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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

DA CRÍTICA EM "ESQUECIDOS & SUPERESTIMADOS" DE RODRIGO GURGEL...

Quem se volta contra a tradição acaba de um modo ou de outro se contaminando com o que dela há de pior, com a sua caricatura. E nesse complexo de Adão, os abusos formalistas, mais a crescente desfiguração da linguagem, com a posterior bênção acadêmica e sua formulação em decretos educacionais, criaram o isolamento do escritor que primeiro se ressentia de sua marginalização e depois a tornou numa ética - com licença da rima - de sua estética. Contra uma prosa que se pretende literatura porque se afasta do chão comum de cada dia é que se insurge, em continuação ao Muita retórica - Pouca literatura, Rodrigo Gurgel, que denunciou a cumplicidade da própria crítica literária nesse vício. Rodrigo Gurgel, diga-se, não escreveu esta obra com o intuito ranzinza de resgatar autores desconhecidos contra os escritores que se tornaram celebridades, o que seria outra forma de manifestar a sanha de originalidade dos modernistas, sob disfarce de arqueologia crítica. Está se falando, sim - pautado em princípios pedagógicos e de independência crítica, sem as comodidades ideológicas -, de ter curiosidade por saber o que foi produzido, de querer saber o que realmente diz o texto. - Jessé de Almeida Primo (Trechos do Prefácio, 'Literatura e verdade')

ESQUECIDOS E SUPERESTIMADOS










Da arte de admirar

ou a dignidade da crítica em Esquecidos & Superestimados de Rodrigo Gurgel

(por Silvério Duque)

ao professor e amigo Bel Pires,
esta sugestão de leituras.

...sente-se bem que cada um
traz a sua alma.
MANUEL BANDEIRA





Férias... Finalmente as férias... Professores gostam muito mais de férias do que qualquer aluno; e usam-nas das melhores e diversas formas possíveis – que não me cabe aqui discutir. Eu, particularmente, gosto de usá-las, entre tantas outras coisas, para pôr em dias as leituras pendentes; não àquelas, técnicas e obrigatórias de nossa profissão, mas as prazerosas, dedicadas, simplesmente, ao nosso bem estar mental e intelectivo. Na dianteira destas minhas leituras, encontrara-se o livro Esquecidos & Superestimados (Vide Editorial, 2014), do amigo e crítico literário Rodrigo Gurgel, o qual sorvo, alegre e compulsivamente.


Permitam-me, no entanto, caros amigos, antes de começarmos nossa conversa, uma – digamos – “simbólica” confissão: não gosto e, praticamente, não leio crítica literária. As exceções são as mínimas possíveis, e, como haveria de ser, é resultado de uma triagem que vem se reduzindo e se exigindo cada vez mais ao longo de anos. Não quero – por favor, não me entendam mal – que pensem em mim como um desses artistas repletos de vaidade extrema e orgulho vazio, incapazes de suportar quaisquer análises negativas ao seu trabalho, por mais didáticas e verdadeiras que lhes possam parecer. Poderia dizer que a culpa é de Rilke e seus conselhos a todo e qualquer jovem poeta, mas, além de mentiroso, estaria a dar a esta situação uma força e um colorido poético que não lhe caberiam, por várias razões...


A verdade é que boa parte da crítica literária que li, principalmente a brasileira, sempre me pareceu uma conversa de clubinho, onde afetação e ataques de mau humor somavam-se, na grande maioria das vezes, a uma completa má vontade de pensar, conhecer e sentir a respeito do que se estava, supostamente, analisando. Foi justamente com a crítica da crítica – assim é como eu gosto de me referir – que esta minha visão começou a mudar. Foi em épocas da famosa polêmica entre Bruno Tolentino e a rodinha de ciranda dos Irmãos Campos, onde as cortinas do teatro de fantoches da crítica brasileira começaram a cair escandalosamente – graças, em grande parte, pela atitude quase solitária do autor de O mundo como ideia e A imitação do amanhecer – que tudo aquilo que eu pensava a respeito de nossos críticos, bem como tudo aquilo que eu esperava deles, começava a desabotoar-se à luz de uma polêmica. Mais tarde, conheci a obra do professor Olavo de Carvalho, que elevou tal crítica não só ao campo de nossa filosofia, mas a toda nossa cultura: tanto Tolentino quanto Olavo me fizeram ver que o nosso problema não era “o da miséria que tínhamos ou criamos” – como era o fato de me fazerem acreditar que, no Brasil, não havia filósofos e, se os havia, eram chamados, assim, indivíduos do nível intelectual do senhor Leandro Konder ou a senhorita Márcia Tiburi, ou que Mário de Andrade, bem como Paulo Leminski, podiam ser chamados poetas –, mas da “riqueza que perdíamos ou desprezávamos”, como bem, certa vez, afirmou Arnaldo Jabor a respeito de João Cabral de Melo Neto.


Foi daí, também, que, através deles, e de meu amigo Jessé de Almeida Primo (que, aliás, prefacia o livro), que comecei a conhecer o que de melhor a crítica literária podia me dar, através de nomes como Carpeaux, Merquior, César Leal (o crítico e depois o poeta), Manuel Bandeira (não só o poeta, mas o crítico), os amigos e mestres Ildásio Tavares e Henrique Wagner; últimos herdeiros de um tempo onde crítica literária era formada por pessoas realmente compromissadas com a literatura e suas muitas maneiras de falar de uma única verdade, e não essa que está aí: entregue ao academicismo corporativista de professores medíocres que, imbuídos principalmente de um discurso esquerdista, não almejam menos que criar diferentes maneiras de não se fazer ou dizer algo realmente interessante.


A crítica literária, principalmente aquela que fui obrigado a ler na Universidade, e que serve de base para os livros didáticos que chegam às mãos de milhões de vítimas de uma educação miserável que impera em nosso país é, em sua maioria, uma variação de jargões técnicos institucionalizados, e para que uma seleção criteriosa seja substituída pelo simples papo furado ou, quando não, pelos tapinhas nas costas de algum amiguinho que, utilizando-se da máquina institucional, garantirá seu futuro salarial em uma de nossas Universidades. O resultado disso tudo não poderia ser pior àquele que se vê por aí, nos livros didáticos, nas críticas de jornal, nos ensaios especializados e tutti quanti, a fazerem de nossa literatura uma coleção grotesca de arquétipos reducionistas que mais atrapalham do que ajudam na compreensão do trabalho de um autor.


Não obstante, é justamente nadando contra essa maré de estereótipos e amarras ideológicas, que o trabalho de Rodrigo Gurgel, em Esquecidos & Superestimados, faz-se notório; quando ele nos lembra, por exemplo, que para lermos Euclides da Cunha, e seu Os Sertões­ – mas, se fosse pensar de igual maneira, em termos de poesia, bem se podia aplicar tal fórmula a um Augusto dos Anjos e seu Eu, por exemplo –, devemos esquecer coisas tão caras à maioria de nossos críticos, professores e demais artífices de teses de doutorado, como a linguagem científica e o conteúdo extremamente analítico, e nos ater ao valor estilístico, à força narrativa e à prevalência da fantasia em detrimento ao realismo determinista que parece predominar em toda a extensão de Os Sertões, mas que, por sua vez, servir-nos-á apenas à acentuação do poder ficcional de uma das obras fundamentais de nossa cultura... É quando, por exemplo, em Esquecidos & Superestimados, Rodrigo Gurgel nos admoesta:

“Um dos trechos mais belos e instigantes de OsSertões é ‘Higrômetros singulares’, no qual Euclides nos apresenta a ‘secura da atmosfera’, na região de Canudos, por meio de uma cena perturbadora. O leitor acaba de enfrentar as páginas inicias de ‘A Terra’, primeira parte do livro, e encontra-se dividido entre abandonar o volume ou seguir em frente. É a reação natural de quem, não sendo geólogo, pergunta-se o que significam, por exemplo, ‘assomadas gnáissicas caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares’”.

e reitera:
“Ele percebe, graças a seu instinto panglossiano e à euforia, a relativa beleza de dizer que: ‘pelas abas dos cerros, que tumultuam em roda – restos de velhíssimas chapadas corroídas – se derramam ora em alinhamentos relembrando velhos caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajes fraturadas, delatando idênticas violências’. Mas questiona-se se poderá suportar a descrição de ‘cristais de feldspato’, ‘estratos de talcoxisto’, ‘formações silurianas’, ‘cachopos de quartizito’ e quejandos. Nesse momento quando suas vísceras começam a gemer, salva-o da escuridão o narrador, abraçado à tarefa de explicar as características climáticas, mudando subitamente a inflexão da voz para tornar-se íntimo, lírico: ‘percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de uma canhoneiro frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeirosvirentes viçando em tufos intermeados de palmatorias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado de uma arvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina’”.  

retoma:

“Nesse cenário idílico, no qual ‘icozeirosvirentes viçando em tufos intermeados de palmatorias de flores rutilantes’ explodem não só graças ao brilho que ofusca, mas a aliteração da frase, um soldado ‘descansava... havia três meses’. A antinomia dos elementos seduz. Passadas dezenas de páginas em que o linguajar técnico enfastiava, no centro do jardim luxuriante surge o morto: ‘Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido’”.

e, finalmente, arremata:

“A cena, trágica, tem uma beleza que atordoa. Ali está o defunto, protegido pela longa sombra do sol poente, ‘braços largamente abertos, face volvida par os céus’. Euclides acrescenta um comentário enternecedor: ‘o destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante [...]’. E prolonga nossa pena por meio de uma sugestiva amplificação: ‘[...] e deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...’. As linhas finais servem não só à comprovação científica da ‘secura extrema dos ares’, mas acrescenta caráter filosófico ao texto. O narrador contrapõe uma nota de enlevo à sua constatação, lacônica e aguda, colocada em três travessões, sobre o fim da matéria, como se a degradação invulgar daquele corpo pudesse fugir à lei universal...”


É importantíssimo deixar bem claro que o trabalho que Gurgel desenvolve em seu livro não é o de ressuscitar velhos e obscuros autores pelo simples fato de estarem mortos e obscurecidos, até porque há autores que merecem estar mortos ou longe do clube dos cânones, incluindo autores que, infelizmente, não comungam de tal situação, mas, como bem acentuou Jessé de Almeida Primo no prefácio de Esquecidos & Superestimados, o critério de Gurgel é chamar nossa atenção à relevância que muitas obras ditas obscuras têm para conosco e com a literatura brasileira, e não o seu grau maior ou menor de obscuridade. Além do mais, ao escolher autores do início do século, Rodrigo Gurgel nos convoca a um ponto de vista bastante delicado, pois estes autores se encontram no limiar da cultura brasileira; entre seu auge e o início de sua decadência.


Se Rodrigo Gurgel atém-se à análise de nomes completamente desconhecidos da maioria dos leitores brasileiros (incluindo os professores universitários), e malogrados pela crítica literária de nosso Brasil varonil, como Lindolfo Rocha, Carlos Laet e mesmo Simões Lopes Neto, devemos nos atentar para o fato de ele também trabalhar com nomes notórios de nossas letras: Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Lima Barreto, Coelho Neto e Monteiro Lobato... vítimas de uma crítica incapaz, desmesurada e excessivamente laudatória que mais distancia do que aproxima os leitores e alunos de literatura da real essência de seus trabalhos, impedindo muitos leitores de ouvir aquilo que o texto tem a dizer, pois como o próprio Gurgel nos diz em determinado momento de seu livro, é preciso deixar que o texto fale, assim, divido muitíssimo que, depois de se aventurarem pelos 18 capítulos desse livro, pelas 18 obras nele analisadas, nenhum leitor de Esquecidos & Superestimados que, conferindo não só dignidade ao que analisa, mas como analisa, não se sinta arrebatado suficientemente por uma crítica séria e apaixonada  aponto de logo querer mergulhar de novo nas páginas de um Negrinha, de nosso mestre Lobato, ou nas quase desconhecidas paragens de Maria Dusá, de Lindolfo Rocha.


O que quero deixar bem claro, aqui, caros amigos, é que o autor de Esquecidos & Superestimados nos dá uma singela, amostra do papel de uma crítica literária realmente verdadeira. Singela, porém, precisa, pois, se é crítica, deve-se prezar pela independência, menosprezar as ideologias e a preguiça intelectual, e, acima de tudo, querer saber tudo aquilo de que realmente fala o texto. Rodrigo Gurgel, por fim, chama-nos a atenção para trechos como esses, encontrados na monumental obra euclidiana, nos quais, segundo ele, a fantasia estraçalha as amarras do ensaio histórico e da linguagem cientificista, justificando a leitura de Os Sertões:

“E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservado em traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra daquela arvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível”.

ou da força inigualável de uma continuidade persuasiva, repleta de força poética, onde horror e beleza arrebatam o leitor de Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, como nessa descrição de uma grande cobra de fogo – da Boitatá – seu nascimento e fome:

“uma luzerna, um clarão sem chamas,... um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos...”


mas nos fala, também,da capacidade que a injustiçada, e, por assim dizer, quase esquecida, Júlia Lopes de Almeida tem em criar personagens com profundezas psicológicas memoráveis, onde gestos diálogos e ambiente mesclam-se como um só corpo essencial à vida da narrativa, sem deixar de perceber a fraqueza do discurso panfletário de sua autora, atrelado à repetição enfadonha de certos detalhes descritivos, lugares-comuns de sua época e muito presentes em A Falência; de como Lima Barreto, na prática, muitas vezes abandona sua “literatura militante” para se entregar à tragédia tanto literária quanto pessoal, num “sentimento de derrota” indelével em toda a sua obra; a lucidez e grandeza de Monteiro Lobato; da contemporaneidade presente em A todo transe, de Emmanuel Guimarães... Em tudo isso Rodrigo Gurgel nos presenteia com duas coisas bastante importantes: o poder de uma análise contundente, pois toda crítica que se prese é análise (onde a relevância das obras deve vir antes de quaisquer arroubos pessoais ou ideológicos, doa em quem doer... a começar pelo próprio crítico) e a total falta de pudor que, em hora certa, não se contem em elogiar, admirar, enaltecer e enlevar-se. E por quê? Porque a crítica literária deve ser digna; digna da obra que analisa e, consequentemente, digna de si mesma. Além do mais, é dever tanto do artista quanto do crítico um compromisso com a verdade; um bom exemplo disso está no capítulo 15 de Esquecidos & Superestimados, onde Rodrigo Gurgel analisa ninguém menos que o “corrosivo e sempre contemporâneo” Monteiro Lobato. Ao comentar uma de muitas besteiras ditas por Alfredo Bosi sobre o autor de Negrinha e Urupês, Gurgel é catedrático:

“Para a maioria de seus detratores, o artigo Paranoia ou mistificação? – a proposito da exposição de Anita Malfatti –, estigmatizou o escritor, transformando-o em um inimigo de tudo o que significa avanço na arte brasileira. Lido com atenção, o texto apresenta inclusive elogios à obra de Anita Malfatti, porém, aos criadores do senso comum não importa a verdade – interessa, sim, preservar certa posição a qualquer custo. Passam a valer, dessa forma, as versões que, reafirmando a voz geral, garantem aos incansáveis repetidores a aprovação do partido, a chancela dos iguais. O gregarismo cobra, sem dúvida, alto preço da inteligência”.


Acredito,caros amigos,que a critica é, de certa forma, uma espécie de arte de admirar; é pelo menos assim como a vejo ao ler os trabalhos de um Benjamim ou de um Northrop Frye, por exemplo... Se o crítico se refreia em admirar, em dizer o quanto está encantado por aquela obra ou mesmo aquele mero excerto, é como um enólogo que não gosta de vinho, um comerciante que não acredita em seu produto ou uma bela mulher que ignora sua própria beleza.Gurgel sabe que a busca do verdadeiro sentido de se escrever é a busca de quem realmente somos; não podemos fazer isso sem, antes, entregarmo-nos à paixão pelo que fazemos, buscamos e queremos – e eis-me aqui, utilizando-me, como Bilac, de palavras em tríades encadeadas, em maneira maçante e acumulativa.

Sendo assim, qual é o papel de uma crítica literária realmente verdadeira? O papel de uma crítica literária realmente verdadeira é o de ser uma fresta de luz sobre a obscuridade de um texto que nos exige mais do que somos capazes de a ele devolver, sem que percamos, todavia, a beleza e o fulgor de mistério que tal obscuridade nos oferta. A crítica literária que se faz em boa parte no Brasil é justamente o contrário disso: é uma crítica que, vendo o leitor perdido na obscuridade, não hesita em jogar sobre ele uma camada extra de breu e burrice – quando não, toneladas inteiras –, excedendo para falar de pouco ou se restringindo ao mínimo por não poder ou não ter que falar do muito. Mas, graças a Deus, temos mestres como o Rodrigo Gurgel a escrever obras como Esquecidos & Superestimados... Amém!






Candeias, 13 de dezembro (dia de Santa Luzia) de 2014.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

UMA MENSAGEM DE NATAL...

A Adoração dos Magos, de Giotto de Bordonni (1304-06) Afresco, 200 x 185 cm; Cappella Scrovegni, Pádua.







EU ACREDITO EM DEUS...


aos mestres: José Jerônimo de Moraes, Hilton Valeriano,
Jessé de Almeida Primo, Olavo de Carvalho e Elpídio Fonseca.

Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este eu, e não outro, é o que há de morrer? Sim. Mas reviver e ressuscitar à imortalidade. Mortal até ao pó, mas depois do pó, imortal. Quando considero na vida que se usa, acho que nem vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida, como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

PE. ANTÔNIO VIEIRA







Sim, eu acredito em Deus, e porque faria diferente? Com Deus existindo, já dizia um Riobaldo maduro e ponderado, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços...

Sempre que me deparo com um ateu – principalmente os mais exaltados em seus auto-enganos –, não me acode imagem mais elucidativa do que aquela utilizada por aquele jagunço-filósofo do livro do Guimarães Rosa: “meninos sem pernas e braços”. Pouco me importa se pareço radical, mas é só assim que consigo considerar o ateísmo: meninos desmembrados tentando rir. Para mim, o ateísmo é meramente um “problema de consciência”, muito mais que, necessariamente, uma formulação racional; é um aspecto trágico da essência humana – e, nesse sentido, sua maior tragédia –, fruto colhido diretamente da amargura, da culpa, da impossibilidade de aceitação e do desespero; sintomas muito comuns desta estranha doença do espírito que consiste em negar aquilo que nos completa, que nos livra de todos os abismos, de toda dor e das impossibilidades que nos trazem o vazio.

De Robert Burton, passando por Kierkegaard, e, culminando, em Constantin Noica e René Girard, essa enfermidade, e todo desespero por ela causado, é um prenúncio da morte em vida; uma mentira romantizada que faz com que os homens vivam, realmente, do ilusório, ou seja, do desejo por aquilo que deseja seu semelhante; ou pior: de desejar, no impossível, o inalcançável. Dessa forma, valeram-se, ao longo de séculos, todo tipo de ideia a buscar, como princípio, a negação do fato de que o homem é a mais excelsa das criaturas, o mais nobre de todos os seres. Negação que não me causa nenhum espanto, pois a substituição do Criador por outro deus menor e enganoso, a se valer das graças deste mesmo Criador desprezado, é o ponto de partida de todo paganismo e de toda ideologia ateísta; até porque, a visão grandiosa do homem não é fruto do Humanismo, ou do Iluminismo, muito menos do Comunismo ou de qualquer outra ideologia de nosso mundinho politicamente correto (se, realmente, existe algo de bom no Socialismo, por exemplo, é porque foi furtado do pensamento cristão). Sobre Marx, por exemplo, e seu legado, Eric Voegelin, em seu História das Idéias Políticas – com a ajuda da tradução de meu amigo Elpídio Fonseca –, avisa-nos sobre este apocalipse humano, ao afirmar que, “na raiz da ideia marxista, encontramos a doença espiritual, a revolta gnóstica”, por mais que não se diga muito a seu respeito; doença que mostra o que já observamos no caso de Comte e suas características, que, a seu turno, pertencem ao padrão mais amplo da “doença cientificista e anti-religiosa”. Para Voegelin, a alma de Marx está demoniacamente fechada à realidade transcendental, não conseguindo se desprender das dificuldades, retornando à liberdade do espírito e o ativismo gnóstico, graças à sua impotência espiritual, é a única saída que lhe resta. Advém daí, como afirmará Voegelin, a combinação característica de “impotência espiritual com  o desejo mundano de poder”, acarretando in a grandiose mysticism of Paracletic existence”. Eric Voegelin, então, sentencia: “and again we see the conflict with reason, almost literally in the same form as in Comte, in the dictatorial prohibition of metaphysical questions concerning the matrix of the universe, questions that might disturb the magic creation of a new world behind the prison walls of revolt”.

Marx, à maneira de Comte, não permite uma discussão racional de seus princípios – ou se é marxista ou se se põe em silêncio. O que sobra disso tudo é a mera correlação entre impotência espiritual e anti-racionalíssimo, ou, melhor dizendo, não se pode negar Deus e conservar a razão. E o que eu concluo disso tudo? Ora, se não há uma metafísica como Comte e Marx queriam que pensássemos, então, na há coisa nenhuma, porque tudo que nos rodeia é metafísica antes de ser qualquer coisa. E se há um Socialismo, um Antropocentrismo, ou coisa parecida, em sua verdade e plenitude, estes só podem advir do fato de o homem aceitar-se como uma criação do Divino, a mais poderosa obra de Deus, a maravilha entre as maravilhas da Criação. E mesmo que sejamos pó, resquício de estrelas ou coisa semelhante, como querem alguns, ainda assim somos “pó levantado” (como dissera Pe. Antônio Vieira) da ansiedade de si mesmo e do desejo de retornar ao seu Princípio. Negar tal coisa é transformar-se num autômato, em uma máquina ou um mero gorila morto no Congo a quem idiotas sem esperança choram como se fossem por seus entes mais queridos; é não dar sentido nenhum a sua vida; negar isso é negar a verdadeira natureza humana, e, pela melancolia e pelo desespero, condenar-se, vivo, a um inferno de incertezas através de um falso humo universalis, que não possui outra função senão destruir o Criador pelo desmantelamento de sua obra maior.

De Platão a Ortega y Gasset, a genuína grandeza do homem é trabalhar para a construção de uma sociedade justa, unida e vigorosa. Neste sentido, ninguém se entregou mais a esta construção do que Cristo... e isso é facto. Ou, como poetizara Bruno Tolentino, na voz de uma freira mal comportada:


O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

nem um clavicórdio
nos dedos da luz,
nem um monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamado Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

do teu coração:
de um lado teu medo
teu ódio, teu não;

do outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde teu degredo,

onde teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto
da ressurreição.


O resultado desta entrega a que Jesus tanto se dedicou foi nada mais nada menos que o Cristianismo (embora os não-cristãos sejam os que mais discordam disso, do mesmo modo que os não católicos são os que mais dão palpites sobre os dogmas da igreja ou sobre as palavras do Sumo Pontífice... C'est la vie!). As religiões sempre se puseram como o caminho dos homens rumo a Deus, mas não o Cristianismo; e nisso reside toda a sua sofisticação e superioridade ante todos os outros cultos: o Cristianismo, como defendera Hans Urs von Balthasar, é “Deus pondo-se a caminho dos homens”. Só no Cristianismo é que o homem tem a possibilidade de se tornar "coparticipante da Criação de Deus", e isso se dá, justamente, não nos atos de grandiosidade dos homens, mas se principia quando o Cristo, livre de milagres ou oratórias, oferece sua própria carne para que essa se uma à carne de cada homem; seu sangue para que este se una ao sangue de todos nós; seu Espírito para que sejamos um só espírito. A grandiosidade máxima de Deus está aí, fazer-se pequeno ao ponto de chegar ao nosso nível, de querer nossa colaboração nos rumos e destinos do Universo; é esse “o maior dos Milagres”, como dissera Nicolae Steinhardt, em seu O Diário da Felicidade.

Não é à toa que, de todos os credos existentes, nenhum é mais atacado do que o Cristianismo, porque nele reside o fim a que se destinam todas as possibilidades de grandeza do homem; e o homem não busca a plenitude no Cristianismo, ele a recebe, cuidando-a para que esta não lhe escape. Por isso mesmo, na construção de um mundo sem Deus, e, consequentemente, de virtudes frágeis, a rejeição deve ser feita à sua Criação; na substituição de Deus pela natureza, como modelo de perfeição, na negação do sentido da realidade histórica por meio do homem, que perde seu papel de sujeito do processo civilizacional, no descrédito do Cristianismo dentro do próprio Cristianismo, seja por “padres vermelhos” ou pedófilos de posse de batinas; em tudo isso reside a forma mais eficaz, usada tanto pelos iluministas, bem como pelos “comunas”, para matar Deus dentro do homem, que é a justificação e a racionalização do mal, do assassinato em nome da ideia: eis a blasfêmia máxima que se ramificou por quase três séculos e cresce até hoje.

E por que isso acontece...?! Ora, é muito mais interessante a um mundo, digamos,“prático e grosseiro”, que Deus não exista, porque, desta forma, a satisfação desmedida das paixões mais frívolas e baixas se faz mais simples e eficaz. A questão aqui vai além da formulação de uma incredulidade, pois não se trata disso; trata-se, simplesmente, do desejo de não querer que Deus exista porque, desta maneira, é mais cômodo esquecer a certeza de que Deus o condenará. É exatamente aqui que acredito ser o calcanhar de Aquiles de certas “minorias” que, ao se dizerem menosprezadas e discriminadas pela Igreja, ou mesmo pelas palavras do Livro Sagrado, chegam a assumir uma forte preocupação com os dogmas de uma religião que sequer professam ou mesmo a criar denominações religiosas a corrigir tais “falsas interpretações”, só para que suas consciências se sintam limpas, mas a sujeira sempre continuará ali, a criar aberrações, à maneira de certos indivíduos que preferem acreditar que certas condutas que eles mesmos escolheram para si são condutas lícitas porque no fundo sabem que estão em profundo erro e, consequentemente, tomados de indescritível culpa, pois poeira debaixo do tapete não é necessariamente uma limpeza decente. E é aqui, justamente quando levanto a questão para esta falta de caráter, em nome de certas frivolidades, que me recordo do personagem Camilo, do conto A Cartomante, de nosso Machado de Assis, um racional de araque que, não querendo negar seus instintos, crendo que, desta forma, negaria sua própria natureza humana, procura acreditar numa falta de fé que, convenientemente, ele julga ter, mas seu ateísmo é tão artificial como a vida mesquinha que ele chama de sua e que lhe parece tão verdadeira. Mas se não há imortalidade não há virtude; se não existem o bem e o mal, então, tudo é lícito.

Não querendo desvalorizar o nosso Bruxo do Cosme Velho, mas, apesar do bom exemplo retirado de A Cartomante, nenhum literato, em sua época, forneceu mais informações sobre as ideias destrutivas que fechariam o século XIX (e alimentariam o século XX), do que Dostoievsky. Ele, que se considerava “um filho da dúvida e da descrença”, mostrou a todos que quiserem ver, através de uma obra, até hoje, sem pares ou adversários à altura, que nada é mais belo, profundo e perfeito do que o Cristo. Para ele, a virtude é impossível sem a fé, e a existência de Deus se demonstra pelo simples fato de que a permissividade não é absoluta. Um bom exemplo disso está em um de seus personagens mais famosos e antagônicos: Rascolnikov. Como um dos primeiros símbolos de uma figura que o mundo contemporâneo aprendeu a temer na vida real e admirar no mundo da ficção, a do psicopata, o assassino de Crime e Castigo é o melhor exemplo que se conhece de um homem cingido entre a sua consciência e suas convicções filosóficas – um dos temas, mais caros, aliás, à obra dostoievskyana. Suas elucubrações sobre os limites para a moral nada mais são do que a busca incessante para dar razões ao assassinato em nome das ideias – algo muito comum ao Fascismo, ao Nazismo e ao Comunismo, diga-se. Essas “razões”, que Rascolnikov julga possuir, no entanto, só encontram força num mundo e numa realidade desprovidos da Divindade. Quando confrontados com a inabalável fé de uma Sônia Marmeladov – e, segundo Steinhardt, "nada nos confronta mais com a realidade do que a fé" – essas razões sequer se formulam.

Immanuel Kant que me perdoe, mas a nobreza moral é impossível sem Deus. Como a história de Crime e Castigo nos mostra, toda noção de nobreza se esfacela sem a noção da imortalidade; a moral, em um mundo niilista, é um elefante branco. E, mesmo que alguém seja criado em um ambiente desprovido de fé, ainda assim, ela permeia o mundo, faz-se incrustada em nossa cultura; para falar bem a verdade: crianças boas, por exemplo, não o são por acaso – e, de certa forma, o medo do Inferno pode ser um método pedagógico interessante e muito eficaz. E se, ainda assim, a crença no Eterno, por alguma razão, não garanta, realmente, a integridade moral de ninguém, o que fazer sem essa crença...? Basta qualquer um dar uma olhada em nosso mundo e ver os caminhos pelos quais ele está trilhando agora. Num mundo cada vez mais desvalorizador das coisas para além dele, em nome de um falso racionalismo, ou, pior ainda, mergulhado na mentira do relativismo, seria muita ousadia de minha parte defender tais ideias, no entanto, não pensar assim, acredito, é-me um retrocesso e, se tudo é permitido, como pensam e querem muitos, que diferença há entre nós e os macacos que disputam galhos de árvores na floresta? Se não podemos ser mais que chimpanzés, golfinhos ou qualquer outro bicho nós estamos tanto contra Deus, bem como contra Darwin. E é aqui, inclusive, que me recordo de Sto. Agostinho, que diz que o mal pode não existir como coisa, todavia, é o resultado daquilo que fica quando o bem não floresce. O próprio conceito de pecado é isso: quando aquilo que se esperou de alguém ou de algo não se completa. É triste pensar (e pior ainda ter a certeza) que o mundo, por negar-se ao mistério, está em pecado: é apenas a sombra daquilo que um dia se quis belo... Se não, olhem, por exemplo, para os caminhos que a arte e a literatura (até porque falar de arte e literatura são o propósito deste Blog existir, ainda) têm percorrido neste último fim de século. 

Ora, toda arte é necessidade de transbordamento. O poeta, por exemplo, é alguém que tem a missão de não se conter, é um possuidor daquela “sã loucura” comum aos santos e aos educadores por vocação: de fazer aquilo que deve ser feito; que se espera que seja feito, mas poucos, verdadeiramente, se propõem a fazê-lo. Sentimental ou racional, erudita ou popular, a arte é demonstração. Para a arte, mostrar é muito mais que argumentar: esta lógica sempre foi mais forte no mundo dos artistas, por isso que, em se tratando de arte, os fatos reais importam menos que a qualidade de como são contados. Mais que a verdade, para a arte, importa aquela subjetividade que existe em tudo que é verdadeiro em um nível mais profundo, seus valores e posições existenciais mais básicas. Não é à toa que a transmissão de um acontecimento, feito por meio de elementos artísticos, é muito mais forte e eficaz; quando não, mais verdadeiro. E se mostrar é mais importante que argumentar, não é de se estranhar que um espectador, por menos conhecedor que seja da história da arte ou dos mecanismos mais essenciais da crítica estética, passe mais tempo se deslumbrando sobre a imagem de Guerra e Paz, de Portinari, do que se convencendo de que há algum conteúdo ou valor estético nos herdeiros de Marcel Duchamp, por mais que mil livros ou “sabichões de cátedra” digam o contrário.

Não é de se condenar o modo como o público, por mais bem intencionado que seja e possa ir a uma bienal de arte contemporânea, relaciona-se com as obras ali expostas. Se o espectador, bem ou mal intencionado, estiver diante de uma exposição de arte renascentista, por exemplo, essa relação seria bem menos problemática, pois a fruição de seu entendimento dar-se-ia, naturalmente, melhor do que diante de uma exposição de Hélio Oiticica e, neste caso, o conhecimento profundo acerca da estética desse período não é condição de possibilidade para a apreciação das obras, mas a fruição decorrente de uma experiência estética que envolve pura contemplação... essa, sim, é importante. Isso porque os códigos que a envolvem tanto a sua produção quanto a sua avaliação são partilhados por todos os membros de uma determinada cultura, por envolverem, advertidamente ou não, um decoro ou cânones estéticos consagrados por uma tradição...

E o que isso tem que ver com o assunto de que há pouco falava...? Tudo. Porque, levando-se em conta tudo que disse sobre a arte como necessidade de transbordamento, e da importância daquela subjetividade que existe em tudo que é verdadeiro em um nível mais profundo, entre outras coisas, o elemento primordial da arte é Deus, pois, em princípio, foi para o Mistério e para o Divino que toda arte se fez; nela se encerram e se praticam, ainda, os elementos mais fundamentais de todas as religiões. Toda arte precisa de Deus, nem que seja para negá-lo. Essa necessidade pode ser vista tanto em um católico militante, como nestes Sonetos Gêmeos, de Jorge de Lima:


Se me vires inúmero, através
deste poema, entre as coisas e as criaturas,
como se eu próprio fosse o que outrem é,
dissipado nas páginas impuras,

arrebatado pelo próprio poema,
possesso, surpreendido, fragmentado,
travestido de herói ou de réu, em
quase todos os versos degredado,

negarás, meu irmão, a alma que vive
perdida na ansiedade de si mesma
sonhando a paz, querendo a paz; a paz

mas nas tormentas em que a paz revive
mas nos tormentos em que a paz se lesma
e se intumesce. Eu enlouqueço! Mas

até na álgida paz da insânia Deus
me busca para ser o seu convulsivo
a amado filho em torno de quem crês
morar a paz que Ele destina viva

a todo aquele que lhe faz perguntas.
Eis as respostas nessas vozes gêmeas,
deblaterando sobre o teu defunto,
sobre teu louco, sobre o teu recente

corpo hoje inda nascido e já julgado
e já descido, e já movido nesses
campos da morte, sob os passos, pássaros,

aos ventos indo, sob as noites gastas,
passos sobre as caliças, sob os gessos,
sob as bocas sem choro, em seus nadas.


Na Oração de um agnóstico, tal Alberto da Cunha Melo:

Senhor, nesta manhã de outubro,
ainda com o jeito de quem ia
reiniciar longa viagem,
meu poema chegou ao fim.

Agora todo meu trabalho
é procurar uma palavra
que te agradeça humildemente
todas as outras que me deste.

Entretanto, nem mesmo isso,
posso sozinho conseguir:
Dá-me, Senhor, essa palavra,
antes que chegue o último verso.

Que ela se espalhe como as brisas
dentro das minas, de repente,
e una-se sólida na hora
em que apertar a tua mão.

Quero morrer, quero alcançá-la,
e já começo a persegui-la
como se fosse uma serpente
que fugisse com minha morte.



ou mesmo na perplexidade de um ateu convicto, qual Carlos Drummond de Andrade, que, à casa de Deus, exclama:




Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.
Trouxeste-me a São Francisco
e me fazeis vosso escravo.

Não entrarei, senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
Vossas flores e querubins
são matéria de muito amar.

Mas entro e, senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
por que esta nova cilada?

Senhor, os púlpitos mudos
entretanto me sorriem.
Mais do que vossa igreja, esta
sabe a voz de me embalar.

Perdão, Senhor, por não amar-vos.


Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que perder esse elemento mágico é o primeiro passo em direção àquela decadência que se iniciou com o Renascimento e culminará com o vazio deixado pela herança de Andy Wahrol e seus seguidores. O pluralismo radical que toda arte possui faz com que o homem encontre-se com as suas necessidades espirituais, principalmente as da Beleza e as do Mistério – como foi desde o princípio –, mas quando o homem, desesperado pelo ateísmo, se vê num mundo de desespero e vazio, a arte não pode mais alcançá-lo e, com o tempo, também se destruirá, pois o universo criado pela arte é proporcional às nossas capacidades, por nascer de dentro delas. Num mundo onde a Beleza perdeu seu verdadeiro sentido, e nada se mostra para além da decadência, o que acham que a arte pode, de verdade, nos mostrar, além de uma lata de sopa ou de um rosto de mulher feito de lixo?! Quando algo verdadeiramente artístico não floresce, só nos resta a rejeição daquilo que um dia se quis belo – Viva a Sto. Agostinho e toda a sua clareza... E, se ainda me for permitido usar as palavras de outro, faço minhas as observações que meu amigo Elpídio Fonseca fez-me certa vez em ocasião da elaboração deste texto: “Algures Voegelin diz que a existência de Deus não é uma questão metafísica, mas é pré-metafísica, bastando, para reconhecê-la olhar para o mundo exterior e olhar para o passado e fazer as seguintes perguntas: este mundo aí fora, não fui eu que o criei, pois ele já existia antes de eu existir e continuará a existir mesmo depois de minha morte. Quem criou o mundo exterior? É um Mistério. Quanto a mim mesmo, tampouco fui eu que me criei, quem me criou foram meus pais, mas e quem criou meus pais? Meus avós. E meus avós? Meus bisavós? E meus bisavós? Meus trisavós, mas e quem criou o primeiro homem? Um Mistério. Esse, segundo Voegelin, é o mistério da existência, e chamemos a isso, Mistério, ou Deus, dá no mesmo. Não sabemos O que seja isso. Esse mistério é Deus”.



Diferentemente do que pensavam os iluministas do século XVIII, e os inúmeros herdeiros de suas ideias sem paz e sem raízes – todos empenhados em satirizar a religião e fazendo com que muitos pensassem que crer em Deus não pertença às discussões racionais –, ao mesmo tempo em que eles se entregavam a um mundo de aparências e sem alicerces, nada nos abre mais possibilidades do que a crença, nada nos dá mais resoluções do que a fé; sem Deus só existe acaso, todavia, não se pode contar com o acaso, pois o acaso não se explica, nem se faz crer. Sem Deus a vida é presa, aleijada, burra e sem estética. Desraigados da existência e da realidade em suas camadas mais profundas, os ateus são como aqueles “meninos sem pernas e braços” de que fala o protagonista de Grande Sertão: Veredas. Empenhados na formulação de um mundo onde a Eternidade não existe, o ateísmo – e os pensadores aos seus serviços –, na vida ou na arte, nada consegue além de criar anomalias, como aqueles meninos mutilados que se "acreditam" felizes.








Candeias/Feira de Santana, inverno de 2012.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

"QUE DEUS GUARDE MEU PAI"... CONSIDERAÇÕES DE JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO SOBRE UM DE MEUS POEMAS...




São Jerônimo de Antônio Peredas (1643), Óleo sobre tela, 105X84 cm, Museo del Prado, Madrid.













INDESEJADA DAS GENTES III:



OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE E OUTROS ATAVISMOS:



UMA ELEGIA EM BUSCA DO TÚMULO


DE MEU PAI, AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE





(Improviso)



– Quando soube de ti,


já eras morto;


nem nunca tive em mim palavra tua


que não me fora dada


de outra boca;


vives em mim como os santos


sobre as abóbadas de ouro


nestes antigos templos,


onde o amor é demais para tão


simples lembrança


mas reconheço em mim a trajetória secular,


a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência


mesmo sem nunca ter te visitado


os ossos,


ou


o teu rosto


nos retratos.









Este é o segundo poema do volume Ciranda de sombras, de Silvério Duque, ao qual faço um comentário e que também trata da morte e, de certa forma, de uma perda. Digo “de certa forma”, uma vez que, no primeiro caso, a perda é de entes queridos, com os quais houve uma intensa convivência e que foram todos, graças a um sentimento de vingança, mortos num curto espaço de tempo: um marido e todos os filhos. No presente caso, há algo como uma perda, mas de uma perda daquilo que nunca se teve e nem por isso perde sua importância.





É, por outra, uma forte presença de alguém que nunca foi visto. Para ser mais preciso, é a forte presença da história desse alguém, da sua memória(...nunca tive em mim palavra tua/ que não me fora dada/ de outra boca;), e de como essa memória se faz presente não apenas pelo esforço mental, mas se confunde com a personalidade mesma do filho que nunca conheceu o pai de quem herdou tal personalidade(mas reconheço em mim a trajetória secular,/ a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência/ mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos).





Lendo esse poema lembrei-me do primeiro verso de “Integração da noite” de Antônio Carlos de Brito e que estampa seu volume Palavra cerzida de 1967: “Meu neto prolonga meu filho”, e principalmente de um diálogo marcante entre o carrasco nazista, Maximilian Aue, com um judeu idoso: “Mon nom est Nahum ben Ibrahim, de Magaramkend dans la goubernatoria de Derbent. Pour les Russes, j'ai pris le nom de Chamiliev, en honneur du grand Chamil avec qui mon père s'est battu. Et toi, quel est ton nom? ”“Je m'appelle Maximilien. Je viens d'Allemagne.” – “Et qui était ton père ?” Je souris: “En quoi est-ce que mon père t'intéresse, vieillard ? ” – “Comment veux-tu que je sache à qui je m'adresse si je ne connais pas ton père?”





É uma passagem do memorável Les bienveillantes (As benevolentes) do escritor norte-americano Jonathan Littel. O velho judeu, seguindo a tradição do seu povo, apresenta-se por meio do seu passado, da sua história, mais ainda, da própria História simbolizada pelo seu pai e pelos seus feitos. Quanto ao jovem carrasco, diz apenas o primeiro nome, sem o sobrenome, seguido do local não propriamente de origem, mas a morada atual, Alemanha, quando na verdade nasceu na França. Diante de tão breve e pobre apresentação o velho pergunta como é possível conhecer o interlocutor sem antes lhe conhecer o pai.





Sem pai, sem substância. Eis o que deixam claro o diálogo e o poema de Silvério Duque.





O primeiro verso tem a qualidade de uma boa luta. Se realmente há a intenção de derrotar o adversário, que um golpe muito forte seja dado no primeiro instante para que não haja chance de reagir. Foi assim que David matou Golias, sobrepôs-se ao então rei Saul e garantiu seu futuro reinado.





Seguindo essa regra à risca, de primeira nos deparamos com “– Quando soube de ti,/ já eras morto”. Reparem que na verdade se trata de um único verso decassílabo que, para efeito de ênfase, foi reduzido a dois hemistíquios, e tanto a cesura como a quebra ocorrem exatamente no pronome, como se a partir desse ponto a morte tivesse se manifestado e desse modo mostrado quem foi por ela atingido. A mesma regra, a da quebra a partir da cesura, se aplica aos quarto e quinto versos(que não me fora dada/ de outra boca).





A força do primeiro verso se prolonga nos seguintes(vives em mim como os santos/ sobre as abóbadas de ouro/ nestes antigos templos,) e culminam no “onde o amor é demais para tão/ simples lembrança”. Ou seja, outro grande golpe e mais outros até o nocaute certeiro “mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos,/ ou/ o teu rosto/ nos retratos.” Mais uma vez uma quebra de um decassílabo, porém em fragmentos menores, como se desenhasse o olhar a percorrer demorada e atentamente cada ponto. Para cada verso, com exceção do antepenúltimo, uma palavra de valor substantivo e sempre referente à figura do pai, a saber, os seus “ossos”, o seu “rosto”, o qual pode ser visto nos seus “retratos”.





Esse decassílabo reduzido a quatro versos conclui ritmicamente o decassílabo que o antecede(mesmo sem nunca ter te visitado). Desse modo, e com o reforço das rimas assonantes (retratos/visitado), podemos dizer que o poema, na verdade, fecha com um belo dístico – camuflado em cinco versos –, como ocorre ou nos sonetos ingleses ou ao final das falas das personagens num drama:





mesmo sem nunca ter te visitado


os ossos, ou o teu rosto nos retratos



















Fonte: http://jesseprimo.blogspot.com/2011/04/indesejada-das-gentes-iiios-bens-de.html