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sexta-feira, 13 de março de 2015

COLEÇÃO "HORIZONTES"... EDITORA MONDRONGO...

Todas as capas são de autoria de Gabriel Ferreira...







Quando meu amigo e poeta, Gustavo Felicíssimo, falou-me da ideia de fundar uma editora, juro a todos vocês – e só agora estou confessando isso, inclusive ao Gustavo – que isso não me soara muito agradável.



Não que eu desconfiasse de sua capacidade e ímpeto (não, isso ele tem de sobra), mas porque eu sei que, em se tratando de um país como o nosso, trabalhar com livros, e ainda por cima com poesia, constitui-se de uma verdadeira arte de colher decepções.



Mas, agora, agradeço, todos os dias, a Deus pelo facto de o Gustavo não ter mudado de ideia, e, hoje, com todas as dificuldades que este empreendimento envolve, a Editora Mondrongo tem se mostrado na vanguarda de muitas editoras, dedicando-se não só à publicação, mas à verdadeira divulgação e à apresentação da mais nova e melhor poesia feita hoje na Bahia, e, podem aguardar, em todo o Brasil.



Um bom exemplo disso está na ousadia de se criar toda uma série de livros com poetas, em sua maioria, inéditos, mas de inegável capacidade versânica. Vejam, por exemplo, a erudição e elegância dos versos de Henrique Wagner, em seu “A história decalcada”; a força melódica e o apuro técnico de Wladimir Saldanha, em “Cacau inventado” ou com João Filho, em “A dimensão necessária” – aliás, necessário mesmo, para mim, são versos como os de meu amigo João Filho –; a diversidade de formas e temas carregados de ousadia de Patrice de Moraes, em “Minha Bahia”, ou a profundeza psicológica de Nívia Maria Vasconcellos, em “A morte da amada...” E tem mais: a destreza poética de Heitor Brasileiro Filho, o autobiografismo poético de Herculano Neto e toda a experiência técnica e emotiva nos sonetos de Adelmo Oliveira, além dos livros que ainda não li, mas os lerei em breve, como “Saveiros de Papel”, de Ribeiro Pedreira e “Inúmera”, de Daniela Galdino... Sem me esquecer, é claro, do próprio Gustavo Felicíssimo, em versos onde tudo é demasiadamente sincero, como os presentes em “Desordem”...



Como se tudo isso já não fosse suficiente, há aquela carta na manga que definirá o jogo a favor de meu amigo: todas as capas têm desenhos exclusivos de Gabriel Ferreira e sua arte sincera, madura e excepcional... Se se for possível, realmente, julgar um, ou mais livros, por suas capas, os desenhos de Gabriel fazem justiça a toda qualidade impressa em cada uma das páginas da “Coleção Horizonte”...



Viva ao poeta e empreendedor Gustavo Felicíssimo! Viva à poesia que precisa fazer-se viva, e é através de homens como o Gustavo Felicíssimo e de poetas, como os citados acima, que saberemos sempre que tudo que é bom pode até se encontrar escasso, mas nunca findo... E um viva aos poetas e artistas que fazem da “Coleção Horizontes” aquilo que de mais surpreendente há em termos de edição de poesia em nosso Brasil... E quem quiser que faça melhor ou prove-me do contrário.




O desafio está lançado... 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A BAHIA SEGUNDO PATRICE DE MORAES...


Título: Minha Bahia
Autor: Patrice de Moraes
Gênero: Poesia
Apresentação: Nívia Maria Vasconcellos
Ilustração de capa: Gabriel Ferreira
Editora: Mondrongo
ISBN: 978-85-65170-28-4

Valor: R$ 20,00
Comprar: http://www.mondrongo.com.br








Um poema feito de Bahia

 (por Nívia Maria Vasconcellos)





Conheci Patrice de Moraes há exatos 13 anos nos corredores da Universidade Estadual de Feira de Santana. Mas o que me aproximou dele, mais do que o fato de cursarmos Letras, foi sua paixão pela poesia. Desde então, passei a conhecê-lo não apenas enquanto estudante, mas enquanto poeta. Sempre me atraiu muito e, por que não, seduziu-me muito seus poemas eróticos, ou como ele mesmo denominou no seu primeiro livro, euróticos. O trabalho dele, com esse leitmotiv, tornou-se constante a ponto de todos que já o leram associá-lo, imediatamente, às poesias eróticas em geral não deixando nada a desejar – e não é exagero essa minha assertiva – diante de poemas de igual temática de um Drummond ou de um Bocage.

Ao me deparar com Minha Bahia, por ter uma temática completamente diferente do que conhecia do criar de Patrice de Moraes, poderia ter ficado surpresa, mas não. A pessoa do Patrice de Moraes tem tanta baianidade em seu jeito de ser que este seu novo livro, mais do que uma leitura e uma apologia desse estado que ele notoriamente tanto ama, é uma leitura dele mesmo. O seu jeito de vestir, suas crenças, as músicas das quais gosta, a culinária, tudo está presente neste opúsculo. Nele, há cheiro, paladar, paisagens, religiosidade e as contradições que compõem a memória individual de Moraes que dialoga com a memória coletiva dos baianos e ora confirma ora cria uma memória dessa unidade federativa na mente daqueles a quem o poeta chama de não-baianos. Indubitavelmente, um poema que só poderia ser criado por um baiano que se sabe e se envaidece por sê-lo.

O título já comunica afeto. O pronome minha – mais do que um determinante do nome que lhe indica propriedade – manifesta aproximação, respeito e, sobretudo, intimidade. Algo muito comum em expressões como “minha preta”, “minha nega”, “meu dengo”, tipicamente baianas, que já aparecem nos primeiros versos do poema. Ainda na primeira estrofe, a palavra “porreta” comunica uma oralidade que não é fruto de um descuido formal, e sim um meio de se apresentar de forma mais fidedigna o modo de ser do baiano já que sua linguagem diz muito sobre seu comportamento e sobre demais características que o representa: como a criatividade e a malemolência.

O livro apresenta um poema composto por 15 partes. As 14 primeiras possuem uma padronização dos versos, divididos em 14 quartetos sempre finalizados com um verso que sintetiza a temática e que é uma espécie de chave de ouro. A última parte, diferentemente das outras, em vez de 14 estâncias, apresenta um soneto, forma que o autor domina muito bem e que já é uma de suas marcas comprovadas pelo Eurótico em poesias como Peculiaridade e pelo seu, ainda inédito, Amor em carne viva. Essa última parte ainda guarda uma surpresa para o leitor e mostra muito de sua habilidade com os versos, muito de sua grande artimanha criativa.

Seu metro formado predominantemente de versos decassílabos apresenta, muitas vezes, enjambements que permitem uma leitura mais fluída. Tal recurso assim como as pausas que são impostas dentro dos versos (conquistadas pelo uso de toda sorte de sinais gráficos como as vírgulas, o ponto de seguimento, os travessões, os parêntesis e as reticências) cadencia a leitura e materializa as intenções do autor num jogo de som e silêncio que atribuem ritmo ao ajuntamento das palavras. Posso acrescentar aí a homofonia que, quanto à posição no verso, é externa e, quanto à posição na estrofe, é intercalada (tipo de rima que ele domina muito bem por ser um exímio sonetista). A musicalidade alcançada por esse jogo rímico é intensificada pela tonicidade dos versos que são agudos e graves com a predominância desse último:

onde oração à vida e ao que ela tem
de essencial revelam a ambição
de um povo que desdobra o coração
na fé num orixá..., num santo... – amém.







PARTE I


Na primeira parte, somos apresentados ao poeta enquanto baiano e a Bahia com toda a sua religiosidade, uma terra que, como ele mesmo salienta, tem: “tantos meridianos à religião voltados”. Assim, louva o caráter sincrético da religiosidade baiana, mas não omite também que sua origem não foi branda, mas herdada, por meio de muito sofrimento de seus antepassados.

As partes II e III confirmam a ideia de que suas estrofes podem até ser laudatórias, mas não são inocentes. Pretendem enobrecer, mas não deixam de reconhecer as adversidades, lutas, batalhas e senzalas, assim como as “correntes podres do racismo e da matança oficializada” que mancharam a história desse estado, mas que, por outro lado, formaram um povo que, ao contrário do que muitos pensam, tem consciência de que “nem tudo é fantasia de carnaval”.

Àqueles que quiserem exigir mais postura crítica nessa Bahia em versos, Patrice de Moraes traz um contra-argumento que se firma como uma justificativa não irrefutável, mas, pelo menos, aceitável: os satíricos poemas de Gregório de Matos que, barrocamente, realizaram tal empresa já cumpririam com excelência tal necessidade. Assim, ele dialoga com o nosso poeta barroco e suas composições trazendo em suas linhas a expressão Cidade da Bahia e, explicitamente, o poema Triste Bahia, o qual não só menciona, mas também transcreve seus versos: “Triste Bahia! Oh quão dessemelhante / Estás”. Por meio de tal fundamentação, desliga-se da obrigação de ser também satírico tal qual nosso poeta maldito, o nosso Boca do Inferno. E, a quem insistir, ele indaga: “Para que eu repetir o que foi dito [...]?”.O que ocorre é que ele não se furta totalmente do olhar crítico, mas não faz dele o ponto fulcral desta obra.

com o xique-xique, com o mandacaru,
com o solo infértil, com o rebanho à fome;
com a indiferença braba que consome
(mordaz) um e outro assim como eu e tu. (parte VI)


Mais do que desvelar os vícios sociais, o Minha Bahia pretende revelar a coragem e alegria do povo baiano não como fruto de uma alienação, mas, deliberadamente, de uma escolha. A prova disso é que há partes como a IV na qual salienta o fato de a então província da Bahia ser decisiva para a independência do Brasil e a sua confirmação, fazendo menção direta à batalha de Pirajá. Não se pode esquecer que a história do Brasil sofreu interferência direta das lutas por uma autonomia política iniciadas na Bahia como a Conjuração Baiana (1798), Federação dos Guanais (1832), revolta dos Malês (1835).






PARTE II

A quinta parte possui versos tão alegres quanto à ideia que passam. O riso – vocábulo constante em várias estâncias – é uma das marcas do povo baiano que coloca “a alegria à frente da tristeza”. A culinária, com seus acarajés e abarás, contém a própria alma do baiano. Nesse ato, o sabor do alimento vai dando espaço à criatividade musical que se confirma na parte VI, na qual grandes menestréis são aludidos (Xangai e Elomar) e outros tantos artistas são lembrados para provar o quão profícua é a Bahia, tão solidária ao oferecer ao Brasil e ao mundo grandes nomes nas artes como Gregório de Matos, Castro Alves, Jorge Amado, Dodô e Osmar (parte VIII), Riachão, Tom Zé, Raul Seixas, Caetano, Gil, Bethânia, Gal Costa, Glauber Rocha, João Gilberto, Dorival Caymmi (parte IX) e mais gente de “musicalidade variada” da qual o poeta, ousadamente, não deixa escapar nem a popular e massificada axé music. 

Outros nomes memoráveis saltam aos olhos como Irmã Dulce (parte VI), Divaldo Franco, Mãe Menininha do Gantois. Esse três nomes enumerados revelam muito mais que solidariedade e compaixão; sobretudo, denotam ecumenismo religioso: uma freira, um espírita e uma  Iyálorixá respectivamente. Todos reconhecidos nacional e internacionalmente pelos seus feitos e todos baianos de nascimento e vivência.

Ele chega a aproximar Popó de Maria Quitéria em estrofes sucessivas (parte XIII) e alude a intelectuais, educadores, políticos, pessoas das mais variadas áreas (parte X). Uns ainda vivos outros já falecidos, uns no ostracismo outros no mainstream, todos vão sendo enumerados de maneira ritmada e sem perder a cadência do verso, o que demonstra toda a destreza conferida a nosso poeta e da qual ele lança mão a todo momento sem perder o jogo de cintura e mantendo seu esquema estrófico e rímico: os versos interpolados e a rima externa predominantemente grave.

posto, peculiar aos homens retos.
Mário Gusmão, Otávio Mangabeira,
Sérgio Cardoso, Walter da Silveira,
Assis Valente, João Ubaldo, – afetos

Outros do coração baiano –, Bel
Borba, Othon Bastos, Marta Rocha, e mais
Calazans Neto, Mário Cravo... Faz
Gosto citar baianos..., um mundéu


Enquanto também baiana, senti falta de personagens controversos da História baiana como Lucas da Feira e Besouro. Não sei se por lapso ou opção. Mas, como não é besta nem nada, nosso poeta não se esquece daqueles não-baianos que se deixaram apaixonar pela Bahia. Gilberto Freire (de quem ele pega emprestado a frase que forma a epígrafe deste opúsculo) é um dos nomes lembrados e não podia mesmo ficar de fora, pois, mesmo sendo pernambucano, reconhece que “todos os brasileiros são baianos”[1]. Para se juntar a ele, o poeta chama a Pierre Verger e Caribé. Algumas estâncias depois, já na parte XII, Carmem Miranda é aludida. Ela, mesmo sendo um exagero tropicalista e tendo feito algumas películas de qualidade suspeita na mais autêntica extravagância hollywoodiana, levou o nome do Brasil e, em especial, da Bahia para o mundo com a música O que é que a baiana tem composta por Caymmi e por ela imortalizada. Realmente, tantos nomes ilustres só podiam fazer os baianos “libertar o lado ufano”.







PARTE III

Patrice de Moraes vai se mostrando não só um adorador da Bahia, mas, inclusive, um conhecedor de sua história e dos sujeitos que a compõem. Além disso, um conhecedor da Língua Portuguesa e de suas possibilidades. Sagaz, na parte XI, compôs três estrofes nominais em sequência. Apenas artigos definidos e substantivos se apresentam na relação de palavras que se estende por 12 versos de musicalidade pulsante, os quais ele encera com uma brincadeira com a fonologia da língua trocando fonemas que fazem vir à luz novos vocábulos com novos campos semânticos:

a farra, a prosa, o brilho, o azul, o licor,
a rede, a esteira, o campo, o ar, a asneira,
o encanto, o espanto, a graça, o fruto, a freira,
o ocaso, o acaso, o ser, o amar, o amor, (parte XI)


Ainda na parte XI, corrobora o estereótipo da Bahia como a “terra da alegria”. Como Recife é a Veneza brasileira; o Rio, a cidade maravilhosa; Salvador é a Terra da alegria e, assim como essas, outras tantas antonomásias passam a existir para designar outros tantos topônimos, geralmente, resultado de uma imagem mental padronizada sobre tais localidades. Mas,apesar de ser repudiada por alguns que a veem como meio de maquiar problemas sociais diversos, Moraes aplica essa antonomásia em outra dimensão. Ele não quer ser panfletário e assegurar uma vaga na Bahiatursa. No seu poema, a alegria (ratificando o já dito) surge não como efeito de um ser que não se sabe sofredor e se encontra alheio aos maus-tratos que o vitimam, e sim como uma opção de indivíduos que sabem o que os aflige, mas optam pelo riso apesar disso. É uma questão de índole, de espírito pois:

Baiano que é baiano não se entrega.
Baiano que é baiano não desiste.
Baiano que é baiano põe-se em riste
mesmo atingido pela escolha cega  (parte VII)


Na penúltima parte, a Bahia vira vocativo e se personaliza pelo pronome quem: “que fazes tu, Bahia, ser quem és”. Sua segunda estrofe apresenta-nos um cultismo à moda dos versos barrocos gongóricos e seu jogo de palavras com seus hipérbatos e trocadilhos:

Que bom te ter certeza em minha vida;
em minha vida ter-te certamente.
Acerto em ter-te acertadamente.
E ter-te é glória certamente tida. (parte VII)

E mais espertezas criativas se apresentam como o neologismo “nordeste-me” e a divisão do “viste- / me” com um pronome na estrofe subsequente até chegar, como um bom Caminha, aos modestos versos “dei de mim o quanto foi possível / para exprimir destarte o inexprimível/ amor que tenho a ti”.Como um falso fim, os últimos quartetos se oferecem a nossa leitura. Eles mudam o vocativo, o interlocutor agora é Deus a quem Patrice dirige uma prece na qual sua religiosidade mais uma vez é posta à nossa presença e encerra uma súplica: continuar a ser baiano e a ser poeta.







PARTE IV

A última parte, entretanto, está por vir. A parte XV, um soneto à moda petrarquista, também classificado como soneto italiano por ter um agrupamento rítmico estruturado em 4 estrofes formadas por 2 quartetos e 2 tercetos. Ele se inicia com um verso decassílabo heroico “Sofrer..., mas ser da fé um puritano” (grifo do autor) e depois varia para outros ritmos. A combinação de rima das duas primeiras estâncias segue a mesma disposição das outras partes, rimas opostas, interpoladas: ABBA, seguidas de tercetos com esquema rímico CDD EED, como no poema Psicologia de um vencido do mestre Augusto dos Anjos.

Hábil em sua capacidade de criar versos, nosso poeta, neste opúsculo, apesar de seguir uma tradição poética não segue o rigor formal dos parnasianos. Goza de certa liberdade para cantar a sua terra como grandes poetas brasileiros já fizeram. Uns cantaram seu país, outros sua cidade: Gonçalves Dias exalta o Brasil em detrimento à terra lusa em seu poema Canção do Exílio, Manuel Bandeira alude a sua Recife em Evocação de Recife, Drummond evoca sua cidade mineira em Confissões de um itabirano, a lista é excessivamente grande para decliná-la toda aqui, mas podemos arrematá-la com aquele que cantou seu estado: Patrice de Moraes em seu Minha Bahia.

Inclusive o seu título me remete a outro poeta brasileiro, Casimiro de Abreu e seu poema Minha Terra, escrito em 1856 em Lisboa, no qual ele, já nos seus dois primeiros versos, torna-nos notório seu nacionalismo: “Todos cantam sua terra / Também vou cantar a minha”. E nosso poeta conjacuipense ao cantar a Bahia proclama que ela é “um estado em eterno estado de poesia”. Num momento em que a desterritorialização, adaptada às mudanças geridas pela nova globalização, impõe-se com todo o seu desenraizamento, mobilidade e hibridismo, Patrice de Moraes propõe uma reterritorialização por meio de seu esforço em fazer sobressair uma identidade baiana que particulariza e eleva os seus filhos e os diferencia dos demais brasileiros.



“Bahia Bahia Bahia: o início, o meio e o fim” deste opúsculo. Boa Leitura.



[1] FREYRE, Gilberto. Bahia e baianos. Salvador: Fundação das Artes, 1990.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

GRANDE NOITE DE LANÇAMENTO DOS LIVROS: "DO CORAÇÃO DOS MALDITOS", DE SILVÉRIO DUQUE, "DA MORTE DA AMADA E OUTROS POEMAS RASGADOS", DE NÍVIA MARIA VASCONCELLOS E "MINHA BAHIA", DE PATRICE DE MORAES LANÇADOS ONTEM À NOITE, NO CIDADE DA CULTURA, EM FEIRA DE SANTANA...

Os poetas Nívia Maria Vasconcellos, Gustavo Felicíssimo (editor da coleção),  Patrice de Moraes, e Silvério Duque... em debate.


Silvério Duque...  na apresentação de seu mais novo livro Do Coração dos Malditos...
Os poetas Patrice de Moraes,  o artista plástico Gabriel Ferreira, a poetisa Nívia Maria Vasconcellos e Silvério Duque... numa noite inesquecível de muita música, artes plásticas e poesia.







Após lançar a série Diálogos, com a publicação de diversos livros de poetas sulbaianos entre os anos de 2011 e 2013, a Mondrongo Livros, editora do Teatro Popular de Ilhéus, coordenada pelo escritor Gustavo Felicíssimo, promove o lançamento coletivo das obras da Série Horizontes, destinada a publicação de livros dos novos valores da poesia de Feira de Santana e Recôncavo.

O evento que ocorreu em um grande sarau ontem à noite, no Espaço Cidade da Cultura, em Feira de Santana, contou com a presença de um grande público formado principalmente de artistas e admiradores da poesia. As obras publicadas foram: Do Coração dos malditos, de Silvério Duque; A morte da amada & outros poemas rasgados, de Nívia Maria Vasconcellos; e Minha Bahia, de Patrice de Moraes. Todas trazendo, na capa, detalhes de quadros pintados pelo artista plástico  Gabriel Ferreira.

A Série Horizontes, como afirma Felicíssimo, nasceu por conta da amizade do editor com os autores envolvidos no projeto, no entanto vale lembrar que Feira de Santana é local de origem de importantes poetas baianos, como Godofredo Filho, Eurico Alves, Antônio Brasileiro e Roberval Pereyr, e que Silvério Duque, Nívia Maria Vasconcelos e Patrice de Moraes são autores experimentados na literatura (não apenas na poesia) e que por isso mesmo são parte de uma nova geração que dá segmento à tradição estabelecida ao mesmo tempo em que colaboram para o engrandecimento e reconhecimento da editora ilheense pelo meio literário baiano.

Para a aquisição das obras, cessem o site da Mondrongo Editora: http://www.mondrongo.com.br



segunda-feira, 25 de março de 2013

A "POESIA SELETA" DE ADELMO OLIVEIRA


Título: Poesia seleta de Adelmo Oliveira
Autor: Adelmo Oliveira
Editora: Mondrongo Livros
ISBN: 
9788565170161
Valor: R$ 20,00




Um capítulo à parte é o soneto adelmiano, inscrito numa tradição do soneto peninsular e do soneto brasileiro. Lá estão Camões, Gôngora, Quevedo, Gregório, Bilac, Cruz e Souza, Jorge de Lima Vinícius, sete oitabos da poesia ibero-brasileira abaixo da superfície, e a ponta deste iceberg é Adelmo Oliveira, conglomerado intertextual que rachará, sem dúvida, a cabeça titânica do leitor incauto. Os amantes da poesia agora têm à disposição o sumo, ou seja, o melhor de um dos melhores poetas brasileiros. Saiu publicado pela Mondrongo a Poesia Seleta de Adelmo Oliveira, com seleção de Gustavo Felicíssimo e estudo crítico de Jorge de Souza Araújo. A obra está disponível para aquisição, bastando CLICAR AQUI:






***


“Humanista em tempo integral, Adelmo Oliveira é o “andarilho do vento” que paga pesado tributo ao gesto de viver emparelhado com os 300, 350 da multidão que Mário de Andrade anunciou dispersa e quase nunca reunida. Permanecendo na saga de um existir peado de circunstâncias de solidária conformação à dor de muitos, ainda nos sonetos brilha tanto a estrela maior de Adelmo que só conseguimos ombreá-lo a outros seus comparsas, exímios sonetistas malungos: o pernambucano Carlos Pena Filho, o maranhense Nauro Machado, o capixaba Geir Campos, o outro baiano Florisvaldo Mattos, o que se confirma em exemplaridades como em Morte dos dias. Petrarqueano, no Soneto de um delírio, Adelmo Oliveira conclui ser impossível poder escapar à vertigem de onipotência do sentimento amoroso, reconhecendo, logo após abrir sua particular caixa de pandora das feridas do mundo pelo avesso e erigir um “mar de gesso”, em franca capitulação: “Tocado de corrente magnética/ Liguei o fio da vida na matéria (...) Prendi a alma nas cordas da Paixão””.

Jorge de Souza Araújo




“Adelmo Oliveira, poeta, decididamente poeta, firmemente plantado em seu passado cultural, passando do bastão que lhe passaram seus arquétipos, seus ancestrais, seus pais, irmãos e filhos. O caminho para trás é o mesmo caminho para frente, diria Heráclito se estivesse vivo. E será que ele não está? Nosso poeta executa com inspiração, transpiração, informação e maestria a única possibilidade de inovar neste final de século e na década do terceiro milênio – o passo à frente Calçado pela retaguarda com o olho na vanguarda, mesmo porque quem não olha para adiante, fica atrás.

Culto, lido, experimentado, calejado, sofrido, maltratado pela maldade dos homens e pela Moira – esta deusa impiedosa -, sazonado pela dor física da tortura, pela dor mental infligida pela ignorância, pelos punhais gelados da suprema dor de ver-se morrer em seu projeto narcísico do futuro, Adelmo Oliveira não deu a isso tudo o troco turvo da amargura. Deu ao mundo, como flor, a dor filtrada dos seus versos, e como todo poeta – que só é grande se sofrer, como disse outro – Adelmo se fez grande pelo sofrimento da vida vertido no sofrimento da linguagem para atingir o único paraíso palpével – o Éden da poesia, onde a Queda se resolve em Ritmo, onde o Pecado se resolve em beleza.

Um capítulo à parte é o soneto adelmiano, inscrito numa tradição do soneto peninsular e do soneto brasileiro. Lá estão Camões, Gôngora, Quevedo, Gregório, Bilac, Cruz e Souza, Jorge de Lima Vinícius, sete oitabos da poesia ibero-brasileira abaixo da superfície, e a ponta deste iceberg é Adelmo Oliveira, conglomerado intertextual que rachará, sem dúvida, a cabeça titânica do leitor incauto. Ao soneto, como de resto a toda a sua poesia, o poeta traz sua erudição, sua sensibilidade enraizada na Tradição, e dela renovadora, e sua capacidade de transubstanciar a vida em verso e de fazê-lo com elegância, em momentos nos quais atinge o difícil rincão do inefável”.

Ildásio Tavares








SONETO DA ÚLTIMA ESTAÇÃO
(MITOLOGIA MARINHA)

por Adelmo Oliveira




Esta que vem do mar por entre os ventos,
sacudindo as espumas dos cabelos,
vem molhada de azul nos pensamentos,
seu corpo oculta a ilha dos segredos.

Vem e dança ao andar sobre as areias
úmidas sob os passos e os desejos,
onde as ancas são ondas em cadeias
infinitas de luz contra os espelhos.

Nem precisa de flor nem de perfume,
ela é a própria essência do ciúme,
feita de mito e se fazendo estrela.

Vem – dança – e passa aos fogos do verão
– fantasia da última estação.
explodiu na vertigem da beleza.




terça-feira, 12 de março de 2013

BATE PAPO COM ESCRITORES ...











O Teatro Popular de Ilhéus, através da sua editora, a Mondrongo Livros, promove, neste mês de março, dias 13 e 27, na Casa dos Artistas, uma série de encontros do público com escritores sulbaianos.

Sob mediação de Gustavo Felicíssimo, o evento receberá dia 13, os escritores Heitor Brasileiro Filho e Rodrigo Melo. No dia 27, as atrações são Daniela Galdino e Piligra, sempre às 19 horas e com entrada é franca.

O encontro tem como objetivo difundir a obra de autores sulbaianos entre os leitores da região e promover um bate-papo informal entre público e escritores, que falarão a respeito do processo criativo, influências, seus livros, e sobre questões fundamentais que envolvem a criação, tudo com a participação ativa do público.

Bate papo com escritores
Dia 13 e 27 de março
(sempre às quartas-feiras, às 19 horas)
Casa dos Artistas - Ilhéus

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

À MANEIRA DE ALBERTO DA CUNHA MELO...


 O "ancião" que ilustra este meu soneto é de um quadro de um francês de Saint-Jean-de-Luz Javier Arizabalo, pintor hiperrealista, demonstra em sua obra um olhar carinhoso para a velhice (veja as reproduções no final do post), mas é para as mulheres que guarda a maior porção de sua delicadeza. Esculpe, com pincéis, corpos – nus – e tudo o que fazem parte de seu universo: sentimentos, esperanças, sonhos e prazeres.Sua obra ostenta dupla entrega: a do próprio pintor, que dá vida a um imaginário latente, vívido, prazeirento e lânguido, e a do modelo, que confia que seu reflexo espelhe o que de melhor tem a oferecer. Nas suas palavras: “A “arte” ou o “fazer” são por e para a vida humana; como tudo o que é real, o são por “razões” (sentido, vontade…). Faz tempo que utilizo a arte para curar-me, alimentar-me; resolvo os desejos a partir das imagens que re-presento, é maravilhoso”. Arizabalo é um daqueles artistas que, por alguma razão, não dá títulos a seus quadros. Isso, naturalmente, não muda a qualidade de seu trabalho.




À MANEIRA DE ALBERTO DA CUNHA MELO

à senhora Cláudia Cordeiro e ao poeta Gustavo Felicíssimo





por Silvério Duque








– Na velha casa de meu pai
até as sombras pereceram
e mesmo a morte está mais triste
por sobre as sobras do que amo.

Ali vivera minha mãe
em seus silêncios mergulhada.
Quando seus olhos se extinguiram
só o meu pavor foi testemunha.

Dali partira minha irmã
para outros rumos do existir
eu tinha oito ou sete anos
quando fitei este milagre.

Dali também se foi meu pai
que me deixou aqui, de resto...
por isso as feras o procuram
e há-de durar mais do que pode.

Mas houve um tempo em que as manhãs
nasciam feitas pros meus olhos...
Ah, se eu pudesse adiar o tempo
que – sem querer – não me extermina.




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

ONTEM, NA ACADEMIA BAIANA DE LETRAS...



Da direita para a esquerda:  Cláudia Cordeiro, Walter Ramos, Gustavo Felicíssimo e Silvério Duque 


ONTEM, NA ACADEMIA BAIANA DE LETRAS, FOI LANÇADO O LIVRO CONTOS DE CONTAR, DO POETA ALBERTO DA CUNHA MELO, EM COMEMORAÇÃO AOS SEUS 70 ANOS. LÁ, TIVE O IMENSO PRAZER DE DIVIDIR A MESA COM A SRA. CLÁUDIA CORDEIRO (ESPOSA E RESPONSÁVEL PELA OBRA DO ALBERTO), O EDITOR WALTER RAMOS E COM O POETA E AMIGO GUSTAVO FELICÍSSIMO, UM CULTUADOR DE SEU TRABALHO, POR ASSIM DIZER. O TEXTO QUE SE SEGUE É A TRANSCRIÇÃO, NA ÍNTEGRA, DE MINHA FALA: 


 ***



ALBERTO DA CUNHA MELO: POETA MAIOR
por Silvério Duque





Que ninguém é profeta em sua terra – vá lá – isso é uma grande verdade, mas nem sempre quer dizer que tudo seja desvantagem; eu, por exemplo, nunca falei na Academia de Letras de Feira de Santana, minha terra tão amada e, às vezes, um pouco ingrata para comigo, e, de repente, vejo-me aqui, na Academia Baiana de Letras, conhecendo uma série de poetas e articuladores que tanto fizeram e fazem pela arte e pela literatura, tanto de nosso Estado quanto a de nosso País, os quais, diga-se, tenho a mais profunda admiração, aquele tipo de sentimento de amizade de que tanto filosofou Aristóteles. E é em meio a este caloroso clima muito mais de fraternidade, do que de gélido espírito academicista, que me proponho a falar da poesia de Alberto da Cunha Melo.

Foi, literalmente, pelas mãos de um amigo querido, o crítico Jessé de Almeida Primo, que os recebera do também Bruno Tolentino, grande amigo e admirador do poeta pernambucano, que li os primeiros esboços de Yacala, um de seus maiores livros e uma das mais bem sucedidas narrativas de nossa literatura, num pequeno códex encadernado e datilografado pelo próprio autor, o que, para mim, já mostrava o cuidado e o capricho que, em tempo, revelar-se-iam em sua poética.

Foi desta forma que conheci os versos de Alberto, sob as circunstâncias as quais todas as grandes poesias se nos chegam: como uma chuva repentina num domingo de pique nique. Foi assim que a minha admiração pela obra de Alberto da Cunha Melo se fez diante de meus olhos: como o grande milagre que toda poesia é, sem nunca mais me libertar daquela emoção que só quem se sabe diante de algo realmente grandioso reconhece.

Os grandes poemas, como os de Alberto da Cunha Melo, têm essa capacidade, ou seja, a de nos arrebatar para outro estado de consciência e de perplexidade.

Com a poesia de Alberto não poderia ser diferente, pois, para mim, sua obra sempre sintetizou a força e a segurança da tradição com a versatilidade e a engenhosidade empolgante das produções mais atuais... e atuantes. Ela tanto se presta à reflexão temática, bem como à multiplicidade técnica, e por isso se faz digna tanto dos grandes e antigos quanto dos novos mestres. Seja orando por seu poema ou a refletir schopenhaureanamente num antigo escritório da Mesbla, foi-me muito fácil reconhecer que um poeta tal qual Alberto da Cunha Melo não buscaria a redenção pelo humor ingênuo, muito menos pela liberdade irresponsável da total falta de regras, como se convencionou entre a maioria de nossos bardos desde 1922, e sua herança maldita. Seus poemas são como uma grande e continua elucubração sobre muitos dos temas mais caros à humanidade, e é sempre com muita humanidade que eles se apresentam ao público leitor. Mesmo salvaguardados por uma espeça camada de erudição, seus versos fluem sobre os diversos conflitos éticos, morais e psicológicos de que costumam falar, sob o escopo de uma linguagem que se dirige a todos.

Daí eu penso que uma poesia assim só pode ser uma poesia conservadora, mas – permitam-me um imediato esclarecimento – não aquele conservadorismo preso à mimese paupérrima ou à total minimização de ideias e temas outrora grandiosamente trabalhados. A poesia de Alberto da Cunha Melo é um dos exemplos mais novos e mais perfeitos de valorização daquela que é a peça mais importante de toda poesia: a Palavra.

E, antes que alguém aqui considere minha declaração uma “pérola” da obviedade, é sempre bom lembrar que, nos últimos quarenta anos da história de nossa poesia, a desvalorização de seu elemento principal foi algo sumariamente propagandeado e seguido com o mais feroz afinco, da mesma maneira que, mesmo criticando os antigos poetas, os quais viam nas artes plásticas um modelo de elaboração a ser seguido pelos donatários da literatura, cobriram-se da mesma desculpa da maioria dos supostos pintores abstratos ao se utilizarem do falacioso argumento da não necessidade da figuração para esconder sua total falta de habilidade tanto de técnica quanto de talento propriamente dito.

A palavra, na poesia de Alberto da Cunha Melo, entretanto, volta a ganhar aquela profundidade de significados que, desde Cabral e Drummond, e com a exceção de Bruno Tolentino, não se ouvia ecoar a algum tempo na maioria de nossos poetas que, com a desculpa de um sintetismo necessário ao mundo veloz e desafiador em que vivemos, precisava falar rapidamente ao tempo que imprimia em seu leitor uma gana de impressões indeléveis em sua mente tão ocupada, todavia, o resultado que se via era um emaranhado de vocábulos dispersos em versos soltos e descompassados que mais confundiam e enojavam que ensinavam ou traziam alguma impressão no mínimo agradável. Mas Alberto da Cunha Melo da vazão a essa ideia e a faz funcionar, não porque é um moderno melhor intencionado e sim porque é um técnico, ao mesmo tempo que se mostra um sensível observador do mundo e das inúmeras oposições as quais esse mundo se presta e, à sua maneira, evidentemente, um conservador. Conservadorismo que amalgama uma série de elementos primordiais que, trazida do passado, tem o papel de alicerçar novas e diversas maneiras de se compreender o mundo a se abrir novíssimo e gigante a cada época, a cada novo dia para qualquer poeta. É aquele conservadorismo que estava tanto em Pessoa quanto em Bandeira, em T.S. Eliot e Carlos Drummond, Auden e João Cabral de Melo Neto... mas jamais se encontrou em Mário ou Oswald de Andrade, muito menos nos irmãos Campos ou naqueles 26 poetas de um hoje que nunca aconteceu, como queria a Heloísa Buarque de Holanda.

E digo mais: Alberto da Cunha Melo é um poeta formal  (e repito isso com o mesmo tom de quem revela uma verdade incontestável, pois foi assim mesmo que me alardeou o Bruno Tolentino, aqui mesmo, em Salvador, entre uma mariscada e uma boa conversa, há alguns anos). Mas como isso se elabora dentro de qualquer poeta é a grande questão... Infelizmente, a grande maioria dos leitores, mesmo os mais preparados, entende forma como uma elaboração simplória de versos, quando, na verdade é o resultado da elaboração interior de cada poema.

Sabendo disso, Alberto da Cunha Melo vai além do mero formalismo; ele é um criador de formas, da Retranca – por pior ou simplesmente “dissonante” que este nome me soe aos ouvidos –, para ser mais exato, e criar uma forma é muito mais que inventar uma medida; é a realização de um conteúdo apropriado ao ritmo, à rima e, sobretudo, à ideia contida nos versos. E isso se dá de uma maneira muito próxima do filosofar, até porque tanto a poesia quanto a filosofia nascem do mesmo principio: o da perplexidade. E se nenhuma filosofia que se preze afirma qualquer coisa sem verificação, confirmação ou agravamento, a poesia não faz diferente, todavia, contrariamente, não tenha um compromisso em dizer ou muito menos provar uma verdade. Embora a poesia apresente um grau de objetividade (sim, objetividade), que pode se dar ao luxo de não apresentar provas ou argumentos, quando muito um exercício de estilo, e a forma em que o poema se apresenta passa a ser o seu próprio argumento, por isso a poesia é o uso demasiado e perfeito da palavra, mas sem se voltar diretamente a um leitor específico, e, dessa maneira, falando a todos ao criar, agora sim, a subjetividade que lhe é essencial e sempre peculiar.

A poesia é elaborada para dizer algo que à própria forma se apresenta, e Alberto da Cunha Melo sabe disso, sabe que a forma é calculada para dizer algo que não se vê à primeira vista no texto, é seu caráter mimético; essa característica é intrínseca a qualquer texto que se diz poético, cada ritmo, rima e distribuição de um poema é a contrafação de algo que nele se encontra e dele se apresenta.  Disso se entende que toda poesia é necessidade de transbordamento e a forma é o meio pelo qual este transbordamento escorrerá. Uma das missões que cabe ao poeta é a de não se conter; dessa maneira, não há dúvida de que o poeta é um possuidor daquela “sã loucura” comum tanto aos santos como aos educadores e que conhecemos pelo singelo nome de vocação: de fazer aquilo que deve ser feito; que se espera que seja feito, mas poucos, verdadeiramente, propõem-se a fazê-lo.

E digo mais: muito embora senhor de seus versos, Alberto nos faz relembrar que há uma lei que antecede o próprio ato de criar um poema e a relação que estes poetas têm com esta lei distingui-os muito intensamente dos meros coladores de verso. E muito me alegrou quando, da primeira leitura da poesia de Alberto, ver que este poeta também sabia a quem, e como falar, ao agradecer por seu notável engenho e sua inigualável arte:


Senhor, nesta manhã de outubro,
ainda com o jeito de quem ia
reiniciar longa viagem,
meu poema chegou ao fim.

Agora todo meu trabalho
é procurar uma palavra
que te agradeça humildemente
todas as outras que me deste.

Entretanto, nem mesmo isso,
posso sozinho conseguir:
Dá-me, Senhor, essa palavra,
antes que chegue o último verso.

Que ela se espalhe como as brisas
dentro das minas, de repente,
e una-se sólida na hora
em que apertar a tua mão.

Quero morrer, quero alcançá-la,
e já começo a persegui-la
como se fosse uma serpente
que fugisse com minha morte.
  

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 Sentimental ou racional, erudita ou popular, formal ou aparentemente livre (porque, no fim, não há poema livre para quem se presta a fazer um bom poema) toda poesia é demonstração, mas é também uma síntese de todos os nossos conflitos, principalmente os mais silenciosos... os mais ocultos.

Para a poesia, mostrar é muito mais que argumentar: esta lógica sempre foi mais forte no mundo dos poetas, por isso que, em se tratando de poesia, o apego aos fatos reais importa menos que a qualidade de como são contados, ou melhor, poetizados.

Muito mais que a verdade, para a poesia o que mais importa é aquela subjetividade que existe em tudo que é verdadeiro em um nível mais profundo, seus valores e posições existenciais mais básicas. Não é à toa que a transmissão de um acontecimento, feito por meio de elementos poéticos, é muito mais forte e eficaz; quando não, mais verdadeiro: assim acontece à Grécia pré-socrática, descrita por Homero, ou aquele Inferno de tormentosa beleza, que atravessamos ao lado de Dante e acontecerá, também, àquele Yacala, o antológico personagem da narrativa de Alberto da Cunha Melo, a buscar, no firmamento, aquilo que não lhe é possível enxergar a um passo de seus olhos:

Levamos fogo, não esponjas
ao trono sujo de excremento
disputando o mesmo vazio
de um estrela no firmamento;

jarros negros e estrelas, tudo
é busca de conteúdo;

ou somos renúncia ou cobiça,
atravessando esses planaltos
feitos de cinza movediça;

mas todos estamos em casa
como os voos dentro das asas.


E se mostrar é mais importante que argumentar, não me estranha que um leitor, por menos conhecedor que seja da história da literatura ou dos mecanismos mais essenciais da crítica estético-literária, passe mais tempo se deslumbrando sobre os versos de um soneto de Camões do que se convencendo de que há algum conteúdo ou valor estético nos herdeiros do Concretismo, por mais que mil livros ou sabichões de cátedra digam o contrário.

Todavia, não é de se condenar o modo como o público, por mais bem intencionado que seja e tente se debruçar nos malabarismos linguísticos de muitos de nossos poetas contemporâneos, relaciona-se com as obras publicadas. Se o leitor, bem o mal intencionado, estiver a ler os versos de nosso O Boca do Inferno, por exemplo, essa relação seria bem menos problemática, pois a fruição de seu entendimento dar-se-ia, naturalmente, melhor do que diante daquelas coisas “escritas”, ou melhor, “desenhadas” por um Décio Pignatari; neste caso, o conhecimento ou uma suposta admiração profunda acerca da estética da época de nosso maior sátiro não é condição de possibilidade para a apreciação das obras, mas a fruição decorrente de uma experiência estética que envolve pura contemplação... essa, sim, é importante. Isso porque os códigos que envolvem, tanto a sua produção quanto sua avaliação, são partilhados por todos os membros de uma determinada cultura, por envolverem, advertidamente ou não, um decoro ou cânones estéticos consagrados por uma tradição e, nesse sentido, entre os nossos poetas contemporâneos Alberto da Cunha Melo é um dos que acumula a maior quantidade de pontos.

Pensando assim, poucos poetas de nossa época mereceriam ser chamados de poetas, e me parece que um número bem menor de poetas poderia se dar ao luxo de se achar, em meio a tantos engodos que a contemporaneidade nos submete, entre os poetas maiores de nossa atualidade, como Alberto da Cunha Melo. Porém, se há aqui quem discorde, pois não é de achismos que uma crítica verdadeiramente honesta e eficaz se fará, como não é julgando um poema ou seu autor pelo que estes tocam às ofensas feitas à moral, às leis ou às religiões, como, certa vez, admoestou-nos o Bruxo do Cosme Velho, esteja este sempre disposto a discutir-lhe o mérito puramente literário, o pensamento criador, a construção cénica, o desenho dos caracteres, a disposição das imagens, os jogos linguísticos e a elaboração das formas, mas, claro, em outro momento, porque este momento aqui é um momento de festa, é o momento do poeta que é, tanto a mim quanto a muitos de vocês aqui, ainda tão presente, porque são os seus setenta anos, principalmente, de poesia, e, porque, pelo menos em minhas considerações, é um “Poeta Maior”, sim, Alberto da Cunha Melo o é... com certeza.

















Candeias/Salvador, 27-28 de agosto de 2012.