quarta-feira, 11 de maio de 2011

A RESTAURAÇÃO DA ORDEM...





Capa da tradução para o português de A Restauração da Ordem, de Michael P. Federici sobre o pensamento de Eric Voegelin, mais uma grande concretização de meu amigo Elpídio Mário Dantas Fonsevca e da É Realizações...












Eric Voegelin
A Restauração da Ordem









Autor: Michael P. Federici
Tradução: Elpídio Mário Dantas Fonseca









Edição 01
Formato: 13,5 X 23,3 cm
Número de Páginas: 216
Acabamento: Brochura
ISBN: 978-85-8033-020-5
Lançamento: 2011


Para o professor Associado de Ciência Política no Mercyhust College e Co-diretor do Centro de estudos constitucionais no Instituto Nacional de humanidades, em Washington, D.C., Michael P. Federici, poucos filósofos políticos do século XX podem arrogar para si um brilho tão original como o de Eric Voegelin (1901-1985), o filósofo alemão, radicado na Áustria, que, depois de fugir dos nazistas, lecionou a maior parte de sua carreira na Universidade Estadual da Louisiana. Nesta introdução ao pensamento de Voegelin, Michael Federici sintetiza o extenso corpus de obras de Voegelin, tornando acessíveis, para o erudito e leigo interessados, as contribuições deste filósofo.


Armado de um conhecimento espantosamente amplo em numerosas línguas moderna e antigas, o projeto filosófico de Voegelin era restaurar a ordem nas almas e nas sociedades humanas num século de catástrofe civilizacional. Para Voegelin, “a crise do Ocidente”, refletida nas guerras terríveis e no caos social do século XX, era o resultado da separação de nossa linguagem teorética dos encontros históricos e únicos com a transcendência que estão no fundamento da civilização ocidental. Como mostra Federici, Voegelin empreendeu dois esforços enorme para dar prova dessa tese em seus cinco volumes de Ordem e História e em sua História das idéias políticas, em vários volumes, publicados postumamente.


O fim último do projeto de Voegelin, argumenta Federici, era liberar os homens e mulheres modernos das garras das ideologias, que Voegelin caracterizava como construções simplificadas que sempre distorciam e obscureciam a verdade. Portanto, Voegelin era especialmente crítico do nazismo, marxismo, gnosticismo e cientificismo. Mas ele era também um crítico do cristianismo doutrinal e do conservadorismo, posições que Federici explica em minúcia. Federici também introduz o leitor à filosofia da consciência de Voegelin, difícil, mas influente, e inclui um glossário útil dos termos voegelinianos.


Leitores intimidados ou confundidos com a prosa freqüentemente intimidadora de Voegelin encontrarão no volume de Federici, o quarto da lista na série da ISI’s Library of Modern Thinkers, um guia inestimável a uma das mais imponentes – e mais impressionantes- mentes filosóficas.








A conseqüência é que a direção e caminho de sua obra não é reta e estreita. Há uma direção central, um foco, a sua busca, mas ao se lhe retraçarem os passos, cria-se uma visão caleidoscópica de sua busca pela ordem. Dependendo de que parte da jornada seja examinada, o quadro oferece perspectivas diferentes, mas não incongruentes.


Leitores que são estudantes mais experientes de Voegelin encontraram algum interesse neste livro; será um dos primeiros a oferecer uma introdução básica à teoria política de Voegelin; sua intenção é encorajar o estudo da obra de Voegelin, oferecendo um resumo de sua filosofia política.


Se o livro levar o estudante a explorar mais os livros e artigos de Voegelin, então terá alcançado seu objetivo principal. Dada a reputação de sua obra como intimidadora intelectualmente, se não impenetrável, um livro deste tipo se justifica como meio de facilitar o estudo de Voegelin, especialmente no nível de graduação. Mas nenhuma obra erudita, por mais bem escrita que seja, substituirá a leitura dos textos primários. Nem uma livro introdutório eliminará a frustração e dificuldade que sempre acompanhará o estudo das obras de Voegelin.


Obras filosoficamente profundas e penetrantes, diferentemente àquelas que fazem a cabeça e o ego mal intencionado de nossos ditos professores universitários, mas que nada são do que propagadores de um marxismo de segunda, seguido por pessoas Hugo Chaves e Marco Aurélio Garcia, exigem um investimento de corpo e alma que tende a ser tão desafiador como recompensador; não há atalhos. Parte do valor dos grandes pensadores filosóficos é a luta que se tem de ter para reviver-lhes a jornada existencial e imaginativamente. A apreciação da obra de Voegelin exige que a pessoa refaça, em algum grau, a jornada existencial dele. O que levou Voegelin a uma vida de compreensão e explicação não pode ser conhecido num pequeno período de tempo, ou pela leitura de uma monografia acerca de sua teoria política. Mas o investimento de tempo e de energia intelectual vale muito o esforço. A recompensa pelo estudo de Voegelin é uma maior compreensão da crise ocidental e um encontro com uma prescrição para a restauração que está entre as mais filosoficamente penetrantes nos tempos modernos e pós-modernos.


As iluminações filosóficas, política e histórica de Voegelin dão ao leitor uma compreensão teorética que se pode empregar para entender um período histórico que clama por explicação. Além isso , uma parada necessária na estrada para a pós-modernidade é alguma compreensão do que é a modernidade e o que significa no contexto filosófico e histórico maior. Passar além da modernidade exige que as deformações ideológicas do período moderno sejam purgadas da alma e da consciência do homem ocidental.



Nessa contagem, Voegelin tem poucos rivais...





















sexta-feira, 6 de maio de 2011

DA OLARIA À OURIVESARIA: ALOÍSIO RESENDE & O BIG BROTHER BRASIL DOS INTELECTUALÓIDES



Aloísio Resende (1900-1947), poeta negro, pobre e, supostamente, um beberrão freqüentador de candomblés e de quengueirosum... prato cheio para todos os oportunistas dos Estudos Culturais de plantão.




Nuestras convicciones más arraigadas,


más indubitables, son las más sospechosas.


Ellas constituyen nuestro límite, nuestros confines,


nuestra prisión.


ORTEGA Y GASSET





Parece-me, caro leitor, que a biografia moderna considera o homem em todos os seus aspectos, buscando fixar a humanidade do seu personagem. Pelo menos é o que afirma Edvaldo Boaventura em seu No Território da Palavra; seu objetivo “é a transmissão verídica de uma personalidade”; buscando o homem com as virtudes e os defeitos inerentes a raça humana. Mas, no fundo no fundo, em termo do que interessa realmente à poesia, estes aspectos estão mais para um Big Brother Brasil dos pseudo-intelectuais do que verdadeira ciência e literatura.



Olhem o caso de um Augusto dos Anjos, por exemplo: nem um poeta de nossas Letras foi mais vitimado pelos estereótipos do que ele – estereótipos esses advindos tanto dos leitores ingênuos como da crítica dita especializada, mas que nada mais é do que uma propagadora de tolos ideais etnocêntricos e multiculturalistas que pouco ou quase nada acrescentam à poesia e à sua verdade estética. O poeta paraibano, por mais que fosse, à sua maneira, um revolucionário, dono de um artesanato poético sem precedentes em nossa história, quase sempre foi focalizado como um tuberculoso sofredor e depressivo; um anti-herói errante em sua própria angústia e dor, representado, como diria Antônio Houaiss, por “versos herméticos, onde, por vezes, se escondem cisma extremamente patológicas, psicologia doentia”, et cœtera e tal.






Antônio Houaiss, também, nos lembra que, “em conseqüência dos usos simbólicos feitos por Augusto dos Anjos, de um material não raro de procedência científica, dos usos analógicos e corretos para fins de enlace estético e emocional, desde sempre se manifestou entre nós de interpretar a poesia de Augusto dos Anjos como uma poesia exótica, cuja chave – como a de Cruz e Souza – poderia estar na sistemática de certas doutrinas orientais místicas”... Já pensou?!






Mas muito longe de ser um poeta conhecido e aclamado, como Augusto dos Anjos o é, Aloísio Resende (1900-1941) não está livre de interpretações semelhantes; e, mesmo a sua exígua produção literária, torna-se vítima de uma “visão multicultural” que leva muito mais em conta os processos pessoais do autor como se esses valessem muito mais do que a sua produção poética ou como se estes fossem a poesia em si, não levando nem mesmo em consideração aquela máxima de Fernando Pessoa de que “o poeta é um fingidor”; máxima, aliás, que vale muito mais do que toda a obra de Raymond Williams.






Nascido na provinciana Feira de Santana, no início do século passado, Aloísio Resende era negro, pobre e, supostamente, um beberrão freqüentador de candomblés e de quengueiros; seguindo os caminhos da figura mística vitimada pela condição social, pela cor e pela escolha religiosa que escrevia versos como quem desabafa suas mágoas, em glorioso e talentoso protesto, tornou-se um prato cheio para todos os oportunistas dos Estudos Culturais de plantão, que o vêem como uma figura lendária destituída de seu cânone, mas sem olhar necessariamente (nem verdadeiramente) como poeta que era... para variar. Não conheço um ensaio, artigo ou crítica – inclusive esta – sobre Aloísio Resende cuja curiosidade sobre a sua vida boêmia, suas insatisfações pessoais e de uma improvável inadaptação social de sua parte não se sobreponha à sua poesia, muito menos à análise estética de sua produção poética que é a verdadeira essência da crítica literária, pois a crítica que não analisa é uma crítica que se quer acomodada e infecunda e que, à semelhança das velhas titias do século XIX, nada mais lhe resta, em sua vida miserável e desesperançosa, do que a observação deturpada da vida alheia.






Não pense qualquer um ao ler este artigo, que eu queira transformar Aloísio Resende num esteticista sem nenhuma noção de utilitarismo social, moral ou político, preso a considerações excessivamente racionalistas, ou como os parnasianos de segundo escalão que o precederam, numa típica “torre de marfim” estética, mas a verdade é que pouco importa, poeticamente falando, se o poeta feirense sofria preconceitos raciais, freqüentava terreiros de Candomblé ou se passava as noites a se embebedar numa atitude tipicamente vitimista, à maneira dos ideólogos etnocêntricos de nosso tempo, Aloísio, semelhantemente aos grandes poetas, sabe que a vida não deve ser contemplada com olhos demasiadamente abertos nem desesperadamente lúcidos, pelo simples fato de ser um homem de versos e não um sociólogo de Esquerda.






Nenhuma poesia que se preze deve subestimar os métodos estilísticos, muito menos desconsiderá-los. Uma crítica que se preocupa com os possíveis ideais marxistas de Graciliano Ramos do que com a sua escrita viva e objetiva, com a boemia de Vinícius de Moraes do que com seus sonetos de notável aprofundamento lírico, com a vida indistinta de Bruno Tolentino do que com sua poesia de incomparável abrangência estética é uma crítica de intrigas e mexericos, que deve ter Pedro Bial como patrono... só não é crítica.






No caso de Aloísio Resende, os elementos oriundos das religiões africanas parecem, à atordoada crítica literária predominante no Brasil, muito mais importantes do que os próprios poemas que os utilizam para fins que vão muito além do que eles representam. O mesmo erro que cometam há anos com o Augusto dos Anjos ao rotulá-lo de “poeta cientificista” quando este dito “cientificismo” é só mais um caminho para algo que vai muito além. O mesmo acontece com os elementos “afrodescendentes”, na poesia de Aloísio Resende: não passam de tijolos de uma construção maior e que vai muito além da mera referência étnica. E digo mais: o erotismo apresentado em praticamente todo a sua obra poética é muito mais intenso e centralizado e é um elemento primordial de seus poemas para o qual a sua dita africanidade trabalha intensamente. É só recordar de trechos como o do poema Iemanjá, onde a idéia que do objeto contemplado é maior do que o próprio objeto:







Quando, às vezes, obter se lhe pretende a graça,


dão-se-lhe macumba os mais lindos presentes,
pois, só mesmo Iemanjá, ditosos dias traça,
aos tristes corações de amores padecentes.







Mas, para estes multiculturalistas, que olham para as artes como um reality show atrasado e defasado, a tinta parece valer mais do que a pintura, o metal mais do que o anel ou o barro mais do que o vaso; aliás, mostrando-lhes um vaso, são capazes de enxergar o barro, a pintura, o verniz, as mãos oprimidas que o fizeram... só não enxergam o vaso. Incapazes de ver o óbvio esquecem que a poesia deste bardo baiano não é demasiadamente clara, nem facialmente inteligível, muito menos pretendeu ser um poeta de vanguarda só por usar termos como bozó, canzuá ou babalaô, muito menos abrir-se a heterogeneidades culturais de uma Feira de Santana provinciana, pelo simples fato de, em nenhum momento, se sobrepor às referências helênicas de uma poesia retardadamente parnasiana, como a sua.






A poesia de Aloísio Resende, como qualquer outra, pretende apenas comunicar – sem nenhuma ironia – com base muito mais em suas influências literárias do que qualquer outra coisa. E é uma poesia ordenadamente estruturada, mas sem grandes sutilezas, zelos retóricos e sem o desejo de carregar nos ombros as dores e os desmantelos humanos, por isso sua poesia deve ser lida, vista e analisada como poesia pura, sem nenhuma pretensão de ser nada mais do que isso, pois é só isso que verdadeiramente importa e, pelo que sei, o que, realmente, ele queria. Olhem o caso, por exemplo, deste belo soneto:





Vive deserta e triste a minha pobre rua,


por onde nem se quer um simples vulto passa.


Turva poeira de luz pelo espaço flutua,


enquanto bate em cheio a chava na vidraça.



Produz na ramaria o vento que perpassa
de preces um rumor, que noite dentro atua.
Trema na água empoçada a claridade baça:
corre como pavor na rua longa e nua.


De minha vela oscila a chama tênue e leve,


no quarto, que ficou de mil beijos vazio,


com a ausência de teu corpo alvíssimo de neve.



Todo o meu ser invade imenso desconforto,
corta na minha carne a lâmina do frio...


Chove. É o pranto hibernal de nosso afeto morto.







Aloísio, caro leitor, é um poeta da forma e ponto final, pois ele não poderia fazer escolha melhor, nem dentro de seu contexro histórico-social, muito menos em sua verve de art´fce do verso. A forma, como já tive oportunidade de dizer aqui, não trabalha em causa própria, ela realiza a idéia presente no poema, apropriando-a à rima, à métrica e ao ritmo, como afirmara. A forma é muito mais a realização de um conteúdo apropriado à rima ou ao ritmo do que o contrário; percebe-se, assim, que, para Camões, por exemplo, a forma, mais do que uma imposição estilística de sua época, é a única maneira pela qual sua poesia poderia se realizar, ao contrário da dos Românticos que, tomados de um sentimentalismo desenfreado e, muitas vezes urgente, pouco se utilizaram do soneto, porque seus emotivos frenéticos e alucinados não poderiam resultar em algo que advém, justamente, do racional e do amadurecimento paciente.






Nada disso, porém, impede que ninguém faça um soneto; já a qualidade deste soneto...






É bom lembrar, também, que a forma não estabelece o conteúdo de um poema, muito pelo contrário; a forma é o resultado mais imediato deste conteúdo e nada denuncia mais o vazio, ou a hipocrisia, de um poeta – intelectualmente falando – do que seu metro, do que sua forma. A sinceridade do teor de um poema mede-se, muito mais, pela sua disposição formal do que pela análise crítica de qualquer um que seja. Caso o leitor se recorde, no filme, Amadeus, de Milos Foreman, Salieri, interpretado por F. Murray Abraham, leva o Mozart, vivido por Tom Hulce, extremamente doente, para a sua casa, e o ilude para que continue a compor sua Missa Réquiem, em Ré menor, deitado naquele que seria seu leito de morte; Mozart o dita para que Salieri o transcreva à partitura (o que de fato teria acontecido, embora não com Salieri e sim com dois de seus pupilos, Joseph Eybler e Franz Xaver Süssmayr), por toda a madrugada. Mozart indica que baixos, em Lá, cantem o tema do Confutatis, junto com os tenores, na subdominante, acompanhados, na mesma linha melódica, por fagotes e trombones para que as vozes sejam multiplicadas; em sotto voce, seguem as vozes femininas... etc. Compasso por compasso observamos a construção deste trecho que, somando suas partes, criam um dos temas mais belos e ferozes de nossa música. Separados são sons sem muita conexão ou apoio, mas, juntos, formam uma cadeia de melodias de mais alto padrão já escrito.






Tudo isso parece, aos olhos inéptos, se repetir no filme Copying Beethoven, mas sem o mesmo resultado; e a cena entre Ed Harris e Diane Kruger lembra mais a “viajem” de dois maconheiros do que a instrução de um mestre ao seu pupilo, pois a inverossimilhança do resultado se sobrepondo à matéria e a forma que o compõe são demasiadamente insustentáveis. Enquanto, em um filme, figuras musicais se acomodam à partitura para resultar em uma impressão melódica, no segundo esta impressão tenta “se compor” na partitura. O que vemos, então, são dois episódios onde sentido não depende da narrativa em si, mas dos fatos do mundo exterior a que a platéia, mesmo não musicalmente educada, associe os episódios narrados, fazendo destes o símbolo daqueles. Assim no filme de Milos Foreman a sena é realisticamente aceitável enquanto que no filme de Agnieszka Holland só sobre o riso involuntário.






Por fim, mesmo o resultado mais belo produzindo é estruturado através de formas muitas vezes rudes e extremamente ortodoxas. Mas é o resultado que importa aos olhos leigos e preparados, já ao seu criador, o conhecimento das formas que moldam este resultado são, praticamente, tudo para ele. Não é toa que os melhores e mais maduros poemas de Aloísio Resende são sonetos...






Da olaria de uma poesia social que Aloísio Resende não tem, à ouriversaria paranasiana que sempre seguiu, é esta a questão que me levou sua à poesia e não esqueça, caro leitor, de lembrar isto aos responsáveis pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural da UEFS, só pra começar, pois alguém precisa ensinar alguma coisa àquele povo.



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Porque é assim que é... e quem pensar que é diferente o faz por ser idiota.






Alagoinhas, 05 de maio de 2011.









P.S. É uma necessidade vital, caro leitor, conferir a exposição de Gabriel Ferreira, intitulada BRINQUEDO DOS ANGOLAS E ORIXÁS: ALOISIO RESENDE E BEL PIRES... de 19 de abreil a 15 de maio, na Galeria de Arte Carlo Barbosa, cituada no Centro Universitário de Cultura e Arte, de Feira de Santana, rua Conselheiro Franco, 66, Centro. Como a de todo grande artista, na obra de Gabriel Ferreira elementos diversos se agrupam em diferentes aspectos para construir ir algo realmente belo, único, repleto de cor, verdade e significado, indo muito além daquilo que lhe serviu de mote, no caso, a poesia de Aloísio Resende, para que a vida seja mais... É para isso que a Arte serve.








Confira através do link: http://artistagabrielferreira.blogspot.com/2011/04/capoeiragem-candomble-e-poesia.html






















sábado, 16 de abril de 2011

UNIFICA, SENHOR, MEU CORAÇÃO...



Cristo crucificado de Diego Velázquez, (1639), Óleo sobre tela, 249 cm × 170 cm, Museo del Prado, Madrid, Espanha.





Unifica, Senhor, meu coração


e dá-me o espaço azul entre as palavras;


a Tua face inclui tudo o que existe,


e há em tudo o quanto existe o mesmo sopro;


dá-me os frutos refeitos entre as bocas,


a maciez da carne e seus suplícios,


estas cores advindas de Teus gestos.


Senhor, a noite é escura – e eu tão pouco –


e em tudo sou diverso e sou contrário:


o lugar, o desejo... estas distâncias;


vontade de partir entre os amplexos.


Torna, Senhor, um só o meu coração


perdido entre os cenários e as platéias;


faze de mim Teu instrumento e a Espera.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

INDESEJADA DAS GENTES III: EM ANTOLOGIA PERSONAL, POR JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO...

A jovem e a morte de Hans Baldung Grien (1510) 44,5 x 37,2 cm. Museu de Belas Artes, Bruxelas – Bélgica.

INDESEJADA DAS GENTES III


OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE E OUTROS ATAVISMOS:


UMA ELEGIA EM BUSCA DO TÚMULO DE MEU PAI, AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE



ANTOLOGIA PERSONAL


http://www.jesseprimo.blogspot.com



JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES NO "ENCONTRO COM O ESCRITOR", DIA 20 DE ABRIL...


O Encontro com o Escritor, projeto da Diretoria de Bibliotecas Públicas (DIBIP) da Fundação Pedro Calmon/SecultBA, realizado na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, recebe no dia 20 de abril, 15h, o escritor João Carlos Teixeira Gomes. Conhecido como “pena de aço”, poeta e autor do polêmico Memórias das Trevas - Uma devassa na vida de Antônio Carlos Magalhães, Geração Editorial - São Paulo, completa 10 anos da sua publicação em 2011. O escritor ocupa a cadeira nº15 da Academia de Letras da Bahia e publicou em 1985 um livro sobre Gregório de Mattos e a tradição da sátira peninsular (Gregório de Mattos, o Boca de Brasa) que foi muito bem recebido pela crítica e pelo público.


Outro trabalho de sua autoria, também publicado, foi Camões Contestador e Outros Ensaios. Além desses, participou, em colaboração, dos livros Dezoito Contistas Baianos, Da Ideologia do Pessimismo à Ideologia da Esperança, A Obsessão Barroca da Morte de Manuel Bernardes e Quevedo. Tem três livros de poesias publicados: Ciclo Imaginário, O Domador de Gafanhotos e A Esfinge Contemplada; livro, aliás, que, merecidamente, ganhou um ensaio, neste Blogger, na semana passada.


Encontros - Desde 2002 divulgando o trabalho de escritores baianos o projeto Encontro com o Escritor vem se consolidando na Bahia. Sendo um importante exemplo de valorização do escritor local, estabelecendo mais um elo de aproximação do autor e sua obra junto à sociedade em geral. O que se fortaleceu, ainda mais, com a publicação, no ano de 2010, do livro Encontro com o Escritor 2002 – 2009, obra que reúne 55 autores dos mais variados gêneros literários.


SERVIÇO:


O quê: Encontro com o Escritor


Quando: Dia 20 de abril (quarta-feira), às 15h.


Onde: Biblioteca Pública do Estado da Bahia, Auditório – 3º andar. Informações: 3117-6000/ 6084



GRATUITO

GABRIEL FERREIRA EM "BRINQUEDO DOS ANGOLAS E ORIXÁS": ALOISIO RESENDE E BEL PIRES

O artista plástico Gabriel Ferreira em sua mais nova e brilhante exposição...
A temática exposição BRINQUEDO DOS ANGOLAS E ORIXÁS: ALOÍSIO RESENDE E BEL PIRES entrelaça duas manifestações na cultura negra que me aprazem muito: a Capoeira de Angola e o Candomblé. Para colar estas duas manifestações, contei com a ajuda do trabalho de pesquisa historiográfica do mestre de capoeira e professor Bel Pires, o qual se engraçou com a poesia do Aloisio Resende (poeta feirense que viveu entre 1900 e 1941), assim como, contei com admiração pessoal que tenho pelo Candomblé.


Como o texto poético embala muitas das minhas ilustrações, facinei-me com a possibilidade de colocar tudo num mesmo prato de barro e despachar numa Galeria. Assim, segui inspirado pela poesia do Aloisio, chamado de Poeta dos Candomblés, pelo Bel Pires em alguns dos seus artigos científicos, para poder apresentar ao público mais uma das minhas aventuras pictóricas lastreadas em elementos textuais.


A mostra não é um apanhado geral a respeito da capoeiragem e do candomblé, não se trata de uma reedição acerca dos temas e sim uma abordagem bem particular através de pinturas com um discurso que versa, tece e aproxima as duas linguagens.


O Grupo Malungo, sob a coordenação do mestre Bel Pires, é grande incentivador do meu trabalho com a capoeiragem, pois, para além de emprestar o nome (Brinquedo dos Angolas), disponibiliza acervo fotográfico e bibliográfico para subsidiar a minha produção.



Autor: Gabriel Ferreira

Local: Galeria Carlo Barbosa/CUCA (Conselheiro Franco, 66, Centro, Feira de Santana - BA)

Abertura: 19 de abril de 2011.

Período da mostra: 19 de abril a 15 de maio de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

UMA ROSA PARA RENÉ MAGRITTE: JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES, POETA DO INDOMÁVEL


Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, óleo sobre tela, 1968.













Venho de mãos cruéis, maios sem lírios,


perseguido de espadas e de gritos...


JORGE DE LIMA















É dia 31 de março. Um amigo e poeta, Bernardo Linhares, presenteia-me com um livro – o mais singelo e perfeito dos presentes àqueles que amam a leitura – mas não sem, antes, tecer uma urdidura de elogios à obra que me oferta.





Em seu projeto gráfico, o livro é simplório, apesar de pertencer a uma grande editora, entretanto, chama-me a atenção, primeiramente, pela bela rosa rubra que se abre imensa e unânime, em um quarto vermelho – paixão sobre paixão, a qual eu logo reconheço como uma famosa tela de Magritte. Em seguida, fixo os meus olhos no título, A Esfinge contemplada, e uma profusão de imagens e mitos arrebata-me a atenção. Por fim, o nome de seu autor: João Carlos Teixeira Gomes, poeta baiano, intelectual de peso, ensaísta mordaz e grande estudioso de ninguém menos que nosso Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Da ultima vez que vi seu nome numa capa de livro, este o dividia com um, hoje, extinto Antônio Carlos Magalhães, pousando de mafioso. O livro era Memória das trevas, foi sucesso de público e crítica, revelando um período da política baiana tão obscuro e abjeto quanto o que vivemos atualmente, por mais pó-de-arroz que a propaganda enganosa, paga por nossos altos impostos, queira borrifar, consagrando seu autor como grande estudioso de nossa política e cultura.





Mas, e o poeta? O que dizer do homem de versos, dotado de uma condição divinatória, mesmo morrendo de amor, como Maiakovski e Drummond, pelas ideologias esquerdistas? O que dizer de João Carlos Teixeira Gomes e seu A Esfinge contemplada?





Logo, à primeira vista, é fácil perceber o domínio que seu autor possui tanto da técnica quanto de toda a esfera expressiva que esta técnica deverá abarcar. É um livro de emoções, é claro, toda arte busca “fazer sentir”, mas não se engane quem quer que seja que, neste livro, revela-se um lirismo barato e repetitivo; a poesia contida em A Esfinge contemplada é densa, inquieta e, deveras, contemplativa. À maneira dos grandes poetas que surgiram após o período modernista, João Carlos Teixeira Gomes se mostra possuidor daquela capacidade de realização que faz com que uma mera “pedra perdida de duro calcário espesso”, à maneira de um Drummmond, deixe de ser um objeto qualquer perdido em meio ao grande esplendor do mundo para tornar-se algo de inquestionável singularidade, fazendo-se perceptível e emocionante, mas se erguendo através da capacidade de elaboração técnica, de uma estrutura lingüística que tem início na mera emoção que fenômenos tão simples, como o desta “pedra in natura”, podem produzir em nosso espírito.





Era uma pedra perdida,


de duro calcário espesso.


Era uma pedra in natura.


Não era vidro, nem gesso.


No chão crestado jazia,


alheia às paixões do mundo:


argila da eternidade,


crosta do tempo infecundo.


Cauteloso, examinei-a


tomando-a na mão discreta:


— É algo que somente existe


em sua essência incompleta.


Corra o tempo fugidio


e há de ser sempre o que é:


forma pura que se basta


sem se dar conta nem fé,


massa vã que se empareda


num rude universo tosco,


presa dos próprios limites


contidos no brilho fosco.


Não pensa, não quer, não sonha.


Nada sabe nem aspira.


Mas eu, que choro e que tenho


um coração que delira,


que sinto o vibrar da cólera


e do fervor mais profundo,


eu logo serei fumaça


dissolvida além do mundo,


matéria desativada


ou pó de humana carcaça


— mas a pedra reinará


na glória turva do nada.


Daqui a mais alguns anos


(que depressa hão-de passar)


já serei fumo esvaído


- mas a pedra há de restar.


E assim ficará, invicta,


sem desejos nem remorsos,


pairando com soberbia


no que sobrar dos meus ossos.



Com raiva, num puro assomo,


tomei a pedra na mão


e lancei-a ao mar profundo:


nada buliu na manhã


nem a paz nimbou o mundo.


Pois à muda natureza


são coisas que não consomem


a dureza de uma pedra


e os sentimentos de um homem.





Tal capacidade só pode ser adquirida através de anos preenchidos de incansáveis estudos e repetidas práticas; a tal empreendimento, alia-se, também, à consciência de que a poesia, como toda arte, é oriunda de uma natureza concreta e intelectiva e que o pensamento reflexivo é tanto maior e necessário ao poema quanto melhor ele for, quanto mais verdadeiramente emotivo ele nos parecer. Pensamento e contemplação artística nascem da mesma inquietude, porque ambos estão no homem e nessa sua estranha mania de querer desvendar a vida em sua mais perfeita grandeza.





Sem dúvidas, só pelo evidente domínio técnico dos círculos expressivos, como diria César Leal, em sua Os cavaleiros de Júpiter, já poderia considerar João Carlos Teixeira Gomes como poeta, bem como um grande poeta, cuja característica maior seria o do domínio de tamanha técnica expressiva, mas este baiano, profundo conhecedor dos bardos ibéricos e de nossos melhores poetas, não se limitaria somente à descrição das pequenas disposições da alma, acalentadas por um cabedal de pragmatismos intelectivos; como todo grande poeta, dirige seu olhar ao passado e à mitologia, aos desejos e percepções, às emoções e ao pensamento analítico, expandindo-se em conteúdo e se restringindo no que diz respeito ao palavreado e à ornamentação lingüística. Tais características poderiam, inclusive, caber muito melhor em um sonetista, primeiramente, ofício, aliás, onde João Carlos é, numa linha histórica (só para contemplar a Bahia) que vem de Gregório de Matos a Ildásio Tavares, um dos melhores neste ramo seleto e cada vez mais raro em nossas Letras.





Entretanto, estas qualidades não se restringem a quatorze versos, à maneira de um Petrarca ou de um Camões, fazendo-se perceptíveis, também em seus versos livres, cujas camadas, tanto simbólicas quanto sonoras, não se permitem faltar. Desta forma, todas as qualidades de um bom poema podem ser encontradas nos versos de João Carlos Teixeira Gomes, independentemente da forma escolhida por ele, seja ela um soneto:





Minha única certeza é minha morte.


Virá festiva, com pendões vermelhos,


Provocadora com seu riso forte.


Mas me verá de pé, não de joelhos.



Pode vir de mansinho a forasteira


Ou numa orgia de ossos e fanfarras,


Com dois laços de fita na caveira


E o ágil chocalhar das finas garras.



Eu que os mares amei, e o sol tirânico,


Os flavos grauçás de dorso enxuto,


As moças de maiô e o vento atlântico,



Sereno hei de esperá-la em meu reduto.


E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,


A própria morte se porá de luto.



ou em (supostos) versos livres:







O silêncio habita


o parco instante da alba e do crepúsculo


o olhar embaciado do morto e suas mãos


a deserta sala onde um relógio soa


o cais ausente de navios


o balé das alegorias nos cemitérios


o vôo do anjo de mármore para além da haste


as pausas das grande sinfonias


certos afagos noturnos que antecedem o êxtase


a tarde nos claustros, a partir da 17ª hora


os sutis deslocamentos da alma


uma folha caindo no outono (ou fora dele)


o lento périplo dos dedos pelo corpo amado


o círio que arde


uma estrela entre nuvens


o vôo do morcego aprisionado na gelatina da noite


as fotos antigas que imobilizam o tempo (e o denunciam)


o caminhar das formigas na superfície do mundo


a praia na maré morta


o musgo que cresce nas ruínas


as ruínas que não souberam tombar


a imobilidade das folhas


o passado


o vestígio de um asa na tarde morrente


a água que goteja no carramanchão


o écran da TV desligada, com um grande olho a espreita


a nuvem à esquerda, no ocaso


a gestação do mel e das resinas silvestres


os infinitos espaços e a sua malha de órbitas


a germinação do rancor


a estação vazia, após o último trem


o amor que é a ânsia, mas não se confessa


a chama das lamparinas de oratório


a fenda Tundavala e os tandos da Gorongosa, que conheci outrora


o instante em que o segundo se fez hora


a vela decalcada na manhã móbil


a música gestual das bailarinas em levitação


os conluios do tempo e da morte


a mão que pinta


um bater de pálpebras...





Desta maneira, neste Universo de grandes elaborações poéticas, João Carlos Teixeira Gomes, em momento algum, ignora o critério e a disciplina, no sentido do apuro textual, fundamental aos grandes mestres, pois sabe que a poesia é amais perfeita das artes e, assim, reverencia, por assim dizer, a construção de sua poesia como algo pleno de significados e não um jogo simplório de palavras e de aproximações sonoras. Por isso mesmo o autor de A Esfinge contemplada pode muito bem colocar conflitos emocionais e inteligibilidade, no papel, com total efetividade e, desta maneira, ser muito bem chamado de poeta.





Mais do que um discorrer lírico sem pretensões, A Esfinge contemplada dá vazão a uma intricada soma de visões tanto dialógicas quanto dialéticas, reforçando, assim, os aspectos dramáticos, presentes em todo o livro, e estabelecendo, destarte, um fio condutor que vai de poema a poema, unificando o livro numa idéia de poesia culta, mas sem perder de vista a emoção contemplativa que todo homem, um dia, esboçará diante do mundo e de toda a sua grandeza, através de temas como Deus, Vida, Morte, Ser, Tempo, Destino, Mistério, tão caros à poesia e ao nosso desejo primordial de inquietude metafísica, bem como o de transcendência. Tal atitude só pode ser entendida como algo que provem de um homem profundamente situado dentro de seu contexto poético, a exemplo de um Jorge de Lima ou de um Bruno Tolentino, que, por vezes, o leva a certeza de que a missão da arte é elevar nosso saber e consciência aos supremos interesses do espírito, como diria Hegel. Contudo, com a morte da fé e da crença, entre os homens de espírito elevado, na própria imortalidade deste espírito, assistimos a morte da arte e de suas formas mais sublimes, como bem demonstrou Alfred Miller. Daí, haver, em nossos dias, tão poucos “poetas” preocupados com “os grandes interesses do espírito”, tão poucos verdadeiros, quase nenhum gênio a desatacar-se entre os medíocres, pois, hoje, são os “grandes” os medíocres de outrora.





Seja por fé verdadeira, ou o mero fingimento de poeta do qual falava Fernando Pessoa, a idéia de crença e de transcendência, presente em A Esfinge contemplada, desempenha um papel de grande relevância entre os maiores nomes da poesia contemporânea e representa uma tomada de posição de um artista diante dos engodos hodiernos de nossos pintores abstratos que não sabem fazer figura, de nossos poetas de “versos livres” que não sabem fazer soneto, dos críticos que só leram as orelhas dos livros que criticaram, dos que fizeram tese sobre Baudelaire sem nunca terem lido Baudelaire, etc.





Tal desempenho (e representação) se torna mais intenso quando o poeta nos permite contemplar, em sua própria poesia, as muitas influências que recebeu como um grande alinhavo de criações intertextuais, a exemplo de uma estreita relação com Augusto dos Anjos e Jorge de Lima, como neste Soneto Negro:







À meia noite, quando os sonhos nascem,


gordos morcegos e fosforescentes


dos tredos bosques, onde os medos pascem,


em bandos saem, a assustar as gentes,



se os esqueletos por ventura andassem


sacolejando seus ossos trementes,


tantos sustos, talvez, jamais causassem,


como essas fúrias de raivosos dentes.



São mensageiros do reino das brasas


em bruscas rendas das humanas rotas


que a tudo afligem com as negras asas.




Fuja logo o infeliz que pode vê-los!


Pois quem comanda tão sinistras frotas


é Lusbel, o senhor dos eternos gelos.





ou na profusão crômica e sinestésica, típica de um Sosígenes Costa ou de um Carlos Pena Filho, neste belíssimo Soneto marinho:







Confluências do Azul. As vergas altas


implantam um Mondrian na paisagem.


Ao deslocar-se a vela móbil crava


um ócio branco em luminosa aragem.




Emerge em arco, além, a fímbria alva


de dura fraga em salitrosa espuma.


O salso dique a preamar destrava,


nas vagas corre a solitária escuma.



Ao sol a pino o meio-dia é brusco.


Arando o ar ardente sobre as telhas


o dia é frágil como um vaso etrusco.



Voa a manhã nas asas das abelhas.


No mar intemporal dorme um molusco


que algas rodam em cândidas parelhas.



Além do mais, esta carga de influências positivas, e tão bem impregnadas de capacidade intelectiva quanto técnica, conferem a João Carlos Teixeira Gomes uma realização plena, a exemplo dos mais laureados dos poetas. Todavia, muitos consideram uma obra como A Esfinge contemplada, como “antiquada e classista”, dada a nossa incrível tendência a obviedade a ao simplismo, escondidos sobre o manto da “revolução” e do “vanguardismo” que, negando-se, como nos atentou César Leal, à peneira das perspectivas e o crivo do tempo, preferem, principalmente em nosso querido Brasil, perpetuar a “fase de choque”, insistindo na sistemática negação de valores estabelecidos e impulsionados por nada menos que o ressentimento, a inveja, as frustrações pessoais, a carência de talento e pela vaidade de inapto.





Quando os meios de comunicação, as Academias, os centros de educação e tudo o mais que deveria salvaguardar certos princípios e normas dogmáticas, são tomados e dirigidos pelas hordas que deveriam combater e afastar, entende-se o incompreensível facto de homens como João Carlos Teixeira Gomes e Ildásio Tavares (só para ficar pela Bahia) serem renegados a segundo plano, esquecidos em edições poéticas esgotadas, e, quando lembrados, destinados a funções mais “benquistas”, como a de pesquisador, professor universitário, ao invés de poeta ou de homem engajado ao invés de homem universal.







Construindo uma idéia de fim em si mesmo, toda uma geração chegou ao ano 2000 acreditando na terrível mentira de que a poesia brasileira não nos deu mais nada além do que nos foi imposto pelo Concretismo ou pela Poesia Marginal e, se há poesia, ainda, entre nós, esta se encontra nas canções do Chico Buarque e do Caetano Veloso, e não em nomes como Adelia Prado, Neide Archanjo, Reynaldo Valinho Alvarez, Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo, Érico Nogueira, Rodrigo Petrônio, Patrice de Moraes... Nossa “intelectualidade” adulatória, incapaz e inerte para as grandes questões humanas, mais e mais se mostra destruidora do estudo honesto e de uma visão crítica que realmente veja as coisas como elas são e não como aparece ao seu interesse quanto mais espalha suas ideologias cruéis e vazias por nossas Universidades.





Alheia a estas maquinações cooperativistas de nossos intelectuais, a poesia de João Carlos Teixeira Gomes chega-me mais de vinte anos depois (a edição é de 1988), como uma das obras mais elaboradas e representativas de nossa Poesia Contemporânea... Uma poesia que se abre cada vez mais nova e mais bela como aquela imensa rosa na Le tombeau des lutteurs, de René Magritte, entre o desvendar da modernidade e o cultivo consciente de uma tradição poética cada vez mais forte quanto mais reaparece. A Esfinge contemplada, principalmente com seus sonetos, arrebata qualquer leitor para uma atmosfera super-elaborada do universo poético (e do universo formal da grande poesia) cuja essência se encontra nas muitas questões de natureza existencial que ele suscita. Algo que só alguém que aprendeu a dominar os intricados meneios que a poesia pode criar, verdadeiramente.







Poesia, este enlaço àquela verdade sublime e indômita que se chama Beleza.



















Salvador/Candeias, 05 de abril de 2011.