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| Título: Minha Bahia Autor: Patrice de Moraes Gênero: Poesia Apresentação: Nívia Maria Vasconcellos Ilustração de capa: Gabriel Ferreira Editora: Mondrongo ISBN: 978-85-65170-28-4 Valor: R$ 20,00 Comprar: http://www.mondrongo.com.br |
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
A BAHIA SEGUNDO PATRICE DE MORAES...
quarta-feira, 8 de junho de 2011
MOACIR EDUÃO: UMA ALMA ANSIOSA DE SI MESMA...

O poeta Moacir Eduão: uma alma ansiosa de si mesma...

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Quando conheci o poeta Moacir Eduão, tínhamos, àquela época, muitas coisas em comum: uma magreza esquálida, calvície e uma condição financeira que, sem nenhum apelo hiperbólico, beirava a miséria.
As coisas em comum paravam por aí: Moacir lançava seu segundo livro; eu, ainda, aspirava ao primeiro; sentindo, naquele macérrimo calouro de Licenciatura em Letras com Inglês, oriundo de um dos mais belos e sofridos sertões deste imenso Nordeste, a alma ansiosa de si mesma, como deve ser a alma de um poeta; entretanto, o tempo sempre prova à alma o valor da paciência. Estava, ali, diante de mim, um poeta que acabara de conhecer, um poeta que, como todo novo poeta, apresentava-se ao mundo, querendo do mundo o seu consentimento. Do que sei do conhecimento do mundo, Moacir Eduão, ainda magro e calvo, mas muito mais poeta e muito mais ansioso da sua própria alma, faz com que me venha à cabeça uma pergunta a qual me fazia àquela época de aspiração e pobreza: por que precisamos de poetas?...
Ora, sempre defendi a idéia de que, mais de que muitas coisas, precisamos e precisaremos sempre de poetas, como, em geral, de muita, muita arte (alguém é capaz de imaginar o mundo sem arte?) e se me refiro aqui, necessariamente, à poesia, com propriedade e intimidade, não é pelo fato de tê-la como ofício dos mais importantes em minha vida, até porque deixaria a música – primeira e mais constante paixão de minha existência – tomada do mais profundo e legítimo ciúme; é pelo fato óbvio de que a poesia, ao longo dos séculos de civilização ocidental, deixou de ser (e para muitos nunca foi) a mais popular das manifestações artísticas; logo ela, que sempre gozou de uma matéria-prima muito mais acessível que a pedra, a tinta ou o barro: a palavra.
Precisamos de poetas. No entanto, como necessitar de alguém tão distante, de alguém aparentemente tão alheio ao mundo exterior a ele mesmo e tão presente dentro de um mundo que este alguém nele se cria, um mundo dele e todo dele, um mundo que se desvenda em quem o cria e se apresenta cada vez mais inóspito, à medida que mais e mais se o explora?
Numa época em que a palavra “social” tomou rumos que nunca pensamos alcançaria e por isso mesmo tornou-se vaga, banalizada como todo “lugar-comum”, sem identidade alguma, por que precisaríamos de alguém tão, arrrgh!, “individual”? Contudo, quem disse que a poesia é social? Se os poetas parnasianos, longe do estéreo turbilhão da rua, tornaram-se matéria-bruta para a poesia e alvo para os ideais libertários – poeticamente libertários, se é que isto realmente existe – defendidos pelos modernistas de São Paulo, os da chamada “fase radical”, é preciso constatar que, dos poemas pílulas de Oswald de Andrade, os quais nos servem muito mais de exemplo de mau gosto de incapacidade versânica, e, principalmente, racional, do que de poesia, aos belíssimos e conscientemente incomodativos poemas oriundos do sentimental engajamento com o mundo pelo mago itabirano, nada disso conseguiu dar, à poesia, o caráter de intimidade popular com o qual gozam a música, a dança e até mesmo a pintura e a arquitetura; muito pelo contrário, alargaram-se, graças a essas “técnicas” de popularização do verso, as beiradas do abismo que dividia o povo do poema, as quais, aliás, já eram largas. E, como havia de ser, um pernambucano áspero, com matemático rigor, mostrou-nos que a poesia é, dentre as artes, a mais elitista e, em sua melhor forma, erudita. E o poeta é, dentre os artistas, o mais vaidoso, e, em sua melhor forma, magérrimo.
As razões pelas quais necessitaríamos de poetas são, em sua essência, a verdadeira substância da poesia, porque a história de nosso mundo, contada pela arte, é a história contínua e ininterrupta de quem somos e dos homens e mulheres que toda a humanidade, individualmente, deseja se tornar – num mundo em que as pessoas fingem-se solidárias, como se a solidariedade ou qualquer outra virtude não fossem também únicas em cada pessoa. Ouvir uma afirmação como essa é perturbador, não obstante a filosofia popular já professar: “a verdade dói” –, ora, a história que a arte nos conta é a história de quem buscou em si próprio as respostas para todas as coisas; a história da arte é a história do individualismo. O poeta é um individualista.
Precisamos de um individualismo – não de um particularismo –, pois é somente garantindo a formação mesma do indivíduo, o ser humano pleno e consciente de si e de suas muitas capacidades, que garantiremos a inteireza da sociedade humana e toda a arte e, conseqüentemente, toda poesia é resultado de um individualismo, ou, para aqueles que se incomodam com o termo, como definiu Jorge de Lima: de uma “alma que vive perdida na ansiedade de si mesma”.
Com efeito, o poeta é também um vaidoso; há vaidade maior em expor ao mundo aquilo que você faz, por exemplo, por catarse, querendo que as pessoas adquiram se trabalho e, mais ainda, regojizem-se com ele?! À vista disso, Moacir Eduão está no melhor de seu individualismo, em seu infante desespaços, e, com efeito, no melhor de sua poesia (não nos esquecendo, é claro, de dizer que também é seu momento da mais augusta vaidade). Pouco mais de dez anos se passaram, desde que conheci Moacir, e, olhando para o presente, vejo que só a magrelice é a mesma. Quanto ao poeta, a receita dos que vencem já se lhe apresenta em vida e em verso.
Da mesma forma, o olhar que lanço ao presente me conduz a outro questionamento: precisamos de Moacir Eduão?
Não podemos pensar em nada que não parta de algum ponto; o universo pode estar em movimento, mas não o percebemos em sua totalidade, a não ser a partir de um ponto pelo qual o começamos perceber. Quando, por exemplo, Stº. Agostinha definiu as essência da angústia religiosa e existencialista do homem,
Em um livro intitulado de desespaços este bardo baiano nos traz um modelo, em versos, do homem que toma como ponto de partida sua própria existência para então abarcar, em si mesmo, o mundo à sua volta, porque nenhuma impressão, por menor que seja, parte de um ponto que não seja a de quem a percebe.
Eduão tem um mundo quase infinito a cada passo da jornada de meditações que ele mesmo tece ao longo da pintura em movimento que é seu desespaços, para alcançar este autoconhecimento a que o poeta está fadado, e, ao mesmo tempo, a concretude deste mundo o qual o tempo urde com a inconstância e a efemeridade comuns do mundo. Porquanto, como afirmara Platão, o tempo é, da eternidade, uma ilustração a se movimentar; e eis que mais uma palheta-de-tempo será posta em ação... comecemos a jornada; acompanhemos o poeta:
ir.
cansado
de horizontes,
contemplando o partir.
com propriedade,
seguir
ignorando as estrelas,
por saber das coisas estáticas –
e de todas as coisas
que nos modificam
Sem sombra de dúvidas, o grande tema da história da humanidade é a Viagem. Das primeiras narrativas, às mais novas e instigantes produções do mundo contemporâneo, o homem está sempre a partir... – há sempre uma nova e inacabada jornada, um novo porto e outros mares para onde a navegação é necessária. Na mais antiga obra literária do mundo, o povo de Uruk, na Mesopotâmia, pediu aos deuses, providências contra o tirânico Gilgamesh, seu rei, mais tarde deificado. Após muitas aventuras Gilgamesh chorou ao ver seu fiel amigo, Enkidu, perecer. Isso levou Gilgamesh à solitária e desesperada busca da Eternidade; seu ancestral Utnapistin, único homem a quem tinha sido concedida a Eternidade, disse a Gilgamesh que fosse ao mundo subterrâneo para, lá, recuperar uma planta mágica (mais tarde, em uma outra mitologia, um jovem e apaixonado músico também desceria ao submundo, encantando demônios e maldições, para recuperar a amada seqüestrada, numa viagem por demais insólita que somente o amor seria capaz de proporcionar), mas logo após ter encontrado a planta mágica, essa acabou sendo devorada por uma serpente, antes que Gilgamesh retornasse à superfície. Antes, Utnapistin contara a Gilgamesh que se tornara imortal depois que os deuses haviam mandado um dilúvio para aniquilar todas as pessoas do mundo; seguindo os conselhos do deus Enki, Utnapistin construiu um barco para salvar-se e à sua família, numa história que, em muito, assemelha-se ao Noé bíblico. No Induísmo, o primeiro Avatar de Vishnu, Matsya, o avatar-peixe, salvou o primeiro homem, Mano – como Gilgamesh e Noé – do Grande Dilúvio. O primeiro homem de Razão salvar-se-ia das sereias amarrando-se ao barco no qual estava condenado a morrer navegando a mando do irado Posêidon, o mesmo Posêidon que garantiria, com o assassinato de Lacoonte, a vitória do povo que, em nome da ganância e do capricho, arremeçaram-se ao mar, aos milhares, para, como nos narrou Homero, acima de tudo, vingarem suas atribulações e seus sofrimentos por causa de Helena. Mas, se homens morreram no mar por ódio a uma mulher, outro atravessaria o Inferno e o Purgatório por amor a uma mulher a qual, no Céu, libertá-lo-ia do pecado e da culpa, assentando-o eternamente em trono de nume, fazendo dele o cantor de sua glória e do seu amor, em versos, se eu me lembro bem, que são bem assim: “Senhora!... Esperança minha permanente... que não temeste por me dar saúde, teus vestígios deixar no Inferno horrente... De tantas coisas quantas eu ver pude, ao teu grande valor a alta bondade a graça referir devo e virtude”.
A fantasia também vive do real, pois quando homens reais enfrentam o mar, a procela e o furor e em nome de um ideal que não lhes pertenciam, porém o abraçavam com vigor e medo, um bardo português de também reais aventuras soube, em fantasia, dar-lhes o consolo e o prêmio merecido; é só nos recordarmos dos versos: “Enfim, que o Sumo de Deus, que por segundas causas obra do Mundo, tudo manda... E tornando a cantar-te das profundas obras da Mão Divina venerada: debaixo deste círculo onde as mundanas almas divinas gozam, que não anda outro corre, tão leve e tão ligeiro...” Mais tarde, um outro português de alma múltipla parafraseou o lema dos antigos navegantes, adaptando-o para estes viajantes de si mesmos, que são os poetas: “Viver não é necessário, o que é necessário é criar”. E criar é, com certeza, a mais bela viagem e a mais instigante aventura.
Moacir Eduão, fazendo justiça à sua incessante busca pela criação, abraça-se aos grandes poetas e sua inesgotável temática (pois o tema humano é, ao menos que a humanidade se esgote, inesgotável), mostrando-nos, mais uma vez, que a tradição é um dos principais pilares para o grande poeta. Despedindo-se do “lugar-comum”, das impressões mais cotidianas, da vida parada de tempo, o poeta pretende ir longe; este poeta que Moacir empresta à sua obra faz para si mesmo a necessidade de partir; é necessário esse deslocamento o qual, antes de tudo, é um deslocamento de alma; é uma atitude que começa no âmago do poeta, pois esperar é fugir dos momentos, das circunstâncias... e o poeta não pode fugir às situações, pois são elas que tornam uma verdade mais ou menos real. E o poeta parte. Baudelaire já chamava nossa atenção para o fato de, no desconhecido, encontrarmos o novo que ali se oculta; em seu olhar criterioso, o poeta fita o novo ao seu caminho. O passado não mais importa, o presente tem que ser vivido em toda a sua grandeza. Mas como, se a nostalgia o persegue, e as reminiscências também são parte da fuga?
Cabe agora, começada a jornada, decidir entre o caminho que há e a rota que se constrói a partir das situações que lhe são oferecidas; desvincular-se do que existe, do que à frente está, é indevido, porém, não se pode negar a vontade de criar, de construir um novo mundo, mesmo que num mundo de idéias; mundo, aliás, o qual Platão contemplara. Se o caminho é tortuoso, fica assim provado o seu valor – a exigência que se faz deve ser proporcional à qualidade que se pretende. Que um mundo inteiro se elabore na mente do poeta para, logo mais, ser traçado pela caneta e organizado, posteriormente, pela disciplina; que ninguém mais-nada espere, pois mais-nada é necessário; que todos constatem; que uma grande obra se faça. O olhar criterioso do poeta não deve se desviar um milímetro sequer, de seu alvo. Conhecer as coisas é participar delas; é construir (com elas) a própria certeza que temos das coisas; projeta-las... Traçar para si e para elas um desenho único... Ser criador e parte da paisagem... Conhecer é participar das coisas vivendo-se e, ao mesmo tempo, vivendo-as. Nenhum poeta que se preze dispensa a idéia de ser o senhor de seu próprio Mundo e dos pequenos “mundos” que dele se criam. A forma deve ser um meio para se dizer algo, não o seu fim, sua inteireza, sua essência... Mas, se não praticamos a forma, como saber o sabor desta verdade? Falta um soneto neste livro? Mas não lhe falta uma forma. Se o poeta, nele mesmo, se fecha; se o poeta, da mesma maneira, em si se fecha, isso não os põem fora do mundo, apenas, em tal atitude, comprova-se que ambos fazem, realmente, parte do mundo – só o inóspito é estático e por isso mesmo, somente ele seja, verdadeiramente, universal; mas não o poeta... O poeta é, como já disse, um individualista.
É sobre uma profusão individual de imagens e idéias, Moacir conduz sua obra. A inexistente sombra de uma árvore, por exemplo, é mecanismo para compreendermos como o mundo pode ser indiferente à toda e qualquer idéia que dele fazemos e como, em nossa tola sabedoria, acreditamos que as coisas, por mais insignificantes que se nos pareçam, realmente dependem de nós – elas não dependem. Será que no poema desapego, Moacir tenta nos chamar a atenção para essa idiotice criada por nosso saber? Será que ele mesmo acredita nisso? Não, ele sabe que não; ele sabe que o mundo o envolve da maneira mais tentacular possível... Mas também sabe de seu papel, ele próprio pertence, distinto, a outras imagens e, através de uma poesia contemplativa como a própria alma do poeta, Moacir devolve, ao mundo pálido que lhe envolve o rosto, esta impressão particular da grandeza do mundo, às custas, muitas vezes, da mais profunda angústia e da mais sincera tristeza, como no poema divergência:
(já contemplamos,
de mãos dadas,
um jardim florido.
hoje,
fitamos, tristonhos,
a bifurcação da estrada.)
(Este poema, por exemplo, demonstra o quanto Moacir Eduão apega-se, em seu novo trabalho, à percepção do mundo através dos sentidos e da admiração, livrando-se de uma poesia de caráter pseudofilosófico, algo que tem sido uma praga entre os calouros de nossa atual poesia, os quais tomam como base os versos de uma velha guarda que, embora pareçam, não entendem absolutamente nada; a poesia de caráter erudito é o resultado de um eruditismo intrínseco, plantado na mente do poeta por meio de anos de absoluta depuração intelectual e não garimpados à esmo em orelhas de compêndios de filosofia comentada. Em um dos últimos números da revista Hera, do qual participei com muita satisfação, pude, por exemplo, perceber o tenebroso desnível entre alguns trabalhos: poemas da mais absoluta criatividade disputam lugar com versos que mais poderiam ser comparados a um show de horrores versânicos, onde o lema maior é a produção da mais original anomalia poética, verdadeiros Monstros de Frankstein lingüísticos cuja única virtude que possuem é a de não possuírem o menor grau de coerência neles próprios. Nunca conheci nenhum grande poeta advindo de escola poética nenhuma; já deixei bem claro que o trabalho poético é um trabalho individual e não um casamento de mediocridades; se falo com propriedade a respeito da poesia de Moacir Eduão, não é porque ele é de “minha geração” – como se somente isso fizesse dele um grande poeta –, mas pelo fato de o seu trabalho ter uma coerência e uma qualidade inerentes, mesmo quando, às vezes, tais qualidades erroneamente se mostrem – entretanto, isto é problema dele e só por ele resolvido. O que importa ao poeta é a qualidade do que é dito e não um cooperativismo de jumentos. Moacir não me parece solícito a este tipo de mau-agouro e espero, sinceramente, que tamanha idiotice não lhe sobrevenha à cabeça. Mas toda esta conversa e irrelevante, como é irrelevante aquilo que a causou...).
Os versos de divergência poderiam ser muito bem entendidos em versos como: “Eu te peço perdão por te amar de repente”,”Amor, minhas penas, meu delírio”... ou até mesmo, algo do tipo: L´amour immense que je te dédic, pois ele traz um lirismo marcante e apreciativo, não carregado da ingenuidade dos românticos, mas repleto do misticismo e do emparedamento intimista dos Simbolistas; entretanto, muito mais que este exemplo lírico, todo o livro de Moacir é uma retomada de antigas imagens épicas transportadas para um outro lugar, um lugar que, ao invés de heróico ou dramático, ao invés, no mar e do mar à Eternidade, este lugar é o íntimo do poeta o qual, por meio de uma lírica aliada a um drama pessoa narrado em primeira pessoa, apresenta-se na forma de um Eu incógnito e existencialista como o fez, pela primeira vez na história da poesia ocidental, Safo de Lesbos, com as metáforas de Homero; assim, e somente assim, Moacir Eduão poderia pintar a tristeza das flores sentidas por um homem que, no jardim, em soluços chorava por dentro do ângulo de visão agudo deste Eu em constante observação, como já deixei claro, e, desta maneira, Moacir segue, tecelão de emoções e espantos que é, compondo uma verdadeira análise filosófica das coisas, pois qualquer mero aprendiz de filosofia de almanaque sabe que o princípio do conhecimento dedutivo, como já nos ensinara o velho Platão, está na perplexidade. E Eduão, semelhante a uma Eurídes Fontela, utiliza-se desta perplexidade ao longo de todo o seu novo livro, com um sintetismo próprio de quem reduz, à forma de aforismos, um imenso discurso sensorial, para logo depois de lido abrir-se, de novo, em palavra e sentimento, e ele o faz mesmo quando a única resposta que, da realidade, ele recebe é o silêncio; mesmo quando a única resposta que ele encontra dentro de si é a vontade de voltar... Mas ele não volta.
A transcendência de todo este acontecido encontrar-se-á na contemplação do Infinito de frente ao Porto... O mundo se abraça em um único gesto de sua natureza, porém não se fecha, antes abre-se à aventura, à jornada sem rumo ou destino certo, ao esquecimento das desilusões que ficaram para trás, à oportunidade, à morte no mar ou noutra realidade, juntando-se tudo isso aos espantos trazidos pelo poeta, o mundo torna-se mais evidente do que nunca parecera e o seu abraço faz-se muito mais apertado. Todos os grandes poetas do mundo começara suas grandes jornadas poéticas pelo porto; do porto todas as naus partiram para que as grandes aventuras se fizessem vivas e as grandes alegrias se criassem ou que todas as imensas tristezas tomassem posse de seu espaço... mas, e antes?! Onde estava a aventura antes da aventura, a jornada antes dela, a dor e a alegria antes do porto para o incógnito? Graças a Deus, Moacir Eduão nos ofertou estas respostas em um dos poemas mais lindos já escritos, o qual não poderia ter outra função que não fosse a de encerrar esta viagem que recomeçará para além do porto (e para além de nós):
retrato de um Porto triste
onde o pôr-do-sol se veste:
o olhar ébrio
arranca o silêncio das águas
se enriquece nos espantos que trago
como uma fotografia nula,
negativa,
uma imagem não-revelável
na indiscrição de tantos fitos,
tantas desonrosas perfeições
fazem lembrar do retrato triste
que no Porto sempre existe,
de fato.
O resultado final obtido por Eduão na compilação de seu quarto e melhor trabalho são as respostas àquelas perguntas iniciais: Sim, precisamos da poesia, de uma poesia que sempre será uma manifestação plena de transcendência, que é uma sublimação do espírito do homem em seu mais alto grau de efusão e mistério, o resultado da união da inteligência com o sentimento.
A boa poesia é provocativa, não está disposta a passar a mão sobre a cabeça do leitor, antes pretende dar-lhe um soco na cara. A vida é feita de coisas boas e más, então é necessário que aprendamos com ambas. A arte nos dá a possibilidade de vivenciar muitas coisas, sem necessariamente, passarmos por elas. A arte, a poesia, ensina-nos a sermos nós mesmos, completos. Por isso, precisamos de poetas, pois sem eles é impossível vivenciar tal poesia. E sim, precisamos de Moacir Eduão, que em seu novo livro mostrou-se digno de mérito puramente literário, do pensamento criador, da construção cênica, do desenho dos caracteres, da disposição das figuras, dos jogos lingüísticos e da tradição de elementos, segundo Machado de Assis, essenciais para um grande poeta.
Eduão mostrou-nos amadurecimento. Seu desespaços não possui a insignificância artística de seus dois primeiros livros, nem o fracasso formal e dedutivo, devido à má assimilação da temática proposta, perceptível em seu terceiro livro. Mas o seu quarto trabalho é o resultado de quem está aprendendo a dominar a ansiedade para, na paciência e na disciplina, ver colhidos os frutos do capinar solitário e único do fazer poético; algo, diga-se de passagem, indispensável a todo e qualquer indivíduo que jogou uma semente no terreno basto, porém fértil, da poesia; inclusive para mim mesmo.
Feira de Santana – Bahia, maio/junho de 2005.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
UMA BALADA PARA A MORTE...

UM IMPROVISO HERÁLDICO
ANTE AS SOBRAS DO BANQUETE ILÚDICO
( em ocasião do 60º aniversário do poeta Antônio Brasileiro )
`a Fabiane Santana, aluna estimada e meiga lembrança de Aracy.
Talvez em outras paragens
do viver
se possa extirpar as feras.
E morrer.
ANTÔNIO BRASILEIRO
( Suavemente,
a noite nos envolve indecifrável...
fugindo de sua obrigação de negar-nos
a grande sombra desce,
mas todos se amontoam no
silêncio e no medo
de sermos tantos.
Amontoamo-nos
no indecifrável espaço do torpor
e parecemos um só homem espalhado pela escuridão imensa...
nessa sombra que somos
nos perdemos...
porém,
sobra nas retinas o que fomos
e presa à garganta
tudo
o que queríamos.
A noite...
sim, a noite...
a noite nos embrulhou com ódio,
e toda a noite enraivecida é a grande
verdade
que buscávamos,
uma deslavada verdade
que todos contam entre nós:
era dos nossos sonhos que ela vinha;
de nossa realidade ela se criava;
amadureceu em nosso egoísmo;
modificou-se por nossa angústia;
em nós...
em todos nós
espatifou-se,
neste momento que ainda corre:
e todos somos um
nesses pedaços de tantas coisas
únicas;
tantas vontades
a serem sempre as mesmas;
tantas fomes iguais
de tudo.
Esta noite nos uniu em nada...,
mastigou
o humano
que tínhamos engolido,
despojou-nos
neste leito de escuridão em que deitamos;
enraizou-nos
neste princípio de coisa alguma
impedido-nos
a aurora.
2.a
A noite está
inquieta
como um homem morto –
toda a noite
é um tumulto –
é toda um coração que bate e vai morrer e o sabe...
A noite
sorveu a paciência
destes banquetes; deu ao tempo
propósitos que não tinha;
a noite
deu propósitos a tudo:
à nossa morte,
ao nosso odor de morte,
à nossa inquietude de estar dentro
da
morte,
ao nosso esquecimento
de sermos
morte...
a noite
humanizou a terra superior dos cemitérios;
tornou fundamental
a nossa poesia dispersa;
apagou-nos
da manhã
que não
viria.
2.b
A noite
deu-nos um mistério em nosso nascimento;
e nenhum dia será mais claro do que esta noite
e os dias que virão de dentro dela.
A noite assombrosa de nosso desejo
é toda uma mística certeza que nunca tivemos.
– Existimos
dentro desta noite como
nunca existimos
antes. )
3
UM APÓLOGO:
“ Ó amigos, ó coisas inexatas...
filhos das feras que moravam em nós:
esta noite tudo ficará retido sob o chão
destas mentiras tão puras;
a manhã se foi sem ternura
e sem a simplicidade
que os amanheceres
nos trazem.
Ó irmãos,
crianças maliciosas que fomos,
a manhã se foi escura
porque nunca verdadeiramente nos houve
uma manhã mais clara.
A perfeição,
irmãos,
reside nesta escuridão que este não-dia nos trouxe.
Nada vimos,
porque nada queríamos ver.
Nada evocamos,
pois sempre fomos esta mesma ausência.
Nada construímos sobre esta imensa mão ruidosa,
porque toda a nossa poesia foi um truque.
E nenhuma lágrima rolará,
pois nunca existiu em nós a alegria
para que, então, experimentemos a tristeza
de sermos tantos e tão sozinhos.
Nada, amigos...
nada...
nada será,
porque nada foi.
Tudo
apenas é:
e tudo é noite...
tudo é simples,
vasta e absoluta noite.
Somente
noite.”
sexta-feira, 8 de abril de 2011
UMA ROSA PARA RENÉ MAGRITTE: JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, POETA DO INDOMÁVEL
Venho de mãos cruéis, maios sem lírios,
perseguido de espadas e de gritos...
JORGE DE LIMA
É dia 31 de março. Um amigo e poeta, Bernardo Linhares, presenteia-me com um livro – o mais singelo e perfeito dos presentes àqueles que amam a leitura – mas não sem, antes, tecer uma urdidura de elogios à obra que me oferta.
Em seu projeto gráfico, o livro é simplório, apesar de pertencer a uma grande editora, entretanto, chama-me a atenção, primeiramente, pela bela rosa rubra que se abre imensa e unânime, em um quarto vermelho – paixão sobre paixão, a qual eu logo reconheço como uma famosa tela de Magritte. Em seguida, fixo os meus olhos no título, A Esfinge contemplada, e uma profusão de imagens e mitos arrebata-me a atenção. Por fim, o nome de seu autor: João Carlos Teixeira Gomes, poeta baiano, intelectual de peso, ensaísta mordaz e grande estudioso de ninguém menos que nosso Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Da ultima vez que vi seu nome numa capa de livro, este o dividia com um, hoje, extinto Antônio Carlos Magalhães, pousando de mafioso. O livro era Memória das trevas, foi sucesso de público e crítica, revelando um período da política baiana tão obscuro e abjeto quanto o que vivemos atualmente, por mais pó-de-arroz que a propaganda enganosa, paga por nossos altos impostos, queira borrifar, consagrando seu autor como grande estudioso de nossa política e cultura.
Mas, e o poeta? O que dizer do homem de versos, dotado de uma condição divinatória, mesmo morrendo de amor, como Maiakovski e Drummond, pelas ideologias esquerdistas? O que dizer de João Carlos Teixeira Gomes e seu A Esfinge contemplada?
Logo, à primeira vista, é fácil perceber o domínio que seu autor possui tanto da técnica quanto de toda a esfera expressiva que esta técnica deverá abarcar. É um livro de emoções, é claro, toda arte busca “fazer sentir”, mas não se engane quem quer que seja que, neste livro, revela-se um lirismo barato e repetitivo; a poesia contida
Era uma pedra perdida,
de duro calcário espesso.
Era uma pedra in natura.
Não era vidro, nem gesso.
No chão crestado jazia,
alheia às paixões do mundo:
argila da eternidade,
crosta do tempo infecundo.
Cauteloso, examinei-a
tomando-a na mão discreta:
— É algo que somente existe
em sua essência incompleta.
Corra o tempo fugidio
e há de ser sempre o que é:
forma pura que se basta
sem se dar conta nem fé,
massa vã que se empareda
num rude universo tosco,
presa dos próprios limites
contidos no brilho fosco.
Não pensa, não quer, não sonha.
Nada sabe nem aspira.
Mas eu, que choro e que tenho
um coração que delira,
que sinto o vibrar da cólera
e do fervor mais profundo,
eu logo serei fumaça
dissolvida além do mundo,
matéria desativada
ou pó de humana carcaça
— mas a pedra reinará
na glória turva do nada.
Daqui a mais alguns anos
(que depressa hão-de passar)
já serei fumo esvaído
- mas a pedra há de restar.
E assim ficará, invicta,
sem desejos nem remorsos,
pairando com soberbia
no que sobrar dos meus ossos.
Com raiva, num puro assomo,
tomei a pedra na mão
e lancei-a ao mar profundo:
nada buliu na manhã
nem a paz nimbou o mundo.
Pois à muda natureza
são coisas que não consomem
a dureza de uma pedra
e os sentimentos de um homem.
Tal capacidade só pode ser adquirida através de anos preenchidos de incansáveis estudos e repetidas práticas; a tal empreendimento, alia-se, também, à consciência de que a poesia, como toda arte, é oriunda de uma natureza concreta e intelectiva e que o pensamento reflexivo é tanto maior e necessário ao poema quanto melhor ele for, quanto mais verdadeiramente emotivo ele nos parecer. Pensamento e contemplação artística nascem da mesma inquietude, porque ambos estão no homem e nessa sua estranha mania de querer desvendar a vida em sua mais perfeita grandeza.
Sem dúvidas, só pelo evidente domínio técnico dos círculos expressivos, como diria César Leal,
Entretanto, estas qualidades não se restringem a quatorze versos, à maneira de um Petrarca ou de um Camões, fazendo-se perceptíveis, também em seus versos livres, cujas camadas, tanto simbólicas quanto sonoras, não se permitem faltar. Desta forma, todas as qualidades de um bom poema podem ser encontradas nos versos de João Carlos Teixeira Gomes, independentemente da forma escolhida por ele, seja ela um soneto:
Minha única certeza é minha morte.
Virá festiva, com pendões vermelhos,
Provocadora com seu riso forte.
Mas me verá de pé, não de joelhos.
Pode vir de mansinho a forasteira
Ou numa orgia de ossos e fanfarras,
Com dois laços de fita na caveira
E o ágil chocalhar das finas garras.
Eu que os mares amei, e o sol tirânico,
Os flavos grauçás de dorso enxuto,
As moças de maiô e o vento atlântico,
Sereno hei de esperá-la em meu reduto.
E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,
A própria morte se porá de luto.
ou em (supostos) versos livres:
O silêncio habita
o parco instante da alba e do crepúsculo
o olhar embaciado do morto e suas mãos
a deserta sala onde um relógio soa
o cais ausente de navios
o balé das alegorias nos cemitérios
o vôo do anjo de mármore para além da haste
as pausas das grande sinfonias
certos afagos noturnos que antecedem o êxtase
a tarde nos claustros, a partir da 17ª hora
os sutis deslocamentos da alma
uma folha caindo no outono (ou fora dele)
o lento périplo dos dedos pelo corpo amado
o círio que arde
uma estrela entre nuvens
o vôo do morcego aprisionado na gelatina da noite
as fotos antigas que imobilizam o tempo (e o denunciam)
o caminhar das formigas na superfície do mundo
a praia na maré morta
o musgo que cresce nas ruínas
as ruínas que não souberam tombar
a imobilidade das folhas
o passado
o vestígio de um asa na tarde morrente
a água que goteja no carramanchão
o écran da TV desligada, com um grande olho a espreita
a nuvem à esquerda, no ocaso
a gestação do mel e das resinas silvestres
os infinitos espaços e a sua malha de órbitas
a germinação do rancor
a estação vazia, após o último trem
o amor que é a ânsia, mas não se confessa
a chama das lamparinas de oratório
a fenda Tundavala e os tandos da Gorongosa, que conheci outrora
o instante em que o segundo se fez hora
a vela decalcada na manhã móbil
a música gestual das bailarinas em levitação
os conluios do tempo e da morte
a mão que pinta
um bater de pálpebras...
Desta maneira, neste Universo de grandes elaborações poéticas, João Carlos Teixeira Gomes, em momento algum, ignora o critério e a disciplina, no sentido do apuro textual, fundamental aos grandes mestres, pois sabe que a poesia é amais perfeita das artes e, assim, reverencia, por assim dizer, a construção de sua poesia como algo pleno de significados e não um jogo simplório de palavras e de aproximações sonoras. Por isso mesmo o autor de A Esfinge contemplada pode muito bem colocar conflitos emocionais e inteligibilidade, no papel, com total efetividade e, desta maneira, ser muito bem chamado de poeta.
Mais do que um discorrer lírico sem pretensões, A Esfinge contemplada dá vazão a uma intricada soma de visões tanto dialógicas quanto dialéticas, reforçando, assim, os aspectos dramáticos, presentes em todo o livro, e estabelecendo, destarte, um fio condutor que vai de poema a poema, unificando o livro numa idéia de poesia culta, mas sem perder de vista a emoção contemplativa que todo homem, um dia, esboçará diante do mundo e de toda a sua grandeza, através de temas como Deus, Vida, Morte, Ser, Tempo, Destino, Mistério, tão caros à poesia e ao nosso desejo primordial de inquietude metafísica, bem como o de transcendência. Tal atitude só pode ser entendida como algo que provem de um homem profundamente situado dentro de seu contexto poético, a exemplo de um Jorge de Lima ou de um Bruno Tolentino, que, por vezes, o leva a certeza de que a missão da arte é elevar nosso saber e consciência aos supremos interesses do espírito, como diria Hegel. Contudo, com a morte da fé e da crença, entre os homens de espírito elevado, na própria imortalidade deste espírito, assistimos a morte da arte e de suas formas mais sublimes, como bem demonstrou Alfred Miller. Daí, haver, em nossos dias, tão poucos “poetas” preocupados com “os grandes interesses do espírito”, tão poucos verdadeiros, quase nenhum gênio a desatacar-se entre os medíocres, pois, hoje, são os “grandes” os medíocres de outrora.
Seja por fé verdadeira, ou o mero fingimento de poeta do qual falava Fernando Pessoa, a idéia de crença e de transcendência, presente
Tal desempenho (e representação) se torna mais intenso quando o poeta nos permite contemplar, em sua própria poesia, as muitas influências que recebeu como um grande alinhavo de criações intertextuais, a exemplo de uma estreita relação com Augusto dos Anjos e Jorge de Lima, como neste Soneto Negro:
À meia noite, quando os sonhos nascem,
gordos morcegos e fosforescentes
dos tredos bosques, onde os medos pascem,
em bandos saem, a assustar as gentes,
se os esqueletos por ventura andassem
sacolejando seus ossos trementes,
tantos sustos, talvez, jamais causassem,
como essas fúrias de raivosos dentes.
São mensageiros do reino das brasas
em bruscas rendas das humanas rotas
que a tudo afligem com as negras asas.
Fuja logo o infeliz que pode vê-los!
Pois quem comanda tão sinistras frotas
é Lusbel, o senhor dos eternos gelos.
ou na profusão crômica e sinestésica, típica de um Sosígenes Costa ou de um Carlos Pena Filho, neste belíssimo Soneto marinho:
Confluências do Azul. As vergas altas
implantam um Mondrian na paisagem.
Ao deslocar-se a vela móbil crava
um ócio branco em luminosa aragem.
Emerge em arco, além, a fímbria alva
de dura fraga em salitrosa espuma.
O salso dique a preamar destrava,
nas vagas corre a solitária escuma.
Ao sol a pino o meio-dia é brusco.
Arando o ar ardente sobre as telhas
o dia é frágil como um vaso etrusco.
Voa a manhã nas asas das abelhas.
No mar intemporal dorme um molusco
que algas rodam em cândidas parelhas.
Além do mais, esta carga de influências positivas, e tão bem impregnadas de capacidade intelectiva quanto técnica, conferem a João Carlos Teixeira Gomes uma realização plena, a exemplo dos mais laureados dos poetas. Todavia, muitos consideram uma obra como A Esfinge contemplada, como “antiquada e classista”, dada a nossa incrível tendência a obviedade a ao simplismo, escondidos sobre o manto da “revolução” e do “vanguardismo” que, negando-se, como nos atentou César Leal, à peneira das perspectivas e o crivo do tempo, preferem, principalmente em nosso querido Brasil, perpetuar a “fase de choque”, insistindo na sistemática negação de valores estabelecidos e impulsionados por nada menos que o ressentimento, a inveja, as frustrações pessoais, a carência de talento e pela vaidade de inapto.
Quando os meios de comunicação, as Academias, os centros de educação e tudo o mais que deveria salvaguardar certos princípios e normas dogmáticas, são tomados e dirigidos pelas hordas que deveriam combater e afastar, entende-se o incompreensível facto de homens como João Carlos Teixeira Gomes e Ildásio Tavares (só para ficar pela Bahia) serem renegados a segundo plano, esquecidos em edições poéticas esgotadas, e, quando lembrados, destinados a funções mais “benquistas”, como a de pesquisador, professor universitário, ao invés de poeta ou de homem engajado ao invés de homem universal.
Construindo uma idéia de fim em si mesmo, toda uma geração chegou ao ano 2000 acreditando na terrível mentira de que a poesia brasileira não nos deu mais nada além do que nos foi imposto pelo Concretismo ou pela Poesia Marginal e, se há poesia, ainda, entre nós, esta se encontra nas canções do Chico Buarque e do Caetano Veloso, e não em nomes como Adelia Prado, Neide Archanjo, Reynaldo Valinho Alvarez, Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo, Érico Nogueira, Rodrigo Petrônio, Patrice de Moraes... Nossa “intelectualidade” adulatória, incapaz e inerte para as grandes questões humanas, mais e mais se mostra destruidora do estudo honesto e de uma visão crítica que realmente veja as coisas como elas são e não como aparece ao seu interesse quanto mais espalha suas ideologias cruéis e vazias por nossas Universidades.
Alheia a estas maquinações cooperativistas de nossos intelectuais, a poesia de João Carlos Teixeira Gomes chega-me mais de vinte anos depois (a edição é de 1988), como uma das obras mais elaboradas e representativas de nossa Poesia Contemporânea... Uma poesia que se abre cada vez mais nova e mais bela como aquela imensa rosa na Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, entre o desvendar da modernidade e o cultivo consciente de uma tradição poética cada vez mais forte quanto mais reaparece. A Esfinge contemplada, principalmente com seus sonetos, arrebata qualquer leitor para uma atmosfera super-elaborada do universo poético (e do universo formal da grande poesia) cuja essência se encontra nas muitas questões de natureza existencial que ele suscita. Algo que só alguém que aprendeu a dominar os intricados meneios que a poesia pode criar, verdadeiramente.
Poesia, este enlaço àquela verdade sublime e indômita que se chama Beleza.
Salvador/Candeias, 05 de abril de 2011.
