quarta-feira, 31 de março de 2010

A CARNE DE MEUS VERSOS ou PATRICE DE MORAES - POETA


O poeta Patrice de Moraes




From Wrong to Wrong the exasperated spint
proceeds unless restored by that refining fire...
T.S. Eliot



Não há maior perigo para um pregador do que se ver traído em sua própria pudicícia. Em outras palavras, submeter-se àquela tentação que tanto abomina e, contra ela, tantas palavras de ordem vocifera. São Silvério, meu chará, entre o Cruel Belzário e o não menos ardiloso Vigílio, escolheu o martírio pela fome a aceitar a tentação. Longe de mim menosprezar o sacrifício do padroeiro de Ponza, mas hoje, é de tentação que pareço querer me alimentar.

Por que digo isso?

Por obrigar-me, mesmo que tardio e brevemente, a falar de um amigo e de seu trabalho. Obrigação que me é grata, prazerosa e segura; e que não me traz a desagradabilíssima sensação de estar prestando um favor, sem levar em conta as devidas qualidades do amigo. Foram as qualidades deste amigo – entre tantas, a literária – que, pelo contrário, o tornaram como tal.

E qual o problema?

Ser acusado de cair na mesma banalidade, autopiedade e bajulação em que se diluem a quase totalidade de nossa atual produção literária, principalmente por aqueles que, vendo-me falar das virtudes literárias de alguém que me é de um ciclo pessoal de amizades, fechem os olhos para as qualidades deste, como fecham para a inexistência de qualidades neles, e alardeiem por aí que o inquisidor se deixou cair em tentação e agora se apossa daquilo que melhor os identifica: seus pecados.

Como quem enxerga um ácaro sobre o cisco nos olhos do irmão, mas não enxergam, nem ouvem, um asno a rinchar frente as suas faces, baterão nos peitos impregnados de arrogância burra, e dirão: crucifica-o! Eu, no entanto, lhes direi: se disse algo de mal, dêem testemunho do mal, mas se lhes disse bem, porque me batem? Vão, e clamam cada um por seu Barrabás.

***


Falar de Patrice de Moraes é falar de um homem de extraordinário talento, cuja produção poética, segundo o dizer de Jessé de Almeida Primo, tranqüiliza a toda crítica “por não deixa-la em dúvida quanto à sua qualidade [Sic]”, não restando objeções ao seu domínio de um ofício de eleitos: a poesia.

Poesia sem medos: sem medo de mostrar suas influências, de apontar para as fontes de onde se embebera, seja uma poetisa grega, morta a mais de vinte e seis séculos ou um mineiro introspectivo, cuja derradeira herança foi um livro de versos eróticos; seja um poeta português que foi tantos ou um paraibano que não foi menos que único. Poesia sem medo de mostrar sem disfarces e subterfúgios ou de encontrar aquela liberdade presente nas formas fixas que só um grande poeta sabe dar e reconhecer. Sem medo de não se mostrar pessoal e sincera, sem perder a boa e velha veia fingidora. Sem medo de ser poesia pura e depurada. Poesia como poesia deve ser. E para ser possível obter algo assim faz-se necessário munir-se de três grandes e indispensáveis requisitos: o talento a disciplina e o amor ao que faz que a tudo obriga.

Quando me refiro a poesia de Patrice de Moraes, refiro-me a uma poesia que sempre se quer cinética, que pretende romper os limites da impressão simplória e alçar à consubstanciação da mais pura e didática alegoria, ou seja, uma poesia que substitui o abstrato pelo aparentemente concreto, ou, como melhor definiu Coleridge, citado por César Leal em seu Os cavaleiros de Júpiter, uma “transposição de noções abstratas para uma linguagem de cores”. Assim, cada poema de Patrice faz-se de imagens intencificadoras, dentro de um sistema que permite muito bem a isso; uma imagem representando um conceito ao qual se pretende, ou, simplesmente, comunicar, por meio de imagens puras e gradativas, o despertar dos sentidos, onde certas questões, como a do erotismo, são bem menos um assunto do que uma maneira de metaforizar, como nos dirá Jessé de Almeida Primo: “nesse sentido, sua poesia é tão erótica quanto toda poesia de qualidade deve ser, pouco importando seu assunto”. Mas é, evidentemente, o próprio poeta quem nos dá o melhor exemplo:

...Sentindo o mastro lhe beijar a vinha
e vagarosamente introduzir-se,
regia com a batuta da espinha

– num compasso de ardor a reproduzir-se –
os flexos movimentos circulares
da anca, finalmente a inserir-se

na orquestração direta desses ares
venosos, ambiciosos, compulsivos...,
que com os seus audazes serpentares

deliberadamente progressivos
alimentava a fome de ida e vinda
do amante – cada vez mais em agressivos

e impiedosos penetrares... Ainda
que um deles ameaçasse desistência,
a carne lhe diria: “Isso só finda

quando eu sentir a glória, a quintessência
do gozo pretendido desde o início!”(...)

(Patrice de Moraes, Predileção in Eurótico, Ed. Eros, 2005, p. 56-57)


Sem se importar em florear de prosaísmo a sua poesia no mesmo tempo que se mostra profundamente preocupado com o apuro formal e a cadência rítmica de seu poema, Patrice de Moraes não almeja a nada mais o que ser poeta, não representando nada mais do que uma etapa superior da poesia de um homem que domina inteiramente os mecanismos de expressão. Não restam dúvidas de que Patrice de Moraes pode planejar o poema e fazê-lo da maneira que ele bem entenda, mas sempre como um artista, como um criador, nunca como um artífice, um mero construtor, um simples “imendador” de artifícios. O mundo refletido em sua poesia é sempre um mundo real, um mundo que parece “saltar para a vida” ao invés de se afogar em ideais vazios, de uma simbologia que parece querer mais fugir as coisas do que a elas servir.

Esta penetração (palavra complicada para quem se arrisca a analisar um poeta do erotismo) que Patrice faz na realidade, é algo que é feito por todo grande escritor e o bardo conjacuipense não me parece uma exceção a isto; porém, é preciso lembrar que a grande obra poética é resultado das somas entre as generalidades abstratas do pensamento e a realidade concreta do mundo; se Patrice ficasse apenas numa destas coisas, sua obra estaria longe de ser considerada uma forma de arte; como consegue unir estas duas variantes em um mesmo processo e num resultado consistente, é poeta. Toda arte possui um mundo seu que não vem nem do mero mergulho na realidade circundante, nem se fazendo caricatura desta mesma realidade, mas de um mundo onde estas coisas se fundem e se anulam, à criação de algo com unidade entre o absoluto e o relativo. Estas coisa são tão óbvias, e tão fáceis de ver, que me angustia saber que muitos de nosso “poetas” contemporâneos passem, em sua teoria e prática, ao largo destes preceitos e que, para piorar, ainda encontrem bons poetas que atestem estas coisas tão inexistente neles, validando algo que, se muito for alguma coisa, é pura grosseria versada; e mal versada. Fico a me perguntar se, quando um bom poeta faz algo assim, se ele o faz por ultrapiedade ou por automasoquismo? Mas como nem tudo são flores, muito menos um roseiral, vamos em frente.

Jessé de Almeida Primo, na apresentação do livro Eurótico, de Patrice de Moraes, objetiva-se em dizer que os poemas de Patrice não são simples veículos de expressão sentimental ou de devaneios, cuja beleza é muito mais um acidente do que o resultado de uma elaboração, sendo esse um dos motivos pelos quais a maioria dos líricos têm vida curta, muito pelo contrário, são veículos de pensamento e meios pelos quais muitas coisas são ditas. Certamente, Patrice de Moraes não busca uma “palavra poética” vã, meramente ornamental, pois não há beleza que perdure no vazio, mas mostra-se determinado a alcançar aqueles que servem a um propósito, o mesmo que ficará depois de lido o poema, fechado o livro, recostada a cabeça. Por isso mesmo Patrice não parece temer o discurso, porque não pode cair num reino de abstrações puras, por isso sua poesia trás, mesmo carregada de lirismo, a força de um pensamento concreto e, assim, sua poesia se enche de um profundo “tom professoral” que, ainda segundo o Jessé Primo, traz, a obra de Patrice, uma idéia de “corporalidade”, como se verá no uso que o poeta de Conceição do Jacuípe faz da forma.

A forma nada mais é do que a elaboração interior de uma poesia, ela é o resultado final da idéia que um poema carrega, por isso, do contrário ao que muitos pensam, a forma não trabalha em causa próprio, mas é a idéia contida no poema que se adequará à rima, a métrica e ao ritmo. A freqüência com que a forma fixa, principalmente o soneto, a parece na obra de Patrice de Moraes, só vem a mostrar o quanto que o poeta procura seu entendimento e depuração, porque nenhuma espécie de poema em que se dividem os gêneros líricos exigem um auto nível de concretude e de pensamento reflexivo como exige o soneto, porque não há maior propriedade em um soneto que teor reflexivo, por maior que seja o lirismo que e ele carregue. Escrever um bom soneto não é fácil. Especialmente um soneto que se queira moderno, pois nenhum movimento, por incrível que possa parecer, habilitou e reabilitou o soneto como o Modernismo e, de lá, por diante. A natureza “moderna”, e, acima de tudo, a natureza poética, dos sonetos, como dos demais poemas de Patrice de Moraes, encontram-se implícitas nas questões existências que ele suscita, metaforizadas, na grande maioria das vezes, em seu erotismo:

Apresento-me para esta mulher
com meu e minha alma desnudados
para mostra-lhes os famélicos pecados
que esta carne insaciável tanto quer

Revelo minhas tendências animais
de lamber, de cheirar, de introduzir
os recursos que podem permitir
chover na zonas equatoriais

Convicta do que eu quero e do que eu faço,
convida-me a traçarmos um compasso
nas linhas da maior libertinagem...

Apaga do papel toda razão
fazendo-me chegar a conclusão
de usamos idêntica linguagem.

(Op. Cit. p. 19)


Como qualquer um perceberá, pelo menos os dotados da mais básica inteligência, que a obra de Patrice é dotada de uma grande qualidade, que vai da escolha dos temas a intimidade com a “mecânica dos versos”. A impressão que se tem ao ler seus poemas e de se está diante de uma tela repleta de cores e formas que vai ganhando movimento à proporção que se é olhada, ou melhor, lida. Sua poesia tem domínio lingüístico, onde conceitos se perdem e se acham, influências se revelam ou se disfarçam, formas podem ser usadas ou reinventadas, mas nunca se afasta daquilo que a torna verdadeiramente poesia. Sem dúvida, a sua lógica poética, como a lógica poética tout court é reinventar a realidade de onde tudo se origina, porque a vida é pouca; por isso precisamos de poetas, e de bons poetas, como Patrice de Moraes.

***

Quanto aos “escribas e fariseus, hipócritas!”, nada melhor para eles do que aproveitarem a apropriada ocasião da Semana Santa e ler o que a Bíblia diz, no versículo 14, do 23º capítulo do Evangelho segundo S. Matheus, a respeito deles.








Candeias/Feira de Santana, 28/31 de março de 2010.

segunda-feira, 29 de março de 2010

SARAU, BATE-PAPO LITERÁRIO, LANÇAMENTOS DE LIVROS E MUITO MAIS NO "VIVA A POESIA VIVA"...


O poeta Thiago de Melo, um dos homenageados no VIVA A POESIA VIVA desta próxima quarta-feira.

A Biblioteca Betty Coelho convida os amantes da poesia, para no dia 31 de março às 19 horas, no Espaço Cultural da Barroquinha, na Praça Castro Alves, a deleitaram-se com o evento VIVA A POESIA VIVA, em homenagem à poeta baiana Ametista Nunes, uma das criadoras do movimento Poetas na Praça.



Serão homenageados, também, o poeta amazonense Thiago de Mello e o poeta Manuel del Cabral, da República Dominicana.



O evento constará de uma exposição de livros, fotografias e e um recital com poemas dos homenageados, recitados pelos poetas Douglas de Almeida, Gilberto Teixeira, o cineasta Carlos Pronzato, o cordelista Alberto Oliveira, a diretora teatral Alda Valéria, o ator Franclin Rocha e a atriz Jeane Sánchez.



Esta edição do VIVA A POESIA VIVA será permeada por um bate papo com a poeta Ametista Nunes e alguns dos seus amigos e parceiros. Viva a Poesia Viva - Poetas de MarçoExposição de livros, fotografias, poemasRecital e leitura de poemas



Dia 31 de março, quarta-feira, às 19 horas, no Teatro Dias Gomes (Sind Comerciários)



Rua Francisco Ferraro nº 53, Nazaré- ao lado do Colégio Central



A entrada é franca.

sexta-feira, 26 de março de 2010

SARAU DE POESIA NESTE FIM DE SEMANA, EM SALVADOR... IMPERDÍVEL!



Sebo Praia dos Livros apresenta um grande Sarau Músico-Poético, neste sábado, dia 27 de março, às 20h. com André Sauaia (lançando seu novo disco: Violando Caminhos), com as participações dos músicos Otto Bruno e Arthur Gustavo e as intervenções poéticas de Ivan Maia e Bernardo Linhares.

Sebo Praia dos Livros fica Largo do Porto da Barra (ao lado do instituto Mauá),
Facílimo de encontrar... vá e divirta-se.
Eu vou!!!

quinta-feira, 18 de março de 2010

I ALSO THROW IN ANDY WARHOL... OU A NEFASTA ONIPRESENÇA


Andy Warhol (1928-1987)... Sua maior "obra de arte" foi ele mesmo.


A famosa lata de sopa Campbell’s... por que não uma de Quik?

Mao Tse-tung por Andy Warhol... baton e olhos pintados como uma "tia" louca: representação com conhecimento de causa.


Qual o artista mais representativo do século XX, caro leitor? Por mais complexa, e capciosa, que possa parecer, não seria algo difícil de responder se isso fosse perguntado à ávida turbamulta louca por uma câmera de TV, 15 segundos de fama e a chance irremediável de exercitar o seu achologismo.

Pablo Picasso, diriam alguns; Salvador Dali, afirmariam outros; Cândido Portinari, berrariam os mais nacionalistas... Todos os três geniais; os dois primeiros, além de grandes artistas, souberam fazer da auto-imagem um instrumento a mais de celebração e excentricidade; o segundo mais do que ninguém, foi símbolo de extravagância e talento. Porém, com a celebração do octogésimo aniversário, em 2008, que só agora me dou conta, e com a abertura a amostra Andy Warhol, Mr. América, com 170 obras de sua autoria, neste próximo dia 20 de janeiro, na Pinacoteca de São Paulo, não posso me esquecer de Andrew Warholam mundialmente conhecido pelo nome de Andy Warhol. Não pela sua genialidade ou por talento, coisas que, verdadeiramente, nunca teve, mas pelo fato de ter sido, entre os artistas do século XX, o que melhor entendeu que nada é mais importante no mundo do que a imagem, principalmente no mundo moderno, e a auto-imagem, mais do que qualquer outra, é o mais poderoso mecanismo de manipulação, tanto para a sua arte quanto para a sua autopromoção e, por isso, mesmo, tornou-se impossível olhar para a arte do século XX e não enxergar suas obras, por mais pífia que elas podem ser.

Andy Warhol, como o caríssimo leitor pode ver, não é o meu artista preferido – e não o seria nem se, infelizmente, ele fosse o último pintor na face da Terra, se vivo ainda estivesse –, e está a séculos-luz de ser o mais genial entre os mestres do século anterior, vivos ou mortos, verdadeiros ou falsos; aliás, concordo veementemente com o crítico da Times, Robert Hughes, que, em entrevista à revista Veja, afirmou que Warhol era do tipo que não tinha nada a dizer e não tinha dúvidas de que a sua reputação é a mais ridiculamente superestimada de todo o século passado.

Olhar para um quadro de Warhol é uma forma fácil para qualquer imbecil se sentir o mais superior dos homens; estar diante de suas obras é um convite a frases do tipo: “meu sobrinho, na quarta série, faria melhor” ou vou colar uma embalagem de Maizena numa tela, pô-la num museu e ficar famoso”. Então, por que me concentrar e escrever, mesmo que meras duas linhas, sobre ele e seu trabalho. A questão não é o que Warhol contribuiu de benéfico para a arte – que equivale a porra nenhuma –, e, sim, a contribuição malévola de seus trabalhos para com algo que ele nunca conseguiu compreender nos seus 58 anos de vida, embora estivesse sempre muito crente do contrário.


Nos anos de 1960, Andy Warhol daria a guinada fundamental em sua carreira de “artista plástico”, utilizando-se de motivos e conceitos da publicidade em suas obras, com o uso de cores fortes e brilhantes, reinventando a Pop Art com a reprodução mecânica de seus serigráficos, tematizando o cotidiano, edulcorados por artigos de consumo que, não raras vezes, são a única essência de todo o seu trabalho, como as reproduções de latas de sopa Campbell’s e das garrafas de Coca-cola. Numa época em que a produção artística torna-se, quase que totalmente, massificante, distribuída por mecanismos de produção em massa, seus quadros, representando figuras icônicas da Arte Clássica ao lado dos da Cultura Pop, como a Monalisa e os múltiplos rostos da Marilyn Monroe, e sua famosa e repetida frase – lema de todo reality show: “In the future, everyone will be famous for fifteen minutes”, podem parecer profecias, mas, na verdade, são prenúncios de um minuncioso trabalho, em grandecíssima escala, que visa não menos que a destruição dos conceitos e das categorias tradicionais do gosto, cujo resultado pode ser visto, nos dias de hoje, em qualquer campo artístico: quando qualquer toque de atabaques vale o mesmo ou mais do que um concerto de Chopin, ou uma macaca de chocolate é muito mais artístico, e menos pernóstico, do que um quadro de Ticiano.

Se o leitor acha que exagero, convido a ele, e a qualquer um, a fazer uma minuciosa pesquisa sobre as principais tendências que sobrelevavam nos Estados Unidos, no século XX, entre os anos 50 e 60. São duas: o Expressionismo Abstrato que, também não era lá grandes coisas, tendo Jackson Pollock como seu principal representante e a Pop Art, com Andy Warhol como seu ícone maior. O primeiro buscando, através de um traço sincero, a mais pura manifestação da subjetividade. O segundo, pela transformação “em arte” de objetos comuns do cotidiano, buscou nada mais do que a valorização dos aspectos superficiais do mundo. Siente destas coisas, quem se debruçou em fazer tal pesquisa – estando esse imbuído de sérias finalidades – só chegará a uma conclusão: a de que a única autenticidade de Andy Warhol foi ser um artista para os ineptos em matéria de arte, vendendo para estes mesmos ineptos, uma falsa ilusão de inteligência, elegância e realidade. E se ainda pareço exagerado, o livro Andy Warhol (Icons of América), do professor Arthur C. Danto para dizer a mesma coisa que digo... sem o apoio do Ph. D, no meu caso.

Para Andy Warhol, pessoas, eventos e produtos dependiam unicamente da exposição contínua, principalmente nos meios de comunicação de massa, assim, segundo ele, “existiam aos olhos do público”, que não precisava entender de arte ou de estilo ou, muito menos, de gosto, pois se estava o tempo todo na TV, por exemplo, é porque era bom, é porque era artístico e ninguém questionaria tal coisa; desta forma, Warhol formula a seguinte receita de sucesso, dividida em três partes.

Primeiro passo, usar um produto comum, sem quase nenhum, ou mesmo nenhum, truque formal ou técnica apurada a desafiar a menor das inteligências, dando a impressão de que a arte é algo frívolo, fácil e acessível à inteligência mais mínima, à prática, e, pelo menos em sua, digamos, “matéria-prima”, ao bolso, pois quem não pode comprar uma lata de feijoada enlatada? Uma garrafa de refrigerante? Uma foto de um símbolo sexual, facilmente encontrada em qualquer oficina mecânica?

Segundo passo, depois fazer uso deste produto em todos os meios de comunicação, principalmente quando estes “trabalhos artísticos” já são, de certo modo, partes destes meios, expondo-os e produzindo-os exaustivamente. Na era dos muitos reality shows e do YouTube isso faz mais do que sentido. O que não faz nenhum sentido é a arte, cuja função não é menor que tornar as coisas menos maçantes e dolorosas por serem o mundo e a vida pequenos demais para a enorme angústia que é fazer parte da Realidade, ser reduzida a um mero esboço daquilo que ela mesma, em sua essência e função, torna maior e mais bela. Desta forma, incapaz de alcançar a arte pelo talento, Warhol, como todo narcisista tomado de inveja e frustração, desdenha daquilo que sempre desejou e tinha ciência de que jamais o obteria.

Discípulo aplicado das monices artísticas de Duchamp, a vida de Andy Warhol não se limitou a retratar o mundo das celebridades, ele próprio foi a sua maior “criação artística”, e nisso se encontrava o seu terceiro e último passo para a sua receita malévola de destruição dos conceitos tradicionais e verdadeiros da Arte, do Gosto e da Estética. Com o ar petulante e ridículo, análogo àqueles coitados que, acabando de sair do Big Brother Brasil, acreditam ter vencido o mais rigoroso dos rituais de transcendência moral, filosófica e espiritual, Warhol sempre achou possuir o mundo aos seus pés. Gay assumidíssimo, narcisista compulsivo, adorava passear ao lado de celebridades, freqüentar festas e lugares badalados, com as mais extravagantes roupas e as mais despudoradas perucas – Lady Gaga, eis, aí, a tua Mãe! –, sem contar o fato de transformar a Factory, seu ateliê, em Nova York, na mais disputada boate da cidade e, depois de tudo, fazer deste carnaval a única e verdadeira forma de arte possível. Sua vaidade não diminuiu nem depois dos tiros que levou de uma feminista maluca – perdoem-me pelo pleonasmo –, chamada Valerie Solanas, fundadora, e única membro, da SCUM ( Society for Culting Up Men), literalmente: Sociedade para a castração de homens – mesmos os homens como Andy Warhol.

Ninguém é mais responsável pela auto-complacência e pela vulgaridade daquilo que se chama Arte Contemporânea ao que Warhol. Sua capacidade de destruir as coisas não se limitou às artes plásticas nem a sua pessoa, basta olhar, caro leitor, a fortíssima influência que suas “idéias” em outros campos artísticos. O Concretismo, por exemplo, nada mais é do que a versão Andy Warhol para a poesia... a cagada é a mesma: arrancar da Arte, seja ela plástica ou literária, a sua natureza mais íntima e essencial, substituindo-a por sua forma mais banal e caricata. Mas, de maneira geral, as palavras de Robert Hughes podem ser contestadas, pois Warhol está longe de ser superestimado, pelo menos por mim, porque, desde os anos 60, não há exemplo melhor do que ele para mostrar a quem quiser enxergar que não se deve subestimar o poder da Idiotice... principalmente quando se dá razão a um idiota.





Candeias, 18 de março de 2010.




ESTÃO DE VOLTA OS "ENCONTROS LITERÁRIOS DA ABL"




O mais interessante neste projeto é ver os próprios escritores falando de criação, da paixão pela poesia e entoando os seus proprios poemas... É imperdível!!!

quinta-feira, 11 de março de 2010

NÍVIA MARIA VASCONCELLOS "IN CONCERT"...


Grande recital de poemas com Nívia Maria Vasconcellos
No Cidade da Cultura: Rua H, n. 170, Conjunto João Paulo II, Feira de Santana-BA.
Dia 13 de março, sábado, às 20h.
Dizer mais o quê...?!

quinta-feira, 4 de março de 2010

ABERTAS AS ESCRIÇÕES PARA III OFICINA DE CIVILIZAÇÃO FRANCESA NO CUCA







Estão abertas as inscrições para a III Oficina de Civilização Francesa.

Inscrições até 12 de março.

Local: CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte)

Início: 15 de março às 19 h.

CONVITE: REABERTURA DAS TRABALHOS DA ACADEMIA FEIRENSE DE LETRAS COM SARAU E LANÇAMENTO DE LIVROS E CDS DE POESIA



Um grande Sarau marcará, dia 18 de março de 2010, próxima quinta-feira, no Centro de Cultura Amélio Amorim, a reabertura dos trabalhos da Academia Feirense de Letras, que será marcada pelo lançamento da Revista Acadêmica n. 4, lançamento dno novo CD de poetas feirenses, III; CD Poesia enquanto é tempo e declamação de poemas e cantorias. O anfitrião será o presidente Eduardo Kruschewsky, poeta e amigo.


Não deixem de ir!!!




segunda-feira, 1 de março de 2010

O HOMEM E SUA SÍNTESE: OU FELIZ ANIVERSÁRIO, FRÉDÉRIC CHOPIN ( 1º DE MARÇO DE 1810 – 17 DE OUTUBRO DE 1849)


Frédéric Chopin na visão de Ary Scheffer


A única fotografia conhecida de Chopin, feita por Louis-Auguste Bisson em 1849.


Uma vez ouvi de um estudante, aqui, do Curso de Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Feira de Santana, a seguinte afirmação: “Não gosto de Chopin”. Até aí tudo bem, gosto não se discute – se aprimora –, mas não pude conter a curiosidade e lhe perguntei: “Por quê?”. Antes não o tivesse feito, pois a resposta do infeliz só me fez ver, mais uma vez, o quanto de idiotice se pode facilmente encontrar e, pior ainda, produzir nas nossas Universidades: “Não gosto de Chopin porque ele é muito melancólico”. Após ouvir tão articulado rincho, tomei a atitude que melhor cabia a alguém com o mínimo de bom-senso, ou seja, repugnei-o, afastei-me, e, miudamente me recompondo, avaliando o que não perdera, segui vagaroso e de mãos pensas.

No que eu não podia acreditar era que a frase párvoa de um dos futuros professores de seus filhos, caro leitor, despertara-me algumas reflexões com respeito ao Gênio de Zelazowa Wola. Não que eu estivesse a filosofar sobre a chocolaridade do chocolate, como queria a despropositada afirmação de nosso futuro educador, mas não pude deixar de pensar que se há alguém capaz de sintetizar todas as qualidades do Romantismo e, ao mesmo tempo, seus piores defeitos este é Frédéric Chopin. Como as figuras mais tarimbadas que, comumente, conhecemos em nosso romantismo literário, tais como Castro Alves e Junqueira Freire, sua vida foi curta, ainda que tenha vivido um pouco mais do que os bardos baianos, mas intensa; triunfal, mas cheia de péssimos momentos; de sonhos não realizados, mas cheia de glória e reconhecimento.

Sem dúvidas, a figura de Chopin foi, ao longo de quase dois séculos, carregada de um sentimentalismo que lhe infundiu uma falsa fraqueza física facilmente desmontada se tomamos conhecimento de seu incansável trabalho como concertista e lhe consagrou como homem de profunda força moral e inigualável talento – no que se refere a este último, e à sua precocidade, somente Mozart lhe é análogo e, assim como Mozart, soube tirar grande proveito desta precocidade, como soube muito bem tirar proveito da imagem heróica com a qual chegou a Paris, em 1831, e como se aproveitou até mesmo da imagem de moribundo recluso quando a tuberculose atingiu a sua fase mais cruel, pois nunca se editou e vendeu tantas músicas, àquela época, como aconteceu às obras que Chopin produzia em seu exílio em Majorca.


Frédéric Chopin nasceu perto de Varsóvia, capital da Polônia, em 1º de março de 1810, filho de um francês imigrante com uma jovem pianista de tradicional família polonesa, não é à toa que Chopin se ligará à música desde muito menino. Foi com a mãe que, com apenas seis anos, teve as suas primeiras aulas de piano, que, logo, seriam assumidas pela batuta de Adalberg Zwyny, que lhe infundiria, o quanto antes, a música de Bach e de Mozart. Aos sete anos, viria sua primeira composição, uma polonaise. Aos oito, o primeiro concerto. Com dose anos, após tocar na Rússia dos Czares e para o grão-duque Constantino, Zwyny nada mais tem a lhe ensinar. O jovem Frédéric agora estuda num conservatório local com o maestro Josef Elsner que influenciaria tanto a sua visão de música quanto de mundo. Não demorou que o gênio precoce chegasse à Paris, centro artístico e intelectual do mundo àquela época, causando grande fervor e deslumbramento que muito pouco afetará a sua personalidade.



Chopin era conservador e ordenado e, à menor falta de elegância, incomodava-se verdadeiramente. Como em todo personagem romântico, as ideologias e os estilos mais antagônicos conviviam de igual para igual e, embora o Romantismo fosse um movimento de protesto apaixonado e burguês (em sua origem), Chopin sempre se viu como um aristocrata; era um burguês pobre, mas educado nos costumes aristocráticos; de alma aristocrática. Vivendo entre o sonho morto da Revolução Francesa e da próxima, que entusiasmaria outros românticos como Richard Wagner, a única revolução da qual Chopin se associaria foi àquela que ele fez ao piano. Nunca ninguém compôs tanto, e com tamanho afinco, para um instrumento em particular como o fez Chopin e, depois dele, só Rachmaninoff lhe é, de longe, comparável.



Um amigo violinista, certa feita, lamentava-se ao ouvir um noturno de Chopin, de não haver alguém que compusesse assim para o violino; ao que lhe retruquei: e Paganini? Ele me respondeu: “Paganini compunha para ele e não para o violino...” Confesso que não concordei, totalmente, com a afirmativa, mas o que ele me disse, graças a Deus, não era uma asneira...)



Se Chopin não se associa ao espírito revolucionário que é um dos pilares fundamentais do movimento romântico, abraça, como nenhum outro, os excessos sentimentais, o nacionalismo e o gosto pelo folclore, até então, de uma forma jamais vista. Com um senso de humor cáustico, extremamente orgulhoso, socialmente disciplinado, tuberculoso e de vida amorosa, digamos, exígua, Chopin é, bem à maneira dos românticos, alguém que precisa viver com intensidade para tudo que lhe seja crível, porém, pouco lhe oferece quando lhe é pedido e menos ainda recebe quando vê que nada é o bastante. Esse jogo antitético é tão presente em sua música que ora passeamos por uma doce e coerente melodia e, de repente, nos encontramos no meio de escalas e acordes que explodem sucessivamente ascendendo e descendendo numa fúria inexplicável e sincera, movendo-se apenas pela proliferação de diferentes sentimentos que cada nota expressa e desperta, como se pode notar na grande Polonaise brilhante, precedée d’un Andante Spianatto, em mi bemol maior, op. 22, e, seguidamente, na Balada nº1, em sol menor, op. 23... aliás, caro leitor, já assististe ao O Pianista de Ronan Polanski?

De fato, a vida amorosa de Chopin concentra-se e se resume a três mulheres, Costância Gladkowska, a quem ele dedicara a Romanza do Concerto para piano e orquestra em mi menor, op. 11; Maria Wodzinska, a quem oferece a famosa Valsa do adeus; George Sand (Aurora Dupin) a quem Chopin, à primeira vista, considera-a antipática, além de duvidar de quaisquer sinais de sua feminilidade. George Sand será seu grande amor e sua mais amarga sina; ela terá, em Chopin, uma forma de nutrir a sua “solicitude maternal”, segundo ela própria; ele terá, em George Sand, o mais próximo do que recorda ser uma família – coisa que não experimenta desde a sua partida da Polônia. A verdade é que esta relação fez bem a Chopin, e os nove anos que passam juntos são os mais felizes para o homem e os mais férteis para o compositor... Todavia, como nem tudo são flores, o período em Majorca são os mais propensos às suas hemoptises.



Se outro amor existiu na vida de Frédéric Chopin, este foi o mais duradouro; um casamento que o acompanhou até mesmo após a sua morte: o amor à Pátria. Clássico e romântico é o fato de Chopin ter carregado, por toda a sua estada em Paris uma caixinha com terra de sua amada Polônia; mesma terra que seria jogada em seu corpo durante suas exéquias, antes de ter coração arrancado e, segundo sua vontade, enterrado na Igreja da Santa Cruz, em Varsóvia. Em termos práticos, este amor a sua terra-natal produz uma música de devoção e saudade. Chopin, na infância, vivia perto do campo e, nesta atmosfera bucólica, manteve grande contato com o folclore polonês e com a música de cunho popular como as mazurkas, os obereks, os kajaviaks, as polonaises... Guardadas na memória, estas músicas lhe serão de inspiração para o resto de sua vida; só de polonaises escreverá dose ao longo de sua vida; elas estarão presentes, por exemplo, em sua primeira composição, uma Polonaise, em sol sustenido menor, e nas últimas, uma Polonaise fantasia, em dó menor, op. 61.

Não pensemos que Chopin fez com as polonaises uma mera transição destas manifestações populares, elas são criações de seu autor que, embora conserve e se apodere, até certo ponto, do caráter rítmico da dança popular, é na linguagem da música erudita que ele as molda. Sendo mais claro: não há dúvidas de que as lembranças de sua infância campestre e as canções e danças populares que a embalavam foram uma valiosa fonte de inspiração para toda a sua obra e talvez isso contribua consideravelmente para a famigerada “popularidade” de Frédéric Chopin entre tantos compositores clássicos, que se aliam, evidentemente, às belas e perfeitas melodias por ele criadas. Todavia, caro leitor, não é bom confundir as coisas, pois Chopin utiliza um folclore, em especial as polonaises, à sua maneira e dentro de uma linguagem típica da música erudita, com uma inspiração nascida de suas lembranças, criando, assim, um folclore pessoal e autêntico, de uma nova espécie, não uma imitação ou mera transcrição.



Desta forma, Chopin foi o pioneiro de uma forma de recriação, mais tarde, utilizada por mestres como Bartók, Kodaly, Smetana, Albeniz, Falla, Granados, Prokofiev, e, claro, Stravinsky, Villa-Lobos e Edino Krieg. Ora, vivemos numa época deformada pelo “politicamente correto” e, por isso mesmo, por uma moral e uma democracia deturpadas e estúpidas, com respeito a muitas coisas, inclusive à estética, que dilui as categorias tradicionais do gosto ao ponto de a dignidade alheia ser ofendida. Desta maneira, se é possível ouvir por aí que não existe diferença entre um samba-de-roda do Recôncavo baiano e uma Bachiana de Villa-Lobos e que, muito provavelmente, o primeiro contribua muito mais para a cultura e para a formação educacional de nosso país do que o segundo – não é à toa que, nas avaliações do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), estejamos sempre disputando o último lugar. Para piorar, toda uma linha de pensamento crítico-relativista, ligada aos movimentos sociais de esquerda (sempre os mesmos canalhas) tendem a interpretar o gosto estético refinado como um mecanismo de denominação ou como uma visão falsa e irracional sem sistemas ou provas, como teorizaram Pierre Bourdieu e Susan Sotang. Mas, a obra e o espírito aristocrático de Chopin são um dos muitos exemplos de que esta baboseira esquerdo-idealiasta não terá vida longa e nada significa ou significará diante dos já duzentos anos de grandeza que é a sua música.



Frédéric Chopin foi um inventor de gêneros – o primeiro de uma leva que atravessará todo o século XX – que, em vida, jamais se descobriu como tal e, talvez, nunca o quisesse, entretanto, soube se elevar a esta categoria como provam os seus muitos nuturnos, imprumptus, valsas e baladas. Quando ouvimos estas peças percebemos o quão era correta a frase de seu amigo Liszt, ao referir-se aos seus prelúndios: “a estrutura desta obra assemelha-se a de figuras geométricas perfeitamente desenhadas, nas quais todos os elementos estão em seu lugar exato e não há uma linha a mais se quer”.

Em verdade, toda a obra de Chopin é carregada de uma dramaticidade perfeitamente calculada, ora prezando por lugares comuns, intocáveis, como é o caso dos malabarismos rítmicos das polonaises, ora inovando em estilos há muito consagrados, como é o caso de suas valsas; Chopin, e, junto com ele, Schubert, elevará este gênero musical à categoria de obra de arte maior, transformando-a de uma música frívola e melancólica, até então, numa dança onde o virtuosismo se une ao ritmo alegre e cadenciado. Isso sem falar em seus noturnos... De toda a sua obra, são os noturnos as composições que melhor expressam a profusão de sentimentos existente em seu compositor. Segundo o crítico musical, Eduardo Ricón: “os noturnos são uma parte do sonho e refletem tudo o que existe de mais belo e inexplicável na arte e os que melhor traduzem os sentimentos do homem que foi Chopin, os que melhor descrevem os pensamentos que chegam com a obscuridade e se misturam com o medo: da morte, da doença, da miséria própria ou alheia, a piedade, o amor...”



Frédéric Chopin foi uma força única no meio artístico romântico, uma artista de uma personalidade tão singular que até o mais inapto ouvinte – mesmo aquele imbuído das tolices relativistas – é capaz de reconhecer, com total facilidade, as suas melodias. Por causa desta personalidade, seria impossível não existiram imitadores, e, menos ainda, uma influência que se fará sentir por toda a Europa na segunda metade do século XIX. Só para termos uma idéia, caríssimo leitor, de seu imenso prestígio e preponderância, podemos reconhecer traços de sua personalidade musical em nomes como Liszt, Scriabin, Tchaikovsky, Fauré, Debussy e, pela imensa dedicação que, também, deu ao piano, Rachmaninoff.

Uma personalidade tão imensa não poderia passar incólume diante de tantos detratores que, entre tantos despautérios, o acusariam, de excessivo, em seu romantismo, como se o próprio Romantismo não pedisse isso, e de elitista, como se houvesse algum problema em pertencer a uma elite, por causa de sua carreira e sua música se restringirem aos salões e aos bailes. Incapazes de perceberem o óbvio, graças as suas ideologias de ninharia, estes detratores não percebem que, assim como toda a sua obra, tal atitude por parte de Chopin é fruto de sua personalidade aristocrática, de sua elegância espiritual que o fazia desprezar toda frivolidade, grosseria e estupidez muito comuns numa Paris que tanto poderia ser o berço do bom-gosto como o de futilidades. Mas como fazer com que imbecis como Bourdieu e Sontag, e outros tantos que concordam com seus relativismos, entendam o que significa elegância de espírito se um dos melhores sinais desta elegância é refrear seus impulsos exibicionistas, típico de todo idiota narcisista, ao emitirem opiniões sobre assuntos que estão acima de sua competência e compreensão?

Alguém, aí, ainda acha Chopin melancólico...?!







Candeias, 1 de março de 2010

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

CUCA ABRE INSCRIÇÕES PARA VÁRIAS OFICINAS E CURSOS


CUCA (Centro Universitário de Cultura e Artes

Os interessados em participar das oficinas ministradas pelo Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca) devem estar atentos ao período de matrícula, que será feita entre fevereiro e março. As matrículas para Dança, Teatro e Oficinas de Educação Artística (OCA) serão efetivadas no período de 22 a 25 de deste mês para os alunos da casa. Já os alunos novos serão matriculados entre 1 e 4 de março.




Para o curso básico de Música, os alunos da casa deverão se matricular entre 22 a 26 deste mês, enquanto os novos, de 1 a 5 de março. A taxa é R$60,00, valendo para o trimestre. Os funcionários da UEFS estão isentos do pagamento da taxa, enquanto os estudantes pagam apenas R$ 30,00.



O Cuca oferece Oficinas de Criação Artística, incluindo Desenho de Observação, Cerâmica, Gravura, fotografia PXB e Fotografia colorida, Produção em vídeo, Pintura (iniciação e aprofundamento); Escultura, Arte para crianças, Cinema documental, Elaboração de projetos culturais e Escultura.




As oficinas de Dança incluem Balé Clássico 1, 2, 3, 4 e 5; Baby Class, Introdução à Dança, Jazz Dance, Dança de Salão, Dança do Ventre, Dança Tribal, Karatê e Yoga. Teatro: infantil, adolescente e adulto, Dramaturgia Corporal específica. Música: Violão popular, Teclado, Técnica Vocal, Bateria, Percussão, Metais (trompete e trombone).



Entre as atividades especiais estão o mini curso de Edição de Vídeos, com o aprendizado do software Adobe Premier, visando desenvolver as possibilidades para edição videográfica. Será finalizado com a edição de curta metragem. As atividades serão realizadas sempre às terças-feiras, das 19 às 22 horas, na sala de vídeo do Cuca, de 4 de abril a 25 de maio.




* * *




O CUCA,Centro Universitário de Cultura e Artes fica na rua Conselheiro Franco, n. 66, Feira de Santana - BA. E o telefone para contactos é: (0xx)75 3221-9766.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

PSICOLOGIA DO PRECIPÍCIO: J.D. SALINGER (1919-2010)


James Dean na famosa foto de Dennis Stock


J. D. Salinger (1919-2010) autor de O apanhador no campo de centeio


O "ator" Robert Pattison... num momento vampiresco

Numa famosa foto dos anos 50, James Dean, ícone maior da rebeldia daqueles anos tão peculiares, passeia sozinho por uma Times Square fria, chuvosa e, aparentemente, vazia. Dean morreria sete meses depois, na tenra e ultra-romântica idade de 24 anos, num acidente de carro – eh, e assim caminha a humanidade! –, entretanto, a maravilhosa imagem capitada pela lente aguçada de Dennis Stock, morto neste último dia 11 de janeiro (numa Florida nada ensolarada), tornar-se-ia a definitiva tradução, tanto de Dean quanto de toda uma geração que lhe era contemporânea, e, também, o imitava: o jovem belo, rico e famoso sufocado pelo mundo que o adora e o convoca aos abismos sucessivos que a vida abre à nossa frente. Outro exemplo de um jovem tragado pelo mundo que o cerca, encontra-se na emblemática e perturbadora figura de Holden Caufield, o desajustado adolescente que narra e protagoniza o romance O apanhador no Campo de Centeio, de Jerone David Salinger, falecido na quinta feira passada, dia 28 de janeiro, aos 91 anos de vida e mais de 50 de total e misteriosa auto-reclusão. Desconfiado da veracidade e autenticidade da autoridade adulta (Puta que pariu!, quantas rimas com ade) e, ao mesmo tempo, deslocado de seu espaço existencial – e, também, real –, Caufield é obrigado a abandonar a escola de elite onde estudava para aventurar-se numa New York incerta e perigosa, mas que lhe revelará as suas mais profundas angústias; típicas, aliás, de toda uma geração conhecida como “geração do Pós-Guerra”. Do já citado James Dean, ao existencialismo de Jean Paul Sartre, passando pela literatura de nossa Clarice Lispector, os anos 50 parecem refletir uma inquietude e uma revolta diante do mundo e do real aparentemente sem objetivos , que se apresentam numa sensação e num sentimento de náusea profunda, resultado da descrença nos valores, na sociedade e na própria crença, cuja origem, paradoxalmente, encontra-se na falta mesma destas coisas... Tal niilismo, aparentemente, é resultado, ou, pelo menos, fundamentado, nos horrores bélicos e ideológicos das décadas antecessoras, quando Nazismo, Fascismo e Comunismo espalhavam, juntos, sua sombra monstruosa pelo mundo a fora. Diferentemente aos vampiros de boa índole que levam nossos atuais adolescentes ao delírio e a um mundo de fantasia nostálgica e escapismo neoromântico quase sempre ridículos, o personagem criado por Salinger mergulha num mundo muitas vezes feio e cruel, mas realista, acima de tudo (não que a fantasia não tenha a sua importância, ou seja, meramente, descartável, pelo contrário; é a fantasia pura e simples que não nos levar a refletir nem assegurar uma visão mais cômoda das agruras da realidade que é o problema), pois quanto mais tentava fugir de seu mundo e de si mesmo, mais Holden Caufield mergulhava e, quase sempre, se afogava nele mesmo. Desta forma J. D. Salinger imprimiu o seu nome não só na Literatura Universal, mas em toda a cultura de seu tempo (coisa para poucos) ecoando, hodiernamente, tanto na forma como na linguagem e realidade de uma juventude que, ao contrário dos arrogantes adolescentes de nossos dias, não parecia se orgulhar de seus defeitos – muito menos endeusar os seus erros –, todavia, não conseguia ver, nas qualidades dos outros, um modo de suprir a sua falta de qualidades. Talvez o cigarro na boca e o olhar perdido não sejam o melhor exemplo, nem a melhor inspiração para nada – talvez para uma canção do Belchior...?! –, nem para ninguém, como quer a nossa sociedade politicamente correta e humanamente hipócrita... mas tanto a foto de James Dean quanto a história do jovem que sonhava em caçar garotos fujões em um campo de centeio, são, incontestavelmente, símbolos de tomada de beleza e vazio, mas que está melhor representada que a atual, que só tem a epiderme alumiada e os cabelos quimicamente eriçados do Robert Pattison... Que horror!!!

Feira de Santana, 4 de fevereiro de 2010.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

GRANDE SHOW COM PAULO AKENATON E GABRIEL FERREIRA NO CIDADE DA CULTURA



Dono de uma voz única e de uma técnica das mais apuradas, no violão, o cantor e premiado compositor Paulo Akenaton é uma parada obrigatória para quem gosta e quer ouvir o que de melhor nos oferece a Música Popular Brasileira.

Todo este peculiarismo pode ser confirmado, mais uma vez no show que Paulo Akenaton fará no Cidade da Cultura, neste sábado, às 21h00, que contará com a participação do artista plástico e também percussionista (a boa qualidade vale para ambos os ofícios) Gabriel Ferreira.

Lembrem-se, o Cidade da Cultura fica na rua H, n. 170, Conj. João Paulo II, em Feira de Santana.

O show ainda contará com a participação especial de Silvério Duque na gaita e no clarinete.


Não percam!!!



CONCURSO LITERÁRIO GODOFREDO FILHO: LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA




A comissão organizadora do Concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho parabeniza e agradece a todos os participantes do concurso por colaborarem para a produção literária feirense e prestigiarem com seus versos a cultura local.

A primeira edição do concurso foi realizada para valorizar e estimular a produção literária feirense. Com o apoio da universidade, os organizadores do concurso já estão confeccionando as antologias com os poemas classificados, bem como viabilizando novos apoios para conceber uma possível premiação em dinheiro. O evento de premiação será divulgado ampla e oportunamente, além de comunicado por e-mail a todos os classificados para a antologia – e somente neste dia se terá conhecimento dos três primeiros colocados.

Embora a intenção inicial fosse de publicar 30 poemas, a comissão julgadora pôde classificar apenas 17, pois este número foi o máximo permitido pela banca no tocante à qualidade das produções. Houve poemas que foram desclassificados, isto é, não avaliados pela comissão, devido a erros de natureza documental e faltas graves em relação ao regulamento, tais como: residência não-comprovada (para os não-feirenses), falta de documentos importantes, uso de nome pessoal ao invés de pseudônimo em locais indevidos; envelopes indevidamente preenchidos (com dados acrescentados que violavam regras do regulamento) e outros incidentes que não permitiram o envio do poema infrator à banca examinadora.

Integraram a banca examinadora:

José Jerônimo de Morais – Professor Emérito da Universidade Estadual de Feira de Santana. Formado em Filosofia e Teologia e ex-professor de Latim do Colégio Joselito Amorim e da UEFS, foi um dos fundadores da Universidade Estadual de Feira de Santana e se tornou um exemplo de dignidade por sua defesa do quadro humano das Universidades públicas e do ensino de qualidade na Bahia.

Miguel Almir Lima de Araújo – Doutor em Educação e professor da Universidade estadual de Feira de Santana. Tem experiência nas áreas de Filosofia, Educação, Cultura e Arte atuando principalmente nos seguintes temas: filosofia, educação, cultura, educação e cultura, arte e educação, linguagens regionais e transdisciplinaridade.

Roberval Alves Pereira – Doutor em Teoria e História Literária e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Teoria Literária. Atuando principalmente nos seguintes temas: Poesia, poesia lírica, poesia moderna, teoria da literatura.

Segue, abaixo, a lista dos classificados:

- Pr'uma aquarela à Carlos Pena Filho, Silvério Duque (Pseudônimo: Oséias Dias)
- A cova dos leões VII, Genaldo de Melo (Pseudônimo: Jorge Lenes)
- Ampulheta, Jacilene Marques Salomão (Pseudônimo: Lua)
- Carência, Maurício de Oliveira Santos (Pseudônimo: Maurício de Oliveira)
- Cáspides, Clarissa Moreira de Macedo (Pseudônimo: Clara)
- Conheço os Vestígios, Ronaldo dos Santos Paixão (Pseudônimo: Nal Marques)
- Do sujeito ao praticado, Erivaldo Oliveira de Araújo (Pseudônimo: sapatero)
- Geocorporificação, Weslley Moreira de Almeida (Pseudônimo: Lelow Dikens)
- Hoje, Tatiana Figuerêdo Assis (Pseudônimo: Névoa)
- Jogo, Thiago Lins da Silva (Pseudônimo: Hitch)
- Longa Metragem Poética, Daniel Pereira Pondé (Pseudônimo: Cláudio Tiapira)
- Metamorfose, Lidiane Carvalho Nunes (Pseudônimo: Charlotte)
- O Boêmio e o Poeta, Thiago Araújo Borges El-Chami (Pseudônimo: Le Chemin)
- Oráculo de Lupas, Dilson da Solidade Lima (Pseudônimo: Míria de Flores)
- Outono, Regina Celma D’Alencar Monteiro (Pseudônimo: Regis Hazine)
- Peça para as horas do vão, Angelo Araújo Carneiro (Pseudônimo: Angelo Riccell Piovischini
- Sonho de João, Denise Norberto da Silva (Pseudônimo: Ise)
- Um louco numa manhã de uma dia de Deus, Herbert de Almeida Rocha (Pseudônimo: Bandido da Luz Vermelha)


Aproveitando a oportunidade, o Diretório Acadêmico de Letras e Artes da UEFS convida você e sua família para o evento de premiação e lançamento da antologia do Concurso Feirense de Poesia Godofredo Filho, que irá ocorrer no dia 28 de Janeiro, deste ano, quinta-feira, às 19 horas, no CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte).


Aguardamos a sua presença.



Atenciosamente,



D.A. de Letras (UEFS).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

UM POEMA...

Imagem de Antônio Brasileiro (2005), Óleo sobre tela, 50x60



BALADA PARA A MORTE


ou IMPROVISO HERÁLDICO ANTE AS SOBRAS DO BANQUETE ILÚDICO
( em ocasião do 60º aniversário do poeta Antônio Brasileiro )




( Suavemente,
a noite nos envolve indecifrável...
fugindo de sua obrigação de negar-nos
a grande sombra desce,
mas todos se amontoam nosilêncio e no medo
de sermos tantos.


Amontoamo-nos
no indecifrável espaço do torpor
e parecemos um só homem espalhado pela escuridão imensa...
nessa sombra que somos
nos perdemos...
porém,
sobra nas retinas o que fomos
e
presa à garganta
tudo
o que queríamos.



A noite...
sim, a noite...
a noite nos embrulhou com ódio,
e toda a noite enraivecida é a grande
verdade
que buscávamos,
uma deslavada verdade
que todos contam entre nós:
era dos nossos sonhos que ela vinha;
de nossa realidade ela se criava;
amadureceu em nosso egoísmo;
modificou-se por nossa angústia;
em nós...
em todos nós
espatifou-se,
neste momento que ainda corre:
e todos somos um
nesses pedaços de tantas coisas
únicas;
tantas vontades
a serem sempre as mesmas;
tantas fomes iguais
de tudo.


Esta noite nos uniu em nada...,
mastigou
o humano
que tínhamos engolido,
despojou-nos
neste leito de escuridão em que deitamos;
enraizou-nos
neste princípio de coisa alguma
impedido-nos
a aurora.








2.a



A noite está
inquieta
como um homem morto –toda a noite
é um tumulto –
é toda um coração que bate e vai morrer e o sabe...

A noite
sorveu a paciência
destes banquetes; deu ao tempo
propósitos que não tinha;
a noite
deu propósitos a tudo:
à nossa morte,
ao nosso odor de morte,
à nossa inquietude de estar dentro
da
morte,
ao nosso esquecimento
de sermos
morte...
a noite
humanizou a terra superior dos cemitérios;
tornou fundamental
a nossa poesia dispersa;
apagou-nos
da manhã
que não
viria.








2.b



A noite
deu-nos um mistério em nosso nascimento;
e nenhum dia será mais claro do que esta noite
e os dias que virão de dentro dela.



A noite assombrosa de nosso desejo
é toda uma mística certeza que nunca tivemos.


– Existimos
dentro desta noite como
nunca existimos
antes. )








3

UM APÓLOGO:



“ Ó amigos, ó coisas inexatas...
filhos das feras que moravam em nós:
esta noite tudo ficará retido sob o chão
destas mentiras tão puras;
a manhã se foi sem ternura
e sem a simplicidade
que os amanheceres
nos trazem.



Ó irmãos,
crianças maliciosas que fomos,
a manhã se foi escura
porque nunca verdadeiramente houve
uma manhã mais clara.

A perfeição,
irmãos,
reside nesta escuridão que este não-dia nos trouxe.
Nada vimos,
porque nada queríamos ver.
Nada evocamos,
pois sempre fomos esta mesma ausência.
Nada construímos sobre esta imensa mão ruidosa,
porque toda a nossa poesia foi um truque.
E nenhuma lágrima rolará,
pois nunca existiu em nós a alegria
para que, então, experimentemos a tristeza
de sermos tantos e tão sozinhos.



Nada, amigos...
nada...
nada será,
porque nada foi.



Tudo
apenas é:
e tudo é noite...
tudo é simples,
vasta e absoluta noite.

Somente
noite.”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A MPB AOS VIVOS... COM SANDRO PENELU



O cantor e compositor Sandro Penelu

Se não bastasse Sandro Penelu ser um grande cantor e compositor, agora ele nos presenteia com um blog onde se é possível ouvir conhecidas e novas composições da Música Popular Brasileira, interpretadas em sua voz e em seu violão inconfundíveis.

É necessário conferir e divulgar. É só acessar:
http://sandropenelu.musicblog.com.br

Pessoalmente, gosto muito da interpretação de Ronco da Cuíca... confiram!!!

ILDÁSIO TAVARES: SETENTA ANOS DE POESIA


O aniversariante Ildásio Tavares

A Biblioteca Betty Coelho e a Fundação Gregório de Mattos promovem dia 27 de janeiro, às 19h30, no Espaço Cultural da Barroquinha (antiga Igreja Nossa Senhora da Barroquinha), na Praça Castro Alves, em Salvador, Bahia, ILDÁSIO TAVARES: SETENTA ANOS COM POESIA, em que homenageiam o poeta, escritor, compositor, professor de literatura, ensaísta e jornalista Ildásio Tavares, que neste mês de janeiro, completa setenta anos de idade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SUGESTÃO DE LEITURA: TENHA UM 2010 DE MUITA POESIA


Bruno Tolentino: A imitação do amanhecer; Rio de Janeiro, Ed. Globo, 2007.

Esse livro soberbo, que precisa não apenas ser lido e relido, mas estudado, compreendido, letra a letra, sob pena de ficarmos alheios ao resultado supremo gerado pelo talento... Pela mão do soneto, Bruno Tolentino leva a poesia brasileira contemporânea ao esplendor”
(Nei Duclós)




Rodrigo Petrônio: Venho de um país selvagem; Rio de Janeiro, Top Boocks, 2009.

A leitura de Venho de um país selvagem exige empenho, uma vez que a obra se embrenha na selva de símbolos que formam a existência humana, também provoca prazer, aquela “alegria pânica” suscitada por toda poética que não se conforma com o meramente ornamental ou com o estritamente lúdico, enveredando pelas lúgubres sendas da luz, nas quais mesmo as clareiras são aberturas que logo se encerram na mata fechada, onde a vida segue seu curso, à revelia de evidências e previsões.
( Mário Dirienzo)




Gustavo Felicíssimo (Org.) Diálogos: panorama da nova poesia grapiúna; Itabuna, Ed. Editus/Via Litterarum, 2009.

Gustavo Felicíssimo, que tem um trabalho de divulgação das novas gerações da poesia baiana e brasileira de altíssima qualidade, reitera este ofício ao publicar texto de dez poetas que, segundo ele (e, também, pelo que qualquer bom leitor poderá constatar), formam o mais novo – e o mais qualificado – grupo da novíssima poesia baiana oriundo da Região Grapiúna. São eles: Edson Cruz, Heitor Brasileiro Filho, Noélia Estrela de Oliveira, Piligra (Lorival P. Piligra Júnior), George Hamilton Pellegrini Ferreira, Daniela Galdino, Mither Amorim Mendonça e Geraldo Lavigne de Lemos.
(Silvério Duque)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

FELIZ NATAL E QUE VENHA 2010... O ANO EM QUE CONTINUAREMOS A FAZER CONTACTO



Eu, Silvério Duque, sou poeta, nasci em Feira de Santana, aos 31 de março 1978. Sou licenciado em Letras Vernáculas, pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Além da poesia, assumo as atividades de músico, clarinetista, já coordenei a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense, aliás, as bases de minha formação musical advém das Filarmônicas; sou professor, crítico literário, escrevi e escrevo para vários jornais e revistas e sou autor de dois livros de poesia O crânio dos Peixes, ( Ed MAC, 2002 ) e Baladas e outros aportes de viagem, ( Edições Pirapuama, 2006 ). Meus próximos livros, Ciranda de Sombras e A pele de Esaú, estão no prelo. Aqui, neste Blogger, publico meus poemas e minhas considerações sobre Arte e, principalmente, Literatura, as quais, obviamente, estão sujeitas às mais diversas críticas que serão devidamente aceitas, desde que feitas com inteligência, elegância e respeito. Como é a Internet, tudo aqui é público, portanto, o que aqui escrevi pode ser utilizado por qualquer um, contanto que se dê o devido uso e crédito, o que é o direito de todas e quaisquer fontes intelectuais. E quero aproveitar a "liberdade poética" que a data natalícia nos oferece para reinterar meu compromisso com todos que acessam este Blogger e aproneitar para desejar-lhes um FELIZ NATAL E UM PRÓSPERO ANO NOVO. Um forte abraço e espero que continuem gostando.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SAI O RESULTADO DA IV EDIÇÃO DO CONCURSO LITERÁRIO "BAHIA DE TODAS AS LETRAS"


Frontispício da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Salvador-BA.


O concurso é realizado pelas editoras Via Litterarum e Editus (Editora da UESC), com patrocínio para os primeiros colocados da Fundação Chaves. Ano após ano, a boa remuneração para os primeiros colocados vem aumentando o interesse por esse concurso.


O meu amigo e poeta Gustavo Felicíssimo, teve a grata felicidade de ser premiado em duas categorias: Poesia e Literatura de Cordel. Esta última em parceria com outro grande poeta amigo Piligra.



RESULTADOS:


POESIA
(Cada autor inscreveu três trabalhos, sendo avaliado o conjunto)


Vencedor: Gustavo Felicíssimo


Obras: Procura, O credo de Don Juan e Monólogo de Don Juan



LITERATURA DE CORDEL


Vencedor: Gustavo Felicíssimo e Lourival P. Piligra Júnior


Obra: A peleja virtual entre dois poetas arretados



ENSAIO LITERÁRIO


Vencedora: Maria José de Oliveira Santos


Obra: Um caso de amor na Cidade de Salvador da Baía de Todos os Santos



CRÔNICA
(Cada autor inscreveu três trabalhos sendo avaliado o conjunto)


Vencedor: Manoel Souza das Neves:


Obras: Mentiropédia, Eu tenho medo de mulher e Auxílio – Funeral



CONTO
(Nessa deu empate)


Obra: Amaro, de Tiago Santos Groba


Obra: O mergulho, Denize Ravizzoni



Mais informações no site da universidade:


http://www.uesc.br/editora/index.php?item=conteudo_concurso.php

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O CARROSSEL DE MARK GERTLER


O Carrossel de Mark gertler (1916): Óleo sobre tela; 247 x 487 cm – Tate Gallery, Londres.

 
SONETO*

à Senhora Claudia Cordeiro, un souvenir...

( pr’ uma aquarela à Carlos Pena Filho )

Por que pintei de azul a nossa estrada?
Por não trazer um céu sob os sapatos.
Então, busquei, em gestos insensatos,
despir, do azul, o Azul da madrugada.

Para exigir então o azul ausente,
que se espargiu em tuas alpargatas,
roubei de ti o azul das coisas gratas,
que, em teu olhar, nasceu tão simplesmente.

Mas, vestidos de azul, nem recordamos,
haver tantos azuis que azuis se amassem,
qual o Mar e o Céu, no azul, nos espelhamos...

E, perdidos no azul, nos contemplamos,
porque, do azul, as coisas sempre nascem,
pois, no morrer do azul, nós retornamos.




* Sobre este meu soneto, o poeta Gustavo Felicíssimo, em seu blog, Sopa de Poesia, escreveu e publicou: "Tudo bem, alguém poderá me dizer que o poeta do azul é Carlos Pena Filho. O seu Soneto do desmantelo azul é mesmo uma jóia, mas esse heróico do Silvério Duque, convenhamos, tem seu lugar, um soneto espirálico, marcado por esse último verso: 'pois no morrer do azul, nós retornamos', que deixa o poema em aberto. Muito bom mesmo!"... O pior é que eu estou começando a acreditar (rsrsrs)! Brincadeiras à parte, é sempre muito bom poder me inspirar e homenagear grande nomes de nossa Literatura, além de outros que têm um papel fundamental na divulgação da grande poesia: como é o caso dos nomes acima.

DOIS ESTANDARTES SERTANEJOS... A ARTE DE JUARCI DÓREA E JOÃO MARTINS


Fantasia Sertaneja de Juraci Dórea (em exposição no Museu Regional de Arte CUCA)


Bate papo com o pilão de João Martins (em exposição na Galeria Carlo Barbosa CUCA)


Ontem, tive o prazer de ir uma dupla exposição: de um lado, as imagens delicadas, reminiscentes e sinceras de João Martins, um artista plástico autêntico, como poucos que, ultimamente, temos o prazer de encontrar por aí.

Sua maior inspiração é, sem dúvidas, a natureza: natureza típica de Irará sua terra natal. Pintando quadros com imagens múltiplas de paisagens, frutas, flores, animais, pássaros, gaiolas, casarios, carroças, sertanejos... entre outros elementos. Sua obra traz uma exuberância muito singular de cores que saltam de frutas e aves típicas da região sertaneja e neste colorido emaranhado é impossível, ao espectador, não se envolver, digamos, sinestesicamente, pensando sentir o sabor de mangas, jacas e pinhas, ou ouvir o estribilho agudíssimo de sofres ou cardeais, que ornam com sensibilidade e maestria as suas telas. A quase totalidade deles compõe o cenário do universo infantil vivenciado em Irará. A exuberância de cores dos trabalhos plásticos de João Martins, aliado aos seus versos, lhe valeram a alcunha de poeta da cor, embora seja na pintura que ele consegue a síntese e o lirismo que lhe escapam em muitos de seus versos.

Assumindo, com muito orgulho, a sua condição de iraraense, João Martins busca muitas inspirações em sua cidade natal, remetendo-se às suas raízes de menino sertanejo. Situada entre o Recôncavo e o Sertão da Bahia, Irará possui uma flora e fauna belíssimas e diversas manifestações culturais, onde o artista colherá a maior parte de suas inspirações.

Do outro lado, a experiência e genialidade de Juraci Dórea. Sua obra, inteiramente dedicada ao Sertão e às manifestações sócio-culturais daquela região, mostra-nos um mundo muito próprio e singular envolvido num Sertão de misticismo e realidade, de poesia e trabalho árduo, de alegria e sofrimento constantes...

Todo este antagonismo é visitado e revisitado por Juraci através de um traço inconfundível, onde vaqueiros assemelham-se a cavaleiros errantes, bois e cabras parecem se metamorfosear em pássaros, criaturas místicas pousam ao lado de sertanejos, amor, alegria, violência e perversão compõem a mesma amalgama cultural da qual o artista, como qualquer outro grande em seu ofício, faz uso para mostrar nada mais nada menos que a realidade que o cerca, refletindo o universo sertanejo que Guimarães Rosa encontrou nos descampados mineiros, Graciliano Ramos buscou nas caatingas alagoanas, Vicente do Rego Monteiro arrancou dos confins de Pernambuco e Juraci Dórea reflete de sua Bahia e mais precisamente de Feira de Santana, a qual me parece ser sua saga e, muitas vezes, sua sanha e sua sina. Como bem exemplificou o professor e escritor Rubens Alves Pereira, “a obra de Juraci Dórea abre-se como um estandarte sobre a vida sertaneja. Nela, viceja a o espírito de um povo simples e humilde do Sertão, elevem-se grandes referenciais da cultura popular. Sobre tudo uma arte que se plasma nos largos gestos da arte contemporânea em que o artista se insere, enriquecendo-a com suas peculiaridades”.

Da mesma maneira que o pintor de Irará, João Martins, Juraci Dórea, de Feira de Santana, tem, na poesia, sua rosa dos ventos; no caso do feirense, por se guiar pela poesia popular do cordel, por exemplo, guia-se por rumos mais seguros. Ambos, principalmente, em suas obras, são grandes cronistas de suas memórias, do Sertão e da brasilidade. Ambos, sobre certos aspectos, realizam uma obra erudita, de uma expressividade, de um aprofundamento e, por que não, de um didatismo único e necessário... tudo isso, através de uma releitura do imaginário sertanejo fazendo, tanto do iraraense quanto do feirense, artistas excepcionais que ao lado de Gil Mário, Cleonice Barbosa e, evidentemente, de Gabriel Ferreira, só vêm a nos mostrar o quanto que, atualmente, estamos muito bem servidos de artistas plásticos.

Ambas as exposições podem ser conferidas no CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte) à rua Conselheiro Franco, 66, Centro, Feira de Santana, Bahia, Brasil.




É crer e ver!!!






Feira de Santana, 10 de dezembro de 2009.






terça-feira, 8 de dezembro de 2009

UM SONETO...?


Amantes de Nicoletta Tomas, 2001, acrílico sobre tela - 50x50 -, coleção privada.

Bendito seja todo esquecimento;
bendita, também, seja toda sede
e tudo mais que nos desperte a carne
ou que nos torne estranhos ante o espelho.

Bendito o nosso instante mais impuro;
o que sobrou de nós e o nosso início –
tanto vazio e cor num só começo –,
tantas mortes das quais nos refazemos.

Que Deus nos abençoe por entre as pedras
com o ressoar cruel do vão destino;
e que eu O veja inteiro ( em cada passo )

– e que possas senti-Lo em meio aos braços
com os quais, na dor, abraças teus joelhos...
Bendita seja a paz destes silêncios.






Salvador, 05 de dezembro de 2009.




quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

MEMÓRIAS DOS PINTORES DE FEIRA DE SANTANA... POR JURACI DÓREA


É com imenso prazer que convidamos para a Exposição e lançamento do Álbum Memórias Pintores de Feira de Santana do artista plástico Juraci Dórea, organizada pela Fundação Carlo Barbosa.

Dia 09 de dezembro, às 20 h no CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte) que fica na rua Conselheiro Franco, s/n, Feira de Santana-BA.


Não percam!!!!!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UM ENCONTRO INESQUECÍVEL COM A LITERATURA...



Nesta sexta-feira, às 17 horas, na Academia de Letras da Bahia haverá mais um Encontros Literários: ponto de cultura espaço das letras, com Gustavo Felicíssimo e Hevelina Hoisel fazendo comentários sobre a obra de Ildásio Tavares e Myriam Fraga, dois dos maiores expoentes da literatura baiana no século XX.


Trata-se de um programa de pós-graduação em literatura e diversidade cultural da UEFS - Universidade Estadual de Feira de Santana.


A curadoria do encontro está a cargo do poeta Luis Antônio Cajazeira Ramos.



Quem gosta de boa poesia não pode perder!!!!!

LASCIA CH'IO PIANGA MIA CRUDA SORTE... ou UMA TRÍPLA RECOMENDAÇÃO A RESPEITO DOS CASTRATI


Alesssandro Moreschi (1858-1922), último dos castrati...


Imagem do filme Farinelli, Il Castrato...


Capa do CD Sacrificium, de Cecilia Bartoli (Universal, 2009).


Um dos episódios mais fascinantes e cruéis da história da música foi a existência dos castrati. A palavra, literalmente traduzida para “castrado” em português, designava os cantores que, demonstrando algum talento para o canto lírico, tinham seus testículos removidos para, desta forma, impedir as mudanças hormonais que tornam a voz mais grave. Sobre certo ponto de vista a Igreja teve grande culpa por esta prática, pois suas interdições equivocadas impediam as mulheres de cantar nas igrejas e nos coros.

O auge desta “prática artística” deu-se entre os períodos Barroco e Rococó, ou, para ser mais preciso, em fins do século XVII e primeira metade do XVIII. Aliás, foram os compositores do barroco os que mais exploraram a força e o lirismo dos castrati. George Friedrich Händel (1685-1759), por exemplo, tem áreas escritas para os heróis de suas óperas exclusivamente para castrati, e, comumente, tanto personagens masculinos quanto femininos eram interpretados por eles: Cara sposa de Xerxes e Lascia ch’io pianga de Rinaldo são boas ilustrações para o que afirmo.

Supõe-se que mais de 4000 eram castrados por ano durante todo o século XVIII. Na Itália era muito comum existir muitas barbearias, em sua maioria, napolitanas, que possuiam, à entrada, um dístico com a seguinte indicação "Qui si castrano ragazzi". Era de Nápoles, inclusive, de onde vinham a maioria dos castrati. Os meninos proviam das ruas ou de famílias pobres que viam na castração de seus filhos a única perspectiva para uma vida com dignidade. Entretanto, arrancar testículos garatia o talento, muito menos o sucesso, e, muitos, não achando emprego, voltavam à rua, à miséria e, pior ainda, à prostituição.

Para os que prosperavam, e estes eram poucos, os estudos eram sérios e exigiam dos castrati dedicação subre-humana. Há pouquíssimas gravações que mostram como era a voz de um castrati que combinava extenção, potência e versatilidade; um dessses parcos registros estão nas gravações, entre 1902 e 1904, feitas por Alesssandro Moreschi (1858-1922), considerado o último de sua especie, morto em 1922 e que, até 1913, atuou como solista do coro da Capela Cistina. Após muito analisarem a suas gravações vários especialistas chegaream a conclusão de que Moreschi se tratava de uma voz potente, porém medíocre e "destemperada," pelo fato de que ele não recebeu a educação musical que receberam os grandes castrati do século XVIII, época em que estes estavam no auge. Quando Moreschi iniciou sua carreira, o último dos famosos cantores castrados, Juan Bautista Stracciavelutti (1780-1861), mais conhecido como Vellutti, já havia falecido há anos.

O caso mais lendário entre os castrati é o de Carlo Maria Broschi, mais conhecido como Farinelli segundo registro de época sua extensão vocal abrangia do Lá2 até Ré6, como escreveu Johann Joachim Quantz (1697-1763): "Farinelli tem uma voz de soprano ligeiro, completa, rica, luminosa e bem trabalhada, com uma extensão que abrange desde o Lá debaixo do Dó central a Ré três oitavas acima do Dó médio… Sua entonação era pura, seus vibratos maravilhosos, seu controle sobre sua respiração era extraordinário e sua garganta muito ágil, porque cantou os intervalos mais amplos rapidamente e com a maior facilidade e firmeza. As passagens das obras e todo tipo de melismas não representaram dificuldades para ele. Na invenção das ornamentações livres nos adágios foi muito fértil." O poder e a doçura da voz de Farinelli se perpetuariam por várias cortes que iam desde a de Luis XV, da França, a de Felipe V, da Espanha.

Quem quiser conferir um pouco do repertório dos castrati recomendo, primeiramente, algumas gravações de Alesssandro Moreschi, que podem ser conferidas, por exemplo neste link: http://www.youtube.com/watch?v=slhhg8sI6Ds, mas os leitores deverão desculpar a precariedade de uma gravação com mais de 100 anos. Podem assistir ao filme Farinelli, Il Castrato (Bélgica/França/Itália, 1994) de Gèrard Courbiau, com Stefano Dionisi no papel principal: http://www.youtube.com/watch?v=ZNp8hYycx4c ou adquirir o novo disco, Sacrificium, da médio-soprano italiana Cecília Bartoli que, num trabalho estupendo de talento e pesquisa, revisita, em seu novo album, as principais obras escritas para os castrati: http://www.youtube.com/watch?v=WZdcp_FpfqI.

Em 1870, o Papa Leão XIII proibiria a castração para "fins artísticos" e, em 1878, baniria os castrati dos coros das igrejas... um gesto bastante humano (para não dizer o contrário) na tentativa de apagar centenas de anos de dor, frustração e humilhações.










Feira de Santana, 1 de dezembro de 2009.