sábado, 16 de abril de 2011

UNIFICA, SENHOR, MEU CORAÇÃO...



Cristo crucificado de Diego Velázquez, (1639), Óleo sobre tela, 249 cm × 170 cm, Museo del Prado, Madrid, Espanha.





Unifica, Senhor, meu coração


e dá-me o espaço azul entre as palavras;


a Tua face inclui tudo o que existe,


e há em tudo o quanto existe o mesmo sopro;


dá-me os frutos refeitos entre as bocas,


a maciez da carne e seus suplícios,


estas cores advindas de Teus gestos.


Senhor, a noite é escura – e eu tão pouco –


e em tudo sou diverso e sou contrário:


o lugar, o desejo... estas distâncias;


vontade de partir entre os amplexos.


Torna, Senhor, um só o meu coração


perdido entre os cenários e as platéias;


faze de mim Teu instrumento e a Espera.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

INDESEJADA DAS GENTES III: EM ANTOLOGIA PERSONAL, POR JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO...

A jovem e a morte de Hans Baldung Grien (1510) 44,5 x 37,2 cm. Museu de Belas Artes, Bruxelas – Bélgica.

INDESEJADA DAS GENTES III


OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE E OUTROS ATAVISMOS:


UMA ELEGIA EM BUSCA DO TÚMULO DE MEU PAI, AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE



ANTOLOGIA PERSONAL


http://www.jesseprimo.blogspot.com



JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES NO "ENCONTRO COM O ESCRITOR", DIA 20 DE ABRIL...


O Encontro com o Escritor, projeto da Diretoria de Bibliotecas Públicas (DIBIP) da Fundação Pedro Calmon/SecultBA, realizado na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, recebe no dia 20 de abril, 15h, o escritor João Carlos Teixeira Gomes. Conhecido como “pena de aço”, poeta e autor do polêmico Memórias das Trevas - Uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães, Geração Editorial - São Paulo, completa 10 anos da sua publicação em 2011. O escritor ocupa a cadeira nº15 da Academia de Letras da Bahia e publicou em 1985 um livro sobre Gregório de Mattos e a tradição da sátira peninsular (Gregório de Mattos, o Boca de Brasa) que foi muito bem recebido pela crítica e pelo público.


Outro trabalho de sua autoria, também publicado, foi Camões Contestador e Outros Ensaios. Além desses, participou, em colaboração, dos livros Dezoito Contistas Baianos, Da Ideologia do Pessimismo à Ideologia da Esperança, A Obsessão Barroca da Morte de Manuel Bernardes e Quevedo. Tem três livros de poesias publicados: Ciclo Imaginário, O Domador de Gafanhotos e A Esfinge Contemplada; livro, aliás, que, merecidamente, ganhou um ensaio, neste Blogger, na semana passada.


Encontros - Desde 2002 divulgando o trabalho de escritores baianos o projeto Encontro com o Escritor vem se consolidando na Bahia. Sendo um importante exemplo de valorização do escritor local, estabelecendo mais um elo de aproximação do autor e sua obra junto à sociedade em geral. O que se fortaleceu, ainda mais, com a publicação, no ano de 2010, do livro Encontro com o Escritor 2002 – 2009, obra que reúne 55 autores dos mais variados gêneros literários.


SERVIÇO:


O quê: Encontro com o Escritor


Quando: Dia 20 de abril (quarta-feira), às 15h.


Onde: Biblioteca Pública do Estado da Bahia, Auditório – 3º andar. Informações: 3117-6000/ 6084



GRATUITO

GABRIEL FERREIRA EM "BRINQUEDO DOS ANGOLAS E ORIXÁS": ALOISIO RESENDE E BEL PIRES

O artista plástico Gabriel Ferreira em sua mais nova e brilhante exposição...
A temática exposição BRINQUEDO DOS ANGOLAS E ORIXÁS: ALOÍSIO RESENDE E BEL PIRES entrelaça duas manifestações na cultura negra que me aprazem muito: a Capoeira de Angola e o Candomblé. Para colar estas duas manifestações, contei com a ajuda do trabalho de pesquisa historiográfica do mestre de capoeira e professor Bel Pires, o qual se engraçou com a poesia do Aloisio Resende (poeta feirense que viveu entre 1900 e 1941), assim como, contei com admiração pessoal que tenho pelo Candomblé.


Como o texto poético embala muitas das minhas ilustrações, facinei-me com a possibilidade de colocar tudo num mesmo prato de barro e despachar numa Galeria. Assim, segui inspirado pela poesia do Aloisio, chamado de Poeta dos Candomblés, pelo Bel Pires em alguns dos seus artigos científicos, para poder apresentar ao público mais uma das minhas aventuras pictóricas lastreadas em elementos textuais.


A mostra não é um apanhado geral a respeito da capoeiragem e do candomblé, não se trata de uma reedição acerca dos temas e sim uma abordagem bem particular através de pinturas com um discurso que versa, tece e aproxima as duas linguagens.


O Grupo Malungo, sob a coordenação do mestre Bel Pires, é grande incentivador do meu trabalho com a capoeiragem, pois, para além de emprestar o nome (Brinquedo dos Angolas), disponibiliza acervo fotográfico e bibliográfico para subsidiar a minha produção.



Autor: Gabriel Ferreira

Local: Galeria Carlo Barbosa/CUCA (Conselheiro Franco, 66, Centro, Feira de Santana - BA)

Abertura: 19 de abril de 2011.

Período da mostra: 19 de abril a 15 de maio de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

UMA ROSA PARA RENÉ MAGRITTE: JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, POETA DO INDOMÁVEL


Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, óleo sobre tela, 1968.













Venho de mãos cruéis, maios sem lírios,


perseguido de espadas e de gritos...


JORGE DE LIMA















É dia 31 de março. Um amigo e poeta, Bernardo Linhares, presenteia-me com um livro – o mais singelo e perfeito dos presentes àqueles que amam a leitura – mas não sem, antes, tecer uma urdidura de elogios à obra que me oferta.





Em seu projeto gráfico, o livro é simplório, apesar de pertencer a uma grande editora, entretanto, chama-me a atenção, primeiramente, pela bela rosa rubra que se abre imensa e unânime, em um quarto vermelho – paixão sobre paixão, a qual eu logo reconheço como uma famosa tela de Magritte. Em seguida, fixo os meus olhos no título, A Esfinge contemplada, e uma profusão de imagens e mitos arrebata-me a atenção. Por fim, o nome de seu autor: João Carlos Teixeira Gomes, poeta baiano, intelectual de peso, ensaísta mordaz e grande estudioso de ninguém menos que nosso Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Da ultima vez que vi seu nome numa capa de livro, este o dividia com um, hoje, extinto Antônio Carlos Magalhães, pousando de mafioso. O livro era Memória das trevas, foi sucesso de público e crítica, revelando um período da política baiana tão obscuro e abjeto quanto o que vivemos atualmente, por mais pó-de-arroz que a propaganda enganosa, paga por nossos altos impostos, queira borrifar, consagrando seu autor como grande estudioso de nossa política e cultura.





Mas, e o poeta? O que dizer do homem de versos, dotado de uma condição divinatória, mesmo morrendo de amor, como Maiakovski e Drummond, pelas ideologias esquerdistas? O que dizer de João Carlos Teixeira Gomes e seu A Esfinge contemplada?





Logo, à primeira vista, é fácil perceber o domínio que seu autor possui tanto da técnica quanto de toda a esfera expressiva que esta técnica deverá abarcar. É um livro de emoções, é claro, toda arte busca “fazer sentir”, mas não se engane quem quer que seja que, neste livro, revela-se um lirismo barato e repetitivo; a poesia contida em A Esfinge contemplada é densa, inquieta e, deveras, contemplativa. À maneira dos grandes poetas que surgiram após o período modernista, João Carlos Teixeira Gomes se mostra possuidor daquela capacidade de realização que faz com que uma mera “pedra perdida de duro calcário espesso”, à maneira de um Drummmond, deixe de ser um objeto qualquer perdido em meio ao grande esplendor do mundo para tornar-se algo de inquestionável singularidade, fazendo-se perceptível e emocionante, mas se erguendo através da capacidade de elaboração técnica, de uma estrutura lingüística que tem início na mera emoção que fenômenos tão simples, como o desta “pedra in natura”, podem produzir em nosso espírito.





Era uma pedra perdida,


de duro calcário espesso.


Era uma pedra in natura.


Não era vidro, nem gesso.


No chão crestado jazia,


alheia às paixões do mundo:


argila da eternidade,


crosta do tempo infecundo.


Cauteloso, examinei-a


tomando-a na mão discreta:


— É algo que somente existe


em sua essência incompleta.


Corra o tempo fugidio


e há de ser sempre o que é:


forma pura que se basta


sem se dar conta nem fé,


massa vã que se empareda


num rude universo tosco,


presa dos próprios limites


contidos no brilho fosco.


Não pensa, não quer, não sonha.


Nada sabe nem aspira.


Mas eu, que choro e que tenho


um coração que delira,


que sinto o vibrar da cólera


e do fervor mais profundo,


eu logo serei fumaça


dissolvida além do mundo,


matéria desativada


ou pó de humana carcaça


— mas a pedra reinará


na glória turva do nada.


Daqui a mais alguns anos


(que depressa hão-de passar)


já serei fumo esvaído


- mas a pedra há de restar.


E assim ficará, invicta,


sem desejos nem remorsos,


pairando com soberbia


no que sobrar dos meus ossos.



Com raiva, num puro assomo,


tomei a pedra na mão


e lancei-a ao mar profundo:


nada buliu na manhã


nem a paz nimbou o mundo.


Pois à muda natureza


são coisas que não consomem


a dureza de uma pedra


e os sentimentos de um homem.





Tal capacidade só pode ser adquirida através de anos preenchidos de incansáveis estudos e repetidas práticas; a tal empreendimento, alia-se, também, à consciência de que a poesia, como toda arte, é oriunda de uma natureza concreta e intelectiva e que o pensamento reflexivo é tanto maior e necessário ao poema quanto melhor ele for, quanto mais verdadeiramente emotivo ele nos parecer. Pensamento e contemplação artística nascem da mesma inquietude, porque ambos estão no homem e nessa sua estranha mania de querer desvendar a vida em sua mais perfeita grandeza.





Sem dúvidas, só pelo evidente domínio técnico dos círculos expressivos, como diria César Leal, em sua Os cavaleiros de Júpiter, já poderia considerar João Carlos Teixeira Gomes como poeta, bem como um grande poeta, cuja característica maior seria o do domínio de tamanha técnica expressiva, mas este baiano, profundo conhecedor dos bardos ibéricos e de nossos melhores poetas, não se limitaria somente à descrição das pequenas disposições da alma, acalentadas por um cabedal de pragmatismos intelectivos; como todo grande poeta, dirige seu olhar ao passado e à mitologia, aos desejos e percepções, às emoções e ao pensamento analítico, expandindo-se em conteúdo e se restringindo no que diz respeito ao palavreado e à ornamentação lingüística. Tais características poderiam, inclusive, caber muito melhor em um sonetista, primeiramente, ofício, aliás, onde João Carlos é, numa linha histórica (só para contemplar a Bahia) que vem de Gregório de Matos a Ildásio Tavares, um dos melhores neste ramo seleto e cada vez mais raro em nossas Letras.





Entretanto, estas qualidades não se restringem a quatorze versos, à maneira de um Petrarca ou de um Camões, fazendo-se perceptíveis, também em seus versos livres, cujas camadas, tanto simbólicas quanto sonoras, não se permitem faltar. Desta forma, todas as qualidades de um bom poema podem ser encontradas nos versos de João Carlos Teixeira Gomes, independentemente da forma escolhida por ele, seja ela um soneto:





Minha única certeza é minha morte.


Virá festiva, com pendões vermelhos,


Provocadora com seu riso forte.


Mas me verá de pé, não de joelhos.



Pode vir de mansinho a forasteira


Ou numa orgia de ossos e fanfarras,


Com dois laços de fita na caveira


E o ágil chocalhar das finas garras.



Eu que os mares amei, e o sol tirânico,


Os flavos grauçás de dorso enxuto,


As moças de maiô e o vento atlântico,



Sereno hei de esperá-la em meu reduto.


E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,


A própria morte se porá de luto.



ou em (supostos) versos livres:







O silêncio habita


o parco instante da alba e do crepúsculo


o olhar embaciado do morto e suas mãos


a deserta sala onde um relógio soa


o cais ausente de navios


o balé das alegorias nos cemitérios


o vôo do anjo de mármore para além da haste


as pausas das grande sinfonias


certos afagos noturnos que antecedem o êxtase


a tarde nos claustros, a partir da 17ª hora


os sutis deslocamentos da alma


uma folha caindo no outono (ou fora dele)


o lento périplo dos dedos pelo corpo amado


o círio que arde


uma estrela entre nuvens


o vôo do morcego aprisionado na gelatina da noite


as fotos antigas que imobilizam o tempo (e o denunciam)


o caminhar das formigas na superfície do mundo


a praia na maré morta


o musgo que cresce nas ruínas


as ruínas que não souberam tombar


a imobilidade das folhas


o passado


o vestígio de um asa na tarde morrente


a água que goteja no carramanchão


o écran da TV desligada, com um grande olho a espreita


a nuvem à esquerda, no ocaso


a gestação do mel e das resinas silvestres


os infinitos espaços e a sua malha de órbitas


a germinação do rancor


a estação vazia, após o último trem


o amor que é a ânsia, mas não se confessa


a chama das lamparinas de oratório


a fenda Tundavala e os tandos da Gorongosa, que conheci outrora


o instante em que o segundo se fez hora


a vela decalcada na manhã móbil


a música gestual das bailarinas em levitação


os conluios do tempo e da morte


a mão que pinta


um bater de pálpebras...





Desta maneira, neste Universo de grandes elaborações poéticas, João Carlos Teixeira Gomes, em momento algum, ignora o critério e a disciplina, no sentido do apuro textual, fundamental aos grandes mestres, pois sabe que a poesia é amais perfeita das artes e, assim, reverencia, por assim dizer, a construção de sua poesia como algo pleno de significados e não um jogo simplório de palavras e de aproximações sonoras. Por isso mesmo o autor de A Esfinge contemplada pode muito bem colocar conflitos emocionais e inteligibilidade, no papel, com total efetividade e, desta maneira, ser muito bem chamado de poeta.





Mais do que um discorrer lírico sem pretensões, A Esfinge contemplada dá vazão a uma intricada soma de visões tanto dialógicas quanto dialéticas, reforçando, assim, os aspectos dramáticos, presentes em todo o livro, e estabelecendo, destarte, um fio condutor que vai de poema a poema, unificando o livro numa idéia de poesia culta, mas sem perder de vista a emoção contemplativa que todo homem, um dia, esboçará diante do mundo e de toda a sua grandeza, através de temas como Deus, Vida, Morte, Ser, Tempo, Destino, Mistério, tão caros à poesia e ao nosso desejo primordial de inquietude metafísica, bem como o de transcendência. Tal atitude só pode ser entendida como algo que provem de um homem profundamente situado dentro de seu contexto poético, a exemplo de um Jorge de Lima ou de um Bruno Tolentino, que, por vezes, o leva a certeza de que a missão da arte é elevar nosso saber e consciência aos supremos interesses do espírito, como diria Hegel. Contudo, com a morte da fé e da crença, entre os homens de espírito elevado, na própria imortalidade deste espírito, assistimos a morte da arte e de suas formas mais sublimes, como bem demonstrou Alfred Miller. Daí, haver, em nossos dias, tão poucos “poetas” preocupados com “os grandes interesses do espírito”, tão poucos verdadeiros, quase nenhum gênio a desatacar-se entre os medíocres, pois, hoje, são os “grandes” os medíocres de outrora.





Seja por fé verdadeira, ou o mero fingimento de poeta do qual falava Fernando Pessoa, a idéia de crença e de transcendência, presente em A Esfinge contemplada, desempenha um papel de grande relevância entre os maiores nomes da poesia contemporânea e representa uma tomada de posição de um artista diante dos engodos hodiernos de nossos pintores abstratos que não sabem fazer figura, de nossos poetas de “versos livres” que não sabem fazer soneto, dos críticos que só leram as orelhas dos livros que criticaram, dos que fizeram tese sobre Baudelaire sem nunca terem lido Baudelaire, etc.





Tal desempenho (e representação) se torna mais intenso quando o poeta nos permite contemplar, em sua própria poesia, as muitas influências que recebeu como um grande alinhavo de criações intertextuais, a exemplo de uma estreita relação com Augusto dos Anjos e Jorge de Lima, como neste Soneto Negro:







À meia noite, quando os sonhos nascem,


gordos morcegos e fosforescentes


dos tredos bosques, onde os medos pascem,


em bandos saem, a assustar as gentes,



se os esqueletos por ventura andassem


sacolejando seus ossos trementes,


tantos sustos, talvez, jamais causassem,


como essas fúrias de raivosos dentes.



São mensageiros do reino das brasas


em bruscas rendas das humanas rotas


que a tudo afligem com as negras asas.




Fuja logo o infeliz que pode vê-los!


Pois quem comanda tão sinistras frotas


é Lusbel, o senhor dos eternos gelos.





ou na profusão crômica e sinestésica, típica de um Sosígenes Costa ou de um Carlos Pena Filho, neste belíssimo Soneto marinho:







Confluências do Azul. As vergas altas


implantam um Mondrian na paisagem.


Ao deslocar-se a vela móbil crava


um ócio branco em luminosa aragem.




Emerge em arco, além, a fímbria alva


de dura fraga em salitrosa espuma.


O salso dique a preamar destrava,


nas vagas corre a solitária escuma.



Ao sol a pino o meio-dia é brusco.


Arando o ar ardente sobre as telhas


o dia é frágil como um vaso etrusco.



Voa a manhã nas asas das abelhas.


No mar intemporal dorme um molusco


que algas rodam em cândidas parelhas.



Além do mais, esta carga de influências positivas, e tão bem impregnadas de capacidade intelectiva quanto técnica, conferem a João Carlos Teixeira Gomes uma realização plena, a exemplo dos mais laureados dos poetas. Todavia, muitos consideram uma obra como A Esfinge contemplada, como “antiquada e classista”, dada a nossa incrível tendência a obviedade a ao simplismo, escondidos sobre o manto da “revolução” e do “vanguardismo” que, negando-se, como nos atentou César Leal, à peneira das perspectivas e o crivo do tempo, preferem, principalmente em nosso querido Brasil, perpetuar a “fase de choque”, insistindo na sistemática negação de valores estabelecidos e impulsionados por nada menos que o ressentimento, a inveja, as frustrações pessoais, a carência de talento e pela vaidade de inapto.





Quando os meios de comunicação, as Academias, os centros de educação e tudo o mais que deveria salvaguardar certos princípios e normas dogmáticas, são tomados e dirigidos pelas hordas que deveriam combater e afastar, entende-se o incompreensível facto de homens como João Carlos Teixeira Gomes e Ildásio Tavares (só para ficar pela Bahia) serem renegados a segundo plano, esquecidos em edições poéticas esgotadas, e, quando lembrados, destinados a funções mais “benquistas”, como a de pesquisador, professor universitário, ao invés de poeta ou de homem engajado ao invés de homem universal.







Construindo uma idéia de fim em si mesmo, toda uma geração chegou ao ano 2000 acreditando na terrível mentira de que a poesia brasileira não nos deu mais nada além do que nos foi imposto pelo Concretismo ou pela Poesia Marginal e, se há poesia, ainda, entre nós, esta se encontra nas canções do Chico Buarque e do Caetano Veloso, e não em nomes como Adelia Prado, Neide Archanjo, Reynaldo Valinho Alvarez, Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo, Érico Nogueira, Rodrigo Petrônio, Patrice de Moraes... Nossa “intelectualidade” adulatória, incapaz e inerte para as grandes questões humanas, mais e mais se mostra destruidora do estudo honesto e de uma visão crítica que realmente veja as coisas como elas são e não como aparece ao seu interesse quanto mais espalha suas ideologias cruéis e vazias por nossas Universidades.





Alheia a estas maquinações cooperativistas de nossos intelectuais, a poesia de João Carlos Teixeira Gomes chega-me mais de vinte anos depois (a edição é de 1988), como uma das obras mais elaboradas e representativas de nossa Poesia Contemporânea... Uma poesia que se abre cada vez mais nova e mais bela como aquela imensa rosa na Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, entre o desvendar da modernidade e o cultivo consciente de uma tradição poética cada vez mais forte quanto mais reaparece. A Esfinge contemplada, principalmente com seus sonetos, arrebata qualquer leitor para uma atmosfera super-elaborada do universo poético (e do universo formal da grande poesia) cuja essência se encontra nas muitas questões de natureza existencial que ele suscita. Algo que só alguém que aprendeu a dominar os intricados meneios que a poesia pode criar, verdadeiramente.







Poesia, este enlaço àquela verdade sublime e indômita que se chama Beleza.



















Salvador/Candeias, 05 de abril de 2011.

quinta-feira, 24 de março de 2011

OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA COM O POETA RODRIGO PETRÔNIO...







Professor Rodrigo Petronio*




Duração 5 encontros




Dias 3, 10, 17, 24 de novembro e 01 de dezembro – quarta-feira, das 18h30 as 20h30




Local Fundação Ema Klabin – Rua Portugal 43, Jardim Europa




Valor R$ 150,00 na inscrição + uma parcela de R$ 170,00




O objetivo da Oficina de Escrita Criativa é desenvolver alguns procedimentos técnicos ligados à escrita literária em ficção, poesia e não-ficção, sobretudo nas áreas de poesia, ensaio e conto. Como se sabe, a literatura tem um amplo arsenal de recursos dos quais os escritores se valem para produzir os efeitos desejados.




Mesmo na literatura contemporânea, na qual há uma flutuação muito grande de estilos, propostas, padrões e normas, é possível chegar a alguns critérios objetivos, que nos levam a compor um texto de maior ou menor qualidade literária. O objetivo do curso é justamente dar instrumentos teóricos e práticos para aqueles que se interessam por literatura e desejam refinar as técnicas de escrita.




Aula 1:Conceitos fundamentais de poesia, poeta, poema e poética. Distinção entre esses vários termos à luz de alguns poemas. Distinção de gêneros. Limites entre poesia e prosa. Prosa poética e poema em prosa. As três unidades fundamentais da poesia: imagem, música, conceito. Coisas a serem evitadas: clichês, redundâncias, cacofonias, lugares-comuns, inverossimilhança, ludismo, conteudismo, expressão de sentimentos, entre outras. Produção de texto a partir de temas sugeridos.




Aula 2:O reino da imagem. A importância da imagem na literatura. Analogia x Ironia: os dois signos da modernidade. Os usos da imagem. Teoria das correspondências. A imagem poética: definição. Leitura de escritores da imagem. Escrita de textos utilizando imagens.




Aula 3:A música acima de tudo. A importância da música na poesia. Música e prosódia: entre o canto e a fala. A teoria das sugestões e a musicalidade. Distinções entre ritmo e metro. Polirritmia e verso livre. O ritmo na prosa. Ensaio: a cadência do pensamento. Leitura de escritores que exploram as possibilidades do ritmo seja na prosa ou na poesia. Escrita de poemas utilizando ritmo e música.




Aula 4:Literatura e pensamento: a beleza pensada. A importância do conceito na poesia. Poesia e filosofia. A doutrina do conceito engenhoso. Distinções entre conceito poético-literário e conceito intelectual. Leitura de poetas do pensamento. Escrita de poemas utilizando recursos do conceito.



Aula 5:Leitura crítica da produção final dos textos dos participantes. Fechamento de principais ideias levantadas ao longo do curso sobre as técnicas que podem ser usadas na escrita. Coletânea dos textos produzidos e leitura final como preparativo de um pequeno livro dos participantes.

*Rodrigo Petronio é editor, escritor e professor. Formado em Letras Clássicas e Vernáculas pela USP. Professor e cofundador do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema (AIC), professor-coordenador do Centro de Estudos Cavalo Azul, fundado pela poeta Dora Ferreira da Silva, e coordenador de grupos de leitura do Instituto Fernand Braudel. É membro do Nemes (Núcleo de Estudos de Mística e Santidade) da PUC-SP. Autor dos livros: História Natural, Transversal do Tempo, Assinatura do Sol, Pedra de Luz e Venho de um País Selvagem, entre outros.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ENTREVISTA...


Silvério Duque (31 de março de 1978... )
Caríssimos,


Segue, em primeiríssima mão, uma entrevista que concedi ao poeta e jornalista Hilton Valeriano, para o blogger POESIA DIVERSA.


Espaço poético de qualidade, como muitos, se procurados, que podem ser encontrados pela Internet, e que nada custou aos cofres públicos.


Confiram e comentem.



Um grande abraço,



Silvério Duque







sábado, 12 de março de 2011

O CRÂNIO DOS PEIXES...


Imigrante de Iman Malek, ( 53X37) pastel sobre cartolina, 2003, coleção poarticular.

a Agostinho Ribeiro do Nascimento
e família.; a todos os Ipiraenses de vão-e-vem como eles...



Un souvenir heureux est peut-être sur

terre plus vrai que le bonheur
A. MUSSET












I



– A rodoviária é sempre a mesma
aglutinação de almas a se moverem.;
cada uma com seu vazio diário ao passo
das coisas perpétuas – são os mesmos tipos
diferentes dos mesmos rostos multiplicados, tão
longínquos e sombrios à incansável
jornada de cada dia, por dentro daquela
mesma matéria a cada minuto mais
exposta, a cada passo mais restrita, e, em
cada palavra não dita, uma perdida
urgência de viver...

É aqui que meus instantes declaram
sua existência descontínua e fundamental.;
é na poltrona do ônibus que uma explosão
de vida me elabora por trás dos
seres que fogem.; é por sua janela
que os elementos se resultam
no fantasma incorruptível de meu destino,
na ponderabilidade incorrigível
do meu Espírito... na lembrança
distante de minhas melancolias e de todas
as hostilidades
– da identidade anterior de
todos os meus pensamentos...

Daqui parto, como a última e nenhuma
vez a partir de novo... daqui parto:
circunspecto, impreciso – mas, principalmente,
forasteiro: peregrino da minha e de tantas almas
como todas, talvez?!
Daqui parto, sobre a Asa fugaz
das rodas e da Estrada, ao lado de toda
tristeza profunda e ilegível, com o asfalto
( como a me indicar uma metáfora ) ou
com o meu companheiro de poltrona
a me mostrar, em seu imperceptível perfil,
o espelho de meus dias e de meus sentidos:
a denúncia de minha solidão
( e da sua ), à face fria da evasão
de todos os meus sonhos...

A pouco Feira de Sant Anna some ao longe:
naufragada nas rochas, no calor, e nas mãos penosas
do horizonte infinito.; sua imensidão, e sua
vulnerabilidade, dão lugar à Caatinga
consciente de sua Beleza e de sua Fúria
( faminta de tantas raízes e tantas líricas,
afogada sobre a imensidão fria e perene
dos Céus.; sobrevivente sobre
a tardia evolução das pedras e
dos homens, que com elas
edificam seus dias de tempo
e pó... ): revigorada de um erotismo
verde, a Caatinga toca os meus
olhos de unânime perfume e
consistência...


( Comumente a Caatinga tem a Morte
por amuleto, mas, por esses tempos, a vida
é sua máscara. Concretamente mudo,
o verde que deságua por essas terras
cobre-as de muitas esperanças fugitivas.;
feliz e forte em si mesmo
– e nos instantes que se desprendem
a cada um de seus passos –
o sertanejo sorri: alegre em vê-la,
como por uma primeira vez repleta de saudades,
com a feminilidade das terras que se
casam com o mar, e, entre
ele e sua filosófica longitude, declamam
sua matéria de eternidade afastada:
de vida azul sempre presente
e oculta... )

Angüera surge pequenina e surpreendente,
debruçada na cama dos morros.;
repousada de amor e desencantos
ora tardios ora secretos
e inanimados.
Sobre o tapete duro do prazer das
serras, Angüera, descrente e viva a
cada instante de amor, aproxima-nos
de si enquanto a estrada
a consome em memória...
enquanto a lembrança e o tédio
a semeiam em eclipse e vento
– em santificação letal e falsa
para o novo reencontro dos
antigos esquecimentos
que sempre voltam...

O carro, as pessoas e as esperanças,
cortam a carne da estrada ( nova e velha )
como, ao vencedor, a Morte zomba.
Miúdas certezas, miúdos beijos,
miúdos olhares sobre a claridade doce
das serras se envolvem no ônibus,
enquanto, indiferente, durmo para
tudo isso e busco um tempo
explodido entre os morros que anunciam
a mão esquelética da Transformação:
a síntese precária da natureza
sobre a criação que se extingue
de minuto a minuto,
de vivência em vivência de cada segundo,
de eternidade a eternidade
em cada herança de sono
d outras e d outras
vidas e Vidas...

( Serra Preta existe apenas no mistério
e nas migalhas do imaginário:
nunca a vi... sempre por trás
da paralisia encoberta da montanha
de verde e pensamento.;
sempre decifrada no nada
e naquilo que em mim sobrou de absoluto e bêbado
e que só sei que as tenho só por esquecer.
Serra Preta é uma música da
qual não me lembro de tê-la lembrado
alguma vez... Serra Preta é um
nome, uma rapsódia, uma epifania.;
uma narrativa sem fatos que
reconto a mim enquanto
Eu, os outros e o carro,
sangramos a estrada... )

As paradas que faz o carro são mais que uma necessidade:
são um enterro ( uma morte onde se caminha ) –
são uma existência que vai: depressa,
sempre correndo – a si mesma se levando.
Cada ponto de ônibus é um falecimento.;
cada viajante, que sobre o âmago
do ônibus despoja sua provisória vida,
é mais um morto na descida que leva longe:
longe demais do Viver, longe demais
das cores da Caatinga que,
com o curto tempo, desbotar-se-ão
com a Alma e seus homens
de cor e pedra e alma e sonhos...

Bravo vem manso, cansado...
quase imperceptível ao longe de seu entroncamento
que não leva a parte alguma de todos nós.;
o Bravo, ao contrário de Serra Preta,
não existe no mistério, mas é um
mistério, uma charada que se desvenda
a cada dia enquanto a morte se nos chega:
o Bravo é uma voz que até nós sobe
de tão simples, de tão mística, de tão
pressentida no vazio dos
ônibus sempre ocos...

( Os rios por essas épocas do ano
são como veias para os ossos da terra, para
os esqueletos das rochas e para o espírito dos
gados que se pensam – quase sempre sem sangue,
quase sempre esquálidos, abandonados
de soluções e de vastos mundos
por onde passam...
Os rios quase nada nos dizem de velharias,
de retirantes, dos corações perdidos
de pó e espinhos e gente e santos e mil diabos.
Os rios, como fios elétricos da terra
inumana e indesejada, sempre nos falam
do fazer falso do Novo.; do divino
por fora de todo perdido...
Os rios, mesmo na Caatinga,
são sempre novos, infantis – adolescentes,
talvez?! – mais imaturos como
nunca, mais jovens que a Eternidade
que ao mesmo tempo é velha
e transcende o tempo, as coisas
e suas almas,... e seus
vestígios... )

A serra ao longe, que a pouco era uma
menina, observa-me do alto de sua testa de árvores
e pedras como um Adamastor adoecido
– Pau Ferro fica logo atrás desse gigante
ingênuo: com seu perfume de lembrança
e sua metálica audição de granitos, bambus,
bananas e macambiras.; com sua imensa e inexplorada
longitude de poucos metros,
com seu colossal abandono de
pequenino.; seus abismos de pai ao lado
da materna dor do Nordeste
escondida no ventre dos sertanejos
que são um único fraternal e
fraco corpo.; Pau Ferro tem a cor do cheiro
das plantas sertanejas e a desilusão
de seus habitantes e de um tempo
que é, para sempre, ontem...
O amanhecer voa claro em Pau Ferro, e o colorido
do calor do dia sopra mais fundo em
minhas vistas.; e a ânsia de ultrapassar
os instantes dependurados sobre Pau Ferro
perdem-se em mim como estes últimos
versos com que chego ao quase
fim de minha jornada –
começada dia a dia entre o
sempre e derradeiro fim...










II






– Eu sinto Ipirá como quem chega de mim
ao chegar em seu abdomem de sangue
e mármore ( aliás, para que valeria
tanto chão e pressa
se cada hora
não fosse perfeita
sobre esse destino tão
presumível
e impossível de
se viver.;
do que valeria
tanto se cada coisa
sempre-mesma
se apresentasse a mim
indefinível...? ).; Eu
sinto Ipirá ao vê-la e ao pisar-lhe
o chão como peregrino que sou e de mim mesmo.;
Eu a sinto como quem sofre e como quem come.;
sinto-a em cada um de seus ares com
fincadas flechas nas aproximações
das crianças que aprenderam
a não ter esperanças e
algum dia
testemunharão
o grave frio das fúrias
que a alma nos entrega e
pede de volta na
mesma sã e
incorruptível
moeda.
Estou em Ipirá:
depositado e abreviado
de dias e compromissos
menos imediatos.;
estou em seu olho que
me parece vir...
estou em
sua velhice
e em sua vontade...
Estou no sono
de Ipirá
quando aqui
sempre chego e
Ipirá me espera ( Ipirá
me espera em si,
por dentro de mim e em
nossa sabedoria desmemoriada
por parecermos demais... – Ipirá me saudara... ) –
o Tempo muda rápido, numa vagareza mais do
que comum do tempo e seus artífices, e
o vigor do encontro é mais demorado
e um quanto que mais enérgico.
Pois, aqui, já dizia alguém da terra,
que sangue, suor e todas as
lágrimas dos dias
se misturam nesse chão
de barro e vida.
Os dias por aqui,
apesar do sangue, e da
transpiração dos dias e dos
muitos sentimentos.;
apesar dos homens e dos
porcos, das máquinas, das alfaces,
dos fumos, de suas mulheres
e de seus falimentos,
estão em minha tranqüilidade...
A feira é um gesto.; um
acordo entre
seres entrecruzados.;
um aperto de mãos abreviado
de vida e de longas descidas
pelo rio da morte
e da insatisfação
– a feira ( tão famosa e tão não
lembrada por tantos )
deposita sua voz
no lombo surrado dos
carros de bois
e dos homens sobre os carros
e sobre os próprios homens.;
permanecidos parados,
pedindo perdão aos seus
primeiros pecados
e palavras.;
parecidos, profundos,
profanados,...
parte por parte – repartidos.
Ipirá talvez seja
um rio de tão idoso
ou a própria morte
de tão forte e de tão
inegavelmente precisa.
Ipirá cabe em três palmos e meios
de minhas mãos
vista do Morro Alto,
e Eu caibo em sua
subjetividade
como quem se imagina
em matéria leve e
incorruptivelmente
bruta.
Mas nada é maior em Ipirá
que a sua desilusão
de mais de mil cabeças:
cabeças de gentes,
de porcos,
de bois, de galinhas,
de comércio,
de pasto e leite...
Calcada no infinito
profundo e desnecessário
dos morros e das fazendas,
Ipirá se move ao passo
dos jumentos que carregam
o mel da Caboronga
( a velocidade dos jumentos
é uma velocidade imprecisa –
é a velocidade da esperança e do
medo de toda esperança. )...
Ipirá é uma migalha orgulhosa
de Universo
ante à incompreensão
suja e santa
do próprio Universo...
Despida de Céus,
sua honradez desnecessária
germina-se dos verdes pastos
dos morros que são seu travesseiro.;
e de seus capins ( de um verde imenso
de vida e anulação ) –
tapete efêmero e irrecuperável
de suas obras cristalizadas –,
caem seus animais de ferro
e rocha e carne e espiritualidade
inumanas:
breves brados surdos das paisagens
inconcluídas de sua memória
e de seus braços atados
à suspensa pena
de intervenção definitiva
da concepção do tempo
como agente consciente da dissolução
das coisas...
Eu respiro Ipirá pelas narinas da noite
e pelos pulmões das madrugadas mais próximas e breves...
Sinto todo o seu perfume de profundidade e angústia,
de sensações de medo intensificados de suas
banidas lembranças e de seus momentos
maiores de dramática intensidade,
de seu determinismo, de seu
gozo profundo acompanhado
de dor tão forte e religiosa,
de sua reprodução e morte...
Ipirá aspira à vida em cada um
de seus paralelepípedos,
em um a um de seus becos.;
uma por uma de suas praças
e ruas quase infinitas
e que são nervos de seu cérebro
esquecido e lúcido
de loucura concreta e adequada.;
Ipirá respira a vida
em sua linguagem
mística de
sertanejos calados
e animados de vazio e
doçura.;
Ipirá deseja
e sopra vida
e Vida
no aroma
incorrupto
de seus mendigos,
roceiros,
senhoras e
putas.;
Ipirá é um viver
reescrito em palavra e
dor: numerosa
dor, inflexível e
admirável dor:
dor de gentes.;
dor de gentes maiores
que outras gentes.;
dor de gentes
convertidas
em bois e carros.;
dor de gente transformada
e transfigurada em porcos.;
dor de gente e de morros.;
dor de gente e lixo
e gente de lixo e dor.;
dor de gente convertida em outros.;
dor dos outros.;
dor de nós.;
dor de Ipirá e suas células.;
dor infinita e
inumerável.; dor de
mim, que estou em sua glória
e em sua fraqueza.;
que estou em seu sexo
e em sua conversão.;
em seus olhos.;
em sua boca
e em suas
palavras.; ...
em sua mudez,
em seu horror...
em sua devoção.
Ipirá é para mim
esta amizade corrupta de sonhos,
como a juventude das pessoas e dos amanheceres,
de Ipirá retiro quase todos os dias os barros
de minhas línguas e as sementes
das pernas que se apressam
de tanto chegar a mim
e em seu surpreendente
avivamento –
e esta vontade de amar a vida de novo e
pelo avesso encontrei em Ipirá
e em cada mulher de sua terra.
Ipirá é um sonho:
dormindo sempre na memória
dos homens munidos de olhos e
facas, abraçados aos rios e à nascente
da ilegível bica da Caboronga
e abaixo da superfície calma
do entardecer dos dias,
que são mais bonitos sobre as planícies
quase imaginárias,
onde a Estrada e Baixa Grande
são uma idéia
coberta dos concretos abstratismos
da carne virginal
dos delírios da feira
na falsificação do meio-dia.
Deste sonho, que é Ipirá,
acordo sempre para dormir
de novo em seu leito de chagas
e frutas frias e calmas.;
Ipirá se encontra dentro de muitas outras coisas
como muitas outras encontram-se dentro
d’outras muitas outras
coisas e d’outras...
A música que
Ipirá respira
é como o doce líqüido
da paz do sangue das carroças
e dos carros alimentados
de gentes e de imensos
e vulgares vazios de
gente vazia e líqüida
como sangue e música...
As horas de Ipirá
são como as voluptuosas horas
dos presentes velozes a
se retardarem.; de
relógios parados de tempo.;
de tempo parado de movimentos
fluídos e líqüidos
como relógios,
como pássaros
( que não mais existem ),
com seus carcarás ( a não mais existirem ),
com seus mamíferos ( que ainda existem ), como
minha vida ( que não se quer e existe ), como
Eu...
Eu, impuro e branco como as chuvas
que alimentam a imprestável
jovialidade da vida que
beija a Caatinga
como uma chama ou
como o brilho do gelo e do vento
que me transporta –
e transporta também a Ipirá –
para o esfomeamento
da felicidade temporária da Caatinga
quando verde,...
para o afogar-se
invisível
de todo este lençol de
Beleza agora morta
e desejada.; o cobertor da morte
como vida e castigo
de tantas vidas
a se compreenderem tanto...
Ipirá trava em si a violenta e invisível
luta de elementos
e de origens construídas de
absoluta violência e cuidado no
exíguo espaço da
cidade que dorme para si
e para seus filhos
vestidos de sombra e noite:
noite orgânica.; noite mínima em
mínimo homem.; homem
mínimo em mínima
noite morta.;
homens mínimos e inteiros,
singelos momentos de
existência e morte.;
homens que ali apreendem ritmos populares
das festas e dos deuses que erram em amar sua Criação
– na clandestinidade imposta dos sonhos das crianças
que cruzam os órgãos expostos e verdes e claros
daquelas roças, onde a vida pousa lentamente
na inocência abundante dos pés daquelas crianças e nos
seus sonhos igualmente infantis e desnecessários a tantas
coisas doadas pelo bruto branco dos mundos.
Ipirá está povoada da
dura realidade mística do
aroma de suas paisagens que
também são homens:
místicos e perfumados como a paisagem.;
a paisagem e sua sensualidade
branda e incansável,
com seus pássaros e mamíferos
de paisagem e espessa fantasia...
a paisagem e seu atributo essencial de poesia
e das cores de Ipirá que me olham
como a uma impressão de
ponte no processo mesmo da visão das almas
no prefácio fictício passo a passo
seguido ( Ler soir clair nous conduit au jardin taciturne...
e a Morte rasga o Silêncio dessas flores e febres que
são para as almas como o sol imortalizado no
fechar dos olhos destas tardes de dor e azul
inegavelmente profundo... E o Sol que
dorme é o temperamento daquela
alma perdida em Ipirá, decifrada
no Céu e no incunábulo obscuro de
sua terra, de sua sombra, de seu pó...
de sua lembrança encarcerada no
silêncio dissonante da memória
interligada com o ocioso Sublime ).;
pela minha vida noturna e
fascinada.; dans mon
coeur ébloui –
e mais um verso de
Paul Morin me
aborda e me toma...
Ah!, Ipirá,
afogada de tanto Infinito,
centrada nos vales da razão geológica
e inorgânica da Caatinga imortalizada de miasmas, Ipirá
de meu amigo Agostinho, de seu pai,
de sua avó, tão distante ( e de seu
Esquecimento ) – Ipirá que
fenece em seu duro
e generoso parto...
Ah, Ipirá de
meus amores
mitológicos
e inegáveis.;
Ipirá reproduzida
em meus ossos
e em meu
eterno presente.;
Ipirá de tantos
olhos, Ipirá
de tantas
almas.;
Ipirá de
tantos e tantos
sonhos...
Ipirá
sem
nome...










III




– ( O mar é a antítese das terras onde
habita o Sertanejo.; cheio de cor
– cor eterna, é claro –,
repleta de vida,
cheio do mover insustentável e indivisível
dos peixes que assistem em seu ventre
feminino e hodierno como
todos os passados pressentidos
ou como todos os futuros
que se esqueceram...
Como os peixes que no mar habitam
– também como os peixes que nos rios vivem –
cada homem do Sertão corre atrás da vida,
fabricada ou vendida ,
trazendo a morte e o esquecimento
de muitos outros por carga ou
por sorte...

A Caatinga, que esquece
os passos de cada homem
produzido dela,
ao contrário dos rios
e do mar
e da memória,
que não consomem
os peixes,
destrói e reconstrói,
à sua maneira,
cada
homem e cada vida
martelada
e revigorada no
homem:

Peixes:
como caudas e barbatanas
de homens –
Homens:
como as
escamas
e o crânio dos peixes... )



[Ipirá – Feira de Santana, dezembro de 2001.]




sexta-feira, 4 de março de 2011

DICA DE LEITURA: "COLEÇÃO GILBERTO FREYRE" UMA GRANDE INICIATIVA DA É REALIZAÇÕES...


Um Brasileiro em Terras Portuguesas

Autor: Gilberto Freyre

Edição 01
Formato: 18 X 25 cm
Número de Páginas: 440
Acabamento: Brochura
ISBN: 978-85-88062-91-7
Lançamento: 2010

Um Brasileiro em terras Portuguesas é um livro fundamental para o conhecimento do lusotropicalismo tal como foi sistematizado pelo seu autor no início da década de 1950. Porém, à semelhança dos restantes textos explicitamente lusotropicais de Gilberto Freyre, é pouco conhecido dentro e fora do Brasil. Em Portugal, o lusotropicalismo é sobretudo glosado em segunda ou terceira mão. O que circula na opinião pública, no discurso político e até nos meios acadêmicos é uma “vulgata lusotropical” que começou a ser produzida pelo Estado Novo para legitimação do colonialismo português. No prefácio a Um Brasileiro…, tal como havia feito na conferência lida em Coimbra, Freyre confessa que na viagem sentiu confirmar-se uma “intuição antiga”: “existe no Mundo um complexo social, ecológico e de cultura, que pode ser caracterizado como ‘lusotropical’”; um complexo em expansão, desde que “as nações lusotropicais [não] se deixem envolver por alguma retardatária ou arcaica mística arianista, antes se entreguem com uma audácia cada dia maior à aventura de se desenvolverem em povos de cor, para neles e em gentes mestiças, e não apenas brancas, sobreviverem os melhores valores portugueses e cristãos de cultura num Mundo porventura mais livre de preconceitos de raça, de casta e de classe que o atual”.







O Luso e o Trópico



Autor: Gilberto Freyre


Edição 01
Formato: 18 X 25 cm
Número de Páginas: 336
Acabamento: Brochura
ISBN: 978-85-88062-94-8
Lançamento: 2010




Pela reflexão original, pelas diferentes combinações apontadas, pelo exotismo de algumas de suas formulações, pela lembrança de aspectos tantas vezes esquecidos, pelas controvérsias enfrentadas, pelas polêmicas levantadas, O Luso e o Trópico constitui-se em livro importante para compreender a interpretação de Gilberto Freyre sobre as relações entre Portugal e Brasil, sem deixar de lado outras regiões sob a influência da colonização ibérica.













Uma Cultura Ameaçada & outros ensaios

Autor: Gilberto Freyre



Edição 01
Formato: 18 X 25 cm
Número de Páginas: 224
Acabamento: Brochura
ISBN: 978-85-88062-95-5
Lançamento: 2010





Se em Uma Cultura Ameaçada os perigos para a sobrevivência da matriz cultural luso-brasileira vinham sobretudo do imperialismo nazista alemão, nos textos posteriores sente necessidade de a diferenciar da experiência colonial anglo-saxônica. Quando escreve os dois últimos textos, a conjuntura política internacional havia mudado e Freyre, mantendo-se fiel ao seu quadro interpretativo inicial, cujas virtualidades saem a perder com a instrumentalização política a que foi sujeito, suscitou a animosidade dos nacionalistas africanos e das forças políticas de esquerda quer em Portugal, quer no Brasil. Hoje, porém, num mundo que tanto tem de globalizado como de anglo-saxonizado ou americanizado, ao evocar-se a lusofonia como plataforma identitária e estratégica, talvez não se esteja tão afastado assim do sentido que Freyre atribuíra à matriz cultural luso-brasileira.















O Mundo que o Português Criou


Autor: Gilberto Freyre


Edição 01
Formato: 18 X 25 cm
Número de Páginas: 128
Acabamento: Brochura
ISBN: 978-85-88062-92-4
Lançamento: 2010




Gilberto Freyre dedicou muito da sua atenção à lusofonia, mais que à lusitanidade enquanto portugalidade. Nesse contexto se entende melhor o sentido de O Mundo que o Português Criou (1940), escrito após Casa-Grande & Senzala (1933), algo como um contraponto ao que escrevera, neste livro, sobre a vinda dos primeiros portugueses ao que veio a ser o Brasil. Eles tinham ido também a outros mundos, na realidade por eles mais recriados que na metáfora que os havia criado, mas recriação implica criatividade, porque no final das contas não se cria a partir do nada. E Gilberto Freyre demonstra em Casa-Grande & Senzala como o Brasil deve, no seu início e durante a maior parte da sua história, tanto ou mais aos negros que a qualquer outra etnia e/ou cultura. Esse é um tema recorrente, explícito ou implícito, ao longo da sua extensa bibliografia. Os nisto adversários de Gilberto Freyre, em relação ao tema dos negros, às vezes subestimam o antirracismo por ele aprendido, com metodologia antropológica, nas aulas de Franz Boas na Universidade Columbia. O Mundo que o Português Criou é retomado em Aventura e Rotina e em Um Brasileiro em Terras Portuguesas, ambos de 1953, após longa viagem pela lusofonia africana e indiana. Gilberto Freyre passava da pesquisa, a respeito, em arquivos e bibliotecas à pesquisa testemunhal direta em experiências pessoais.