Mostrando postagens com marcador baladas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador baladas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A BALADA DE INÊS...


Súplica de Inês de Castro de Vieira Portuense. Óleo sobre tela (165X275); Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.








– Verás, amada minha
tuas mãos terminadas em segredo
sobre um peito de sopros findos
e então sentirás dentro de ti uma completude
como as folhas que mortas deixam nua aquela essência de vida
que as árvores nos trazem sobre os galhos
secos e escuros, como a carne que à terra volta
pois é da terra a carne, como do vento
a nuvem e sua possível imagem.



Também verás
os teus olhos fechados em repouso
e, na noite escura dos desejos sólidos
velar teu sono, com mil olhos claros
o coração que sofre de amor e de saudade e
que um dia, em tarde clara disse-te em segredo
“Amo-te!”, como ama em segredo, ao sentimento, a Sabedoria
pois é do mar o cais e a imensidão
que amedronta e também encanta.

Nesse momento, amada minha
quando fechada sobre um leito de duras sombras
combinadas: a dor, a ausência e a distância
na noite imensa de teu coração tão quieto
verás o meu Amor refeito em sonho leve
e toda a realidade te parecerá vazia,
como um Céu que um dia olhaste sem ternura e sem verdade...







sábado, 10 de julho de 2010

BALADAS PICTÓRICAS: A POESIA VISTA PELOS PINCÉIS DE GABRIEL FERREIRA


Viagem, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.


Balada para Enone, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.


Aportes da serra de Tanquinho, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

A eterna imanência, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

Balada para Cecília, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

Balada para Hilda, técnica mista sobre papelão paraná (80 x 100 cm), 2005.

Já tive a oportunidade - aliás, várias - de falar do trabalho artístico de Gabriel Ferreira, mas não disse o quanto me enche de orgulho o facto de eu, ou melhor, meu trabalho de poeta, servir como uma rica fonte de inspiração para o trabalho deste artista excepcional... Há alguns dias, em seu Blogger, Gabriel Ferreira deu testemunho desta inspirção, através da publicação de alguns trabalhos inspirados em meu primeiro livro. Todo primeiro livro é o primeiro livro: ingênuo, às vezes, cheio de melhoras a se fazer, carregado com "as pernas dos outros"... mas se serve de inspiração para um trabalho tão bom, este poeta esteja exigindo demais de si...?! Bem!, segue, na íntegra, as palavras de Gabriel... acima, os trabalhos inpirados em alguns poemas do livro e, claro, o link para o Blogger de Gabriel Ferreira:



"Mesmo após 5 anos do seu lançamento e o autor ter publicado um novo livro em 2010, Baladas e Outros Aportes de Viagem, do poeta e amigo, Silvério Duque continua fazendo sucesso. O referido livro é a segunda obra literária do autor e o primeiro que eu tive a satisfação de ilustrar a capa. As ilustrações que se seguem são inspiradas em poemas daquele livro, as quais participaram dos seus lançamentos. São trabalhos de muita responsabilidade, pois, para além da exigência do Duque (o qual é o principal crítico da minha obra), eles marcam uma ascendência salutar em minha vida de artista, pois foram bastante apreciados pelo artista plástico Pirulito e pelo saudoso poeta Damário Dacruz na ocasião do 1º lançamento no Museu de Arte Contemporânea-MAC em Feira de Santana-BA, 2005. Escutei elogios dessas duas grandes personalidades do Recôncavo Baiano e, deveras, senti-me um pouco mais artista. Baladas e Outros Aportes de Viagem é um livro bastante inspirador, pois, traz experiências interessantes do Duque em suas andanças como professor, "menino tanquinhense" e amor de uma mulher. Faço esse retrospécto para que muitas outras pessoas venham a conhecer as coisas boas da literatura que me servem de mote para pintar. Conhecer de perto a dedicação do "Capitão do Mato" Silvério Duque e sua doação à poesia é penetrar em seu universo de versos decassílabos e sonetos verdadeiros; cada linha que ele desenha é um recital aprazível. Acima estão as fotografias das obras que releem e tentam refazer visualmente a poesia que existe em lugar importante na história".







terça-feira, 19 de janeiro de 2010

UM POEMA...

Imagem de Antônio Brasileiro (2005), Óleo sobre tela, 50x60



BALADA PARA A MORTE


ou IMPROVISO HERÁLDICO ANTE AS SOBRAS DO BANQUETE ILÚDICO
( em ocasião do 60º aniversário do poeta Antônio Brasileiro )




( Suavemente,
a noite nos envolve indecifrável...
fugindo de sua obrigação de negar-nos
a grande sombra desce,
mas todos se amontoam nosilêncio e no medo
de sermos tantos.


Amontoamo-nos
no indecifrável espaço do torpor
e parecemos um só homem espalhado pela escuridão imensa...
nessa sombra que somos
nos perdemos...
porém,
sobra nas retinas o que fomos
e
presa à garganta
tudo
o que queríamos.



A noite...
sim, a noite...
a noite nos embrulhou com ódio,
e toda a noite enraivecida é a grande
verdade
que buscávamos,
uma deslavada verdade
que todos contam entre nós:
era dos nossos sonhos que ela vinha;
de nossa realidade ela se criava;
amadureceu em nosso egoísmo;
modificou-se por nossa angústia;
em nós...
em todos nós
espatifou-se,
neste momento que ainda corre:
e todos somos um
nesses pedaços de tantas coisas
únicas;
tantas vontades
a serem sempre as mesmas;
tantas fomes iguais
de tudo.


Esta noite nos uniu em nada...,
mastigou
o humano
que tínhamos engolido,
despojou-nos
neste leito de escuridão em que deitamos;
enraizou-nos
neste princípio de coisa alguma
impedido-nos
a aurora.








2.a



A noite está
inquieta
como um homem morto –toda a noite
é um tumulto –
é toda um coração que bate e vai morrer e o sabe...

A noite
sorveu a paciência
destes banquetes; deu ao tempo
propósitos que não tinha;
a noite
deu propósitos a tudo:
à nossa morte,
ao nosso odor de morte,
à nossa inquietude de estar dentro
da
morte,
ao nosso esquecimento
de sermos
morte...
a noite
humanizou a terra superior dos cemitérios;
tornou fundamental
a nossa poesia dispersa;
apagou-nos
da manhã
que não
viria.








2.b



A noite
deu-nos um mistério em nosso nascimento;
e nenhum dia será mais claro do que esta noite
e os dias que virão de dentro dela.



A noite assombrosa de nosso desejo
é toda uma mística certeza que nunca tivemos.


– Existimos
dentro desta noite como
nunca existimos
antes. )








3

UM APÓLOGO:



“ Ó amigos, ó coisas inexatas...
filhos das feras que moravam em nós:
esta noite tudo ficará retido sob o chão
destas mentiras tão puras;
a manhã se foi sem ternura
e sem a simplicidade
que os amanheceres
nos trazem.



Ó irmãos,
crianças maliciosas que fomos,
a manhã se foi escura
porque nunca verdadeiramente houve
uma manhã mais clara.

A perfeição,
irmãos,
reside nesta escuridão que este não-dia nos trouxe.
Nada vimos,
porque nada queríamos ver.
Nada evocamos,
pois sempre fomos esta mesma ausência.
Nada construímos sobre esta imensa mão ruidosa,
porque toda a nossa poesia foi um truque.
E nenhuma lágrima rolará,
pois nunca existiu em nós a alegria
para que, então, experimentemos a tristeza
de sermos tantos e tão sozinhos.



Nada, amigos...
nada...
nada será,
porque nada foi.



Tudo
apenas é:
e tudo é noite...
tudo é simples,
vasta e absoluta noite.

Somente
noite.”