terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A TRAGÉDIA NOSSA DE CADA DIA...



SBN:
978-85-81510-97-2
Edição:
Ano de publicação:
2015
Nº de Páginas:
172
Formato:
14x21cm
Idioma:
Português






A TRAGÉDIA NOSSA DE CADA DIA

ou BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE
O LIVRO O GRITO DO MAR NA NOITE
DE EMMANUEL MIRDAD


  à minha caríssima Nívia Maria Vasconcellos; 
porque é muito bom tê-la de volta.

Para mim, nobreza é sinônimo de vida esforçada, posta sempre a superar-se a si mesma, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência. Desta maneira, a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte, que, estaticamente, se reclui a si mesma, condenada à perpetua imanência, caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem – não tanto porque seja multitudinário, quanto porque é inerte.
JOSÉ ORTEGA Y GASSET






 
Nos bastidores da FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira) deste ano, quando me preparava para, cheio de honra e – confesso – com certo desassossego, dividir uma mesa de debates com o grande crítico e amigo Rodrigo Gurgel, sou abordado pelo camarada, e também um dos produtores do evento, Emmanuel Mirdad, que me presenteia com seu último livro de contos, devidamente autografado, mas não sem algumas ressalvas quanto aos seus escritos e com a recomendação de que eu começasse a leitura de seu O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015) por aquele que, segundo o próprio autor, era sua realização preferida. Não me fiz de rogado e, obviamente, aceitei o presente e atendi à exortação, começando pelo conto Sol de abril.

Tomando como base a canção Assum Preto, de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, somos apresentados a uma sanfoneira “doca” que, há muito, deixara o sertão do Nordeste para tocar nas praças do Sul do Brasil... Emmanuel Mirdad constrói a história dessa mulher com um intricado jogo de narrativa psicológica e flashback, dando a este conto um dinamismo muito grande, ao tempo que nos transporta a um jogo imbricado de memórias e assim, cada vez que a história vem e vai, no tempo, somos preparados cada vez mais a um arremate cruel e surpreendente. Mas, embora tenha me agradado muito com esta história, não me contento só com a leitura de Sol de abril (bom sinal) e sigo com os outros contos do livro.

A história de Sol de abril, difere em muito de todas as outras histórias do livro, pois é a única passada longe de Salvador ou de qualquer cidade grande, de fato, e onde o ambiente citadino não se compõe quase como um personagem à parte, que vai conduzindo a história ao seu pesar e contentamento; características relevantes nos nove outros contos de O grito do mar na noite, e que constroem a quase total verossimilhança de tudo que neles se leem. Outrossim, está justamente nessa verossimilhança aquilo que eles possuem de mais incômodo, no melhor sentido desta palavra.    


Uma boa leitura, seja de poesia ou prosa, seja de uma música que se escuta ou um quadro que se observa, precisa incomodar; ser carregada na memória, digerida lentamente por ser algo em que nos reconheçamos e pela qual aprendemos.

Assim como acontece na poesia, a leitura de um conto, graças ao seu teor fotográfico, completa-se depois de lido o último parágrafo e fechado, mesmo que por alguns instantes, o livro. Um bom conto golpeia seu leitor que, ainda no tonteio do soco, procura a melhor posição para o contra-golpe, o revide... Por isso mesmo, e Emmanuel Mirdad que me perdoe, mas é preciso falar a respeito disso, o exagero de algumas descrições e informações, enfraquecem a narrativa – e isso, infelizmente, acontece várias vezes, durante todo O grito do mar na noite –, fazendo com que se perca muitas vezes o ritmo de sua narrativa, sem contar o desaforo que um bom leitor acaba sentindo, pois quando não lhe é oferecido um desafio de investigar em sua própria mente o quanto ele é capaz de compreender e se surpreender, no ato da leitura, o leitor é visto como um pacóvio.

Em resumo, entregar demais ao leitor é chamá-lo de bobalhão ou outorgar tal epíteto a si mesmo, enquanto autor. Por causa disso, determinados trechos mais enfadam do que realmente informam e fazem com que boas passagens, bem mais lúcidas e poéticas, percam sua beleza e razão, como, por exemplo:

Seu Humberto, o Beto, era cearense, assim como seu xará, O Teixeira, filho ilustre de Iguatu e parceiro mais célebre do velho Lua, o Rei do Baião, filho de Exu (PE)...


cuja resolução – perdoem-me a pretensão, apenas faço-a como exemplo de uma ideia e não uma tentativa de reescrever a história construída pelo autor – seria demasiadamente simples, e o leitor que se virasse para não se sentir subestimado:

[Seu Beto era cearense, como o seu xará, de Iguatu; parceiro mais célebre do velho Lua, o Rei do Baião...]

Mas, vejam como, antes, Emmanuel Mirdad conseguira um efeito justamente contrário, e, por isso mesmo, digno de exemplo, inclusive para ele:

De olho fechado, reza. A aparição mariana que lhe originou o nome pode até escutar, mas não deve responder. A paz brota do silêncio. E a cidade em flor começa o percurso dos fluidos de seu organismo. 


No final das contas, em qualquer narrativa que se respeite deve prevalecer aquilo que José Ortega y Gasset chamava de “A lei seca da arte”, ou seja, o conceito de Ne quid nimis, de “nada além do necessário”.  Um bom exemplo, e bom conselho a esse respeito, estão em Graciliano Ramos, quando o autor de São Bernardo e Vidas Secas compara o ofício da escrita ao trabalho das lavadeiras de sua terra natal:

Deve-se escrever da mesma maneira com que as lavadeiras lá de Alagoas fazem em seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

Voltando a Ortega y Gasset, ele nos admoesta de que tudo o que é supérfluo, “tudo aquilo que podemos suprimir sem alterar a essência é contrário à existência da beleza”. Isso vale para a poesia, para a prosa, para a música, pintura, dança; qualquer coisa que se chame de arte; qualquer trabalho que se queira bem feito; é algo que Emmanuel Mirdad, certamente, explorará muito mais daqui pra frente.

Uma coisa que um autor (e, mais ainda, todo pretenso autor) deve saber, é que toda história é uma história que se poderia viver; de que aquelas situações ali poderiam ser vividas por qualquer pessoa de qualquer época e lugar; que aquilo em que o leitor tanto se concentra seria passível de sua própria experiência. Por isso, a vivência de uma boa leitura, não é só garantia de catarse, mas da própria catarse se extrair aprendizado. Mesmo as fábulas mais burlescas trazem uma carga moral imensamente aplicável ao nosso mundo e disso tiram toda a sua força e pragmatismo. Desta forma, para o homem grego do século V a.C., encontrar-se com grandes criaturas marinhas, ou cair dos caprichos arbitrários de deuses nada complacentes, era algo tão aceitável quanto deparamo-nos com a violência nossa de cada dia, promovida por homens e mulheres de carne e osso, mas carregados de ódio e preconceitos tão cruéis quanto os jogos de poder de deuses e deusas, onde dados e cartas eram os próprios destinos humanos, como é o caso do conto O banquete, onde, numa referencia nada platônica, Emmanuel constrói uma boa alegoria da burrice violenta que surge das multidões, instigadas pelas mais diferentes situações, formando a tragédia nossa que vivemos a cada dia:

O ponto dela chegou. Desceu compenetrada ao smartphone, sem olhar para os lados nem perceber o ambiente. Azar. Ninguém na rua, e os poucos estabelecimentos em volta, nenhum aberto. [...] Três carecas se aproximaram por trás. O que tinha uma suástica tatuada no cocuruto exagerou a mão na pancada, e a gordinha apagou... [...] Sorte; evitou a tortura morrendo de primeira. [...] Dentro do carro, a sensação dos três era de dever cumprido. [...] O celular passou de mão em mão. Miseravelmente, um deles apagou as fotos da viagem que a gordinha fizera com a namorada para o litoral, como se pudesse excluir da existência a opção que tanto odiava.  


Entretanto, o que poderiam ter em comum entre a narrativa clássica e o conto contemporâneo, por exemplo? O aprimoramento de caráter e de intelectualidade que todo herói trágico, a duras custas, adquire ao fim de sua jornada de angústias, isso é o que deveria existir em ambos. Tal aperfeiçoamento nos é garantido na literatura clássica, mas sentimos cada vez mais sua inexistência nas narrativas mais contemporâneas, onde a construção aprofundada de um personagem não vai além de sua cansativa descrição, ou a mera trivialidade ocupando o lugar do verdadeiro drama. A catarse, assim, parece algo impossível, já que o leitor não tem onde se mirar de fato, nem fazer aquela viagem introspectiva, de onde suas paixões seriam verdadeiramente purgadas. Emmanuel Mirdad, a meu ver, consegue, de fato, livrar-se do trivial e se aprofundar, verdadeiramente, em três de suas narrativas: Chá de boldo, Sol de abril e Aqui se paga.

        Um homem que aceita a mulher caolha após ter sido violentada e, em seu ato, bem como na dor de sua companheira, ver revelar-se toda a beleza para além das meras aparências, ou um velho, outrora abandonado pela filha, dedica-se com todas as suas mirradas forças a cuidar de sua antiga algoz, não representam uma mera luta contra sentimentos pessoais, das quais estão cheíssimas as narrativas de nossa atual literatura, o que, no mínimo, seria sinônimo de um moralismo oco; ao contrário, vemos nesses exemplos a escolha por um bem maior e pelo real dever que lhe cabem como verdadeiro amante, como pai, como seres humanos. Isso seria, nada mais nada menos, a real diferença entre a verdadeira moral e uma caricatura ordinária de moralidade; entre a real profundeza que esperamos de um escritor e a mesmice banal de quem apenas observa o cotidiano sem nada dele tirar e, muitas vezes, sem lhe arranhar direito a própria casca.  

            Um elemento muito importante e inegável por qualquer um que leia os contos de Emmanuel Mirdad, mantido ao longo de todo o livro, é seu efeito surpresa; a radical mudança que situações extremas possuem em suas histórias, e o conto O banquete é, certamente, o que mais se utilizará desse recurso. É mesmo “de oito a oitenta”, como se diz no jargão popular daqui da Bahia, que mudanças radicais e inesperadas se dão em suas narrativas, proporcionando não só um efeito estético proveitoso, fazendo valer, entre tantas coisas, aquela situação em que o leitor sente-se abobado e se desfruta de tal sensação. O banquete lembra-nos o quanto que nossa vida em sociedade está intimamente relacionada com cada indivíduo, da teia frágil que cada um vem tecendo no caótico mundo urbano, de sistemas fechados nada previsíveis, mas isso também pode ser vivenciado em Sol de abril, Chá de boldo, Aqui se paga, Quase onze dias... A melhor parte desse efeito é quando um amor que um dia se mostrou puro, se conclui através de um estupro, quando a dor e a raiva de um abandono são devolvidas com o cuidado extremoso de um velho pai, ou uma palavra cruel tem, na morte, pagamento certeiro e sem troco, obrigando-nos a refletir, a repensar tudo a nossa volta; o que temos, o que nos falta e, principalmente, o que perdemos.

Outro elemento que julgo de uma importância muito grande neste livro de Mirdad é o registro da linguagem coloquial de Salvador, mas também de outros recônditos da Bahia. Isso me faz lembrar um grande problema que enfrento, como professor de Literatura, que é fazer com que meus alunos, com terríveis limitações vocabulares e demasiadamente presos às maravilhas de nosso mundo tecnológico, tão diferente dos séculos de Machado e Guimarães Rosa, gostem e se aprofundem em um romance ou conto dentro de um contexto que eles desconhecem e não querem se esforçar para conhecer. Talvez por isso, romances de entretenimento para adolescentes, façam tanto sucesso, pois estão carregados de coisas que fazem parte de seu contexto e cotidiano, como computadores, celulares, tabletes... Mesmo histórias que têm, como pano de fundo, a Antiguidade e a Idade Média são narradas como em um roteiro de filme ou ganham uma gama de movimentos e cores como em um vídeo game; isso quando Perseu não se utiliza de um iPhone para matar a Medusa, ao invés de um escudo polido. Em compensação, se estas histórias não possuem palavras estranhas como “coches” e “lojas de belchior”, elas perdem naquele aprofundamento moral e psicológico em que um Machado e um Dostoievsky se tornam mestres e, até hoje, não possuem, pares semelhantes.

Essa necessidade de uma língua “nossa” e mais “pura” é uma característica que remonta a ideais ainda de nossos primeiros românticos, e serve como um verdadeiro presente ao leitor, bem como aos registros linguísticos e históricos, é o caso de expressões que fazem com que o leitor, principalmente o baiano, identifique-se com tudo aquilo que se passa na história, justamente por ter algo em que se reconhecer dentro dela. É o caso de expressões como “se pique, vá!”, “Meu rei”, “Vamo cumê aguá”, “Man...”, “E esse Baêa!?”, um alongadíssimo “Aonde” (que, na Bahia, também significa: “Não!”)... e “Receba!”, expressão a qual, aliás, nomeia um de seus contos mais inusitados. Vejamos, um exemplo:

Começo da noite, a academia está cheia.

– Rapaz, ontem eu peguei quatro!

– É lascador, esse menino!

Um grupo de homens sarados, alguns bem jovens, reveza o uso de um aparelho puxador, para exercícios diversos. Compartilham seus músculos ao espelho comum. “Você tá grande, hein, pai”? Uns fazem tríceps, outros remada em pé, alguns na barra comum, que poucos ali conseguem fazer. Eu sou o que mais faço; lembranças da época do quartel.

– Tá ligado, a Bruninha? Passei a pica! Putinha, putinha...

Man, vai rolar o ensaio na segunda, vamo dêcê? Só tá rolando as gata, Serjão deu as ideia. E vamo cumê aguá na segunda também!

– Bora!

– E o Baêa?!

Futebol, buceta e cerveja. Apenas três assuntos e em poucos segundos os homens são iguais, melhores amigos a décadas, inseparáveis...


Também a descrição de lugares badalados e famosos de todos que moram ou visitam Salvador completam isso. Aliás, Emmanuel trabalha em seus contos uma tendência de narrativa basicamente urbana, a exceção de Sol de Abril, com todas as suas nuances e, muitas vezes, clichês bem encaixados. Entretanto, seu maior trunfo, nesse sentido, é mostrar uma Salvador cheia de ricos curtindo suas vidas da forma mais prazerosamente louca, porque podem e só por isso; mas carregados de um vazio tão extremo, que a única coisa que lhes sobra é, puramente, o dinheiro que têm. Ou como Mirdad descreveu, usando um de seus personagens:

É uma vida superficial e retilínea, imune à trágica consciência de que há diversos conflitos na existência humana. [...] Eram alguns ricos, bem inseridos e farristas da elite baiana que se encontravam de quando em quando, para algum deles pagar a noitada.
  

         Acredito que uma boa leitura é aquela que nos dá um choque de realidade... Engana-se redondamente quem pense que um autor de ficção tem um compromisso indistinto com a fantasia. Mais do que construir realidades, um bom autor, ou quem se pretenda a tal, precisa desnudar a realidade aos nossos olhos; não precisa mascarar nenhum tipo de beleza, mas revelá-la em sua forma mais pura; oferecer de bom grado, a verdade, ao invés de fingir-se um conhecedor de alguma verdade que seja. Se a vida, no fim, se revelar vã, devolvê-la-emos à sua completude através da literatura.

Tudo isso serve para mostrar o quanto que o conto é uma forma de narrativa muito perigosa. Uma composição literária onde o muito, imprescindivelmente, deve ser feito com o mínimo possível, e, por isso mesmo, seja talvez a forma de composição em prosa que, junto às fabulas modernas, mais se assemelhe com o gênero poético, a necessidade de verossimilhança e do aprofundamento dos fatos narrados são tão grandes quanto à capacidade de seu autor em surpreender tanto por aquilo que está a ser lido, bem como pela reflexão que dá lugar às palavras depois da conclusão da leitura.

Assim sendo, Emmanuel Mirdad deu um passo importante, bem mais do que exercendo o papel de poeta, mas que só se concluirá numa longa e compensadora jornada se ele tomar como modelo seus acertos, entendendo que o crescimento como autor não é diferente do crescimento como ser humano. Ambos se modelam através de nossa capacidade de irmos além dos esforços estritamente impostos como reação às necessidades que nos chegam de fora, mas do empreendimento espontâneo e luxuoso. Eis o verdadeiro sentido da nobreza. Emmanuel Midard conseguiu alguns momentos de nobreza em suas narrativas... Que o criador, nesse caso, espelhe-se em sua própria criação.

Em resumo, é um livro de um estreante, sendo assim, uma obra que nos deixa sempre esperançosos. Eu, particularmente, gostei muitíssimo de O grito do mar na noite, independentemente das questões técnicas abordadas, até porque, essas questões dizem mais aos críticos; há, em O grito do mar na noite, histórias bem construídas, verossímeis e, ironicamente, seu maior trunfo e defeitos se encontram em sua linguagem e na maneira de como ela é construída. Emmanuel, com este livro, está no caminho certo; e eu, assim como outros leitores, ávidos por um considerável melhoramento nos temas e nas formas (e em algumas influências) de nossa atual literatura, esperamos que, deste caminho, Emmanuel Mirdad não se desvie.









Cachoeira/Candeias, entre outubro e novembro de 2015. 


APROVEITEM PARA COMPRAR O LIVRO AQUI: 
http://www.vleditora.com.br/lojavirtual/livro/o-grito-do-mar-na-noite

          

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

THE BLACKLIST (RSRS)...











THE BLACKLIST (RSRS)...


Ontem no II Encontro de Escritores Brasileiros na Virginia, promovido pelo Olavo de Carvalho, fui citado entre os "destaques da intelectualidade 2015"...

Ou seja, não me bastou ser lembrado pelos participantes, nomes da mais alta estirpe intelectual de nosso pobre Brasil, como Olavo de Carvalho,Rodrigo Gurgel, Yuri Vieira, Paulo Briguet, Carlos Nadalim
e Érico Nogueira, dividi o imerecido espaço com os nomes de Alexandre Borges, Guilherme Macalossi, Karleno Márcio BocarroLorena Miranda Cutlak, Felipe Moura Brasil, Percival Puggina, Flavio Morgenstern, Flavio Gordon, Flavio Quintela, Marcelo de Paulos, Elpídio Fonseca, Thiago Tondinelli, Wladimir Saldanha, João Filho, Cláudio Neves, Bruno Garschagen, Gustavo FelicíssimoMartim Vasques da Cunha...


O que dizer então? Simples, depois disso e de minha participação na FLICA, quem tiver seu prêmio literário para mim que o enfie no cu, pois como disse a Lorena Miranda Cutlak, nem dez Jabutis deixar-me-iam tão honrado e metido a besta...

Chupa, Feira de Santana!!! E imagine agora seu filho pródigo subindo no elevador do seu prédio mais alto cantando isso aqui ó: https://www.youtube.com/watch?v=heLYw_WPwVo

Obrigadíssimo, Marie Asmar, com certeza, ganhei meu dia (rsrs)...

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

DUAS NOTÍCIAS...

A dimensão necessária, de João Filho (Mondrongo , 2014).





Duas notícias, envolvendo amigos poetas, deixaram-me muito feliz hoje: a primeira, a notícia de que João Filho, poeta baiano, um dos melhores de sua geração, foi vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional 2015, na categoria poesia, com o livro A dimensão necessária (Mondrongo, 2014). Uma graça não só de João Filho, mas de toda literatura baiana, cada vez mais necessitada de grandes representantes. E João Filho cumpre muito bem esse papel.

Poeta sério, da métrica, da rima, do soneto bem trabalhado, João é um mestre em imagens que procuram revelar o mundo através de uma poesia concisa e muito bem pensada. É certamente um poeta que não se prende ao vago, ao meramente sensorial, quando não a um suposto surrealismo sem significado, típica maneira de se fazer poesia de muitos também premiados, mas sem nenhum mérito. Os poemas de seu livro, A dimensão necessária são muito bem realizados porque são frutos de um talento que não se contenta consigo mesmo, fazendo-se através de um aperfeiçoamento constante, cujo resultado é uma poesia que não perde o seu tino, sua comunicação, nem com seu leitor, nem com ela mesma. Não é resultado de uma sobreposição de imagens ao acaso, mas de uma construção extremamente elaborada: é Engenho e Arte mesmo, no melhor sentido e no resultado mais primoroso.

Mas como o trabalho de um poeta fala muito mais e melhor do que qualquer admirador empolgado e bajulador, vamos lá:

O sol do Amor é implacável, tudo mostra
de uma só vez – detalhes sutis e invisíveis
e a totalidade do ser. Pela encosta,
os limites da noite largam seus possíveis

nas raias da manhã. Reflexo da resposta:
você. Seus gestos, cheiro, aparições incríveis,
lampejos com que o eterno bruscamente arrosta
meu coração, dramatizando voos risíveis.
O sol do amor enxerga o que na ausência é falha,

e sabe perdoar imperícias, desânimos
dos amantes, e alaga-os com suas migalhas.
Aqui o quarto, culminância dos topônimos
onde Amor entrecruza num ponto da malha



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O Corpo Nulo, de Lorena Miranda Cutlak (Mondrongo, 2014)


A segunda notícia foi a de que o livro “Corpo Nulo” (Mondrongo, 2015), da poetisa paraense, Lorena Miranda Cutlak, mas que adotou São Paulo como lar, será lançado dia 20 de novembro.

Lorena é, para mim, uma das coisas mais verdadeiras que conheço em termos de poesia; minha admiração por ela vem desde os primeiros versos que li e que foram se aperfeiçoando até chegarem ao nível de se dizer: “Eis aí, o resultado do talento e da depuração”. Lorena é mãe, dona de casa e escreve sobre Dostoievsky, mas se engana quem espera encontrar em seus versos uma profusão de panos-de-pratos, as desventuras de uma pobre mulher cuja importância se perde quando o marido, a filha e o lar não precisam mais dela, mesmo que por alguns momentos, ou uma intelectual de versos herméticos e linguagem intransponível... Seus versos têm a fluidez de quem se vestiu da melhor tradição, e da maneira mais simples de se dizer as coisas grandes e realmente necessárias.

Por exemplo:

Touro louríssimo, teu torso
forjado à força de antiquíssimas
batalhas sem ouro vencidas
vem dissolver-se nas pupilas
com que fulminas, sem esforço,
pedra selvagem e estrela fria.

Com sempre mansa maestria
de quem não mede a própria força,
pois que de si mesmo deposto
para melhor legar-se à lida,
teu passo é torto à revelia
da paz que emana de teu rosto.

Segues em frente, e em frente, e após
tua marcha zonza e imperativa
eis que desponto, a persegui-la,
sombra no rastro de um sol: touro,
tu que me arrastas pela vida,
que houve entre a noite e o nosso encontro?

As madrugadas mal cabiam
dentro do vão da minha fome,
eram chacinas repetidas,
todas idênticas, e o corvo
de uma Lenora mais antiga
vinha pontuá-las com o agouro

de seu “Não mais”, e eram sozinhas
as minhas lágrimas de assombro.
Eu não sabia que tu vinhas,
ponto de luz sobre o horizonte,
e às vezes dava por perdida
essa batalha contra a foice

de um desespero que trucida.
Touro de luz, forma de amor
a um tempo íntima e inaudita,
tu, a caminhar como caminhas,
com a retidão dos homens sós,
soubeste ver nas entrelinhas

do desencanto o meu melhor,
espécie de novo batismo
dentro das águas de teus olhos
místicos, límpidos: teus olhos
lançando, em busca de um destino,
sua chama em torno — são meus sóis.

Touro louríssimo, antiquíssimo,
esse céu triste, que revolves
em teu sonho sôfrego, habita
também as mágoas de meu corpo —
é o mesmo céu que, enfim, nos liga
pelo tendão da angústia, exposto.

Como se não bastasse, temos aí o trabalho desbravador da Editora Mondrongo, na figura de seu editor, o poeta Gustavo Felicíssimo. Visionário, Gustavo tem nos mostrado que há poesia no Brasil. Não essa divulgada, nas mídias (quando divulgada) ou nos livros didáticos (nos ensinando que poesia é, no mínimo, algo irresponsável), mas poesia em sua verdade. E a verdade grita!

Parabéns ao João. Parabéns à Lorena. Parabéns ao Gustavo e à Mondrogo. E que fique registrado aqui o meu MUITO OBRIGADO... Eu sou um leitor de poesia; sou eu, assim como tanto outros, que ganho com a vitória de vocês.

ENTRE MESTRES, AMIGOS E ESCRITORES...

Rodrigo Gurgel, Cristiano ramos e eu, na FLICA 2015... rindo dos "parvos".






A FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira) é hoje o evento literário mais importante da Bahia e um dos maiores do Brasil. Há meia década ela vem trazendo uma nova e imensa perspectiva sobre o mundo da Literatura, das Artes e da Política; aproximando autores de leitores, mestres de alunos... 

Em sua 5a Edição, a FLICA não podia fazer diferente. Homenageando um de nossos maiores romancista, o Antônio Torres e trazendo escritores e críticos literários renomeados e com os mais diversos estilos e linhas de pensamento.

Eu, mero garoto em meio a homens feitos; podre anão rodeado de gigantes, tive a honra de participar, este ano, de uma de suas mesas mais importantes e, certamente, aquela com o tema mais polêmico: "Entre críticos, parvos e professores". 

Eu que, aos 44 minutos do segundo tempo, fora convocado a dividir uma mesa deste porte, ao lado de nomes como Rodrigo Gurgel e Cristiano Ramos, fiz o que todo homem sem o mínimo de bom senso faria: aceitei (rsrs). 

Sobrevivi...

E fica, aqui, o meu eterno agradecimento às pessoas do Aurélio Schommer e Emmanuel Mirdad e toda a equipe da FLICA, por terem me agraciado com tamanha oportunidade e confiança, principalmente confiança... E, principalmente, por terem tornado possível o meu primeiro encontro com o amigo que sempre admirei, o Rodrigo Gurgel, pelo começo de uma amizade com o Cristiano; por ver, entre a plateia, amigos queridos de muitas batalhas, como Patrice Machado de Moraes e Gabriel Ferreira (autor da foto acima), minha esposa Lucifrance Castro (com seu cabelo flamejante); alunos e ex-alunos (como a Karolaynne Marques); colegas de escola (meus companheiros professores todos assistindo pela Web), outros escritores... Finalmente pude dar um abraço em Antonio Torres e em Bule Bule, por exemplo...

Meu humilde OBRIGADO a todos...

Fraternal e atenciosamente,

Silvério Duque


Para quem não pode ir, segue (na íntegra), todo o bate papo: https://www.youtube.com/watch?v=HCmxT1J94UQ

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

EU E RODRIGO GURGEL NA FLICA...






EU E RODRIGO GURGEL NA FLICA (FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE CACHOEIRA-BA)...


Há pouco tempo fiz uma postagem falando de minha alegria em saber que o professor Rodrigo Gurgel estaria na FLICA (Festa Literária Internacional de Cachoeira), este ano; do imenso prazer de conhecê-lo e de pode assistir, ao vivo, uma de suas aulas... Agora, imaginem meu orgulho quando, ontem à tarde, soube que meu nome constava na programação da FLICA e que estaria ao lado de Rodrigo Gurgel... Será, antes de mais nada, um grande orgulho pra mim (e uma imensa responsabilidade), dividirmos esse momento... Veja, aqui, mais detalhes sobre a mesa e a programação de toda a FLICA:

domingo, 13 de setembro de 2015

UM SONETO PORNOGRÁFICO...!!!








Uma pausa na aula de Literatura, sobre Vanguarda Surrealista, para discutirmos sobre a interpretação freudiana dos sonhos só poderia terminar em descontração e poesia; assim veio o mote: "sonhou que se afogava em um mar de gala"... em seguida, e, como prometido, ei-lo, o poema (rsrs):




SEGUNDO SONETO FESCENINO
(SOBRE UM TEMA DE ISABELLA OLIVEIRA)

por Silvério Duque



 O primeiro me vem com uma casseta
tão grande que me rasga a racha inteira.
O segundo, já pronto e sem besteira
me fode a boca como a uma boceta.

O terceiro, cansado de punheta
com uma pica enorme e sem zoeira
enfia em minha bunda galopeira
que pronta engole toda a chapeleta.

O quarto se contenta com uma bronha
e ainda tenho mão para outro pau:
é a foda com que toda puta sonha.

Mas, antes de perder de vez a fala
quero de cada rola o seu mingau
e assim eu me afogar num mar de gala.

domingo, 26 de julho de 2015

UM SONETO ERÓTICO...



Meu grande amigo, Elpídio Fonseca, manda-me um “mote” para um soneto erótico: “EU VI TEU CORPO NU À LUZ DA LUA”, mas lembra-me que o seu decassílabo heroico deve servi para um soneto erótico e não fescenino (pornográfico), qual o caso do último soneto aqui publicado em decorrência ao mote de Emmanuel Mirdad... Quem sou eu para deixar de mostrar ao público pouco afeito a esses importantíssimos pormenores linguísticos e estilísticos a diferença entre estes termos e, obviamente, contrariar tão grande amigo?! Espero que vocês gostem...



SONETO DE CONTEMPLAÇÃO
(SOBRE UM TEMA DE ELPÍDIO FONSECA)

por Silvério Duque







 Eu vi teu corpo nu à luz da lua
ou o brilho teu na lua refletido...?!
Por certo eu contemplara enternecido
a lua que na terra se fez nua.

Depois saímos luminando a rua
com o brilho de teu corpo revivido
e te entregaste a mim com o olhar tão vívido
como fizera a minha carne à tua.

Neste mesmo fulgor nos completamos
com a chama ideal já transformada
num ir e vir de luz que deslumbramos...

E assim permanecemos neste enleio:
eu, sarça imarcescível e alumiada
a derramar estrelas no teu seio.







Feira de Santana/Candeias 23-24 de julho de 2015.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

UM SONETO FESCENINO...







UM SONETO FESCENINO...





O poeta e amigo Emmanuel Mirdad fez-me o seguinte desafio:

"Acabo de ouvir um cabra xingando outro: 'A cabeça de minha taca'. Fiquei pensando nessa expressão. É sonora, e realmente agressiva quando dita com veemência. É a quantidade de "a"s, a força da "taca", mais fatal que um tacape, primal. Mais que isso: acho que é o título de uma poesia ainda não escrita pelo poeta Silvério Duque, um soneto erótico, que redime a expressão de seu uso como um xingamento, para uma épica celebração da virilidade masculina, tão apregoada pelo amigo escritor, cabra macho. Meu caro, cadê o poema"[sic]?



***



Amigo, Emmanuel Mirdad, ei-lo:












UM SONETO FESCENINO...

(por Silvério Duque)



— Menina, a ti quero foder-te inteira
pois sem rodeios quero arregaçar-te.
E não quero outro fim senão gozar-te
e encher de porra a bunda mais faceira.

Antes, verei meu gozo pela beira
de teus lábios que o sorvem com tal arte
que a ti eu dediquei um verso à parte
depois de terminada a bebedeira.

E tu hás de gozar um gozo pleno -
multiplicado - e à dor subjugada
pois nada há de bastar a um obsceno.

Mas toda moça já nasceu “malaca”
para domar a quem a fez domada
osculando a cabeça de minha taca.




sexta-feira, 12 de junho de 2015

HOJE, É DIA DOS NAMORADOS...





SONETOS DA SEDUÇÃO AMOROSA

ou PEQUENO CANTARES DOS LONGES
E DE CHEGADA

 (por Silvério Duque)

à minha sempre Lucifrance Castro






 Teu rosto eu vislumbrei em meus anseios
aquele a quem meu peito já previa.
O meu amor não morre com a saudade
nem se finda se há muito não te vejo.

Falo de ti como quem vem de um sonho
– por teu amor aceito a vida e a morte...
Se me reinvento agora e a cada instante
é porque te adivinho em cada gesto.

Como um mistério em si tão revelado
toda presença ao teu surgir converge
como um traço de giz em pedra escura.

E tudo quanto eu quero e quanto temo
há de fazer-se em ti para que eu viva
que o meu viver sem ti é um voar de cinzas.






II


 Saber-se pertencer é ser inteira
como um rio que persegue as próprias águas
e ter por sobre o rosto o rosto do outro
sem se importar ser nada à sua volta.

Sombras, rastros ou coisas desgraçadas
tudo é um pouco de ti – tua presença
por vezes arruinada e recomposta­
– qual teu cheiro na cama já refeita.

Meu corpo existe a reclamar teu corpo
(que o teu corpo é meu corpo revivido)
e o dia de amanhã já se faz logo
a me trazer tão leve sobre a terra...

A vida de minha alma é a tua alma
e o grão de meu desejo quer tua fome.










Alagoinhas/Candeias, 08-12 de junho de 2015.




domingo, 19 de abril de 2015

“BIRDMAN” ou A INEVITÁVEL VIRTUDE DA CONSCIÊNCIA

"Nenhum embate é mais significativo e violento para Riggan do que aquele entre ele e ele mesmo, ou melhor, entre ele e seu ego inflamado personificado na forma do personagem Birdman, que ele, por anos, interpretou, e, até hoje, vive à sua sombra". 







“BIRDMAN”

ou A INEVITÁVEL VIRTUDE DA CONSCIÊNCIA

(por Silvério Duque)


Ninguém vive verdadeiramente se não cai
sob uma forma ou outra de sedução.
GABRIEL LIICEANU







Imagine a seguinte situação: você é um astro hollywoodiano de primeira grandeza, daquele tipo de celebridade mundialmente conhecida, que a maioria dos simplórios mortais se mataria para ter um autógrafo, amado e admirado por milhões de fãs ao redor do planeta, mas tudo isso se fazia quando você interpretava um famoso herói dos quadrinhos, todavia, ao se recusar a fazer o quarto filme da famosa franquia, sua vida cai em desgraça; você vê ir embora fãs, aquela sensação tão gostosa, quanto inconveniente, de ser reconhecido e perseguido pelas ruas, sua esposa gostosa, sua filha, que cai no mundo das drogas e na depressão, você mesmo se arremessa em um quadro depressivo cada vez maior quanto mais seu dinheiro e prestígio vão ficando escassos, e, como se não bastasse, com o ego e o senso de realidade tão maltratados, os limites entre o real e o fictício se tornam cada vez mais tênues, ao ponto de você não saber mais se está com os pés no chão do mundo real ou voando por sobre suas próprias fantasias... Imaginou?! Bem, esse é o mote para um dos filmes mais frenéticos e bem realizados dos últimos tempos: Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance, Estados Unidos/Canadá, 2014), do premiado e controverso Alejandro Iñárritu e ganhador do Oscar de 2014.


O filme, que concorreu com uma penca de indicações, e trouxe, para as telas do cinema, outras tantas de discussões e referências literárias e filosóficas, mostra-nos a vida de Riggan Thomson (interpretado por um Michel Keaton excelente em tudo, a começar por uma relação direta que o ex-protagonista de uma das franquias de Batman possui com a história de seu personagem), ou dizendo melhor, um determinado – e determinante momento – de sua vida, que é justamente o autor cuja vida foi descrita na pergunta que fiz na introdução deste texto. É ele o ator que caiu em total desgraça no momento em que se recusou a fazer o quarto filme da franquia Birdman. Agora ele se encontra em seu camarim, no Teatro St. James, em Nova York, tentando se acalmar, ao tempo que procura entender quais os caminhos que o levaram justamente àquela situação, bem como àquele momento. Incerto de onde está e do que de fato fará, Thomson precisa voltar ao ensaio de uma peça que ele mesmo adaptou de um conto do Raymond Carver, e, que, de quebra, também dirige e ousadamente protagoniza. Essa é a sua tentativa desesperada de retornar ao prestígio e ao reconhecimento, mas, dessa vez, a um prestígio e reconhecimento bem diferentes; ele quer realmente provar a todos que é um homem deveras talentoso e que seu brilho e sucesso vão muito além de um “enlatado” para adolescentes sem noção.


Thomson não é o Ed Motta, porém, quer ser reconhecido como um ator para um público seleto, que valoriza de verdade o talento e a grandeza de uma atuação sincera. No entanto, ele se vê, de pronto, com um problema terrível, um de seus colegas atores é péssimo, e Riggan Thomson vê nisso um entravo considerável em seu caminhar de volta à fama. Todavia, quando um spot de luz cai sobre a cabeça de seu inapto colega, Riggan vê nisso um alívio que logo se transformará em desespero, pois não há um ator de calibre para substituí-lo até a pré-estreia de amanhã; todos os que Riggan pensa para acompanhá-lo, em sua empreitada, ironicamente estão ganhando milhões interpretando heróis, enquanto ele, que perdeu e está a perder milhões para se livrar de um, desespera-se.


Sorte de principiante – no teatro –, uma oportunidade única bate à porta de Riggan Thomson: Mike Shiner (um Edward Norton muito à vontade em um papel que poucos poderiam interpretar sem cair em estereótipos fáceis), o melhor e mais problemático ator em atividade na Broadway está apto para assumir o lugar ao lado de Riggan. É justamente aí que todos os conflitos que tornam Birdman um trailer de barroquismos sem comparação começam a tomar proporções tão imensas quanto desesperadoras. A partir daí tudo é muito rápido e acompanhado por um solo de bateria igualmente ininterrupto, que certamente deixou muitos espectadores do filme tão tonteados quando o angustiado Riggan Tomson, ao encontrar-se no limiar entre a verdade e a fantasia, entre o talento de Mike e sua capacidade indiscutível de semear a discórdia, entre ser lembrado pelo que fez e reconhecido por aquilo que ele está fazendo, entre ser uma “celebridade” e tornar-se de fato um “artista”, entre a fé e a descrença em si mesmo.


Ao lado desses conflitos, que começam a se desencadear sem quase uma única pausa para respirarmos, todo o filme assume um ritmo frenético e os acontecimentos vão se desenrolando de uma forma que, antes que percebamos o passado, o presente já se abre para o futuro e assim sucessivamente sem que muitas vezes percebamos os intervalos que existem entre um e outro. Além do mais, há vários momentos em que não sabemos se estamos a assistir o presente ou o futuro dos acontecimentos, se estamos na realidade ou na fantasia, se é o ensaio da peça ou a apresentação propriamente dita e, acima de tudo, não percebemos, muitas vezes, se estamos ao lado de Riggan Thomson ou se estamos mergulhados em sua mente e em seus delírios, como numa espécie de discurso indireto livre cinematográfico que o diretor Alejandro Iñárritu aplica a todo o filme. É com essa manipulação temporal e realista que Birdman torna-se ao mesmo tempo um drama com ares de uma comédia, uma composição erudita com ritmo e improvisação jazzística, e um verdadeiro samba do crioulo doido onde tudo é embate: Riggan deseja o prestígio e o reconhecimento de Mike, que esconde, ou finge esconder, seu desejo de ser alguém que todos reconhecem na rua, como Riggan; a esposa de Riggan deseja ser amada por ele, mesmo sem diminuir o rancor que sente pelo ex-marido, que não sabe como dizer ou demonstrar que a ama, por mais que queira; mesmo sem saber o porquê dessa necessidade, Riggan precisa ser um bom pai para uma filha (a excelente Emma Stone) indignada e desencantada com tudo, inclusive, segundo ela mesma quer acreditar, com o próprio pai; Riggan ainda tem que cuidar de seu empresário desesperado (Zach Galifianakis), com uma companheira de palco também insegura e desiludida (Naomi Waltts), uma namorada tarada e também depressiva (Andrea Risebourouth)...


Contudo, nenhum embate é mais significativo e violento para Riggan do que aquele entre ele e ele mesmo, ou melhor, entre ele e seu ego inflamado personificado na forma do personagem Birdman, que ele, por anos, interpretou, e, até hoje, vive à sua sombra. Ironicamente, ninguém chama mais Riggan à realidade dos fatos e das coisas do que seu “outro eu”, mostrando-lhe a falsidade, o vazio e o desinteresse que o mundo contemporâneo tem pela grandeza e profundidade que Riggan tanto almeja a esta altura de sua vida.


O tempo de tudo, ou melhor, das duas semanas que transcorrem todo esse corte na vida de Reggan Thomson se dá em duas horas, como um verdadeiro conto literário, numa aparente sequencia única de câmera e que acompanha o ritmo e a desenvoltura de seu próprio delírio, como em Arca Russa e Festim Diabólico. Tudo isso exige dos atores desse filme uma concentração absoluta para manter o espectador nesse clima atordoante que Birdman nos apresenta e se sustenta do primeiro ao último minuto. Onde todas essas coisas vicejam está o grande trunfo maior do diretor Alejandro Iñárritu: pôr Michael Keaton no papel de Riggan Thomson. Keaton está excelente, como nunca esteve em toda a sua carreira, impecável em sua técnica até os mínimos detalhes, mas também dono de uma emoção controlada e muito bem trabalhada que beira o virtuosismo (mesmo assim, foi-lhe negado, injustamente, o Oscar), e, além disso, ele, como já disse, tem um passado profissional que muito se encaixa na história de Birdman, que foi o de interpretar, como superastro dos anos 80 e 90, o papel de Batman, sob a direção de Tim Burton, e que enfrentou uma perda quase irreparável de popularidade ao se recusar a fazer o terceiro filme da franquia.


Levando tudo isso em consideração, Birdman não é um filme fácil, nem o poderia ser... Ele traz desafios técnicos e artesanais muito complexos, diversos e impressionantes e satisfaz os estetas e críticos de plantão, ao mesmo tempo que os critica de forma crua e contundente (reparem como o trabalho dos críticos é apresentado no filme, e como ele é um soco com luva de pelica em um grupo fechado que deveria ser responsável por ajudar as pessoas a admirar e compreender a obra de arte, mas se mostram incapazes tanto de ensinar quanto de admirar aquilo que veem e sobre o qual escrevem). Também o mundo contemporâneo e tecnológico, com suas celebridades fáceis e efêmeras, e seu vazio de conteúdo e perspectivas, são duramente criticados no filme, sem que se perca de vista a força que tudo isso tem para os dias de hoje.


Críticas e filosofias a parte, nada pulsa com mais força e fulgor do que o elemento humano presente e explorado extremamente ao longo de toda a película. Além do mais, há uma forte ideia de imortalidade presente no desespero de Riggan em fazer algo grande, que o ponha no panteão dos imortais, dos lendários ou dos meramente lembrados pelos seus grandes feitos. Riggan, como diria Kierkegaard, não quer fazer parte do “cardume dos arenques”, em que 99% da humanidade se insere. Ele precisa fazer a diferença da forma mais verdadeira possível ou enfrentará a pior das mortes: o esquecimento; mas não qualquer esquecimento, um esquecimento que começa em vida e estender-se-á daqui à eternidade... Se somos a nossa ação por sobre o tempo, é ele, o tempo, como pensavam os barrocos, o agente de toda morte e destruição; e o ego, nosso primeiro fantasma e mais infernal castigo.

















Candeias, num calorento 17 de abril de 2015


domingo, 5 de abril de 2015

FELIZ PÁSCOA...

"A Crucificação de Cristo" de Peter Paul Rubens (1611): Óleo; 219 x 122 cm – Museum voor Schone Kunsten, Antuerpia.











A CRUCIFICAÇÃO

(por Silvério Duque)



– É tudo leve agora... é tudo pó
sob este Céu envolto na agonia
e a dor que se imprimiu na pele fria
é a tessitura exígua deste Ó

por onde se desfaz o último nó
do vetusto preceito que podia
fazer da Glória Eterna uma porfia
vã pois todo homem nasce e morre só.

Mas a treva plantada sobre o lume
desvaneceu-se toda sob o abraço
de um grande amor sem mácula ou ciúme.


E assim se espera pela fé a nova
chama que brotará sobre o ocaso
pois pela Graça tudo se renova.



ESTE SONETO É PARTE INTEGRANTE DE MEU LIVRO "CIRANDA DE SOMBRAS" É Realizações Editora, 2011):http://www.erealizacoes.com.br/ecom/produtos_descricao.asp…

APROVEITEM E OUÇAM TAMBÉM: https://www.youtube.com/watch?v=OhOstwxcwWs