Calmon, é o melhor romance de Aurélio Schommer (atual presidente da Câmara Bahiana do Livro), e é sobre a honra, mas também sobre a paixão, o desejo, a morte e os meios de obtê-la para quem está incomodando. Aurélio, que é roteirista e escritor de extensa trajetória (esta é sua sexta obra publicada), volta a provocar, pois em suas histórias não há mocinhos, só bandidos, alguns algozes e muitas vítimas.



O ambiente do Groove Bar, em parte underground, em parte elitista, não poderia ser mais apropriado a esses dois autores espinhentos e suas obras nauseantes; ambos são uma mescla entre o submundo, a transgressão, o desespero, e a sofisticação, o glamour e o sublime das melhores circunstâncias.



Os dois lançamentos saem pela editora baiana, o selo que mais cresce na Bahia nos últimos anos, e serão vendidos na noite por apenas R$ 30,00 (Abrupta Sede) e R$ 20,00 (Clube da Honra). Quem comprar algum ou os dois livros não pagará a entrada do evento.



Serviço



Show de lançamento dos livros Abrupta Sede (E.Mirdad) e Clube da Honra (A.Schommer)

Com traVoltA, Miss Blue, DJ Roots e DJ Pinguim



Quando: Quinta-feira, 26/08/2010, às 22h.



Onde: Groove Bar - Rua Marquês de Leão, 351, Barra.



Entrada: Homem R$ 25 / R$ 15 (até meia-noite na lista Orkut), Mulher R$ 15 (até meia noite é free na lista Orkut) - mas quem comprar algum ou ambos os livros não paga entrada.



Livros: R$ 30,00 (Abrupta Sede) / R$ 20,00 (Clube da Honra)



Info: (71) 3267-5124

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

11ª CAMINHADA DO FOLCLORE LEVA MANIFESTAÇÕES POPULARES ÀS RUAS - 29 DE AGOSTO DE 2010...





Repentistas, aboiadores, maculelê, capoeira, reisado, caretas, forró pé de serra e bumba meu boi. Estas e outras manifestações que expressam as raízes da cultura popular, vão emprestar um colorido especial às ruas da cidade, dia 29 de agosto, na 11ª Caminhada do Folclore. A iniciativa é da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), por meio do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), juntamente com o Sesc, TV Subaé e Prefeitura Municipal.


A proposta, segundo Selma Oliveira, diretora do Cuca, é realizar um desfile de grupos folclóricos que deverão mostrar diferentes aspectos dos traços culturais de Feira de Santana e de outros municípios da Bahia. “Enfim, o que pretendemos é resgatar, preservar, divulgar e valorizar as nossas tradições populares”, destaca. Ela acrescenta que o evento é único na Bahia com esse perfil.


Até agora mais de 100 grupos, dos quais 48 de Feira de Santana e distritos estão inscritos para participar da Caminhada. São 53 grupos de outras cidades baianas, a exemplo de Alagoinhas, Santo Estevão, Tanquinho, Pedrão, Santo Amaro, Salvador, Antonio Cardoso, Anguera, Água Fria, Serra Preta, Conceição do Jacuipe, Irará, Santa Bárbara, Teodoro Sampaio, Barrocas, Araci e Ipirá “Mas as inscrições ainda estão abertas para grupos de outros municípios e continuamos a receber solicitações de muitos interessados, o que pressupõe que o número de inscritos ainda pode crescer bastante”, afirma Tânia Augusta Pereira, idealizadora e coordenadora do evento.

A Caminhada do Folclore está inserida no Guia de Bens Culturais do Brasil e marca o encerramento das comemorações alusivas à Semana do Folclore. Nesta edição serão homenageados dois grupos que sempre prestigiaram a iniciativa: Lagoa da Camisa, de Feira de Santana e Cara Pintada, de Lustosa, distrito de Teodoro Sampaio. “Essa é a maneira que encontramos para retribuir àqueles que contribuem para a realização de evento tão significativo”, observa Tânia Augusta.


A organização dos grupos começa às 8h, enquanto o desfile está programado para as 9h, saindo da Avenida Getúlio Vargas, em frente ao bar 14 BIS, com encerramento na Praça de Alimentação.


A Caminhada conta com o apoio cultural da Faculdade Nobre (FAN), Colégios Nobre, Santo Antonio e Helyos, Escolas Despertar e João Paulo I. Também apóiam o evento o Corpo de Bombeiros de Feira de Santana, Fundação Cultural Egberto Tavares Costa, Juizado da Infância e Adolescência, Delegacia do Menor Infrator, Conselho Tutelar, Policia Militar e 35º Batalhão de Infantaria.



Feira de Santana, 09 de agosto de 2010.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

UM SONETO PARA MIHAI EMINESCU...


Lúcifer por Mihaly Zichy (1887).




LÚCIFER
SOBRE UM POEMA DE MIHAI EMINESCU
POR SILVÉRIO DUQUE




à Cristina Nicoleta Mănescu, por sua história.













Sobrou de toda mágoa – e destas ânsias –
este anjo cujos olhos renasciam
entre os vôos que, nas asas, se insurgiam
por entre os céus sem fim e sem distâncias.

Ele girou em torno de seu rosto
num estertor de infinito que o nutria,
e, na manhã reescrita que o seguia,
vi a rosácea inconsútil de um sol-posto.

O anjo, de asas de sombra e luz que medra,
deixou seu nome em tudo quanto existe,
por ser, entre as estrelas, a mais triste.

Tudo que o anjo quis, perdeu na queda...
O ardor pelo que morre e o rosto terno
de alguém que se cansou de amar o Eterno.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

UM POEMA DE MIHAI EMINESCU...


O poeta romeno Mihai Eminescu (1850-1889)



VARIAÇÕES SOBRE UM POEMA DE MIHAI EMINESCU:

SOMNOROASE PASARELE

tradução de Silvério Duque











Somnoroase pãsãrele
Pe la cuiburi se adunã,
Se ascund în rãmurele -
Noapte bunã!

Doar izvoarele suspinã,
Pe când codrul negru tace;
Dorm si florile-n grãdinã -
Dormi în pace!

Trece lebeda pe ape
între trestii sã se culce -
Fie-ti ângerii aproape,
Somnul dulce!

Peste-a noptii feerie
Se ridicã mândra lunã,
Totu-i vis si armonie -
Noapte bunã!














I

Sonolentos passarinhos

vêm pousar por sobre os galhos,

vão dormir entre os seus ninhos...

Boa noite!



Só uma fonte, ao longe, ecoa;

no silêncio deste bosque,

flores dormem à garoa...

Dorme em paz!





Vai um cisne, sobre as águas,

repousar em meio ao juncos –

levem os anjos suas mágoas...

Sono doce!





E o calar da noite erguia

uma linda e clara lua:

tudo é sonho e harmonia...

Boa noite!











II



Mortos de sono, os passarinhos

vêm repousar por sobre os galhos

e, exaustos, volvem aos seus ninhos...

Irão dormir!





Somente a fonte, ao longe, fala;

mas, no silêncio destas matas,

dorme uma flor e tudo cala...

Que durma em paz!





Um cisne passa sobre as águas,

vai descansar em meio aos juncos –

que os anjos lavem as suas mágoas...

Um sono doce!





E, à meia-noite, há a alegria

de uma esquecida e alta lua,

pois tudo é sonho e harmonia...

Boa noite!

Ambas as "traduções" foram uma sugestão de meu amigo

Elpídio Mário Dantas Fonseca,

que, muito condescendentemente, também me deu o seu aval.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

LANÇAMENTO DO LIVRO: "NAS BRENHAS DA CAATINGA ÀS MARGENS DO RIO SACRAIÚ" DE RAIMUNDO GOMES



É com muito prazer e orgulho que convido a todos para o lançamento do livro Nas brenhas da Caaatinga às margens do rio Sacraiú (Via Litterarum, 2010) de meu amigo, o escritor Raimundo Gomes.


Dia 31 de julho de 2010, às 16 horas, no Colégio Estadual Evaristo da Veiga, na Av. Anita Garibaldi, 393 (ao lado da Unifacs).


Não deixem de ir!!!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

LANÇAMENTO DO LIVRO: "ATIRE EM SOFIA" DE SÔNIA COUTINHO





É com enorme prazer que convido a todos a comparecer ao lançamento do livro Atire em Sofia, da baiana Sônia Coutinho, dia 31 de julho, a partir das 10 horas, na Livraria LDM, que fica à Rua Direita da Piedade, n. 22, Centro, Salvador-BA.

sábado, 10 de julho de 2010

BALADAS PICTÓRICAS: A POESIA VISTA PELOS PINCÉIS DE GABRIEL FERREIRA


Viagem, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.


Balada para Enone, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.


Aportes da serra de Tanquinho, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

A eterna imanência, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

Balada para Cecília, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

Balada para Hilda, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

Já tive a oportunidade - aliás, várias - de falar do trabalho artístico de Gabriel Ferreira, mas não disse o quanto me enche de orgulho o facto de eu, ou melhor, meu trabalho de poeta, servir como uma rica fonte de inspiração para o trabalho deste artista excepcional... Há alguns dias, em seu Blogger, Gabriel Ferreira deu testemunho desta inspirção, através da publicação de alguns trabalhos inspirados em meu primeiro livro. Todo primeiro livro é o primeiro livro: ingênuo, às vezes, cheio de melhoras a se fazer, carregado com "as pernas dos outros"... mas se serve de inspiração para um trabalho tão bom, este poeta esteja exigindo demais de si...?! Bem!, segue, na íntegra, as palavras de Gabriel... acima, os trabalhos inpirados em alguns poemas do livro e, claro, o link para o Blogger de Gabriel Ferreira:



"Mesmo após 5 anos do seu lançamento e o autor ter publicado um novo livro em 2010, Baladas e Outros Aportes de Viagem, do poeta e amigo, Silvério Duque continua fazendo sucesso. O referido livro é a segunda obra literária do autor e o primeiro que eu tive a satisfação de ilustrar a capa. As ilustrações que se seguem são inspiradas em poemas daquele livro, as quais participaram dos seus lançamentos. São trabalhos de muita responsabilidade, pois, para além da exigência do Duque (o qual é o principal crítico da minha obra), eles marcam uma ascendência salutar em minha vida de artista, pois foram bastante apreciados pelo artista plástico Pirulito e pelo saudoso poeta Damário Dacruz na ocasião do 1º lançamento no Museu de Arte Contemporânea-MAC em Feira de Santana-BA, 2005. Escutei elogios dessas duas grandes personalidades do Recôncavo Baiano e, deveras, senti-me um pouco mais artista. Baladas e Outros Aportes de Viagem é um livro bastante inspirador, pois, traz experiências interessantes do Duque em suas andanças como professor, "menino tanquinhense" e amor de uma mulher. Faço esse retrospécto para que muitas outras pessoas venham a conhecer as coisas boas da literatura que me servem de mote para pintar. Conhecer de perto a dedicação do "Capitão do Mato" Silvério Duque e sua doação à poesia é penetrar em seu universo de versos decassílabos e sonetos verdadeiros; cada linha que ele desenha é um recital aprazível. Acima estão as fotografias das obras que releem e tentam refazer visualmente a poesia que existe em lugar importante na história".







sexta-feira, 9 de julho de 2010

DICA DE LEITURA: O LIVRO DE SCARDANELLI DE ÉRICO NOGUEIRA






O LIVRO DE SCARDANELLI: O ESQUADRO DA LOUCURA

por Jessé de Almeida Primo



Começarei com um clichê imprescindível como a maioria dos clichês: O livro de Scardanelli (É Realizações, 2008), de Érico Nogueira, não é uma obra comum. A discussão conteudístico-formal que subjaz a essa obra não parece, à primeira vista, familiar à nossa paisagem mental, muito menos à lírica, ainda que tenha contato, como se verá, com um poema de muito sucesso no Brasil.
De tal modo essa estranheza se manifesta que algum desavisado poderia pensar que o livro é de autoria de algum estrangeiro exilado nos trópicos, aborrecido com o sol infernal e que, saudoso de sua terra, escreve diante de um freezer aberto e com o ar condicionado ligado no máximo. Sim, a obra em questão tem algo de gélido, mesmo quando fala de verão e primavera; assim como nela tudo é noite, mesmo que brilhe o sol. Dessa assimetria falarei mais adiante.


Seria, por acaso, uma tradução? Suspeitá-lo-ia o leitor que já tenha passado pelo ciclo de Scardanelli de Hoelderlin ou simplesmente aquele que leu o posfácio do autor, em que ele explica que se limitou a emular tão-somente “o metro, o ritmo e as rimas dos originais”. Isso, sim, que é originalidade. O resto é conversa.


Não se trata de um mero paradoxo. Segundo escreve Carlos Felipe Moisés no belo ensaio “Para quê poetas?”, que acompanha O livro de Scardanelli, a verdadeira identidade do poeta alemão, numa rara demonstração de loucura, é enterrada sob este curioso pseudônimo à italiana. Já na emulação feita por Érico Nogueira, mais uma vez com Felipe Moisés, há uma tentativa de recuperação dessa identidade.


Nessa emulação, o autor resgata a tradição da imitação que praticamente se findou com o apego desesperado aos direitos autorais, o que certamente tenha coincidido com o advento da indústria do livro. Talvez Manuel Bandeira seja uma exceção se levarmos em conta os seus “À maneira de”. Fora isso, temos as famosas imitações de Homero por Virgílio, as de Petrarca por Camões, as de Camões por Góngora, as de Quevedo por Gregório de Matos, ou seja: entre os melhores estavam aqueles que melhor imitavam. Imitação essa que estava muito longe daquela empreendida por um escritor inventado por Borges, cujo “Don Quijote” reproduzia exatamente o texto de Cervantes, mas teve sua originalidade garantida por tê-lo escrito no século XX. A imitação de que aqui se fala é antes de tudo intimidade com a arquitetura dos poemas originais, é procurar realizar determinada forma tão bem quanto aquela que inspira essa imitação. Quanto às motivações da emulação aqui estudada, veremos mais adiante.



Horácio esteve aqui

"Se as cores se fundiram em verde-musgo," (Hora Média, Livro de Horas)

"As folhas já se foram há certo tempo,
há certo frio rochoso nas escarpas," (Vésperas, Livro de Horas)

"(...) O tédio
me faz seguir a tortuosa rota
da mesma água para foz ignota
em vez de atravessar um vau inédito
que acaba onde se quer. Mereço crédito?" (Soneto 5, Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama)

"A terra limpa e arada,
o vento encurvando as oliveiras," (Dois hálitos, Cadernos de Exercícios)


Os versos acima são alguns dos belos exemplos d’O livro de Scardanelli, constituído por 72 poemas que se distribuem em três partes: “Livro de horas”, 23 poemas compostos segundo a pauta determinada pelos que formam o ciclo Scardanelli, de Hoelderlin; “Cancioneiro Inglês ou de Sandra Gama”, uma seqüência de 24 sonetos em que uma linguagem, digamos, mais contemporânea - sem contar os registros lingüísticos mais clássicos também -, encontra maior adequação numa forma muito característica da tradição inglesa, que é justamente o soneto inglês; e, por fim, as formas mais variadas (do soneto, passando por formas em que mais predomina a quantidade da poesia greco-latina que o metro silábico do português, até a oitava camoniana) dão o tom de “Cadernos de Exercícios”, justificando dessa forma o seu nome. Mas os exemplos supracitados não foram escolhidos pela sua beleza, e sim por força de um aspecto que une as três partes de que esta obra é constituída: sua limpidez geométrica. Como se vê também pelo colorido bucólico de muitas dessas composições, estamos diante de uma obra neoclássica concebida em pleno século XXI.


A opção por uma referência pretérita, por sua vez, fundamentada em outra ainda mais remota, que é a poesia greco-latina clássica, não se explica pela vaidade erudita, “there is a method on it”. A escolha neoclassicista é antes de tudo tática, pois é uma forma de expressão, digamos, tão geométrica quanto a loucura. (Antes de prosseguir, não quero dar a entender que os renascentistas e os neoclássicos eram loucos, mas com certeza os loucos são renascentistas ou neoclássicos...)


Não estranhe o leitor essa consideração, pois nada tão organizado quanto a mente de um louco, que odeia as coisas fora de lugar; mais ainda, a assimetria perturba-o à exasperação. A loucura não é simplesmente uma desordem mental ou uma forma de desarticulação espiritual. É a pretensão de impor uma ordem ou uma forma justamente onde estas não se manifestam, pelo menos não do modo esperado. É o desejo de que tudo se encaixe, de que tudo se explique, enfim, é um desejo tão solar quanto desesperado de simetria. Quando, porém, a realidade se revela “desajustada”, nada resta senão criar um mundo harmônico, dotado de uma perfeição geométrica, onde tudo funcione, ou, quiçá, idealizar uma época em que tudo era bom, em que os campos eram mais verdejantes, quando o homem e a natureza davam-se as mãos. Esse aspecto da loucura como sede de simetria é a grande sacada de O livro de Scardanelli, de Érico Nogueira, em que um verdadeiro inferno espiritual habita formas harmoniosas e versos tão límpidos quanto os rios à beira dos quais descansam cabras e pastores.


Se a tranqüilidade dos pastores romanos parecia genuína, a dos renascentistas parece calculada, e esse cálculo parece atingir seu ápice na produção dos poetas neoclássicos, de modo que os pastores e suas cabras, a despeito da qualidade de sua poesia, mais lembram criaturas saídas de uma incubadora que de uma natureza suja, hostil e fugidia. Como não se lembrar de Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga? Marília, assim como Sandra Gama, da segunda parte do livro de Érico Nogueira, dá a impressão de ser algo próximo de uma sombra mental, como nos ilustra o autor no seu 22º soneto, quebrando assim, como nos lembra Felipe Moisés, a expectativa sensualista do leitor. E como não se lembrar de O mundo como idéia, de Bruno Tolentino, a quem, não por acaso, o livro é dedicado? O que é essa geometria obsessiva senão o inferno que Tolentino tão bem traduziu na imagem de “um puro palácio aritmético”?


Curiosamente, o "Cancioneiro Inglês", pouco importa se deliberadamente ou não, e a despeito de seu aspecto farsesco, é o Marília de Dirceu de nossa época: tanto em um como em outro há um sujeito que, num processo de interiorização, - e entre várias elucubrações - rumina o nome de uma mulher cuja existência parece mais criação de uma mente solitária que um fato concreto. Acontece que no "Cancioneiro Inglês", principalmente a partir do 18º soneto, a confusão se estabelece e a loucura parece atingir o paroxismo: ora a existência de Sandra Gama é carnalizada e a presença do amante se abstratiza, ora é a presença dela que se anula e o amante recupera a sua, ora ambos somem de uma vez:

"Por isso não conheço com quem lido:
pois de mim mesmo sou desconhecido." (soneto 19)


Fernando Pessoa compreendeu tão bem (para não dizer dolorosamente) o fenômeno do desespero geométrico que se poderia dizer que seu heterônimo mais angustiado é Ricardo Reis, precisamente um poeta horaciano neoclássico. Se a expectativa da morte ou de uma constrangedora decepção e a certeza da contingência se interpõem entre ele e sua Lídia (“desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos”), a destemida voz que procura atingir os sentidos de Frederico ou a que predomina no "Caderno de Exercícios" manda esse pudor às favas:

"Quando passou, então, por essas frutas,
a água não molhou – ficaram, pois, enxutas,
sem que um teu dente ao menos as marcasse;
aonde a água ia que o justificasse?" (Hora Média)

"pensar e não comer, que idéia louca." (As pêras de Diana)

Ou seja, o que poderíamos chamar de convenção de escola acabou servindo ao propósito de, a um só tempo, garantir-lhe a permanência e discutir, com seus próprios termos, o que subjaz a essa convenção.


Essa assimetria, sombriamente introduzida com o verso “A hora lúcida de cara dupla”, do poema "Visão", o primeiro do livro, é o que também percebemos em todo "Livro de horas", onde se conta a história de dois seres condenados a não se encontrarem, daí que a voz dirigida a Frederico só seja ouvida pelo leitor. Ela nunca chega ao que deveria ser o principal interessado. Curiosamente, a “cara dupla” da referida “hora lúcida”, que é o leitmotiv da obra, tem algo de “a pair of star-cross’d”, que é o leitmotiv de Romeu e Julieta presente no soneto que serve de prólogo à peça – aliás, um casal presa de uma paixão às escuras por conta da inimizade entre suas famílias e cujo amor, numa trágica manifestação de assimetria que parece se opor à realização de um desejo, fora comprometido pela artimanha por meio da qual esperavam consumar esse amor de maneira plena.


A “cara dupla”, a assimetria, a falta de convergência entre objetivos, mais ainda, a presença de objetivo em um e a falta total de objetivo em outro explicam uma evolução notada na voz que fala, mas não naquele a quem ela se dirige. Além disso, a natureza toda parece brincar em torno de uma figura tão paralisada quanto a que se apresenta em um quadro de natureza morta:

"Um lume chega – ou vem do alto, ou vem de baixo,
a treva, devagar, expele um novo dia;
sorriem bocas, mas num outro pasto,
que neste não há boca que sorria." (Dilúculo)


Afinal, o que esperar de alguém cuja mente é um universo paralelo com o qual não se consegue estabelecer um contato genuíno? É o que parece acontecer também na Balada do cárcere, do já citado Bruno Tolentino, onde uma voz fala de um encarcerado conhecido como Numeropata (“Era o 212/voltava a cara ou as costas/ se alguém o chamava Ambrose”) ou a ele se dirige (“Dorme, Minotauro, mouro/ da mais amarga Veneza...”). Por outro lado, apesar de em ambas as obras haver uma tentativa de resgate de uma identidade perdida no imenso palácio da loucura, há um abismo que as separa: numa, há uma voz luciferina-epicurista que procura – pela apropriação da estrutura poética alheia que é a do próprio Hoelderlin, e assim penetrando no seu delírio - despertar uma consciência recolhida com uma solução, como diria o apóstolo Paulo, “segundo a carne” (“por isso goza, Frederico, a parte/ que do todo puder a tua arte.”); noutra, uma voz que procura aproximar o encarcerado da revelação, ainda que seja por caminhos tortuosos e surpreendentes (“É cavalgando a besta/ que a alma depara o criador”). Esse tortuoso caminho que conduz à revelação também está presente em As horas de Katharina, do mesmo Bruno Tolentino: “Porque se fácil fora abandoná-lo,/que difícil o ofício de voltar!/Com que dedicação há que escalar,/ para habitá-lo, os graus desse castelo.”


O que estas obras têm em comum com O livro de Scardanelli é a clausura: a prisão propriamente dita n’ A balada do Cárcere e a cela de um convento, n’As horas de Katharina. Há, porém mais do que isso para irmaná-las: no caso da Balada, Ambrose é também presa da loucura que se configura, por sua vez, na sede de simetria, a tal ponto que só atendia àqueles que o chamavam pelo número, “passara a ser algarismos”. Katharina, mais afortunada, já que podia contar com a lucidez, por outro lado parecia não perceber que Aquele por Quem tanto procurava e por Quem se sentia abandonada estava ao seu lado o tempo inteiro: “Fechei os olhos então,/fiz como ela [a andorinha] e fui eu,/eu mesma minha prisão.” Em ambas há a presença de quem está de fora e procura despertar aquele que se encontra recluso: Ambrose pode contar com a generosidade de seu colega de prisão, ainda que esta não seja percebida, e Katharina com o próprio Deus que lhe apresenta sinais o tempo inteiro. Porém, enquanto nessas obras as atormentadas personagens podem contar com um Virgílio, por sua vez sob os auspícios de uma Beatriz, para guiá-las pelo inferno até chegar ao Paraíso, Frederico é constantemente abordado por uma voz que procura apontar um caminho inverso: “daquela funda treva não se sabe/ como voltar, a altura não se anela” (Glosa de Mote Alheio).


A comparação acima levanta as seguintes interrogações: seria O livro de Scardanelli um antípoda da obra de Bruno Tolentino? Seria, por isso, uma reação luciferina contra o esforço de resistir ao “mundo como idéia”? De certa forma, pode-se afirmar que sim. A diferença moral entre as duas vozes é mais que evidente, e elas repetem num outro plano a famosa tentação no deserto de que falam os Evangelhos. Por outro lado, não seria imprudente afirmar o imoralismo da primeira face ao objetivismo moral da segunda? Por que, antes, não observar que o objetivismo moral de uma não ressalta, numa comparação como a empreendida no parágrafo anterior, o evidente imoralismo da outra? Lembremo-nos, afinal, de que a voz que se dirige ao pobre Ambrose, a qual ocupa a primeira e a terceira partes d’A balada do cárcere, é uma voz, dir-se-ia, direta, facilmente identificada com a voz do próprio Tolentino, em nada distante de sua particular visão de mundo, ainda que não abra mão, é claro, da ficção literária; ao passo que n’O livro de Scardanelli Érico Nogueira abdica de sua própria voz com o fito de abrir espaço para a voz de um esteta donjuanesco, tendo concebido, assim, uma personagem bastante convincente, o que (e encerrando aqui a comparação entre os dois poetas) na Balada só acontece na segunda parte, em que o autor se ausenta para deixar falar o Numeropata.


Essa tensão de ser e não ser, do existir e não existir e, enfim, de desencontros tão reais quanto alucinantes, é levada às últimas conseqüências no "Cancioneiro Inglês", como já vimos. O curioso é que Frederico, assim como Sandra Gama, é uma personagem da qual não conseguimos visualizar um rosto ou um gesto, mas com cuja ausência nos esbarramos sempre. É alguém que parece não termos visto mais gordo e, como diria a voz presente no "Cancioneiro", “que, por isso, me entalou na porta.”


Essa tensão adquire um contorno ainda mais doloroso no décimo terceiro soneto, o qual reproduzo na íntegra:

"A morta que deflagro, a mesma estátua
semi-sorrindo a um mesmo cemitério,
indiferente e fria como a prata,
ensangüentada e morta com o ferro,
ouvi-a, quando o vento estava quieto,
falar na concha, que tem voz de nácar:
'Ó marinheiro, que no sal asséptico
mergulhas e afias tua faca,
era mancha de sangue que polias,
era ferro manchado que salgavas,
que me deixou com as feições tão frias
de ensangüentada prata, sem ressalvas?'
Entre o poema e ela, eu o escolhi;
ganhei um tema, porque o mais perdi."

Deparamo-nos aqui com um drama que se elabora em bem construídas – e por isso mesmo naturais - rimas toantes (estátua/prata, cemitério/ferro; nácar/faca, quieto/asséptico) e numa impressionante plasticidade que muito bem diz da feição pétrea que se confirma numa condenatória permanência em certo lugar: “A morta que deflagro, a mesma estátua/ semi-sorrindo a um mesmo cemitério”; ou que reproduz a voz de quem, qual num pesadelo eterno, ou não se consegue fazer ouvir, ou, quando isso ocorre, soa como se vinda das profundezas: “ouvi-a, quando o vento estava quieto,/ falar na concha, que tem voz de nácar”.


Esse poema dramático, mais precisamente os dísticos que o encerram, remete a uma história segundo a qual Camões, em meio a um naufrágio, teria preferido levar Os Lusíadas a nado em detrimento de sua amante indiana que se afogava, compondo depois em sua homenagem o famoso: “Alma minha gentil que te partiste/ tão cedo desta vida descontente”. Pouco se sabe da veracidade do ocorrido, mas factual ou não, não se lhe pode negar o caráter exemplar: se nos outros sonetos que compõem a série do “Cancioneiro Inglês” a musa pode ser um mero delírio, no presente caso há um “agravamento moral” na medida em que o outro é visto como um possível obstáculo à realização artística, tendo por isso que ser ou eliminado ou reduzido a um modelo, ou senão as duas coisas ao mesmo tempo: “Entre o poema e ela, eu o escolhi;/ganhei um tema, porque o mais perdi.”


O aspecto mais assustador disso tudo é que não ocorre a romântica “salvação pela arte”, mas tão-somente “a salvação da arte”, a se traduzir no sonho de se construir uma cidade para habitá-la de estátuas em vez de gente (“apenas, entre alguém e seu retrato,/para meu dano, preteri alguém.” Soneto 16); um imenso museu, em que a perfeição geométrica manifesta nos mármores minuciosamente cinzelados não seja perturbada pela imprevisibilidade dos movimentos ou pela velhice ou pela morte que não pode existir porque a vida é algo ausente.


Encerrando nossa incursão no interior dessa grande criação literária como que saída de uma mente enferma, qual o papel do "Caderno de exercícios" nessa metódica loucura? De que modo essa terceira parte com ar de “outros poemas” participa dessa unidade? Carlos Felipe Moisés vem a nosso socorro dizendo que o Caderno de exercícios é “a matriz de onde tudo proveio”. A essa observação acrescentaria algo: “exercício” é, entre outras coisas, – e a julgar pela notável variedade formal – a busca incessante de um método. Logo, esse caderno é o método de que vai se servir essa loucura.