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terça-feira, 31 de agosto de 2010

UM DIÁLOGO COM PABLO NERUDA...


Eurótico de Gabriel Fereira, Betume da Judéia e carvão sobre tela (40x30 cm), 2007.





Desnuda eres tan simple como una de tus manos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tienes líneas de luna, caminos de manzana,
desnuda eres delgada como el trigo desnudo.



Desnuda eres azul como la noche en Cuba,
tienes enredaderas y estrellas en el pelo,
desnuda eres enorme y amarilla
como el verano en una iglesia de oro.



Desnuda eres pequeña como una de tus uñas,
curva, sutil, rosada hasta que nace el día
y te metes en el subterráneo del mundo



como en un largo túnel de trajes y trabajos:
tu claridad se apaga, se viste, se deshoja
y otra vez vuelve a ser una mano desnuda.




* * *



Nua, és como os frutos contra o vento,

o contrair impuro de teus músculos,

como a transpiração das tuas flores,

vela chorando só em meio as preces...


És como um dispersar de velhas missas,

espaços partilhados pela ausência,

a sensação pesada, o Fogo Eterno,

és a falta, o princípio, o musgo, a fera...


Nua és como as frestas e as janelas,

as marcas de meus dentes em teu seio,

a certeza insensata das promessas...


És a busca e a descida a toda fonte,

o vento repetido em toda parte,

minha dor, minha paz e meu reflexo.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

UM SONETO PARA MIHAI EMINESCU...


Lúcifer por Mihaly Zichy (1887).




LÚCIFER
SOBRE UM POEMA DE MIHAI EMINESCU
POR SILVÉRIO DUQUE




à Cristina Nicoleta Mănescu, por sua história.













Sobrou de toda mágoa – e destas ânsias –
este anjo cujos olhos renasciam
entre os vôos que, nas asas, se insurgiam
por entre os céus sem fim e sem distâncias.

Ele girou em torno de seu rosto
num estertor de infinito que o nutria,
e, na manhã reescrita que o seguia,
vi a rosácea inconsútil de um sol-posto.

O anjo, de asas de sombra e luz que medra,
deixou seu nome em tudo quanto existe,
por ser, entre as estrelas, a mais triste.

Tudo que o anjo quis, perdeu na queda...
O ardor pelo que morre e o rosto terno
de alguém que se cansou de amar o Eterno.