sábado, 22 de agosto de 2009

SONETO AO VAQUEIRO...


O Vaqueiro de Juracy Dórea (1980): Mista sobre azulejos; 180 x 220 cm – Mercardo de Arte Popular, Feira de Santana, Bahia, Brasil.

O poeta e amigo Miguel Antõnio Carneiro

GALOPE

ao amigo e velho vaqueiro consangüíneo, Miguel Carneiro



( pr’ uma aquarela à Emilio Moura )

Esquecidos, no vento, procuramos
por aquilo que outrora fomos – tanto
faz se a luz que nos guia agora é pranto,
se tudo se desfez... Nós perduramos.

Tudo torna a viver, e reencontramos
a força de existir, o próprio encanto
que transfigura o nosso grito em canto
oportuno, o caminho pr’onde vamos:

é a memória a deter a nossa sina
de ter, nos pés, os giros que há no mundo
e a vontade de amar que o Amor ensina,

porque a alma há de fazer sua própria sorte
ante o esplendor mais límpido e profundo
ou do anjo frio que nos trará a morte.




quarta-feira, 29 de julho de 2009

EURICO ALVES BOAVENTURA (1909-2009)


O poeta Eurico Alves Boaventura (1909-1974)

No ano que passou, o romance, Vidas secas, do alagoano de Quebrângulo, Graciliano Ramos, completou 70 anos, merecidamente festejado como uma das maiores obras da História da Literatura Brasileira. Graciliano encontra-se no centro de uma tendência literária que se divide, historicamente, entre a celebração e o olhar depreciativo – o Regionalismo; que, desde o exotismo romântico de José de Alencar, e, não totalmente, do Visconde de Taunay, ao quase desprezo de autores, tanto já veteranos, como João Ulbaldo Ribeiro e Antônio Torres, a contemporâneos de igual qualidade, tais quais Milton Hatoum, José Lins Passos e Ronaldo Correa, acusando tal tendência de ser uma forte variante de “beletrismo estético”, sofre severo bombardeio pejorativo.

O Regionalismo (e entenda-se aqui toda literatura que, desde a segunda metade do século XIX, se direciona para o interior geográfico do Brasil, apresentando uma série de aspectos muito próprios das comunidades afastadas dos grandes centros urbanos, que vão desde o modo como declinam a minudências na descrição de dados locais, à maneira como incorporam certos maneirismos lingüísticos), à revelia de seus detratores, é responsável por muitas das melhores obras de nossa Literatura, além de ser o pioneiro no desbravamento cultural de regiões, até meados do século XX, desconhecidas do grande público leitor, como o Sertão do Nordeste, os Pampas gaúchos, os canaviais próximos ao litoral nordestino, a região cacaueira da Bahia ou a Amazônia; e isso se dá, ao mesmo tempo, pelo já citado exotismo de alguns românticos, ou, com o realismo profundo, aliado a uma verdadeira preocupação político-social e histórico-cultural, propostos, já no fim do século XIX, por Franklin Távora, em seu célebre O Cabeleira.

Com a geração neo-realista de 1930, o Regionalismo atingirá seu apogeu, através de obras de indiscutível valor literário, como o, já, citado Vidas secas, além dos antológicos Fogo morto, de José Lins do Rêgo, Gabriela, de Jorge Amado, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, A Bagaceira, de José Américo de Almeida... Já o que me parece ser muito pouco comentado, inclusive nos livros didáticos que chegam às mãos de milhões de alunos de todo o País, com respeito ao Regionalismo, é a grande participação que a Poesia assume nesse contexto; até porque, a linguagem poética, extremamente diversa e subjetiva – abrindo-se a infinitas possibilidades de interpretação, e, inclusive, a péssimas interpretações –, por mais que muitos a queiram anti-lírica e objetiva, não se limitaria totalmente a quaisquer paradigmas, por mais que os autores se dedicassem à tamanha proeza. Cabe dizer aqui, no entanto, que, alguns, tais quais João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Alberto da Cunha Melo,tornaram-se famosos por trazer, à poesia, as mesmas propriedades presentes nos romances ditos regionais, como o tão desconhecido do grande público, quanto notável em suas aptidões de poeta, o baiano, de Feira de Santana, Eurico Alves Boaventura, que, neste ano, completa seu primeiro centenário, e de quem recolho um dos melhores exemplos de uma poesia no mais autêntico e perfeito sentido do termo Regionalismo:




Há uma douçura nos longes de um azul discreto.

A manhã desce pela serra,uma doce, suave manhã adolescente.
Há um gosto de mulher nua pelo ar úmido de luz.
E as longas estradas esquecem-se de si mesmas,
numa indolência vaga, indefinida.

Mugidos de reses nos currais perto da vida adormecida.

Os meus pulmões cansados de civilização,
agora gritam como cabritos ágeis e vadios,
bebendo o ar puro da manhã de sol,
quando vêm este perfume de rosa-amélia dos quintais abertos.
Nem anúncios de jornais, nem estrídulos de carros,
nem o drama angustioso de mocinhas para o trabalho,
nem o tédio bom das boemias doiradas, nem o rumor, da vida encantadora da cidade, nada, nada...
A vila é um compêndio natural de moral e probidade
Que vive da ignorância de viver, que é a felicidade afinal.
Manhã pura.
Salpicada de orvalho, atarantada, suja,
passa na douce manhã vilarenga, numa auréola de mosquitos,
a doidinha trazendo no chapéu braçadas de malua veludosa, para lavar a louça das casas abastadas da vila.

Olho as estradas.


Penso nas lindas mulheres que adormecem ainda,
lá pelas cidades grandes, depois das reuniões veladas.
Um juiz, para a vila pacata, não devenunca ter pensamentos assim. Comprometê-los-ão tais pensamentos.


* * *
Os caminhos perdem-se na boca escancarada do céu,
deitado sobre o horizonte lá longe...
E, na manhã doce como amora madura,
a pequena vilazinha, sem ninguém, descuidada, ressoa.




I



Meu primeiro contato com a poesia de Eurico Alves Boaventura não aconteceu de uma forma, diga-se, comum... diria melhor, deu-se de uma maneira inusitada, repleta de grande perplexidade, como, comumente, se dão as grandes descobertas.

A pouco mais de 30 km de distância de Feira de Santana, para quem segue rumo ao norte da Bahia, pela rodovia BR 324, encontra-se, aos pés de um intrépido quão majestoso inselberg, tão grande e magnífico quanto a Serra de São José da Itapororocas que enchia de esplendor e susto o jovem Eurico, a sobrepor-se sobre aquele pedaço de agreste nordestino, encontra-se o município de Tanquinho, onde morei por quase dez anos e, por lá, vivi alguns dos melhores e mais instrutivos anos de minha infância e pré-adolescência, num ambiente muito semelhante no qual nascera o poeta feirense. Lá, numa praça imediata aos portões da cidade e um pouco atípica para os “padrões interioranos", que o tempo e descaso, até então, não consumiram de toda, se é possível ler, em letras garrafais, as seguintes palavras:



VÊ-SE QUE, EM TODA PARTE,
POR ONDE SE OUVIU UM ABOIO VESPERTINO,
PARA O REPASTO RUDE DE UMA TROPA,
QUE SE ACENDEU A TREMPE,
CAIU A SEMENTE DE UMA CIDADE
OU VILA SERTANEJA.




e, onde, um pouco abaixo, também, se lê:



Eurico Alves Boaventura


Li, àquele tempo, estas palavras, pouco delas entendi, e nada, absolutamente nada, sabia de seu autor, além do nome que, à parede da praça, ali, se escrevia. Em minha mente e coração de criança, porém, uma forte curiosidade se me fazia inquieta: como, mesmo sem entender direito uma frase ou seu propósito, poderia saber existir, dentro dela, tanta beleza e intento? É-me, praticamente, impossível descrever este estranhamento, mesmo se passado tanto tempo; primeiro, pela minha ignorância de menino; em segundo, pelo encanto que, delas, emanavam. Por menos que eu fizesse idéia do significado de algumas de suas palavras, e menos ainda de seu propósito, era óbvio que o seu autor falava de coisas de meu convívio, pois, àquela época, eu podia precisar de um dicionário (o “Pai dos Sábios”) para descobrir o que queriam dizer trempe e repasto, mas vila e sertaneja eu sabia, e as vivia muito bem; o que eu não poderia saber era como dizeres, aparentemente, tão simples e, até então, despropositados, traziam-me uma inquietude comum apenas àqueles que se põem diante do Mistério e da Graça; e, por mais inútil que me fosse abordar as mais velhas e distintas pessoas daquele lugar, na busca de uma explicação para aquelas palavras ou, pelo menos, o porquê de elas, ali, se encontrarem, sabia que nelas se encerravam coisas importantes, história e estórias diversas, muitos e muitos sentidos...

(Nunca mais li esta frase e nem sei se, realmente, a transcrevi na íntegra, pois há anos não vou àquela cidadezinha e, como tantas coisas que por lá vi, vivi e deixei, ela mora, quase que de favor, em minha modesta e já cansada memória.)

Anos mais tarde, solitário sobre uma das mesas da Universidade onde estudei e me formei, eis um pequeno livro cinza, de capa simplória e mal diagramada, onde lera: POESIA e, um pouco acima, em diminutos caracteres azuis, eurico alves, impresso pela Fundação das Artes e Empresa Gráfica da Bahia e trazia a organização dos textos, a pesquisa, a seleção dos poemas e as notas por Maria Eugênia Boaventura, que, mais tarde viria a saber, era uma das filhas do poeta, a qual, através de um árduo e admirável trabalho de pesquisa, “garimpara” grande quantidade de periódicos, manuscritos e correspondências, num “processo bastante pessoal”, como ela mesma afirma na nota à edição, organizou esta obra, levando sempre em conta o planejamento do próprio pai, que, por uma esquisitice ou outra, nunca publicou, em vida, um único livro de poemas, o que não impediu que tamanha tarefa não tivesse suas compensações, pois, particularmente, não conheço outro trabalho sobre Eurico Alves Boaventura que apresente melhor seleção, nem maior representatividade para seus poemas; e é exatamente ele, e só ele, que me guiam à composição destas páginas... Ah, Santo. Agostinho, o livro estava lá; tomei-o e li.


Epifanias à parte, não precisei mais do que uma leitura de seus poemas para saber que, naquele livrinho, encontravam-se os versos de um dos melhores poetas dos tantos que li e uma das minhas mais inventivas influências. Foi de imediato que reconheci e admirei a beleza de vocábulos simples e de locuções que me eram tão costumeiras e de rever, numa tão agradável poesia, uma infância, uma vivência e uma realidade que eu, também, experimentara, embora, o poeta tenha morrido quatro anos antes de eu nascer, e, quase um século, separasse o nosso tempo de travessuras; uma realidade composta de uma cidade grande, tumultuada e espantosa que, a não podendo entender ou suportar, abandona-a para mergulhar num mundo interiorano, sentimental, melancólico, repleto de estórias, tradições, lendas, vaqueiros devidamente ornados, pequenas praças, caatingas, velhos e novos solares ora pomposos ou abandonados, mas que traziam uma certa nostalgia aristocrática, bons e antigos hábitos, tranqüilas capelas, igrejas suntuosa, fé verdadeira e inominável, pessoas alegres ou envoltas em sua solidão e saudades, um perturbado desejo de desvendar o desconhecido... Assim, li, e me revi, na poesia deste feirense: duas vidas, outro tempo, e, de certa forma, o mesmo mundo.






II




A poesia de Eurico Alves Boaventura é um rico registro de um passado que teima existir, seja na memória de quem o viveu, ou em distantes localidades do interior nordestino; ela nos serve de amostra para a sua maneira irreverente e espontânea de ver, captar e criar, sem medo ou disfarces, um eu que “parecia sofrer sorrindo”, como no dizer de seu amigo, e parceiro, Carlos Chiacchio, e, bem longe da poesie purê de um Mallarmé, e de outros tantos despojos vanguardistas, sua produção impressiona por construir uma poesia onde as palavras se desprendem, muitas vezes, do raciocínio e a música das sílabas não ecoa mais que seus significados habituais. São versos que se compõem ao léu da inspiração e a favor das idiossincrasias, do regionalismo e da tradição ibérica. Isso, aliás, leva-me a comentar uma característica controversa de Eurico Alves que é a sua facilidade em assimilar influências, o que, em seu caso, vão da confessável leitura de Émile Verhaeren à perceptível influência de Walt Whitman, da admiração por Manuel Bandeira à correspondência com Jorge de Lima. Tal particularidade, comum a todo iniciante e, de certa forma, útil a um poeta de grande porte, como é o caso de Eurico, constitui-se, infelizmente, em seus Poemas Metálicos, como um grande defeito.

Os poemas que compõem esta primeira fase de sua obra poética nada mais são que exemplos bem elaborados de um artista à procura de caminhos próprios, exercícios verborrágicos de uma obra tão jovem e incerta quanto o seu autor, àquela época, e, por isso mesmo, não passam de tropeços comuns na longa caminhada rumo ao amadurecimento que não se lhe tardaria chegar, mas não seria nos anos de 1926 e 1932.

À medida que se volta a quantas direções lhe é possível, Eurico Alves pouco se afastará das fronteiras do simplesmente imitável. Acometido pelos modismos de sua época e das influências mais comuns e imediatas, não iria muito além do “lugar-comum” e do “meramente esperado”, e, embora não fosse um defeito único do poeta Eurico Alves, em muitíssimo pouco foi além do que outros, acometidos pelos mesmos “erros de tendência”, como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, cometeram. Não fosse o grande aparato verbal, aliado a uma perspicácia elegante e expressiva, que, em muito, servem para minimizar os excessos descritivos e gongóricos que, muitas vezes, verdade seja dita, são conseqüências da busca por uma linguagem moderna a qual, o bardo feirense, como a grande maioria de seus contemporâneos, entrega-se apaixonadamente, seus primeiros poemas não passariam de meros exercícios inglórios do mais puro artificialismo.

Mas, é exatamente nesta paixão, nesta entrega sem recato, nesta peculiar romantização de temas do Modernismo, algo imperdoável para muitos leitores, críticos e colegas de ofício coetâneos seus, que advém o que de melhor existe nestes poemas de iniciante, onde a chama de um talento indomável começa a fazer-se viva. Isso, aliás, não demoraria muito, pois, já em seus Poemas, produzido entre os anos de 1928 a 1937, sua obra tomaria a proporção, e a qualidade, dignas de um talento, antes provável, agora, inquestionável. Ao escrever:


(...) molas azeitadas,
rodas ruidozamente perfurando o solo,
rodando movendo compaçadamente.



Vai pelo campo a fora
abrindo pautas intermináveis
para o poema da fartura que a chuva escreverá.


Nestes versos, por exemplo – o grifo é meu –, Eurico Alves vai muito além da criação de uma série de jogos verbais, ou de uma contínua sucessão de imagens ao gosto da época, que se apagarão quando o poema, no silêncio, precipitar-se. Através de versos como estes, o “poeta baiano” relembra-nos que, de todas as artes, como bem acentuou César Leal, em Os cavaleiros de Júpiter, ao referir-se à lírica de Carlos Pena Filho, a Poesia “é a que mais profundamente deixa raízes na alma”; que serão mais profundas se o poeta erige essas raízes com o adubo da tradição.

É uma pena que, no primeiro ato de sua obra poética, momentos como os transcritos acima não sejam constantes. Todavia, no capítulo que se segue, acontece exatamente o contrário, como, por exemplo, quando escreve, já em 1934, genialidades deste tipo:


Alteia teu braço, serenamente,
orgulhosamente
e deixa que o sol coroe de música a tua taça.

Bebe alegre, depois, o licor do teu sofrimento...

Mas, faze como todas as cigarras:
duvida da tortura e do padecimento,
pensa que não tens sangue e nem és feito de carne,
e canta como o sol os teus versos de ouro e luz.

Sob a alegria divina dos teus risos doirados,
que sob esta música, a dor se diviniza...


A poesia de Eurico Alves Boaventura tornar-se-á grande, exatamente, com a eliminação de uma linguagem poética de caráter modernista ou, pelo menos, àquela que se remete aos maneirismos do Modernismo paulista de 1922; e, quando esta retorna a uma simplicidade e a um coloquialismo que alude diretamente às reminiscências de seu autor, todas ligadas ao cotidiano ensimesmado das pessoas da roça, prova na prática, a afirmação de T.S. Eliot de que, a criação artística, é sempre um complexo retorno às velhas formas, influenciada por novos estímulos originados de fora do campo das artes”. Isto se dá porque, num sentido mais amplo, e, ao mesmo tempo primevo, a arte nunca deixou de “ser um serviço”; assim sendo, não constitui um elemento isolado e que a si mesmo alimenta; ela se liga à vida de seu autor e ao mundo que o rodeia, e, por que não, que, também, existe dentro dele; e, como já disse, Eurico, em sua poesia, é prova disto, pois, seguindo este raciocínio, veste de uma autenticidade que dificilmente encontra similaridade (os melhores exemplos de uma autenticidade assim, que eu me lembre, estão em Ariano Suassuna, em seu monumental Romance d’A Pedra do Reino, na poesia de Ascenso Ferreira, que desfrutava, entre tantas coisas, da admiração do poeta feirense, ou, ainda, em Marcos Pérsico e seu Era uma vez no Sertão, para termos um exemplo mais local e contemporâneo), revelando elementos estruturais que desencadeiam uma vigorosa consciência artística e uma verdadeira identificação com o mundo e a vida sertaneja, sem afogar-se no naturalismo insípido, ou num regionalismo panfletário, nem recorre a um romantismo nostálgico que, na contramão do Modernismo, levaria sua obra a um pieguismo insuportável.

O que se verá, então, principalmente a partir dos anos 30, em poemas como A canção da cidade amanhecente, Canção para a capela de Nossa Senhora dos Remédios, Cantiga simples, Elegia do solar abandonado, Poema leve da rua Barão de Cotegipe, é a captação da essência espiritual de um povo simples – mais do que isso... de uma cidade inteira que, mesmo impregnada por tantos sonhos de grandeza, teimara (e, até hoje, teima), por atavismo, a agarrar-se a uma tradição interiorana sem nenhuma angústia ou culpa profunda. Revelar a essência misteriosa das coisas e não imitá-las simplesmente é, segundo Aristóteles, a grande função da arte; Eurico, a partir dos poemas acima citados, como ninguém, aprendeu tal lição, pois conviveu tanto com um Sertão de vaqueiros quanto de caminhões e buscou, tanto na vida cotidiana, como através de seu eu-lírico, preservar este mundo de aboios, roupas de couro e tropas de gados.

No dizer de Agripino Grieco, Eurico Alves seria uma espécie de “filigranista lírico”, um sentimental à antiga... E é exatamente quando a docilidade e o lirismo profundo se lhe apoderam que a sua poesia ganha a mais bela e abrangente dimensão – convenhamos que a metáfora do “filigranista”, principalmente quando associada à idéia de “lírico à moda antiga”, é simplista, de muito mau gosto e de pouca inteligência, entretanto, Agripino acerta ao afirmar que os mais belos poemas de Eurico Alves são exatamente aqueles em que põe, no papel, “com toda docilidade, aquilo que o coração lhe vai ditando” – . Nosso poeta centenário é um grande conhecedor do mundo onde nasceu e cresceu, presenteando-o com tantas lembranças e inspirações, quanto a uma poética que se remete da mais meiga e sutil lembrança de menino a mais pura tradição ibérica, que encontram, em Cantigas de bem dizer e Baladas antigas, sua melhor expressão. Eurico conhecia bem a poesia popular medieval, a longa marcha que essa percorreu até chegar às terras tupiniquins, e sua contribuição para a poesia popular brasileira, que ele conhecera tão bem, já convertida à alma brasileira, nas feiras do interior, través dos romances de cordel e dos desafios entre violeiros; também as sentia como poucos. Mas era um apaixonado pela lírica moderna e sua ousadia. O resultado para um caso de amor tão peculiar, que envolvia duas paixões tão fortes e tão aparentemente insanas, é uma fusão que se faria imprescindível para a boa qualidade de sua obra.

Não se resguardando da atitude de um poeta maior, Eurico Alves Boaventura, à maneira de um Manuel Bandeira – sua melhor referência e grandessíssima admiração –, pensou, elaborou e produziu uma poesia, como poucas, singular e, em diversos momentos, grandiosa – o mínimo que se espera de quem se almeja como tal – onde se mostrou capaz de abranger, com maestria e perspicácia, as mais diversas direções históricas e estilísticas, de refletir, constantemente, algo de transcendental em relação ao mundo onde se encontra e de onde surgiu, de poder falar de coisas simples, ou complexas, sem mascarar-lhes a essência, nem desnudar-lhe os artifícios, de se rebelar contra padrões e instrumentos de estilos tomados pelo desgaste, mas de sua poesia não ter, em si mesma, um fim, ou nenhum outro propósito que não ela mesma, de sua obra não pertencer a uma determinada época, mas sim a todas, como bem resumiu Ben Jonson, ao referir-se ao legado literário de seu amigo William Shakespeare. É o próprio Eurico Alves, aliás, que nos dá uma boa síntese deste enlace literário ao afirmar que não existem passados maiores nem melhores do que outros, pois todos são brilhantes a partir do momento em que “construíram seu tempo, projetaram um presente e deixaram margem para o futuro”.

Todavia, nem o próprio Eurico poderia negar que nada o aproximou mais de um poeta maior do que a negação dos vanguardismos de sua época que ele, de livre e espontânea vontade, fizera – por mais que tenha tido um flerte temático e estilístico com o progresso urbano deslumbrantemente futurista – tornando-se um rebelde às avessas, cobrindo-se do véu da tradição e do regionalismo idiossincrático, o qual se somou a novos elementos, tanto no estilo de época quanto aos trazidos, ou surgidos, de sua personalidade, e, crendo quase que exclusivamente no poder das palavras e de suas expressões, elaborou uma poesia tão sensorial, e, em sua maioria, sinestésica, quanto espiritual, tanto objetiva quanto subjetiva, tão hodierna quão tradicional, simples em sua apresentação e complexas e reflexiva com relação ao seu conteúdo. Não é à toa que, por mais que não tenha publicado, em vida, um único livro de poesias, nem freqüentado tantos periódicos quanto queria ou podia, tenha uma obra bem mais agradável, profunda e sensível se comparada à produção de seus outros colegas, membros e colaboradores da revista Arco & Flexa.

Por mais que tal atitude não seja bem vista pela grande maioria de nossos críticos, quase todos amantes dos movimentos de vanguarda, e que, de certa forma, o prosaísmo de seus versos espante um bom número de leitores desavisados e mal costumados, por conseqüência, principalmente, da falta de intimidade com certas “expressões locais”, a grandeza da poesia de Eurico Alves Boaventura só acontece com esta mudança de direção, com o abandono da linguagem verhaereniana para uma poética onde imperam o regionalismo e a tradição, porque toda vanguarda, como nos adverte César Leal, novamente, em Os cavaleiros de Júpiter, só pode se dar como uma ação, realmente, espiritual no campo da poesia, como de quaisquer formas de arte, após sofrer os efeitos do tempo, depois de se apagarem todos os encantos mais imediatos, passados os choques teóricos e polemistas, quando longe estiverem todas as hordas de “revolucionários” movidos pela “frustração” e pelo “ressentimento” e, principalmente, quando os carentes de atenção e desprovidos de talento forem postos de lado ou mergulharem no esquecimento que lhes é merecido, teremos aquilo que é realmente verdadeiro e digno de expressão e confiança, cabendo, então, ao poeta, abraçar o que deste modismo lhe é útil ou optar por ficar com as velhas e seguras doutrinas. No caso de Eurico Alves Boaventura, ao abandonar artesanatos como:

Ralam o ar, rodopiando em roucos ronrons rudos,
as ruivas, rúbidas rodas raivosas, rápidas, ao fogaréu ...

Negras fauces monstros de fornalhas, abocanhando as sombras,
num doido torvelinho desordenadamente bruto,
de permeio às turbinas, aos êmbolos, às válvulas e a loucura
de mil garras de fogo — as alavancas víboras —
no vai-e-vem, vem-e-volta,
subindo, descendo, afogando-se na fofa negrura do óleo chiando ...

Tatala, lá fora, ao dorso polido das chaminés,
a crespa asa rascante e do grande morcego chagado
a noite.

Correm escuros arrepios no alto céu de ferrugem,
mordendo a usina ...

Mas, a um canto, possante, brutal, estouvadamente,
entre o delírio de carótidas veias e artérias de aço,
bates, rebates, fremes, latejas, precípite,
em cólera chispando,
rudo, rouco, raivoso, rasgando a noite,
— dínamo da fábrica — meu desvairado coração pulsando!


para a elaboração de grandes esculturas como esta:


Estou tão longe da terra e tão perto do céu,
quando venho de subir esta serra tão alta ...


Serra de São José das ltapororocas, afogada no céu, quando a noite se despe
e crucificado no sol se o dia gargalha.
Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens tecem céus de corolas para o meu acalanto.
Perdi completamente a melancolia da cidade e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem.

Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra,
e é como se arranhassem um seio verde, moreno.

Manuel Bandeira, a súbida da serra é um plágio da vida.


Poeta, me dê esta mão tão magra acostumada a bater nas teclas
da desumanizada máquina fria e venha ver a vida da paisagem
onde o sol faz cócegas nos pulmões que passam
e enche a alma de gritos da madrugada.

Não desprezo os montes escalvados
tal o meu romântico homônimo de Guerra Junqueiro
Bebo leite aromático do candeial em flor
e sorvo a volúpia da manhã na cavalgada.
Visto os couros do vaqueiroe na corrida do cavalo sinto o chão pequeno para a galopada.
Aqui come-se carne cheia de sangue, cheirando a sol.

Que poeta nada! Sou vaqueiro.


Manuel Bandeira, todo tabaréu traz a manhã nascendo nos olhos
e sabe de um grito atemorizar o sol.


Feira de Santana! Alegria!


Alegria nas estradas,
que são convites para a vida na vaquejada,
alegria nos currais de cheiro sadio, alegria masculina das vaquejadas,
que levam para a vida e arrastam também para a morte!
Alegria de ser bruto e ter terra nas mãos selvagens!

Que lindo poema cor de mel esta alvorada!

A manhã veio deitar-se sobre o sempre verde.

Manuel Bandeira, dê um pulo a Feira de Santana e venha comer pirão de leite com carne assada de volta do curral

Venha sentir o perfume de eternidade que há nestas casas de fazenda,

nestes solares que os séculos escondem nos cabelos desnastrados das noites eternas venha ver como o céu aqui é céu de verdade
e o tabaréu como até se parece com Nosso Senhor.


percebemos o quão é categórica a afirmação de que não se pode ser autor de uma poesia, que se diga inovadora, sem Homero ou Virgílio, sem Dante ou Camões, sem Shakespeare ou Bocage, sem Wordsworth ou Castro Alves, ou, até mesmo, sem Baudelaire ou Manuel Bandeira. Sendo assim, o Jorge Matheus de Lima, só por motivo de exemplo, de Poemas Negros, descobriu o Jorge de Lima de A túnica inconsútil, e o Eurico Alves Boaventura – que admirava a poesia do bardo alagoano, mesmo sem ser, como ele, um dominador, por inteiro, de todos os mecanismos de expressão poética (pois Jorge de Lima é, também, um exemplo de poeta maior) –, descobriu o Eurico Alves de Poemas sentimentais, após abandonar o Eurico do já citado Poemas metálicos. Do contrário, tanto um, como o outro, não passariam do vanguardismo panfletário e magoado, e acabariam por se condenarem a um degredo intelectual típico de quem não foi além daquilo que lhe fora incumbido fazer, mas, novamente citando César Leal, em seu imarcescível Os cavaleiros de Júpiter, “resta-nos saber que, historicamente, só os verdadeiros poetas fracassam nos movimentos de vanguarda, ao criar aquilo que não haviam intentado” e é daí que nos surge, em sua totalidade, a grande poesia de Manuel Bandeira, de Jorge de Lima e, claro, de Eurico Alves.






III




É uma pena que a grande maioria de nossos críticos, ainda, veja autores como Eurico Alves Boaventura, Jorge de Lima, Murilo Mendes e até mesmo Mário Quintana, Dante Milano e Bruno Tolentino, por exemplo, como produtores de uma visão “arcaizante”, “alienada” e “pequena burguesa”, frutos de uma “consciência transferida” e de uma poética que só será vista, por tal crítica, como simplista e meramente acadêmica, pois, como já nos ensinara Esopo há tantos e tantos séculos, é costume do tolo, que almeja aquilo que se sabe incapaz de conseguir, desdenhar do que tanto deseja. Este tipo de reducionismo não atinge, nem jamais atingirá a qualidade de tais escritores, embora, muitos, acabem por amargar, como é o caso do Eurico Alves, um longo período de ostracismo injusto por conseqüência da burrice, do despreparo, do descaso e da cegueira ideológica de muitos cujo ofício, a reputação e a boa colocação não deveriam permitir o uso tão bem colocado de tais adjetivos; mas nada que o grande talento inerente a tais artistas não supere com o tempo que é o melhor dos críticos, porque só ele, como disse Santo Agostinho, é capaz de dar paz a toda dor.

Infelizmente, a grande maioria de nossos críticos é parva, preguiçosa e aproveitadora e, sendo ela, quase toda marxista, tais adjetivos só não lhe cabe muito bem, como podem ter o seu valor e significado quadruplicados. Porém, como certa feita afirmou Bruno Tolentino, “guardamos nossas, jóias e nossas cartas de amor com o mesmo deslumbramento, mas em estojos separados; e quando os vamos abrir, no primeiro deles achamos exatamente o mesmo valor, o mesmo brilho, realçado pela pátina do tempo; no outro, encontramos a tinta esmaecida, o papel amarelado, em suma, a palidez desbotada daquilo que tanto amávamos, que um dia nos resumiu e que, de repente, se tornou quase irreconhecível, quase ilegível, doce apenas como a vaga lembrança da emoção de um tempo que se foi como um assovio na noite”...

Os grande poemas são como estas jóias, que com maior ou menor tamanho e valor, intentam-se contra a mão do tempo; e eu gosto de pensar que, entre tantas jóias, há o pequenino diamante da poesia de Eurico Alves Boaventura fulgurando sobre o chão das falsas críticas, as cinzas das vanguardas e o pó do marxismo.


Enfim, se existe algo de grande e sincera importância a dizer sobre Eurico Alves Boaventura, algo que possa ir muito além de qualquer crítica que se possa fazer com respeito a sua obra, é a obvia certeza de ele ser o maior poeta da história de Feira de Santana, um dos melhores poetas da história literária da Bahia e um grande poeta brasileiro, mesmo sem o eruditismo e o Formalismo de um Godofredo Filho (só para ter, novamente, um exemplo local), sem aprofunda herança de tradição clássica de um Jorge de Lima, e, independentemente, de a sua poesia não contar, até hoje, com uma edição e uma crítica que façam justiça à grandeza que lhe é inata, certamente sua obra reza entre as mais bem realizadas de toda a nossa Literatura... Poesia essa tão imensa e verdadeira que é capaz de, passados tantos anos, tantas leituras (dela e de outras tantas de quantos poetas pude ler e compreender), trazer-me, ainda, o mesmo espanto, mistério e beleza daquelas palavras que, quando eu menino, me encantaram tanto.









Feira de Santana, de 04 a 27 de junho de 2009.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

TRÊS QUADRINHAS POPULARES AO GOSTO DA FORMA CLÁSSICA E DA PIEGUICE ULTRA-ROMÂNTICA PARA LUCIFRANCE CASTRO...


Saudade (1899) de José Ferráz Almeida Júnior

I

Tens amor nesses cachos d’anjo
e nesses olhos de incerteza...
( Mas se pena não tens de mim,
por que me ofertas tal tristeza? )


II

Mesmo morto hei-de estar ao lado teu,
e sem sequer saber, sentir ou ser,
teus olhos tristes, calmos, hão-de ver,
em noite escura, os muitos olhos meus.


III

Hei de sentir teu rosto sobre a pele fria;
então, quando apagar-se o lume desse dia,
quando teu rosto meigo perder a alegria,
verei um bem na morte e na sua agonia.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BANDO ANUNCIADOR DE FEIRA DE SANTANA...


A cantora Céliah Zaiin durante o Bando Anunciador de 2008



Promovendo um dos resgates mais importantes para a cultura popular de Feira de Santana, e d'uma das festas mais bonitas de nossa cidade (que há muito se fez esquecida), é que o Projeto Bando Anunciador da Festa de Santana entra em seu terceiro ano de edição, saindo, às ruas, neste domingo, dia 12, às 7:00 h, antecedendo o Novenário da Padroeira da cidade.

A festa conta sempre com a participação de fanfarras e grupos de mascarados que dão um colorido especial e nostálgico a todo o evento.

A diretora do CUCA ( Centro Universitário de Cultura e Arte), Selma Oliveira, explica que a idéia é reviver o evento com as suas características originais, como aconteceu no ano passado. Selma salienta que, em 2007, no primeiro ano do projeto, a participação popular superou todas expectativas, segundo ela, "O público prestigiou o evento de maneira espontânea”, como devem ser, aliás, todas as manifestações deste tipo.

O projeto será aberto nesta sexta-feira, dia 10, às 19 h, com uma mesa redonda onde personalidades do município falarão sobre o tema O Bando Anunciador: Memória Recente. Durante o evento haverá lançamento em DVD do documentário A volta do Bando Anunciador, do jornalista Marcondes Araújo. O trabalho aborda a primeira edição do Bando Anunciador, resgatado pela em 2007, com imagens do desfile e entrevistas.
É previsto, ainda, a exposição O Bando Anunciador: registro iconográfico 2008, com fotografias de George Lima, Beto Souza, Juraci Dórea e Tomaz Coelho.

Não percam...!!!

Feira de Santana, 09 de julho de 2009.


sábado, 27 de junho de 2009

UMA HOMENAGEM A BRUNO TOLENTINO...


O poeta Bruno Tolentino (1940-2007)
A BALADA DA MEDUSA
de um Trompe L’œil à Tolentino
sob a forma de um possível soneto inglês




ao Jessé de Almeida Primo.


Nosso amor, como tudo neste mundo,
é um risco, um faz-de-conta... uma impressão
sem sentido, uma tola profusão
do imperfeito e do imprevisto, do fundo
escuro e sem sentido do desejo.
Nossa dor como tudo nesta vida
é um desespero – pedra confundida
com a ânsia alucinada do teu beijo – ,
uma alucinação – olhar desfeito
ante à sombra, à luz, à escuridão –
e tantos mais contrários desta união
do feito, do perfeito e do refeito:
e, assim, se somam tudo quanto é triste
sem saber qual de nós menos existe.

Improvisado após a leitura de A Balada do Cárcere de Bruno Tolentino.Feira de Santana, 12 de julho de 2004.

OUTRA TRADUÇÃO DE SHAKESPEARE...


Geni de Gabriel Ferreira (acrílico sobre tela - 70x70 - 2007), coleção particular.
Teu verão eterno...

Devo igualar-te aos termos do verão,
lindos e afáveis como teu semblante?
O vento, que desfaz cada Estação,
igual a tudo, dura um breve instante.
Tudo que é Belo, à luz do olhar, fascina,
porém, se o que era luz perde a clareza,
de seu belo, a Beleza, enfim, declina
por si ou pela ação da Natureza.
Só teu verão eterno então perdura,
com seu mais terno e mais profundo intento;
a impor-te a sombra, a Morte só murmura,
porque esta estrofe a de se opor ao Tempo,

e, enquanto houver viventes nesta Lida,
há de existir meu verso a dar-te vida.




A FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO, COVIDA...



Segunda-feira, 29/06, o escritor italiano Giovanni Ricciardi lançará o volume 6 da coleção Biografia e Criação Literária, a partir das 18h, na Fundação Casa de Jorge Amado, Pelourinho.



Compareçam!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

UMA FONTE À CRUZ E SOUZA...


O poeta Cruz e Sousa (1861-1898)

UMA FONTE À CRUZ E SOUZA



No lago, as águas cristalinas dormem
a espelhar todo um céu emoldurado;
é o próprio céu na terra embalsamado
numa aparente quão sutil desordem.

No ocaso, a luz do sol, na lagoa, escorre;
e Eu sempre vejo as sombras afrontando
essa Paz que me faz viver sonhando,
mesmo que o sol mais abrasado jorre.

É verde a margem, deleitável e erma,
qual minha alma extasiada e enferma
a roçar sobre o espelho destas águas.

É uma mulher de enrubescidas faces,
que, sussurrando, é como se lavasse
as minhas tristes e profundas mágoas.




terça-feira, 16 de junho de 2009

UMA TRADUÇÃO DE SHAKESPEARE


As três idades do homem e a morte de Hans Baudung

AS IDADES DO HOMEM

à Fernanda Oliveira





Quando a hora move míseros instantes,
em noite horrenda se desfaz o dia,
na angústia, se converte meu semblante,
à foice, a rosa entrega sua alegria;
já sem folhas eu vejo o torso altíssimo,
que outrora era conforto ao manso gado,
e ir-se, em funéreo passo – e em pêlo alvíssimo –,
o que era verde estio, então, ceifado;
ponho-me a perguntar por tua beleza,
consumindo-se toda em vil renova,
como há de ser a toda Natureza,
e a todo ser vivente... dura prova;

fora a prole, a assistir teu passamento,
nada te salvará da mão do Tempo.







segunda-feira, 15 de junho de 2009

DVD: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON








Com o lançamento, nesta semana, em DVD, do filme, O curioso caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button) do aclamado diretor David Fincher, com Brad Pitt, Cate Blanchett, Kimberly Scott, Jason Flemyng, Taraji Henson, Elle Fanning, Mahershalalhashbaz Ali e Emma Degerstedt, produzido numa parceria dos estúdios Warner e Paramount, com a consagrada direção de David Fincher, faz-se necessário “redizer” muitas das coisas que já tive o prazer de falar aqui mesmo quando o assisti no cinema: O curioso caso de Benjamin Button é um daqueles filmes onde uma velha máxima se faz surpreendentemente verdadeira: "O Cinema é mágico". Não importa se nascemos jovens e morramos velhos, ou se fosse ao contrário, como é a existência singular do personagem que nomeia este conto de Scott Fitzgerald, de onde o filme é baseado; não podemos nos furtar daquilo que a vida nos oferece, nem daquilo que ela é. Molharemos as calças, sentiremos medo, ficaremos curiosos, teremos prazer, dor, dúvida, e, no fim, esquecidos ou não, teremos que aceitar, de uma forma ou de outra. Não podemos nos furtar ao tempo e de como, nele, a vida se conduz única para qualquer um de nós. Isto que estou a dizer até poderia soar tenebroso, mas em nenhum momento do filme isto é mostrado desta maneira – e eu duvido que alguém tenha se sentido assim, mesmo naquela que, para mim, é uma das mais "barrocas" cenas já construídas pelo cinema, que é a da morte de Benjamin (ops!, contei o que não devia), nos braços de sua amada Queenie, ele, inconsciente, por sua condição, finalmente, de recém-nascido ao inverso, e, ela, envelhecida, no mais profundo sentido da palavra; desta forma, onde, à primeira vista, deveria haver uma cena de amor trivial entre avó e neto, revela-se uma das mais angustiantes representações da morte que o cinema poderia proporcionar. Além do mais, não tive, como em todo bom filme, que ficar indiferente a tudo que me era ali mostrado, principalmente na história de um homem que rejuvenesce em um século que também parece ficar mais jovem – um século que começou com a primeira guerra mundial (uma tragédia proporcionada pelo homem) e parece terminar com uma tragédia natural que o homem fez questão de tornar mais horrenda – à medida que se aproxima de seu término; como me foi impossível ficar indiferente à minha própria vida, a qual eu mesmo fui levado a rever, ao assistir este filme. O Curioso caso de Benjamin Button me deu algumas das 3h15 mais prazerosas de minha vida.

UMA INDICAÇÃO TÃO TARDIA, QUANTO MERECIDA E NECESSÁRIA...


O poeta Antônio Brasileiro (1944 - )


Ciclistas, óleo de Antônio Brasileiro Borges



O poeta Antônio Brasileiro Borges foi eleito, na última segunda-feira, por unanimidade, para ocupar a cadeira de nº 21, que pertenceu a Jorge Amado e, por conseqüência de pensão-alimentícia, à Zélia Gattai, na Academia de Letras da Bahia (ALB), tornando-se o primeiro imortal, desta Instituição, não nascido nem radicado em Salvador. Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, e professor de Teoria da Literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, o grande fundador, e, certamente, o melhor representante do grupo Hera, que tem mais de 25 títulos publicados entre poesias, ensaios, romances e contos, mas nunca fora agraciado com uma publicação por uma grande editora – uma injustiça que, eu espero, solucione-se em breve –, entre os quais A estética da sinceridade & outros ensaios (Imprensa Universitária da UEFS, 2000), Antologia Poética (Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 1996) e Dedal de areia, que venceu a edição de 2004 do Prêmio Durval de Morais, da ALB, é, sem dúvidas, uma escolha acertada em todos os pontos pelos membros da ABL e que lhe dá diversidade e qualidade... A indicação de Antônio Brasileiro para tal instituição pode até ser tardia, mas merecidamente necessária.

Eis um dos melhores exemplos da poesia de Antônio Brasileiro:




QUE DEUS GUARDE MEU PAI...



Não passar. Ficar para semente.

Não era isto que meu pai queria?
Sentava-se na rede e adormecia
julgando ter domado a dama ausente.

E sonhava talvez. Talvez menino
montando burros bravos, nu, ao vento;
um homem é a sua ação sobre o destino.

Meu pai então fazia um movimento
e a rede, a adormecer, estremecia:
pequenos sustos no tempo, era só isto.

E escancarava os olhos duramente
para mostrar que se Ela o procurava
era de cara a cara que a encarava.

Que Deus guarde meu pai. Eternamente.



Poema extraído de Poemas Reunidos, de Antonio Brasileiro, poeta brasileiro radicado em Feira de Santana. O livro foi editado pelo Selo Letras da Bahia, em 2005.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

IMPERDÍVEL... NOVA EXPOSIÇÃO DE GABRIEL FERREIRA NO MAC (MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE FEIRA DE SANTANA) DE 05 DE MAIO A 07 DE JUNHO DE 2009






EXPOSIÇÃO DESENHO DE POESIA 2009

Gabriel Ferreira é natural de Tanquinho-BA, artista plástico e desenhista, músico percussionista, professor do IMAQ (Ponto de Cultura) e graduado em economia/UEFS.

Exposições desde 1994 no Tríduo Cultural de Tanquinho; exposições individuais no Museu de Arte Contemporânea-MAC, Pouso da Palavra em Cachoeira, CUCA e UEFS; exposições coletivas no CUCA, Museu Regional de Artes-MRA e MAC em Feira de Santana; Salões de Artes da Funceb em Feira e Itabuna, Salão do MAN em Salvador-BA, Bienal do Recôncavo, Bienal da UNE. Conta também com premiação em Salão de Arte; publicação de ilustrações em livros, revistas e jornais. Desenvolvimento de oficinas de xilogravura e artes plásticas no Projeto Recriando e Criando Lendas e Mitos na região do sisal.



EXPOSIÇÃO DESENHO DE POESIA 2009 - NO MAC (05 DE MAIO A 07 DE JUNHO DE 2009)

A temática intitulada Desenho De Poesia faz a “ponte” pintada entre literatura e tela do artista. A poesia, a letra de música, o conto, a prosa e o palavreado desenham muita imaginação e instigam o desejo pela mistura de cores e traços, o que se configura em nova ação de interpretar a obra e recriá-la em linguagem visual.

A edição de 2009 faz um passeio pela letra da música, com uma atenção especial a um fragmento da obra do Pixinguinha: umas “pixingas” (como diria Larissa Lelis) sobre tela, umas vontades soltas.

São ilustrações figurativas, fragmentadas, esfaceladas. Tudo para parecer feito à mão e sem compromisso com as coisas tortas existentes.





sábado, 30 de maio de 2009

SERENATA...


Serenata de Di Cavalcante (1925)

SERENATA


à Lucifrance Castro, minha noiva...

Virei-me sobre minha própria existência, e contemplei-a.
CECÍLIA MEIRELES





( Quero dizer-te uma palavra simples, uma palavra viva,
uma palavra muda,
a palavra: noite... para fazer-te uma canção tão simples quanto o silêncio,
como teu nome. Quero dizer-te uma palavra calma,
a palavra: vento... e nela transportar,
de leve,
teu desejo.
Quero dizer-te uma
palavra fria; uma
palavra morta: a palavra
sono... e nela sonhar tua morte,
intacta... e adormecer de sobressalto
sobre essas distâncias –entre o que soue o que contemplo. )

terça-feira, 26 de maio de 2009

GUSTAVO FELICÍSSIMO... ou O ATIVISMO EM PRÓ DA POESIA


O poeta Gustavo Felicíssimo

Tão importante quanto o fato de defender uma idéia, e ainda mais uma filosofia, é vivê-la, é torná-la a essência de sua existência e nela construir uma vida singular, baseada naquilo que se tem como verdade ou missão, e, isso, cabe também, e talvez mais (ou mais freqüentemente) aos poetas. É o caso, por exemplo, do Gustavo Felicíssimo, atualmente um dos melhores, mais promissores e ativos poetas da atual Literatura Baiana e Brasileira (se acham que exagero, então leiam o poema abaixo e, depois, façam melhor); atividade que vai além da poesia e se estende para um trabalho de divulgação das novas gerações poéticas e que, graças a qualidade tanto de sua poesia como de seu trabalho de crítico e de divulgador, tem sido reconhecido por muitos dos melhores poetas e críticos do país, a exemplo de Pedro Sette Câmara, Cláudia Cordeiro e Luis Dolhnikoff e, logicamente, atacado e invejado por uma leva considerável de nossos medíocres alguma-coisa. Eu, particularmente, considero as micro-entrevistas da série Três perguntas para... (conferir: http://sopadepoesia.zip.net/), uma das idéias mais bem boladas da Internet e, mais particularmente ainda, um dos melhores projetos dos quais participei. O fato de se fazer presente em várias revistas e sites de poesia, como o Cronópios e, mais recentemente, Plataforma para a poesia, além de seu blog, Sopa de poesia, ser reconhecidamente premiado, pela revista Veja, como um dos melhores blogs do país, são exemplos concretos de que Gustavo Felicíssimo merece todos os elogios que, sem medo ou pudor, e, sim, com sinceridade e débito, venho prestar a ele nestas poucas e insuficientes palavras. Se, tão importante quanto o fato de defender uma idéia, e ainda mais uma filosofia, é vivê-la, é torná-la a essência de sua existência e nela construir uma vida singular, baseada naquilo que se tem como verdade ou missão, e, isso, cabe também, e talvez mais (ou mais freqüentemente) aos poetas, Gustavo Felicíssimo é um dos melhores exemplos para este exemplo.



SENDA


Gustavo Felicíssimo



Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;

sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo


a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta;


trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.


segunda-feira, 25 de maio de 2009

UMA TRADUÇÃO DE RILKE


O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926)




ABANDONADO
( ou UMA PARÁFRASE RILKEANA )



para Dayana Moura, com carinho...







Por tantas vezes, sempre fui sozinho...
Com palavras triviais e gestos loucos
arranquei deste mundo, bem aos poucos,
seu bucado mais frágil e mais mesquinho...

Como, acenando, para um aroma aponto?
Sinto, nas mãos, a essência eterna e forte
que pesa sobre mim; eu sei da Morte,
cujos preceitos mágicos afronto.

Far-me-ei, porém, em mais de mil pedaços
para que eu tenha, o Todo, enfim, nos braços;
e, com esta dura carga e o corpo nu,

plantarei, em meu peito, o que eu escrevo,
e, guiado pela mão do Mestre, devo
dizer-Lhe: “Estou aqui... sou Esaú!”

"EU SEI QUE VOU TE AMAR"... ÚLTIMA SEMANA


Paulo Akenaton, Flaviano Gallo, Karla Dias, Charles Sanctus, Silvério Duque, Lucifrance Castro, Marcos Pérsico & Nívia Maria Vasconcellos... O elenco de Eu sei que vou te amar...


O poeta Vinícius de Moraes


Vinícius de Moraes é um dos poetas mais importantes de nossa poesia, também um dos mais amados e, se não lhe bastasse, um dos mais diversos. Seu lirismo pungente, aliado a uma incansável, quanto impossível, busca pela paixão e seu verdadeiro sentido, couberam tão bem em sua poesia com em suas canções; tanto, que é difícil não lhe reconhecer a influência em vários escritores e músicos que a ele se seguiram. E é para seguir conosco nesta busca pela paixão mais perfeita que convidamos a todos para assistirem ao espetáculo poético-musical Eu sei que vou te amar... Que, devido ao grande sucesso de público e crítica, estender-se-á por mais uma semana, para o orgulho de seus integrantes e criadores, pela satisfação daqueles que assistiram ao espetáculo como àqueles que, por um motivo ou outro, não poderam vê-lo em sua semana de estréia.


Eu sei que vou te amar... é uma homenagem mais que merecida a um dos poetas mais inesquecíveis de nossa Literatura.

O espetáculo é assinado por Nívia Maria Vasconcellos e Marcos Pérsico e conta também com a direção musical de Paulo Akenaton e o cenário de Marcos Moraes. A poesia de Vinícius terá interpretação à sua altura com as declamações de Nívia Maria Vasconcellos e Lucifrance Castro; já suas músicas ficam por conta da voz estonteante de Karla Dias e pelo conjunto musical formado por Paulo Akenaton (voz, viola de 12 e violão), Charles Sanctus (piano, gaita e viola de 12), Silvério Duque, (clarinete), e Flaviano Gallo (bateria). A direção é de Marcos Pérsico.


Não percam...!

NOS DIAS 30 E 31 DE MAIO, ÀS 20H, NO TEATRO DA CDL (CÂMERA DOS DIRIGENTES LOJISTAS DE FEIRA DE SANTANA)

INTEIRA R$ 20,00

MEIA R$ 10,00

terça-feira, 12 de maio de 2009

UMA HOMENAGEM À SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


A poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


A BALADA DE SOPHIA
ou A OBSCURA IMPACIÊNCIA
( UMA ELEGIA CRISTALINA EM MEMÓRIA

DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN )



Porque toda paixão anda pertodessa obscura impaciência...
BRUNO TOLENTINO

Sofia faz-refaz, e subindo ao cristal,em cristais ( os dela, de luz marinha ).
JOÃO CABRAL DE MELO NETO




( Se
ao menos em mim tua dissolução fosse incerta, não perderia teu nome nesses versos frios tão cheios de dúvidas, tão cheios de sombras. E a escuridão desceu incólume sobre o sangrar sem fim das tardes sólidas, e nos envolveu de imortal tristeza; e a escuridão se fez memória, e se reescreveu em papel e sopro, na tentativa vã de que a vida nos afirmasse de algum modo e com maior verdade.) Se ao menos em mim tua dissolução fosse incerta, talvez voltássemos a nós mesmos: Tu, à casa onde o possível se imaginara maior... Eu, aos abismos sucessivos que a dor abraça... e, em Nós, bem fundo, e mais urgente, o sono de todas as lembranças, ou das intermináveis despedidas; coisas que, um dia, d’outro lado de tudo, serão moldura do Perfeito...



Se
ao menos em mim, e somente em mim, se possível fosse, a tua dissolução nos parecesse incerta, Eu poderia ter de ti a contínua feitura do teu verso e de teu Ser agora elevado e não menos puro, a qual Cabral cantou com calma... com calma crua e sólida de cristal de luz marinha; o pernambucano duro, entretanto, em versos derramados de rochas fluidas nos enganara; assim, perdi teu Ser e tua Morte para esta Eternidade que incomoda, pois foste rasteira,... porém, não lineada – como ondas na praia escura – para a Noite de amanhãs que nascem inversas e os sonhos têm muito mais de mistério que de sonhos –, ondas em praia nua... que de tanto ir e vir de feitura em feitura tinhas tanto em ti de Silêncio e de mar quanto o que há em mim de areia e de Saudade, pois
de todos os cantos do mundo, amo
com um amor mais forte e mais profundo
aquela praia extasiada e nua
onde me uni ao mar, ao vento, à lua
e à tua lembrança, onde o perfeito é não quebrar aquela imaginária linhade teu rosto
que ainda procuro...



Mas,
se ao menos em mim tua dissolução parecesse
incerta, talvez tentasse aceitar,
com firmeza que não tenho,
no rosto,
as marcas do porvir
que trago agora,
que têm tudo de real,... que têm tudo de concreto.



segunda-feira, 11 de maio de 2009

II FESTIVAL DE SANFONEIROS DE FEIRA DE SANTANA



As inscrições poderão ser feitas gratuitamente até o dia 15 de maio de 2009, presencialmente na Direção do Centro Universitário de Cultura e Arte ou encaminhadas, via correio, ao endereço: Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA). Rua Conselheiro Franco nº 66, Centro, Feira de Santana - Bahia,CEP 44100-000.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

LUA CHEIA COM SAMBA DE RODA NO CUCA




O Projeto Lua Cheia com Samba de Roda vai reunir, no próximo dia 9 de maio, no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), da Universidade Estadual de Feira de Santana, grupos de samba de roda da cidade e região. O evento, que começa às 19h30, é coordenado pelo Núcleo de Cultura Popular. Estarão participando os grupos Raízes do Campo, União do Samba, Samba de Roda da Vila São José, Raízes de Santo Amaro, Quixabeira da Matinha e Pisadinha do Pé Firme. No samba de roda, cada participante vai ao centro do círculo, formado pelo grupo, faz um pequeno solo e tira outra pessoa para dançar. O samba teve início por volta de 1860, como uma forma de preservação da cultura dos africanos que vieram para o Brasil. A manifestação está dividida em dois grupos característicos: o samba chula e samba corrido. No primeiro, os participantes não sambam enquanto os cantores gritam a chula – uma forma de poesia. A dança só tem início após a declamação, quando uma pessoa por vez samba no meio da roda ao som dos instrumentos e de palmas. Já no samba corrido, todos sambam enquanto dois solistas e o coral se alternam no canto.


Não deixem de participar...!



terça-feira, 5 de maio de 2009

EU SEI QUE VOU TE AMAR...!


Da esquerada para a direita: Marcos Pérsico, Nívia Maria Vasconcellos, Paulo Akenaton, Carla Dias, Charles Sanctus, Lucifrance Castro, Silvério Duque e Flaviano Gallo que, juntos, compõemo espetáculo poético-musical Eu sei que vou te amar...


O poeta Vinícius de Moraes



Vinícius de Moraes é um dos poetas mais importantes de nossa poesia, também um dos mais amados e, se não lhe bastasse, um dos mais diversos. Seu lirismo pungente, aliado a uma incansável, quanto impossível, busca pela paixão e seu verdadeiro sentido, couberam tão bem em sua poesia com em suas canções; tanto, que é difícil não lhe reconhecer a influência em vários escritores e músicos que a ele se seguiram. E é para seguir conosco nesta busca pela paixão mais perfeita que convidamos a todos para assistirem ao espetáculo poético-musical Eu sei que vou te amar... Uma homenagem mais que merecida a um dos poetas mais inesquecíveis de nossa Literatura.

O espetáculo é assinado por Nívia Maria Vasconcellos e Marcos Pérsico e conta também com a direção musical de Paulo Akenaton e o cenário de Marcos Moraes. A poesia de Vinícius terá interpretação à sua altura com as declamações de Nívia Maria Vasconcellos e Lucifrance Castro; já suas músicas ficam por conta da voz estonteante de Karla Dias e pelo conjunto musical formado por Paulo Akenaton (voz, viola de 12 e violão), Charles Sanctus (piano e gaita), Silvério Duque, (clarinete), e Flaviano Gallo (bateria). A direção é de Marcos Pérsico.

Não percam...!


DIAS 15 e 16 DE MAIO, ÀS 20H, NA CDL (CÂMERA DOS DIRIGENTES LOJISTAS DE FEIRA DE SANTANA)








INTEIRA R$ 20,00
MEIA R$ 10,00

sexta-feira, 24 de abril de 2009

VOCÊ JÁ FOI A CAYMMI?




Quando um mestre, num espetáculo, homenageia outro é mais do que certo a qualidade de tudo que será apresentado... É com esta certeza absoluta que eu convido todos vocês a assistirem ao espetáculo Você já foi a Caymmi?, com roteiro e direção do poeta, mestre e amigo, Ildásio Tavares. O show realizar-se-á no Tom do Sabor, nos dias 7, 8 e 9 de maio, sempre às 22:00h. A música de Dorival Cammy e a direção poética de Ildásio Tavares. Não sejam loucos de perderem essa...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

SILVÉRIO DUQUE RECEBE PRÊMIO DE POESIA NA IX BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO



A premiação dos ganhadores do Concurso Literário Bahia de todas as Letras, de 2008, promovido pelas editoras Via Litterarum & Editus-UESC será no dia 25, às 18h, na IX Bienal Internacional do Livro de Salvador, no estande da Câmara Baiana do Livro.


Por favor, não faltem!!!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

PARA ALÉM DA EPOPÉIA... OU QUASE...


Batman - O cavaleiro das trevas... uma união de antigos e novos mitos



Watchmen... apenas mais uma revistinha

Após o estrondoso sucesso de público e, principalmente, de crítica (numa proporção, até agora, inédita para um filme baseado em um herói dos quadrinhos, porém, não sem os devidos merecimentos, os quais, aliás, são inúmeros) que Batman – O cavaleiro das trevas (EUA/2008, Warner Bros) recebeu, era de se esperar que os produtores de semelhantes filmes seguissem pelo mesmo viés tão bem explorado pelo filme de Christopher Nolan (com Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Maggie Gyllenhall, Morgan Freeman, Eric Roberts, Cillian Murphy, Anthony Michael Hall, Monique Curnen e Nestor Carbonell)... pelo menos era o que se esperava de Watchmen (EUA/Inglaterra/Canadá; 2009, Warner Bros, Paramount Pictures, DC Comics & Legendary Pictures ), um dos filmes mais aguardados por membros de todas as facções cinéfilas existentes, que vão dos críticos mais turrões – aqueles que pensam que somente filmes introspectivos e sem nenhum atrativo além de diálogos de inspiração existencialista merecem o título de obra cinematográfica –, aos nerds de primeiro time – os que lotam as salas de cinema só pelo prazer indescritível de ver os seus heróis de infância, mesmo que a maioria já tenha passado dos trinta anos, ganhando vida, em corpos de carne e osso, nas telonas do mundo inteiro, mesmo que nenhuma gatinha se proponha a acompanhá-los em tão “idiossincrática” jornada. Baseado na obra homônima de Alan Moore e Dave Giobbons – sem dúvida, um dos melhores HQs já produzidos – Watchmen está muito longe de repitir o mesmo efeito que Batman, em dois filmes, mas, principalmente, no segundo, consegiu. Isso porque, em O cavaleiro das trevas, não podemos ver além da realidade por mais que seu protagonista não advenha dela, ou seja, batman é um herói de quadrinhos, podendo, no entanto, ser muito bem concebido no mundo real; aliás o mundo onde Batman é jogado é o nosso mundo real. Foi unindo aspectos de uma sociedade corrupta em todos os seus pilares, principalmente naqueles que deveriam salvaguardar os valores pelos quais toda Sociedade se sustenta, que Batman conseguiu sua principal cartada, opondo, na estrema direita, o cavaleiro solitário, o herói angustiado que serve a esta sociedade esquecida dos verdadeiros motivos que este cavaleiro representa, e, pelos quais, luta – Bruce Wayne é quase que praticamente um Sísifo moderno; já na estrema esquerda, o antagonista deste mesmo herói, o Coringa, aquilo ao qual toda a sociedade parece inspirar-se, ao niilismo total e iminente, e, claro, a uma caricatura tosca de toda humanidade, que não vai muito além do chipanzé darwiniano; no centro, as instituições que tem a obrigação moral de proteger a decadente sociedade, representadas pelas figuras do Comissário James Gordon e do Promotor público Harvey Dent... um se manterá firme em suas posições, por mais que não confie em mais ninguém, o outro personificará os dois lados de uma realidade aparentemente sombria, mas é a gente comum, os ingênuos “protegidos” que serão responsáveis por demonstrar, na tão bela, quão significante, sena das “barcas”, que aquilo que, realmente nos forma, nos diferencia e nos faz superiores a quaisquer outros seres que habitam este mundo, está mais vivo e protegido do que nunca e que não há ninguém melhor para cuidar dos nossos valores do que nós mesmos. A cena que eu citei acima é um golpe mortal em todo materialismo, evolucionismo e niilismo que alguém, cinematograficamente, já imaginou dar; e o tapa com luva de pelica é ironicamente representada por um Coringa, que prefere acreditar num aparelho com defeito do que em pessoas se sacrificando para não fazerem o mal, da mesma maneira que o ateu, não acreditando em uma força suprema é incapaz de enxergar, e menos ainda de entender, a mudança radical pela qual uma pessoa se submete a passar em nome de sua conversão, antes preferindo acreditar numa possível “doença mental”, numa “alienação” temporária ou num "fingimento" interesseiro do que, longe de seus olhos objetivos, aparecer-lhe-ia como o mais óbvio.

Já no caso de Watchmen tudo parecia tender para uma outra história que uniria heróis dos quadrinhos com velhas receitas egressas de grandes epopéias e tragédias, como fez Batman – O cavaleiro das trevas, o filme de Zack Snyder (com Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Patrick Wilson, Carla Gugino e Matt Frewer) acaba caindo numa velha armadilha na qual muitas adaptações de quadrinhos, por melhor que sejam tais adaptações ou os quadrinhos pelos quais foram baseados, acabam caindo... não deixar de ser um quadrinho. Isto é o maior pecado de Watchmen que, diga-se, tinha tudo para não cometê-lo. Logo na abertura, relembramos acontecimentos memoráveis, que, mesmo sob a óptica distorcida, para se encaixar no mundo paralelo onde toda a trama acontece, formam momentos marcantes da história não só americana, mas levando em conta a grande influência política que estes acontecimentos tiveram em todo o mundo, são acontecimentos que falam a todo o Planeta, como a Guerra do Vietnã, a ascensão comunista em várias partes do mundo, o assassinato de Jonh F. Kennedy e, claro, a distante, mas não exorcizada, Guerra Fria, dando ao filme um aspecto realista, apesar do mundo paralelo, e, principalmente, humano. Pena que este realismo, e este aspecto humano parem por aí... Watchmen não consegue ir além de um roteiro complexo e sem aprofundamento, por mais que a falta de caráter de muitos heróis como é o caso do Comediante – uma personificação de tudo que de mais abjeto possa existir num ser humano – ou o complexo triângulo amoroso entre a segunda Espectral (a primeira, sua mãe, é uma bêbada depressiva que esconde da filha o facto de ela ser fruto da paixão doentia dela por seu estuprador), o Dr. Manhattan (o único com super-poderes – e bota poder nisso –, mas com problemas emocionais demais e péssima lógica para usá-los responsavelmente, e o Coruja, um depressivo, impotente sexual e que perdeu seu total senso de dever –, possam ser elementos formidáveis para se construir uma bela história... Watchmen, infelizmente, fica só no quase e não impressiona para além dos efeitos especiais que são muitos, e maravilhosos, principalmente para uma super-produção que, por mais que queira e nos deva isso, não consegue dizer absolutamente nada. Assim sendo, só resta a Watchmen, o quadrinho, servir de influência a outras produções que dele souberam tirar melhor proveito, como Os Incríveis, por exemplo, do que a sua própria produção homônima que, do contrário ao desenho da Pixar, e, claro, de Batman - O cavaleiro das trevas, que reuniu o maior número possível de elementos oriundos das grandes narrativas da história, sem perder os rumos da realidade, muito menos de nossa sociedade atual, estas tão distintas quão excelentes produções não quiseram ser somente uma revistinha...

quinta-feira, 2 de abril de 2009

DUAS TRADUÇÕES DE PABLO NERUDA... por Silvério Duque


O poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973)




SONETO XVII

No te amo como si fueras rosa de sal,
topacio o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.








Não te amo qual rosa de sal, topázio,
flecha de cravos que propagam o fogo:
amo-te, como às coisas obscuras,
em silêncio, por entre as sombras e a alma.

Amo-te como a erva imarcescível,
que, em si, traz o desejo de existir;
por teu amor meu peito vive escuro
e perfumado com o frescor da terra.

Amo-te sem saber como, onde, ou quando,
amo-te sem problemas, nem orgulho:
amo-te assim, pois só assim o sei,

senão, de um modo em que não sou nem és,
igual a tua mão sobre o meu peito
no fechar de teus olhos co' o meu sonho.











SONETO XCIII

Si alguna vez tu pecho se detiene,
si algo deja de andar ardiendo por tus venas,
si tu voz en tu boca se va sin ser palabra,
si tus manos se olvidan de volar y se duermen,


Matilde, amor, deja tus labios entreabiertos
porque ese último beso debe durar conmigo,

debe quedar inmóvil para siempre en tu boca
para que así también me acompañe en mi muerte.

Me moriré besando tu loca boca fría,
abrazando el racimo perdido de tu cuerpo,
y buscando la luz de tus ojos cerrados.

Y así cuando la tierra reciba nuestro abrazo
iremos confundidos en una sola muerte
a vivir para siempre la eternidad de un beso.








Se alguma vez teu peito se detém,
se algo deixa de arder em tuas veias,
se a tua voz se esvai sem ser palavra,
se tuas mãos, tão vivas, adormecem,

Amor, deixa teus lábios entreabertos,
porque este beijo durará comigo...
ficará para sempre em tua boca,
e me acompanhará também na morte.

Morrerei nesta louca boca fria,
junto ao cacho perdido de teu corpo,
buscando a luz de teus serenos olhos.

Assim, receba a terra o nosso abraço,
e, confundidos numa mesma morte,
vivamos, para sempre, em nosso beijo.

UMA HOMENAGEM À CECÍLIA MEIRELLES


A poetisa Cecília Meirelles (1901-1964)

A BALADA DE CECÍLIA

à Danielle Pinheiro





Convém-nos que esta noite seja clara
ou simplesmente a última, sabendo
que todo o mundo dorme e as nossas almas
são uma chaga a mais que o mundo abriu...

Convém-nos que esta noite seja pura
como as pedras e os ventos, tão contrários,
mas tão repletos desta mesma essência,
e tão suaves como estes silêncios...

E enfim, toda esta noite seja breve
como o instante em que, mortos, renascemos
para todas as coisas que buscávamos:

as nossas mãos sem rumo e sem mistérios...
nossos espelhos sem nenhuma face...
nossa boca calada com um beijo.