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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A BAHIA SEGUNDO PATRICE DE MORAES...


Título: Minha Bahia
Autor: Patrice de Moraes
Gênero: Poesia
Apresentação: Nívia Maria Vasconcellos
Ilustração de capa: Gabriel Ferreira
Editora: Mondrongo
ISBN: 978-85-65170-28-4

Valor: R$ 20,00
Comprar: http://www.mondrongo.com.br








Um poema feito de Bahia

 (por Nívia Maria Vasconcellos)





Conheci Patrice de Moraes há exatos 13 anos nos corredores da Universidade Estadual de Feira de Santana. Mas o que me aproximou dele, mais do que o fato de cursarmos Letras, foi sua paixão pela poesia. Desde então, passei a conhecê-lo não apenas enquanto estudante, mas enquanto poeta. Sempre me atraiu muito e, por que não, seduziu-me muito seus poemas eróticos, ou como ele mesmo denominou no seu primeiro livro, euróticos. O trabalho dele, com esse leitmotiv, tornou-se constante a ponto de todos que já o leram associá-lo, imediatamente, às poesias eróticas em geral não deixando nada a desejar – e não é exagero essa minha assertiva – diante de poemas de igual temática de um Drummond ou de um Bocage.

Ao me deparar com Minha Bahia, por ter uma temática completamente diferente do que conhecia do criar de Patrice de Moraes, poderia ter ficado surpresa, mas não. A pessoa do Patrice de Moraes tem tanta baianidade em seu jeito de ser que este seu novo livro, mais do que uma leitura e uma apologia desse estado que ele notoriamente tanto ama, é uma leitura dele mesmo. O seu jeito de vestir, suas crenças, as músicas das quais gosta, a culinária, tudo está presente neste opúsculo. Nele, há cheiro, paladar, paisagens, religiosidade e as contradições que compõem a memória individual de Moraes que dialoga com a memória coletiva dos baianos e ora confirma ora cria uma memória dessa unidade federativa na mente daqueles a quem o poeta chama de não-baianos. Indubitavelmente, um poema que só poderia ser criado por um baiano que se sabe e se envaidece por sê-lo.

O título já comunica afeto. O pronome minha – mais do que um determinante do nome que lhe indica propriedade – manifesta aproximação, respeito e, sobretudo, intimidade. Algo muito comum em expressões como “minha preta”, “minha nega”, “meu dengo”, tipicamente baianas, que já aparecem nos primeiros versos do poema. Ainda na primeira estrofe, a palavra “porreta” comunica uma oralidade que não é fruto de um descuido formal, e sim um meio de se apresentar de forma mais fidedigna o modo de ser do baiano já que sua linguagem diz muito sobre seu comportamento e sobre demais características que o representa: como a criatividade e a malemolência.

O livro apresenta um poema composto por 15 partes. As 14 primeiras possuem uma padronização dos versos, divididos em 14 quartetos sempre finalizados com um verso que sintetiza a temática e que é uma espécie de chave de ouro. A última parte, diferentemente das outras, em vez de 14 estâncias, apresenta um soneto, forma que o autor domina muito bem e que já é uma de suas marcas comprovadas pelo Eurótico em poesias como Peculiaridade e pelo seu, ainda inédito, Amor em carne viva. Essa última parte ainda guarda uma surpresa para o leitor e mostra muito de sua habilidade com os versos, muito de sua grande artimanha criativa.

Seu metro formado predominantemente de versos decassílabos apresenta, muitas vezes, enjambements que permitem uma leitura mais fluída. Tal recurso assim como as pausas que são impostas dentro dos versos (conquistadas pelo uso de toda sorte de sinais gráficos como as vírgulas, o ponto de seguimento, os travessões, os parêntesis e as reticências) cadencia a leitura e materializa as intenções do autor num jogo de som e silêncio que atribuem ritmo ao ajuntamento das palavras. Posso acrescentar aí a homofonia que, quanto à posição no verso, é externa e, quanto à posição na estrofe, é intercalada (tipo de rima que ele domina muito bem por ser um exímio sonetista). A musicalidade alcançada por esse jogo rímico é intensificada pela tonicidade dos versos que são agudos e graves com a predominância desse último:

onde oração à vida e ao que ela tem
de essencial revelam a ambição
de um povo que desdobra o coração
na fé num orixá..., num santo... – amém.







PARTE I


Na primeira parte, somos apresentados ao poeta enquanto baiano e a Bahia com toda a sua religiosidade, uma terra que, como ele mesmo salienta, tem: “tantos meridianos à religião voltados”. Assim, louva o caráter sincrético da religiosidade baiana, mas não omite também que sua origem não foi branda, mas herdada, por meio de muito sofrimento de seus antepassados.

As partes II e III confirmam a ideia de que suas estrofes podem até ser laudatórias, mas não são inocentes. Pretendem enobrecer, mas não deixam de reconhecer as adversidades, lutas, batalhas e senzalas, assim como as “correntes podres do racismo e da matança oficializada” que mancharam a história desse estado, mas que, por outro lado, formaram um povo que, ao contrário do que muitos pensam, tem consciência de que “nem tudo é fantasia de carnaval”.

Àqueles que quiserem exigir mais postura crítica nessa Bahia em versos, Patrice de Moraes traz um contra-argumento que se firma como uma justificativa não irrefutável, mas, pelo menos, aceitável: os satíricos poemas de Gregório de Matos que, barrocamente, realizaram tal empresa já cumpririam com excelência tal necessidade. Assim, ele dialoga com o nosso poeta barroco e suas composições trazendo em suas linhas a expressão Cidade da Bahia e, explicitamente, o poema Triste Bahia, o qual não só menciona, mas também transcreve seus versos: “Triste Bahia! Oh quão dessemelhante / Estás”. Por meio de tal fundamentação, desliga-se da obrigação de ser também satírico tal qual nosso poeta maldito, o nosso Boca do Inferno. E, a quem insistir, ele indaga: “Para que eu repetir o que foi dito [...]?”.O que ocorre é que ele não se furta totalmente do olhar crítico, mas não faz dele o ponto fulcral desta obra.

com o xique-xique, com o mandacaru,
com o solo infértil, com o rebanho à fome;
com a indiferença braba que consome
(mordaz) um e outro assim como eu e tu. (parte VI)


Mais do que desvelar os vícios sociais, o Minha Bahia pretende revelar a coragem e alegria do povo baiano não como fruto de uma alienação, mas, deliberadamente, de uma escolha. A prova disso é que há partes como a IV na qual salienta o fato de a então província da Bahia ser decisiva para a independência do Brasil e a sua confirmação, fazendo menção direta à batalha de Pirajá. Não se pode esquecer que a história do Brasil sofreu interferência direta das lutas por uma autonomia política iniciadas na Bahia como a Conjuração Baiana (1798), Federação dos Guanais (1832), revolta dos Malês (1835).






PARTE II

A quinta parte possui versos tão alegres quanto à ideia que passam. O riso – vocábulo constante em várias estâncias – é uma das marcas do povo baiano que coloca “a alegria à frente da tristeza”. A culinária, com seus acarajés e abarás, contém a própria alma do baiano. Nesse ato, o sabor do alimento vai dando espaço à criatividade musical que se confirma na parte VI, na qual grandes menestréis são aludidos (Xangai e Elomar) e outros tantos artistas são lembrados para provar o quão profícua é a Bahia, tão solidária ao oferecer ao Brasil e ao mundo grandes nomes nas artes como Gregório de Matos, Castro Alves, Jorge Amado, Dodô e Osmar (parte VIII), Riachão, Tom Zé, Raul Seixas, Caetano, Gil, Bethânia, Gal Costa, Glauber Rocha, João Gilberto, Dorival Caymmi (parte IX) e mais gente de “musicalidade variada” da qual o poeta, ousadamente, não deixa escapar nem a popular e massificada axé music

Outros nomes memoráveis saltam aos olhos como Irmã Dulce (parte VI), Divaldo Franco, Mãe Menininha do Gantois. Esse três nomes enumerados revelam muito mais que solidariedade e compaixão; sobretudo, denotam ecumenismo religioso: uma freira, um espírita e uma  Iyálorixá respectivamente. Todos reconhecidos nacional e internacionalmente pelos seus feitos e todos baianos de nascimento e vivência.

Ele chega a aproximar Popó de Maria Quitéria em estrofes sucessivas (parte XIII) e alude a intelectuais, educadores, políticos, pessoas das mais variadas áreas (parte X). Uns ainda vivos outros já falecidos, uns no ostracismo outros no mainstream, todos vão sendo enumerados de maneira ritmada e sem perder a cadência do verso, o que demonstra toda a destreza conferida a nosso poeta e da qual ele lança mão a todo momento sem perder o jogo de cintura e mantendo seu esquema estrófico e rímico: os versos interpolados e a rima externa predominantemente grave.

posto, peculiar aos homens retos.
Mário Gusmão, Otávio Mangabeira,
Sérgio Cardoso, Walter da Silveira,
Assis Valente, João Ubaldo, – afetos

Outros do coração baiano –, Bel
Borba, Othon Bastos, Marta Rocha, e mais
Calazans Neto, Mário Cravo... Faz
Gosto citar baianos..., um mundéu


Enquanto também baiana, senti falta de personagens controversos da História baiana como Lucas da Feira e Besouro. Não sei se por lapso ou opção. Mas, como não é besta nem nada, nosso poeta não se esquece daqueles não-baianos que se deixaram apaixonar pela Bahia. Gilberto Freire (de quem ele pega emprestado a frase que forma a epígrafe deste opúsculo) é um dos nomes lembrados e não podia mesmo ficar de fora, pois, mesmo sendo pernambucano, reconhece que “todos os brasileiros são baianos”[1]. Para se juntar a ele, o poeta chama a Pierre Verger e Caribé. Algumas estâncias depois, já na parte XII, Carmem Miranda é aludida. Ela, mesmo sendo um exagero tropicalista e tendo feito algumas películas de qualidade suspeita na mais autêntica extravagância hollywoodiana, levou o nome do Brasil e, em especial, da Bahia para o mundo com a música O que é que a baiana tem composta por Caymmi e por ela imortalizada. Realmente, tantos nomes ilustres só podiam fazer os baianos “libertar o lado ufano”.







PARTE III

Patrice de Moraes vai se mostrando não só um adorador da Bahia, mas, inclusive, um conhecedor de sua história e dos sujeitos que a compõem. Além disso, um conhecedor da Língua Portuguesa e de suas possibilidades. Sagaz, na parte XI, compôs três estrofes nominais em sequência. Apenas artigos definidos e substantivos se apresentam na relação de palavras que se estende por 12 versos de musicalidade pulsante, os quais ele encera com uma brincadeira com a fonologia da língua trocando fonemas que fazem vir à luz novos vocábulos com novos campos semânticos:

a farra, a prosa, o brilho, o azul, o licor,
a rede, a esteira, o campo, o ar, a asneira,
o encanto, o espanto, a graça, o fruto, a freira,
o ocaso, o acaso, o ser, o amar, o amor, (parte XI)


Ainda na parte XI, corrobora o estereótipo da Bahia como a “terra da alegria”. Como Recife é a Veneza brasileira; o Rio, a cidade maravilhosa; Salvador é a Terra da alegria e, assim como essas, outras tantas antonomásias passam a existir para designar outros tantos topônimos, geralmente, resultado de uma imagem mental padronizada sobre tais localidades. Mas,apesar de ser repudiada por alguns que a veem como meio de maquiar problemas sociais diversos, Moraes aplica essa antonomásia em outra dimensão. Ele não quer ser panfletário e assegurar uma vaga na Bahiatursa. No seu poema, a alegria (ratificando o já dito) surge não como efeito de um ser que não se sabe sofredor e se encontra alheio aos maus-tratos que o vitimam, e sim como uma opção de indivíduos que sabem o que os aflige, mas optam pelo riso apesar disso. É uma questão de índole, de espírito pois:

Baiano que é baiano não se entrega.
Baiano que é baiano não desiste.
Baiano que é baiano põe-se em riste
mesmo atingido pela escolha cega  (parte VII)


Na penúltima parte, a Bahia vira vocativo e se personaliza pelo pronome quem: “que fazes tu, Bahia, ser quem és”. Sua segunda estrofe apresenta-nos um cultismo à moda dos versos barrocos gongóricos e seu jogo de palavras com seus hipérbatos e trocadilhos:

Que bom te ter certeza em minha vida;
em minha vida ter-te certamente.
Acerto em ter-te acertadamente.
E ter-te é glória certamente tida. (parte VII)

E mais espertezas criativas se apresentam como o neologismo “nordeste-me” e a divisão do “viste- / me” com um pronome na estrofe subsequente até chegar, como um bom Caminha, aos modestos versos “dei de mim o quanto foi possível / para exprimir destarte o inexprimível/ amor que tenho a ti”.Como um falso fim, os últimos quartetos se oferecem a nossa leitura. Eles mudam o vocativo, o interlocutor agora é Deus a quem Patrice dirige uma prece na qual sua religiosidade mais uma vez é posta à nossa presença e encerra uma súplica: continuar a ser baiano e a ser poeta.







PARTE IV

A última parte, entretanto, está por vir. A parte XV, um soneto à moda petrarquista, também classificado como soneto italiano por ter um agrupamento rítmico estruturado em 4 estrofes formadas por 2 quartetos e 2 tercetos. Ele se inicia com um verso decassílabo heroico “Sofrer..., mas ser da fé um puritano” (grifo do autor) e depois varia para outros ritmos. A combinação de rima das duas primeiras estâncias segue a mesma disposição das outras partes, rimas opostas, interpoladas: ABBA, seguidas de tercetos com esquema rímico CDD EED, como no poema Psicologia de um vencido do mestre Augusto dos Anjos.

Hábil em sua capacidade de criar versos, nosso poeta, neste opúsculo, apesar de seguir uma tradição poética não segue o rigor formal dos parnasianos. Goza de certa liberdade para cantar a sua terra como grandes poetas brasileiros já fizeram. Uns cantaram seu país, outros sua cidade: Gonçalves Dias exalta o Brasil em detrimento à terra lusa em seu poema Canção do Exílio, Manuel Bandeira alude a sua Recife em Evocação de Recife, Drummond evoca sua cidade mineira em Confissões de um itabirano, a lista é excessivamente grande para decliná-la toda aqui, mas podemos arrematá-la com aquele que cantou seu estado: Patrice de Moraes em seu Minha Bahia.

Inclusive o seu título me remete a outro poeta brasileiro, Casimiro de Abreu e seu poema Minha Terra, escrito em 1856 em Lisboa, no qual ele, já nos seus dois primeiros versos, torna-nos notório seu nacionalismo: “Todos cantam sua terra / Também vou cantar a minha”. E nosso poeta conjacuipense ao cantar a Bahia proclama que ela é “um estado em eterno estado de poesia”. Num momento em que a desterritorialização, adaptada às mudanças geridas pela nova globalização, impõe-se com todo o seu desenraizamento, mobilidade e hibridismo, Patrice de Moraes propõe uma reterritorialização por meio de seu esforço em fazer sobressair uma identidade baiana que particulariza e eleva os seus filhos e os diferencia dos demais brasileiros.



“Bahia Bahia Bahia: o início, o meio e o fim” deste opúsculo. Boa Leitura.



[1] FREYRE, Gilberto. Bahia e baianos. Salvador: Fundação das Artes, 1990.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

MOACIR EDUÃO: UMA ALMA ANSIOSA DE SI MESMA...


O poeta Moacir Eduão: uma alma ansiosa de si mesma...


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Quando conheci o poeta Moacir Eduão, tínhamos, àquela época, muitas coisas em comum: uma magreza esquálida, calvície e uma condição financeira que, sem nenhum apelo hiperbólico, beirava a miséria.







As coisas em comum paravam por aí: Moacir lançava seu segundo livro; eu, ainda, aspirava ao primeiro; sentindo, naquele macérrimo calouro de Licenciatura em Letras com Inglês, oriundo de um dos mais belos e sofridos sertões deste imenso Nordeste, a alma ansiosa de si mesma, como deve ser a alma de um poeta; entretanto, o tempo sempre prova à alma o valor da paciência. Estava, ali, diante de mim, um poeta que acabara de conhecer, um poeta que, como todo novo poeta, apresentava-se ao mundo, querendo do mundo o seu consentimento. Do que sei do conhecimento do mundo, Moacir Eduão, ainda magro e calvo, mas muito mais poeta e muito mais ansioso da sua própria alma, faz com que me venha à cabeça uma pergunta a qual me fazia àquela época de aspiração e pobreza: por que precisamos de poetas?...







Ora, sempre defendi a idéia de que, mais de que muitas coisas, precisamos e precisaremos sempre de poetas, como, em geral, de muita, muita arte (alguém é capaz de imaginar o mundo sem arte?) e se me refiro aqui, necessariamente, à poesia, com propriedade e intimidade, não é pelo fato de tê-la como ofício dos mais importantes em minha vida, até porque deixaria a música – primeira e mais constante paixão de minha existência – tomada do mais profundo e legítimo ciúme; é pelo fato óbvio de que a poesia, ao longo dos séculos de civilização ocidental, deixou de ser (e para muitos nunca foi) a mais popular das manifestações artísticas; logo ela, que sempre gozou de uma matéria-prima muito mais acessível que a pedra, a tinta ou o barro: a palavra.







Precisamos de poetas. No entanto, como necessitar de alguém tão distante, de alguém aparentemente tão alheio ao mundo exterior a ele mesmo e tão presente dentro de um mundo que este alguém nele se cria, um mundo dele e todo dele, um mundo que se desvenda em quem o cria e se apresenta cada vez mais inóspito, à medida que mais e mais se o explora?







Numa época em que a palavra “social” tomou rumos que nunca pensamos alcançaria e por isso mesmo tornou-se vaga, banalizada como todo “lugar-comum”, sem identidade alguma, por que precisaríamos de alguém tão, arrrgh!, “individual”? Contudo, quem disse que a poesia é social? Se os poetas parnasianos, longe do estéreo turbilhão da rua, tornaram-se matéria-bruta para a poesia e alvo para os ideais libertários – poeticamente libertários, se é que isto realmente existe – defendidos pelos modernistas de São Paulo, os da chamada “fase radical”, é preciso constatar que, dos poemas pílulas de Oswald de Andrade, os quais nos servem muito mais de exemplo de mau gosto de incapacidade versânica, e, principalmente, racional, do que de poesia, aos belíssimos e conscientemente incomodativos poemas oriundos do sentimental engajamento com o mundo pelo mago itabirano, nada disso conseguiu dar, à poesia, o caráter de intimidade popular com o qual gozam a música, a dança e até mesmo a pintura e a arquitetura; muito pelo contrário, alargaram-se, graças a essas “técnicas” de popularização do verso, as beiradas do abismo que dividia o povo do poema, as quais, aliás, já eram largas. E, como havia de ser, um pernambucano áspero, com matemático rigor, mostrou-nos que a poesia é, dentre as artes, a mais elitista e, em sua melhor forma, erudita. E o poeta é, dentre os artistas, o mais vaidoso, e, em sua melhor forma, magérrimo.







As razões pelas quais necessitaríamos de poetas são, em sua essência, a verdadeira substância da poesia, porque a história de nosso mundo, contada pela arte, é a história contínua e ininterrupta de quem somos e dos homens e mulheres que toda a humanidade, individualmente, deseja se tornar – num mundo em que as pessoas fingem-se solidárias, como se a solidariedade ou qualquer outra virtude não fossem também únicas em cada pessoa. Ouvir uma afirmação como essa é perturbador, não obstante a filosofia popular já professar: “a verdade dói” –, ora, a história que a arte nos conta é a história de quem buscou em si próprio as respostas para todas as coisas; a história da arte é a história do individualismo. O poeta é um individualista.







Precisamos de um individualismo – não de um particularismo –, pois é somente garantindo a formação mesma do indivíduo, o ser humano pleno e consciente de si e de suas muitas capacidades, que garantiremos a inteireza da sociedade humana e toda a arte e, conseqüentemente, toda poesia é resultado de um individualismo, ou, para aqueles que se incomodam com o termo, como definiu Jorge de Lima: de uma “alma que vive perdida na ansiedade de si mesma”.







Com efeito, o poeta é também um vaidoso; há vaidade maior em expor ao mundo aquilo que você faz, por exemplo, por catarse, querendo que as pessoas adquiram se trabalho e, mais ainda, regojizem-se com ele?! À vista disso, Moacir Eduão está no melhor de seu individualismo, em seu infante desespaços, e, com efeito, no melhor de sua poesia (não nos esquecendo, é claro, de dizer que também é seu momento da mais augusta vaidade). Pouco mais de dez anos se passaram, desde que conheci Moacir, e, olhando para o presente, vejo que só a magrelice é a mesma. Quanto ao poeta, a receita dos que vencem já se lhe apresenta em vida e em verso.







Da mesma forma, o olhar que lanço ao presente me conduz a outro questionamento: precisamos de Moacir Eduão?










Não podemos pensar em nada que não parta de algum ponto; o universo pode estar em movimento, mas não o percebemos em sua totalidade, a não ser a partir de um ponto pelo qual o começamos perceber. Quando, por exemplo, Stº. Agostinha definiu as essência da angústia religiosa e existencialista do homem, em seu Confissões, ele buscou em si mesmo a nostalgia de Deus que habita no coração do homem e percebeu, também, a partir de si próprio, o espírito que, diante do Divino, grita perante o ser cujo Espírito está encravado em sua carne; daí, a famosa frase síntese do livro: “Feciste nos ad Te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in Te”; diante disso, o ponto de partida para que o indivíduo, finalmente, si auto-conheça, para, daí em diante, passar a conhecer tudo o que o circunda, não o contrário (qual a maneira do escrutínio tolo de muitos insanos procurou, em vão demonstrar), está no próprio homem, e este antropocentrismo é muito mais religioso que materialista.







Em um livro intitulado de desespaços este bardo baiano nos traz um modelo, em versos, do homem que toma como ponto de partida sua própria existência para então abarcar, em si mesmo, o mundo à sua volta, porque nenhuma impressão, por menor que seja, parte de um ponto que não seja a de quem a percebe.







Eduão tem um mundo quase infinito a cada passo da jornada de meditações que ele mesmo tece ao longo da pintura em movimento que é seu desespaços, para alcançar este autoconhecimento a que o poeta está fadado, e, ao mesmo tempo, a concretude deste mundo o qual o tempo urde com a inconstância e a efemeridade comuns do mundo. Porquanto, como afirmara Platão, o tempo é, da eternidade, uma ilustração a se movimentar; e eis que mais uma palheta-de-tempo será posta em ação... comecemos a jornada; acompanhemos o poeta:










ir.


cansado



de horizontes,






contemplando o partir.




com propriedade,



seguir






ignorando as estrelas,


por saber das coisas estáticas –



e de todas as coisas



que nos modificam










Sem sombra de dúvidas, o grande tema da história da humanidade é a Viagem. Das primeiras narrativas, às mais novas e instigantes produções do mundo contemporâneo, o homem está sempre a partir... – há sempre uma nova e inacabada jornada, um novo porto e outros mares para onde a navegação é necessária. Na mais antiga obra literária do mundo, o povo de Uruk, na Mesopotâmia, pediu aos deuses, providências contra o tirânico Gilgamesh, seu rei, mais tarde deificado. Após muitas aventuras Gilgamesh chorou ao ver seu fiel amigo, Enkidu, perecer. Isso levou Gilgamesh à solitária e desesperada busca da Eternidade; seu ancestral Utnapistin, único homem a quem tinha sido concedida a Eternidade, disse a Gilgamesh que fosse ao mundo subterrâneo para, lá, recuperar uma planta mágica (mais tarde, em uma outra mitologia, um jovem e apaixonado músico também desceria ao submundo, encantando demônios e maldições, para recuperar a amada seqüestrada, numa viagem por demais insólita que somente o amor seria capaz de proporcionar), mas logo após ter encontrado a planta mágica, essa acabou sendo devorada por uma serpente, antes que Gilgamesh retornasse à superfície. Antes, Utnapistin contara a Gilgamesh que se tornara imortal depois que os deuses haviam mandado um dilúvio para aniquilar todas as pessoas do mundo; seguindo os conselhos do deus Enki, Utnapistin construiu um barco para salvar-se e à sua família, numa história que, em muito, assemelha-se ao Noé bíblico. No Induísmo, o primeiro Avatar de Vishnu, Matsya, o avatar-peixe, salvou o primeiro homem, Mano – como Gilgamesh e Noé – do Grande Dilúvio. O primeiro homem de Razão salvar-se-ia das sereias amarrando-se ao barco no qual estava condenado a morrer navegando a mando do irado Posêidon, o mesmo Posêidon que garantiria, com o assassinato de Lacoonte, a vitória do povo que, em nome da ganância e do capricho, arremeçaram-se ao mar, aos milhares, para, como nos narrou Homero, acima de tudo, vingarem suas atribulações e seus sofrimentos por causa de Helena. Mas, se homens morreram no mar por ódio a uma mulher, outro atravessaria o Inferno e o Purgatório por amor a uma mulher a qual, no Céu, libertá-lo-ia do pecado e da culpa, assentando-o eternamente em trono de nume, fazendo dele o cantor de sua glória e do seu amor, em versos, se eu me lembro bem, que são bem assim: “Senhora!... Esperança minha permanente... que não temeste por me dar saúde, teus vestígios deixar no Inferno horrente... De tantas coisas quantas eu ver pude, ao teu grande valor a alta bondade a graça referir devo e virtude”.







A fantasia também vive do real, pois quando homens reais enfrentam o mar, a procela e o furor e em nome de um ideal que não lhes pertenciam, porém o abraçavam com vigor e medo, um bardo português de também reais aventuras soube, em fantasia, dar-lhes o consolo e o prêmio merecido; é só nos recordarmos dos versos: “Enfim, que o Sumo de Deus, que por segundas causas obra do Mundo, tudo manda... E tornando a cantar-te das profundas obras da Mão Divina venerada: debaixo deste círculo onde as mundanas almas divinas gozam, que não anda outro corre, tão leve e tão ligeiro...” Mais tarde, um outro português de alma múltipla parafraseou o lema dos antigos navegantes, adaptando-o para estes viajantes de si mesmos, que são os poetas: “Viver não é necessário, o que é necessário é criar”. E criar é, com certeza, a mais bela viagem e a mais instigante aventura.







Moacir Eduão, fazendo justiça à sua incessante busca pela criação, abraça-se aos grandes poetas e sua inesgotável temática (pois o tema humano é, ao menos que a humanidade se esgote, inesgotável), mostrando-nos, mais uma vez, que a tradição é um dos principais pilares para o grande poeta. Despedindo-se do “lugar-comum”, das impressões mais cotidianas, da vida parada de tempo, o poeta pretende ir longe; este poeta que Moacir empresta à sua obra faz para si mesmo a necessidade de partir; é necessário esse deslocamento o qual, antes de tudo, é um deslocamento de alma; é uma atitude que começa no âmago do poeta, pois esperar é fugir dos momentos, das circunstâncias... e o poeta não pode fugir às situações, pois são elas que tornam uma verdade mais ou menos real. E o poeta parte. Baudelaire já chamava nossa atenção para o fato de, no desconhecido, encontrarmos o novo que ali se oculta; em seu olhar criterioso, o poeta fita o novo ao seu caminho. O passado não mais importa, o presente tem que ser vivido em toda a sua grandeza. Mas como, se a nostalgia o persegue, e as reminiscências também são parte da fuga?







Cabe agora, começada a jornada, decidir entre o caminho que há e a rota que se constrói a partir das situações que lhe são oferecidas; desvincular-se do que existe, do que à frente está, é indevido, porém, não se pode negar a vontade de criar, de construir um novo mundo, mesmo que num mundo de idéias; mundo, aliás, o qual Platão contemplara. Se o caminho é tortuoso, fica assim provado o seu valor – a exigência que se faz deve ser proporcional à qualidade que se pretende. Que um mundo inteiro se elabore na mente do poeta para, logo mais, ser traçado pela caneta e organizado, posteriormente, pela disciplina; que ninguém mais-nada espere, pois mais-nada é necessário; que todos constatem; que uma grande obra se faça. O olhar criterioso do poeta não deve se desviar um milímetro sequer, de seu alvo. Conhecer as coisas é participar delas; é construir (com elas) a própria certeza que temos das coisas; projeta-las... Traçar para si e para elas um desenho único... Ser criador e parte da paisagem... Conhecer é participar das coisas vivendo-se e, ao mesmo tempo, vivendo-as. Nenhum poeta que se preze dispensa a idéia de ser o senhor de seu próprio Mundo e dos pequenos “mundos” que dele se criam. A forma deve ser um meio para se dizer algo, não o seu fim, sua inteireza, sua essência... Mas, se não praticamos a forma, como saber o sabor desta verdade? Falta um soneto neste livro? Mas não lhe falta uma forma. Se o poeta, nele mesmo, se fecha; se o poeta, da mesma maneira, em si se fecha, isso não os põem fora do mundo, apenas, em tal atitude, comprova-se que ambos fazem, realmente, parte do mundo – só o inóspito é estático e por isso mesmo, somente ele seja, verdadeiramente, universal; mas não o poeta... O poeta é, como já disse, um individualista.







É sobre uma profusão individual de imagens e idéias, Moacir conduz sua obra. A inexistente sombra de uma árvore, por exemplo, é mecanismo para compreendermos como o mundo pode ser indiferente à toda e qualquer idéia que dele fazemos e como, em nossa tola sabedoria, acreditamos que as coisas, por mais insignificantes que se nos pareçam, realmente dependem de nós – elas não dependem. Será que no poema desapego, Moacir tenta nos chamar a atenção para essa idiotice criada por nosso saber? Será que ele mesmo acredita nisso? Não, ele sabe que não; ele sabe que o mundo o envolve da maneira mais tentacular possível... Mas também sabe de seu papel, ele próprio pertence, distinto, a outras imagens e, através de uma poesia contemplativa como a própria alma do poeta, Moacir devolve, ao mundo pálido que lhe envolve o rosto, esta impressão particular da grandeza do mundo, às custas, muitas vezes, da mais profunda angústia e da mais sincera tristeza, como no poema divergência:







(já contemplamos,




de mãos dadas,




um jardim florido.







hoje,




fitamos, tristonhos,




a bifurcação da estrada.)







(Este poema, por exemplo, demonstra o quanto Moacir Eduão apega-se, em seu novo trabalho, à percepção do mundo através dos sentidos e da admiração, livrando-se de uma poesia de caráter pseudofilosófico, algo que tem sido uma praga entre os calouros de nossa atual poesia, os quais tomam como base os versos de uma velha guarda que, embora pareçam, não entendem absolutamente nada; a poesia de caráter erudito é o resultado de um eruditismo intrínseco, plantado na mente do poeta por meio de anos de absoluta depuração intelectual e não garimpados à esmo em orelhas de compêndios de filosofia comentada. Em um dos últimos números da revista Hera, do qual participei com muita satisfação, pude, por exemplo, perceber o tenebroso desnível entre alguns trabalhos: poemas da mais absoluta criatividade disputam lugar com versos que mais poderiam ser comparados a um show de horrores versânicos, onde o lema maior é a produção da mais original anomalia poética, verdadeiros Monstros de Frankstein lingüísticos cuja única virtude que possuem é a de não possuírem o menor grau de coerência neles próprios. Nunca conheci nenhum grande poeta advindo de escola poética nenhuma; já deixei bem claro que o trabalho poético é um trabalho individual e não um casamento de mediocridades; se falo com propriedade a respeito da poesia de Moacir Eduão, não é porque ele é de “minha geração” – como se somente isso fizesse dele um grande poeta –, mas pelo fato de o seu trabalho ter uma coerência e uma qualidade inerentes, mesmo quando, às vezes, tais qualidades erroneamente se mostrem – entretanto, isto é problema dele e só por ele resolvido. O que importa ao poeta é a qualidade do que é dito e não um cooperativismo de jumentos. Moacir não me parece solícito a este tipo de mau-agouro e espero, sinceramente, que tamanha idiotice não lhe sobrevenha à cabeça. Mas toda esta conversa e irrelevante, como é irrelevante aquilo que a causou...).







Os versos de divergência poderiam ser muito bem entendidos em versos como: “Eu te peço perdão por te amar de repente”,”Amor, minhas penas, meu delírio”... ou até mesmo, algo do tipo: L´amour immense que je te dédic, pois ele traz um lirismo marcante e apreciativo, não carregado da ingenuidade dos românticos, mas repleto do misticismo e do emparedamento intimista dos Simbolistas; entretanto, muito mais que este exemplo lírico, todo o livro de Moacir é uma retomada de antigas imagens épicas transportadas para um outro lugar, um lugar que, ao invés de heróico ou dramático, ao invés, no mar e do mar à Eternidade, este lugar é o íntimo do poeta o qual, por meio de uma lírica aliada a um drama pessoa narrado em primeira pessoa, apresenta-se na forma de um Eu incógnito e existencialista como o fez, pela primeira vez na história da poesia ocidental, Safo de Lesbos, com as metáforas de Homero; assim, e somente assim, Moacir Eduão poderia pintar a tristeza das flores sentidas por um homem que, no jardim, em soluços chorava por dentro do ângulo de visão agudo deste Eu em constante observação, como já deixei claro, e, desta maneira, Moacir segue, tecelão de emoções e espantos que é, compondo uma verdadeira análise filosófica das coisas, pois qualquer mero aprendiz de filosofia de almanaque sabe que o princípio do conhecimento dedutivo, como já nos ensinara o velho Platão, está na perplexidade. E Eduão, semelhante a uma Eurídes Fontela, utiliza-se desta perplexidade ao longo de todo o seu novo livro, com um sintetismo próprio de quem reduz, à forma de aforismos, um imenso discurso sensorial, para logo depois de lido abrir-se, de novo, em palavra e sentimento, e ele o faz mesmo quando a única resposta que, da realidade, ele recebe é o silêncio; mesmo quando a única resposta que ele encontra dentro de si é a vontade de voltar... Mas ele não volta.







A transcendência de todo este acontecido encontrar-se-á na contemplação do Infinito de frente ao Porto... O mundo se abraça em um único gesto de sua natureza, porém não se fecha, antes abre-se à aventura, à jornada sem rumo ou destino certo, ao esquecimento das desilusões que ficaram para trás, à oportunidade, à morte no mar ou noutra realidade, juntando-se tudo isso aos espantos trazidos pelo poeta, o mundo torna-se mais evidente do que nunca parecera e o seu abraço faz-se muito mais apertado. Todos os grandes poetas do mundo começara suas grandes jornadas poéticas pelo porto; do porto todas as naus partiram para que as grandes aventuras se fizessem vivas e as grandes alegrias se criassem ou que todas as imensas tristezas tomassem posse de seu espaço... mas, e antes?! Onde estava a aventura antes da aventura, a jornada antes dela, a dor e a alegria antes do porto para o incógnito? Graças a Deus, Moacir Eduão nos ofertou estas respostas em um dos poemas mais lindos já escritos, o qual não poderia ter outra função que não fosse a de encerrar esta viagem que recomeçará para além do porto (e para além de nós):







retrato de um Porto triste




onde o pôr-do-sol se veste:







o olhar ébrio




arranca o silêncio das águas







se enriquece nos espantos que trago







como uma fotografia nula,




negativa,




uma imagem não-revelável







na indiscrição de tantos fitos,




tantas desonrosas perfeições




fazem lembrar do retrato triste




que no Porto sempre existe,




de fato.










O resultado final obtido por Eduão na compilação de seu quarto e melhor trabalho são as respostas àquelas perguntas iniciais: Sim, precisamos da poesia, de uma poesia que sempre será uma manifestação plena de transcendência, que é uma sublimação do espírito do homem em seu mais alto grau de efusão e mistério, o resultado da união da inteligência com o sentimento.










A boa poesia é provocativa, não está disposta a passar a mão sobre a cabeça do leitor, antes pretende dar-lhe um soco na cara. A vida é feita de coisas boas e más, então é necessário que aprendamos com ambas. A arte nos dá a possibilidade de vivenciar muitas coisas, sem necessariamente, passarmos por elas. A arte, a poesia, ensina-nos a sermos nós mesmos, completos. Por isso, precisamos de poetas, pois sem eles é impossível vivenciar tal poesia. E sim, precisamos de Moacir Eduão, que em seu novo livro mostrou-se digno de mérito puramente literário, do pensamento criador, da construção cênica, do desenho dos caracteres, da disposição das figuras, dos jogos lingüísticos e da tradição de elementos, segundo Machado de Assis, essenciais para um grande poeta.







Eduão mostrou-nos amadurecimento. Seu desespaços não possui a insignificância artística de seus dois primeiros livros, nem o fracasso formal e dedutivo, devido à má assimilação da temática proposta, perceptível em seu terceiro livro. Mas o seu quarto trabalho é o resultado de quem está aprendendo a dominar a ansiedade para, na paciência e na disciplina, ver colhidos os frutos do capinar solitário e único do fazer poético; algo, diga-se de passagem, indispensável a todo e qualquer indivíduo que jogou uma semente no terreno basto, porém fértil, da poesia; inclusive para mim mesmo.


































Feira de Santana – Bahia, maio/junho de 2005.




sexta-feira, 20 de maio de 2011

UMA BALADA PARA A MORTE...



O dia da morte de Willian-Adolphe Bouguereau (1810), óleo sobre tela; 153 X 119 cm. Sãp Petesburgo.


UM IMPROVISO HERÁLDICO
ANTE AS SOBRAS DO BANQUETE ILÚDICO
( em ocasião do 60º aniversário do poeta Antônio Brasileiro )



`a Fabiane Santana, aluna estimada e meiga lembrança de Aracy.


Talvez em outras paragens
do viver
se possa extirpar as feras.
E morrer.
ANTÔNIO BRASILEIRO






( Suavemente,
a noite nos envolve indecifrável...
fugindo de sua obrigação de negar-nos
a grande sombra desce,
mas todos se amontoam no
silêncio e no medo
de sermos tantos.

Amontoamo-nos
no indecifrável espaço do torpor
e parecemos um só homem espalhado pela escuridão imensa...
nessa sombra que somos
nos perdemos...
porém,
sobra nas retinas o que fomos
e presa à garganta
tudo
o que queríamos.

A noite...
sim, a noite...
a noite nos embrulhou com ódio,
e toda a noite enraivecida é a grande
verdade
que buscávamos,
uma deslavada verdade
que todos contam entre nós:
era dos nossos sonhos que ela vinha;
de nossa realidade ela se criava;
amadureceu em nosso egoísmo;
modificou-se por nossa angústia;
em nós...
em todos nós
espatifou-se,
neste momento que ainda corre:

e todos somos um
nesses pedaços de tantas coisas
únicas;
tantas vontades
a serem sempre as mesmas;
tantas fomes iguais
de tudo.

Esta noite nos uniu em nada...,
mastigou
o humano
que tínhamos engolido,
despojou-nos
neste leito de escuridão em que deitamos;
enraizou-nos
neste princípio de coisa alguma
impedido-nos
a aurora.






2.a

A noite está
inquieta
como um homem morto –
toda a noite
é um tumulto –
é toda um coração que bate e vai morrer e o sabe...

A noite
sorveu a paciência
destes banquetes; deu ao tempo
propósitos que não tinha;
a noite
deu propósitos a tudo:
à nossa morte,
ao nosso odor de morte,
à nossa inquietude de estar dentro
da
morte,
ao nosso esquecimento
de sermos
morte...

a noite
humanizou a terra superior dos cemitérios;
tornou fundamental
a nossa poesia dispersa;
apagou-nos
da manhã
que não
viria.





2.b

A noite
deu-nos um mistério em nosso nascimento;
e nenhum dia será mais claro do que esta noite
e os dias que virão de dentro dela.

A noite assombrosa de nosso desejo
é toda uma mística certeza que nunca tivemos.

– Existimos
dentro desta noite como
nunca existimos
antes. )






3

UM APÓLOGO
:



“ Ó amigos, ó coisas inexatas...
filhos das feras que moravam em nós:
esta noite tudo ficará retido sob o chão
destas mentiras tão puras;
a manhã se foi sem ternura
e sem a simplicidade
que os amanheceres
nos trazem.

Ó irmãos,
crianças maliciosas que fomos,
a manhã se foi escura
porque nunca verdadeiramente nos houve
uma manhã mais clara.


A perfeição,
irmãos,
reside nesta escuridão que este não-dia nos trouxe.
Nada vimos,
porque nada queríamos ver.
Nada evocamos,
pois sempre fomos esta mesma ausência.
Nada construímos sobre esta imensa mão ruidosa,
porque toda a nossa poesia foi um truque.
E nenhuma lágrima rolará,
pois nunca existiu em nós a alegria
para que, então, experimentemos a tristeza
de sermos tantos e tão sozinhos.

Nada, amigos...
nada...
nada será,
porque nada foi.


Tudo
apenas é:
e tudo é noite...
tudo é simples,
vasta e absoluta noite.

Somente
noite.”



sexta-feira, 8 de abril de 2011

UMA ROSA PARA RENÉ MAGRITTE: JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, POETA DO INDOMÁVEL


Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, óleo sobre tela, 1968.













Venho de mãos cruéis, maios sem lírios,


perseguido de espadas e de gritos...


JORGE DE LIMA















É dia 31 de março. Um amigo e poeta, Bernardo Linhares, presenteia-me com um livro – o mais singelo e perfeito dos presentes àqueles que amam a leitura – mas não sem, antes, tecer uma urdidura de elogios à obra que me oferta.





Em seu projeto gráfico, o livro é simplório, apesar de pertencer a uma grande editora, entretanto, chama-me a atenção, primeiramente, pela bela rosa rubra que se abre imensa e unânime, em um quarto vermelho – paixão sobre paixão, a qual eu logo reconheço como uma famosa tela de Magritte. Em seguida, fixo os meus olhos no título, A Esfinge contemplada, e uma profusão de imagens e mitos arrebata-me a atenção. Por fim, o nome de seu autor: João Carlos Teixeira Gomes, poeta baiano, intelectual de peso, ensaísta mordaz e grande estudioso de ninguém menos que nosso Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Da ultima vez que vi seu nome numa capa de livro, este o dividia com um, hoje, extinto Antônio Carlos Magalhães, pousando de mafioso. O livro era Memória das trevas, foi sucesso de público e crítica, revelando um período da política baiana tão obscuro e abjeto quanto o que vivemos atualmente, por mais pó-de-arroz que a propaganda enganosa, paga por nossos altos impostos, queira borrifar, consagrando seu autor como grande estudioso de nossa política e cultura.





Mas, e o poeta? O que dizer do homem de versos, dotado de uma condição divinatória, mesmo morrendo de amor, como Maiakovski e Drummond, pelas ideologias esquerdistas? O que dizer de João Carlos Teixeira Gomes e seu A Esfinge contemplada?





Logo, à primeira vista, é fácil perceber o domínio que seu autor possui tanto da técnica quanto de toda a esfera expressiva que esta técnica deverá abarcar. É um livro de emoções, é claro, toda arte busca “fazer sentir”, mas não se engane quem quer que seja que, neste livro, revela-se um lirismo barato e repetitivo; a poesia contida em A Esfinge contemplada é densa, inquieta e, deveras, contemplativa. À maneira dos grandes poetas que surgiram após o período modernista, João Carlos Teixeira Gomes se mostra possuidor daquela capacidade de realização que faz com que uma mera “pedra perdida de duro calcário espesso”, à maneira de um Drummmond, deixe de ser um objeto qualquer perdido em meio ao grande esplendor do mundo para tornar-se algo de inquestionável singularidade, fazendo-se perceptível e emocionante, mas se erguendo através da capacidade de elaboração técnica, de uma estrutura lingüística que tem início na mera emoção que fenômenos tão simples, como o desta “pedra in natura”, podem produzir em nosso espírito.





Era uma pedra perdida,


de duro calcário espesso.


Era uma pedra in natura.


Não era vidro, nem gesso.


No chão crestado jazia,


alheia às paixões do mundo:


argila da eternidade,


crosta do tempo infecundo.


Cauteloso, examinei-a


tomando-a na mão discreta:


— É algo que somente existe


em sua essência incompleta.


Corra o tempo fugidio


e há de ser sempre o que é:


forma pura que se basta


sem se dar conta nem fé,


massa vã que se empareda


num rude universo tosco,


presa dos próprios limites


contidos no brilho fosco.


Não pensa, não quer, não sonha.


Nada sabe nem aspira.


Mas eu, que choro e que tenho


um coração que delira,


que sinto o vibrar da cólera


e do fervor mais profundo,


eu logo serei fumaça


dissolvida além do mundo,


matéria desativada


ou pó de humana carcaça


— mas a pedra reinará


na glória turva do nada.


Daqui a mais alguns anos


(que depressa hão-de passar)


já serei fumo esvaído


- mas a pedra há de restar.


E assim ficará, invicta,


sem desejos nem remorsos,


pairando com soberbia


no que sobrar dos meus ossos.



Com raiva, num puro assomo,


tomei a pedra na mão


e lancei-a ao mar profundo:


nada buliu na manhã


nem a paz nimbou o mundo.


Pois à muda natureza


são coisas que não consomem


a dureza de uma pedra


e os sentimentos de um homem.





Tal capacidade só pode ser adquirida através de anos preenchidos de incansáveis estudos e repetidas práticas; a tal empreendimento, alia-se, também, à consciência de que a poesia, como toda arte, é oriunda de uma natureza concreta e intelectiva e que o pensamento reflexivo é tanto maior e necessário ao poema quanto melhor ele for, quanto mais verdadeiramente emotivo ele nos parecer. Pensamento e contemplação artística nascem da mesma inquietude, porque ambos estão no homem e nessa sua estranha mania de querer desvendar a vida em sua mais perfeita grandeza.





Sem dúvidas, só pelo evidente domínio técnico dos círculos expressivos, como diria César Leal, em sua Os cavaleiros de Júpiter, já poderia considerar João Carlos Teixeira Gomes como poeta, bem como um grande poeta, cuja característica maior seria o do domínio de tamanha técnica expressiva, mas este baiano, profundo conhecedor dos bardos ibéricos e de nossos melhores poetas, não se limitaria somente à descrição das pequenas disposições da alma, acalentadas por um cabedal de pragmatismos intelectivos; como todo grande poeta, dirige seu olhar ao passado e à mitologia, aos desejos e percepções, às emoções e ao pensamento analítico, expandindo-se em conteúdo e se restringindo no que diz respeito ao palavreado e à ornamentação lingüística. Tais características poderiam, inclusive, caber muito melhor em um sonetista, primeiramente, ofício, aliás, onde João Carlos é, numa linha histórica (só para contemplar a Bahia) que vem de Gregório de Matos a Ildásio Tavares, um dos melhores neste ramo seleto e cada vez mais raro em nossas Letras.





Entretanto, estas qualidades não se restringem a quatorze versos, à maneira de um Petrarca ou de um Camões, fazendo-se perceptíveis, também em seus versos livres, cujas camadas, tanto simbólicas quanto sonoras, não se permitem faltar. Desta forma, todas as qualidades de um bom poema podem ser encontradas nos versos de João Carlos Teixeira Gomes, independentemente da forma escolhida por ele, seja ela um soneto:





Minha única certeza é minha morte.


Virá festiva, com pendões vermelhos,


Provocadora com seu riso forte.


Mas me verá de pé, não de joelhos.



Pode vir de mansinho a forasteira


Ou numa orgia de ossos e fanfarras,


Com dois laços de fita na caveira


E o ágil chocalhar das finas garras.



Eu que os mares amei, e o sol tirânico,


Os flavos grauçás de dorso enxuto,


As moças de maiô e o vento atlântico,



Sereno hei de esperá-la em meu reduto.


E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,


A própria morte se porá de luto.



ou em (supostos) versos livres:







O silêncio habita


o parco instante da alba e do crepúsculo


o olhar embaciado do morto e suas mãos


a deserta sala onde um relógio soa


o cais ausente de navios


o balé das alegorias nos cemitérios


o vôo do anjo de mármore para além da haste


as pausas das grande sinfonias


certos afagos noturnos que antecedem o êxtase


a tarde nos claustros, a partir da 17ª hora


os sutis deslocamentos da alma


uma folha caindo no outono (ou fora dele)


o lento périplo dos dedos pelo corpo amado


o círio que arde


uma estrela entre nuvens


o vôo do morcego aprisionado na gelatina da noite


as fotos antigas que imobilizam o tempo (e o denunciam)


o caminhar das formigas na superfície do mundo


a praia na maré morta


o musgo que cresce nas ruínas


as ruínas que não souberam tombar


a imobilidade das folhas


o passado


o vestígio de um asa na tarde morrente


a água que goteja no carramanchão


o écran da TV desligada, com um grande olho a espreita


a nuvem à esquerda, no ocaso


a gestação do mel e das resinas silvestres


os infinitos espaços e a sua malha de órbitas


a germinação do rancor


a estação vazia, após o último trem


o amor que é a ânsia, mas não se confessa


a chama das lamparinas de oratório


a fenda Tundavala e os tandos da Gorongosa, que conheci outrora


o instante em que o segundo se fez hora


a vela decalcada na manhã móbil


a música gestual das bailarinas em levitação


os conluios do tempo e da morte


a mão que pinta


um bater de pálpebras...





Desta maneira, neste Universo de grandes elaborações poéticas, João Carlos Teixeira Gomes, em momento algum, ignora o critério e a disciplina, no sentido do apuro textual, fundamental aos grandes mestres, pois sabe que a poesia é amais perfeita das artes e, assim, reverencia, por assim dizer, a construção de sua poesia como algo pleno de significados e não um jogo simplório de palavras e de aproximações sonoras. Por isso mesmo o autor de A Esfinge contemplada pode muito bem colocar conflitos emocionais e inteligibilidade, no papel, com total efetividade e, desta maneira, ser muito bem chamado de poeta.





Mais do que um discorrer lírico sem pretensões, A Esfinge contemplada dá vazão a uma intricada soma de visões tanto dialógicas quanto dialéticas, reforçando, assim, os aspectos dramáticos, presentes em todo o livro, e estabelecendo, destarte, um fio condutor que vai de poema a poema, unificando o livro numa idéia de poesia culta, mas sem perder de vista a emoção contemplativa que todo homem, um dia, esboçará diante do mundo e de toda a sua grandeza, através de temas como Deus, Vida, Morte, Ser, Tempo, Destino, Mistério, tão caros à poesia e ao nosso desejo primordial de inquietude metafísica, bem como o de transcendência. Tal atitude só pode ser entendida como algo que provem de um homem profundamente situado dentro de seu contexto poético, a exemplo de um Jorge de Lima ou de um Bruno Tolentino, que, por vezes, o leva a certeza de que a missão da arte é elevar nosso saber e consciência aos supremos interesses do espírito, como diria Hegel. Contudo, com a morte da fé e da crença, entre os homens de espírito elevado, na própria imortalidade deste espírito, assistimos a morte da arte e de suas formas mais sublimes, como bem demonstrou Alfred Miller. Daí, haver, em nossos dias, tão poucos “poetas” preocupados com “os grandes interesses do espírito”, tão poucos verdadeiros, quase nenhum gênio a desatacar-se entre os medíocres, pois, hoje, são os “grandes” os medíocres de outrora.





Seja por fé verdadeira, ou o mero fingimento de poeta do qual falava Fernando Pessoa, a idéia de crença e de transcendência, presente em A Esfinge contemplada, desempenha um papel de grande relevância entre os maiores nomes da poesia contemporânea e representa uma tomada de posição de um artista diante dos engodos hodiernos de nossos pintores abstratos que não sabem fazer figura, de nossos poetas de “versos livres” que não sabem fazer soneto, dos críticos que só leram as orelhas dos livros que criticaram, dos que fizeram tese sobre Baudelaire sem nunca terem lido Baudelaire, etc.





Tal desempenho (e representação) se torna mais intenso quando o poeta nos permite contemplar, em sua própria poesia, as muitas influências que recebeu como um grande alinhavo de criações intertextuais, a exemplo de uma estreita relação com Augusto dos Anjos e Jorge de Lima, como neste Soneto Negro:







À meia noite, quando os sonhos nascem,


gordos morcegos e fosforescentes


dos tredos bosques, onde os medos pascem,


em bandos saem, a assustar as gentes,



se os esqueletos por ventura andassem


sacolejando seus ossos trementes,


tantos sustos, talvez, jamais causassem,


como essas fúrias de raivosos dentes.



São mensageiros do reino das brasas


em bruscas rendas das humanas rotas


que a tudo afligem com as negras asas.




Fuja logo o infeliz que pode vê-los!


Pois quem comanda tão sinistras frotas


é Lusbel, o senhor dos eternos gelos.





ou na profusão crômica e sinestésica, típica de um Sosígenes Costa ou de um Carlos Pena Filho, neste belíssimo Soneto marinho:







Confluências do Azul. As vergas altas


implantam um Mondrian na paisagem.


Ao deslocar-se a vela móbil crava


um ócio branco em luminosa aragem.




Emerge em arco, além, a fímbria alva


de dura fraga em salitrosa espuma.


O salso dique a preamar destrava,


nas vagas corre a solitária escuma.



Ao sol a pino o meio-dia é brusco.


Arando o ar ardente sobre as telhas


o dia é frágil como um vaso etrusco.



Voa a manhã nas asas das abelhas.


No mar intemporal dorme um molusco


que algas rodam em cândidas parelhas.



Além do mais, esta carga de influências positivas, e tão bem impregnadas de capacidade intelectiva quanto técnica, conferem a João Carlos Teixeira Gomes uma realização plena, a exemplo dos mais laureados dos poetas. Todavia, muitos consideram uma obra como A Esfinge contemplada, como “antiquada e classista”, dada a nossa incrível tendência a obviedade a ao simplismo, escondidos sobre o manto da “revolução” e do “vanguardismo” que, negando-se, como nos atentou César Leal, à peneira das perspectivas e o crivo do tempo, preferem, principalmente em nosso querido Brasil, perpetuar a “fase de choque”, insistindo na sistemática negação de valores estabelecidos e impulsionados por nada menos que o ressentimento, a inveja, as frustrações pessoais, a carência de talento e pela vaidade de inapto.





Quando os meios de comunicação, as Academias, os centros de educação e tudo o mais que deveria salvaguardar certos princípios e normas dogmáticas, são tomados e dirigidos pelas hordas que deveriam combater e afastar, entende-se o incompreensível facto de homens como João Carlos Teixeira Gomes e Ildásio Tavares (só para ficar pela Bahia) serem renegados a segundo plano, esquecidos em edições poéticas esgotadas, e, quando lembrados, destinados a funções mais “benquistas”, como a de pesquisador, professor universitário, ao invés de poeta ou de homem engajado ao invés de homem universal.







Construindo uma idéia de fim em si mesmo, toda uma geração chegou ao ano 2000 acreditando na terrível mentira de que a poesia brasileira não nos deu mais nada além do que nos foi imposto pelo Concretismo ou pela Poesia Marginal e, se há poesia, ainda, entre nós, esta se encontra nas canções do Chico Buarque e do Caetano Veloso, e não em nomes como Adelia Prado, Neide Archanjo, Reynaldo Valinho Alvarez, Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo, Érico Nogueira, Rodrigo Petrônio, Patrice de Moraes... Nossa “intelectualidade” adulatória, incapaz e inerte para as grandes questões humanas, mais e mais se mostra destruidora do estudo honesto e de uma visão crítica que realmente veja as coisas como elas são e não como aparece ao seu interesse quanto mais espalha suas ideologias cruéis e vazias por nossas Universidades.





Alheia a estas maquinações cooperativistas de nossos intelectuais, a poesia de João Carlos Teixeira Gomes chega-me mais de vinte anos depois (a edição é de 1988), como uma das obras mais elaboradas e representativas de nossa Poesia Contemporânea... Uma poesia que se abre cada vez mais nova e mais bela como aquela imensa rosa na Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, entre o desvendar da modernidade e o cultivo consciente de uma tradição poética cada vez mais forte quanto mais reaparece. A Esfinge contemplada, principalmente com seus sonetos, arrebata qualquer leitor para uma atmosfera super-elaborada do universo poético (e do universo formal da grande poesia) cuja essência se encontra nas muitas questões de natureza existencial que ele suscita. Algo que só alguém que aprendeu a dominar os intricados meneios que a poesia pode criar, verdadeiramente.







Poesia, este enlaço àquela verdade sublime e indômita que se chama Beleza.



















Salvador/Candeias, 05 de abril de 2011.