segunda-feira, 1 de agosto de 2011

UMA CRÔNICA PATERNA...





 Pai e Filho de David Teniers (1648), óleo sobre tela, coleção particular.




Hoje, soube que serei pai...


Que loucura que eu cometi, meu Deus. De todas as besteiras que fiz em minha vida esta, sem dúvidas, foi a maior de todas.
Porque só mesmo um louco para ter um filho. Um louco ou o mais irresponsável dos inconseqüentes, pois o que nos dá, realmente, o direito de arremessar num mundo e numa existência – que sabemos perigosa e decepcionante – alguém que jamais pediu para isso?


Ter um filho é uma tola sucessão de enganos e mentiras. Enganamos, primeiramente, a nós mesmos quando pensamos que os filhos são nossos, que nos obedecerão, que nos darão as mais diversas e verdadeiras alegrias, que serão a redenção de nossos sonhos, de nossas frustrações, porque eles serão aquilo que já não conseguimos ser e et coetera? Nada os impedirá, entretanto, de eles escolherem coisas diferentes as que queremos escolher para eles; daí, só nos restará sofrimento, dor e outras tantas frustrações para compensarmos. E quem as compensará... nossos netos? 

Sofreremos tanto com isso e mais ainda os nossos filhos, talvez.


Não há coragem nenhuma em ser pai ou mãe: é egoísmo puro e tirânico; quando não, masoquismo. Queremos, literalmente, impor a alguém a nossa maneira de ver e compreender o mundo, a vida que achamos melhor para ele, sem, se quer, acharmos que ela é melhor para nós mesmos, a educação, a profissão, o sexo, os sonhos... O que nos dá o direito de tamanha crueldade? O que nos dar o direito de dizer, seja a quem for, o que e como deverá ser, agir, pensar, viver. Além do mais, quanto sofrimento nos impomos ao amar alguém para além de nós mesmo, buscamos mudar nossos defeitos, tornarmo-nos os melhores entre os melhores e isso é cruel, pois abrimos mão de muitas nossas liberdades, desejos, esperanças por causa de quê: de uma maquinazinha de fazer cocô que chora e come o dia todo, roubando de nós todo tempo e atenção; atenção esta que poderíamos dedicar aos mais sublimes projetos ou aos mais sinceros e nada construtivos ócios.


E, se já não fosse o suficiente, temer; temer muito por algo que julgamos ser nosso, sem que jamais o tenha sido verdadeiramente, pois é para se afastar de nós, para ser independente, não é, que os criamos, não?


São, para o mundo, os nossos filhos. Este mesmo mundo por nós repudiado; mundo que julgamos feio, violento, corrupto e que, por meio da mais irresponsável e insana das atitudes, impomos a uma criatura inocente e pura, vitimada por nossa tola necessidade de continuidade biológica ou nosso arbitrário dever religioso de multiplicidade. Tudo isso é tão óbvio, tão claro, tão certo, verdadeiro...


...mas, apesar de tudo isso, porque é que eu estou tão feliz?!










Candeias, 27 de julho de 2011. 






quarta-feira, 20 de julho de 2011

A BALADA DE INÊS...


Súplica de Inês de Castro de Vieira Portuense. Óleo sobre tela (165X275); Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.








– Verás, amada minha
tuas mãos terminadas em segredo
sobre um peito de sopros findos
e então sentirás dentro de ti uma completude
como as folhas que mortas deixam nua aquela essência de vida
que as árvores nos trazem sobre os galhos
secos e escuros, como a carne que à terra volta
pois é da terra a carne, como do vento
a nuvem e sua possível imagem.



Também verás
os teus olhos fechados em repouso
e, na noite escura dos desejos sólidos
velar teu sono, com mil olhos claros
o coração que sofre de amor e de saudade e
que um dia, em tarde clara disse-te em segredo
“Amo-te!”, como ama em segredo, ao sentimento, a Sabedoria
pois é do mar o cais e a imensidão
que amedronta e também encanta.

Nesse momento, amada minha
quando fechada sobre um leito de duras sombras
combinadas: a dor, a ausência e a distância
na noite imensa de teu coração tão quieto
verás o meu Amor refeito em sonho leve
e toda a realidade te parecerá vazia,
como um Céu que um dia olhaste sem ternura e sem verdade...







BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE "CORISCO VERMELHO EM CASA CAIADA"... O MAIS NOVO LIVRO DE MIGUEL CARNEIRO


Editora: Virtual Books

Autor: Miguel Carneiro

Ano: 2011

Páginas: 89 il.

Formato: 15,5x21cm

ISBN: 978-85-98493-66-4

Como adquirir: através do E-mail: miguelcarneiro@hotmail.com.br















BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE



CORISCO VERMELHO EM CASA CAIADA



O MAIS NOVO LIVRO DE MIGUEL CARNEIRO












Meu Deus! Já deixamos

a praia tão longe...

no entanto, avistamos

bem perto, outro mar...

ASCENSO FERREIRA
























Alguns elementos estilísticos e estruturais, presentes no mais novo livro de Miguel Carneiro, Corisco Vermelho em Casa Caiada, revelam um talento nato e inquestionável, aliando-se a uma vigorosa consciência artística, pouco afeita a certos romantismos de onde sua prosa parece ter beber, extremamente identificada com a com a natureza, com a realidade, bem como ligada demasiadamente a uma prodigiosa e inventiva memória, desenhando ora auto-retratos, ora confissões... ora a mais profunda reconstrução de si mesmo.






Não tenho nenhuma dúvida de que a obra de Miguel Carneiro é muito maior e mais importante do que imagina a grande maioria de nossos leitores, críticos e ditos estudiosos de nossa literatura, desacostumados a uma produção prosaica e poética capaz de captar, como nenhuma de sua geração, bem como aos de seu métier, a essência da vida espiritual do povo simples de sua região de origem com inegável engenho artístico e técnica lingüística, além de uma grande sinceridade em tudo o que escreve e como escreve; embora, para muitos, a obra de Miguel Carneiro pareça o resultado imediato de uma “sabedoria tosca”, basta uma leitura cuidadosa e verdadeira em suas intenções para descobrir de que se trata da produção de um autor que conhece muito de nossas tradições e heranças da literatura medieval européia, ainda tão abundante em nossos sertões. Como se já não fosse o suficiente, o talento natural na construção de suas formas expressivas, fazem de Miguel Carneiro um autor intrigante, de onde uma descoberta pode sempre surgir da esquina de um parágrafo ou no âmago de um termo ou expressão sertaneja, por exemplo, que lhe surge tão natural e inventiva, não se apresentando, por sua vez, como produto reciclado dos artificialismos lingüísticos que parecem moldar autores em toda parte... e para todos os gostos.






Entre os escritores baianos em plena atividade, nestes últimos trinta anos, que se dedicam à prosa, Miguel Carneiro é o que melhor demonstra habilidade e franqueza de criação, cujo funcionamento não depende totalmente de mecanismos estilísticos facilmente apreendidos por viés dos moldes acadêmicos, mas de elementos extremamente significativos e engenhosamente dispostos de modo a passar despercebidos de nossos leitores e críticos descuidados... e, muitas vezes, despeitados.






Em sua prosa, a construção de imagens, que constituem a própria imagem de seu pensamento de escritor, cede lugar ao peculiarismo da língua e a emoção como princípio determinante para as mais diversas situações encontradas em suas estórias; tudo para alcançar a máxima plenitude de significado e beleza, pois Miguel sabe planejar – como poucos – os instrumentos mais característicos da poesia e da prosa de raízes populares, não sofrendo, como muitos, o dilema de construir uma literatura elaborada com a melhor técnica artística, mas completamente desprovida da mais simples beleza, graça e sinceridade. Além do mais, o que chama muito a minha atenção para a prosa de Miguel Carneiro é a sua fácil distinção entre o regionalismo maduro, sobrepondo-se ao sertanismo ingênuo, tão difundido e confundido entre os nossos consumidores de literatura – quando não por nossos escritores sem noção de um quanto do outro... isso quando não têm noção de nada. Nesta diferença, o servilismo diante da paisagem geográfica desaparece e a natureza não se apresenta como determinante ao espírito ao à natureza humana. Com Miguel Carneiro, o erro mui comum de moldar o homem à semelhança do espaço geográfico – como o fez até mesmo Graciliano Ramos – não existe como necessidade. O meio geográfico apresentar-se-á apenas como mero condicionador às condições e às relações humanas e não como um determinador. Se a literatura de Miguel Carneiro tem erros – e é lógico que tem – não é este o maior, nem o mais constante, muito menos o mais difundido... mas, ao contrário da grande maioria de nossos críticos, são as virtudes dos autores que me interessam, não seus pecados; sejam eles naturais ou forjados.






Miguel também não distingue seus personagens pelo seu “modo” de falar, não amesquinha seus tipos por mera convenções de linguagem. Tal apresentação tem sua hora certa de aparecer e de sumir, evitando a artificialidade e a imitação barata de certos diálogos toscos e exteriorizados, como os tenho visto em muitos de nossos contemporâneos – mesmos os mais afamados e, já há um tempo, “academizados”. Ao invés disso, Miguel Carneiro aprofunda mais ainda seus aspectos regionais, apropriando-se de uma verossimilhança muito intensa e muito típica aos grandes escritores deste estilo, principalmente por sua convivência pessoal entre esses muitos sertões e sertanejos, permitindo que a fala da vida se acomode à fala ficcional, mas sem se perder no tipicismo puro, no pitoresco simplório, na cor-local burra, no sertanismo idealizado ou mesmo na cópia barata dos neologismos e caboclismos de Guimarães Rosa. Para sustentar o que afirmo, a respeito da sinceridade deste aedo de Riachão do Jacuípe, é que sua obra não cai no jogo perigoso do tratamento postiço da linguagem, nem da falsidade estilística... e o leitor, ganhando com isso, agradece. Mas, faz-se necessário reconhecer as limitações comuns a todas as formas de métodos – e esta crítica diz respeito, principalmente, a mim mesmo – quanto maiores e mais amplos no que se refere às variações estéticas e não colocar Miguel Carneiro como escritor regionalista (simplesmente); rótulo que, como todos os estereótipos, seria injusto, limitado e de fácil reconhecimento da preguiça intelectual de seu crítico – Vixe! –, pois Miguel tanto transita pelos aspectos trágicos e épicos do regionalismo pós 1930, como por uma peculiar maneira de reinventar o realismo-fantástico, bem como o conto policial e a crônica política e cotidiana, muito embora sejam os dois primeiros aspectos os mais presentes, os melhor elaborados, bem como os mais predominantes, sem seu instigante Corisco Vermelho em Casa Caiada, como podemos ver tanto na abertura do conto que intitula o livro, ou no sensual e fantasmagórico Breviário da Danação... que encerra a coletânea.






Miguel Carneiro maneja, como habitual destreza, as formas mais características das prosas de origem popular ao tempo que se mostra habilmente capaz de sustentar uma narrativa fantástica sem mascará nenhuma nem outra com o uso de cacoetes lingüísticos ou de estilo. É literatura simples e pura, buscando-se sempre assim, optando por uma clareza e uma objetividade marcantes, mas sem deixar de fazer literatura por conta disso. Miguel, como todo bom autor, é livre para tratar e escolher seus temas, através de uma linguagem que se faz por formas e conteúdos tanto realísticos quanto tanto realísticos quanto imagéticos, dissonando-os numa atmosfera demasiadamente onírica, muitas vezes, embora com objetivos muito verossímeis, quão singulares. Sob esses aspectos, a literatura de Miguel Carneiro não rompe com os modelos mais tradicionais de nossa literatura e é, talvez, nesta fidelidade às tradições que se encontre a fácil absorção de um conteúdo tão vasto em sua prosa e isso é muito bom, porque esta essência tradicional e profundamente emotiva faz com que muito não se perceba de sua elaboração e engenhosidade literárias, o que, para mim constitui uma grande virtude ao trovador Miguel Carneiro.






Por fim, considero Miguel Carneiro um grande autor que se fixa muito bem ao corpus Universal do fazer literário, diferentemente aos seus contemporâneos – e aos meus também –, cuja grande maioria sustenta-se apenas pelas estufas do cooperativismo porco e da “propaganda jornalística”, mas que facilmente morreriam se cultivadas pelas mãos exigentes dos leitores mais ávidos e hábeis, porque que sabe fazer literatura por ser talentoso e por saber reconhecer o real valor daquilo que faz; coisas que a história leva bastante em conta na hora de eternizar aqueles que são realmente grandes. E Miguel Carneiro é realmente grande em sua força literária e domínio estilístico, mesmo que à sua maneira, por assim dizer. Todavia, se alguém duvidar... que pague pra ver.



























Candeias, 18 de julho de 2011




quarta-feira, 13 de julho de 2011

JORGE ELIAS NETO... DUAS PALAVRAS...






Jorge Elias Neto (1964) é Natural de Vitória, Espírito Santo. É médico cardiologista, pesquisador e poeta. Autor de Verdes versos (Vitória: Flor&cultura, 2007) e Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&cultura, 2010). Também tem poemas publicados em diversas antologias poéticas. Participa de vários portais e sites de literatura. Escreve o blogger O Estalo da Palavra.







Pelo muito pouco que sei, há apenas um caminho para se alcançar a verdadeira poesia; este caminho consiste na busca incessante pela forma, adequando-se à idéia que a precede e a exige, e no preceito de que nada deve ficar além o necessário.




Na poesia não a lugar para o supérfluo ou para substituível.




Jorge Elias Neto, pelo que tenho apreciado em seus poemas desde seu Verdes Verso, ao seu mais recente trabalho, Rascunhos do Absurdo, com o qual, não faz muito tempo, gentilmente me presenteou, entende muito bem este preceito e, pelo visto, tem seguido e vencido este caminho.




Vale apena conferir, também, a entrevista que Jorge Elias Neto concedeu ao poeta Hilton Valeriano, em seu Blogger, Poesia Diversa:







http://poesiadiversidade.blogspot.com/2010/06/entrevista-com-o-poeta-jorge-elias-neto.html#comments













SONOLENTO







Quisera eu poder contar-te tudo, lúdico luar...
É que pálpebras me pesam de mais um dia...
Mas bem sei que, entre amantes, basta um sutil entreolhar,
para retirar dos guardados a palavra fugidia.


Mesmo assim, me esquivo dos teus olhos, cândida Lua...
É que as verdades fogem mais fácil de um olhar cansado...
Sei, entretanto, que é inútil querer poupar-te do que se insinua.
Em cada gesto tenso de meus dedos crispados.

Queria deitar-me em teu colo, luar idílico.
Apagar de minha mente esses pensamentos nômades;
e num ressonar de anjo te dizer de meu medo.


Só que a bruta vida que me faz ridículo
fez-me preso a esse chão de homens distantes.
Parto... outra vez sem ti... para o sono... com meus segredos...














Jorge Elias Neto
(Verdes versos - ed. Flor&cultura - 2007)










sexta-feira, 17 de junho de 2011

SONETO DAS PROCISSÕES...


A procissão de Santo Isidro de Goya (1820-23), Óleo sobre tela e painel, 140X438 cm, Museo del Prado, Madrid.









ao poeta e amigo, João Carlos Teixeira Gomes











Diante de mim se estendem mãos piedosas,
que um anjo fez brotar entre os instantes,
em que se avistam as coisas luminosas
e cujos olhos meus ( tão vacilantes )

esquivam-se da luz e dos agravos
e negam-se à beleza, antes cativa,
sob este céu de arroubos constelados,
onde o meu ser se aloja às coisas vivas

agitando-se no ar qual velhas flamas;
como fantasmas que, no arder, se esquivam
das sombras que lhes roubam as vivas chamas,

louvando a noite como a um deus risonho –
feito a tola esperança dos que se amam –
surgido do vazio como de um sonho.













"QUE DEUS GUARDE MEU PAI"... CONSIDERAÇÕES DE JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO SOBRE UM DE MEUS POEMAS...




São Jerônimo de Antônio Peredas (1643), Óleo sobre tela, 105X84 cm, Museo del Prado, Madrid.













INDESEJADA DAS GENTES III:



OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE E OUTROS ATAVISMOS:



UMA ELEGIA EM BUSCA DO TÚMULO


DE MEU PAI, AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE





(Improviso)



– Quando soube de ti,


já eras morto;


nem nunca tive em mim palavra tua


que não me fora dada


de outra boca;


vives em mim como os santos


sobre as abóbadas de ouro


nestes antigos templos,


onde o amor é demais para tão


simples lembrança


mas reconheço em mim a trajetória secular,


a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência


mesmo sem nunca ter te visitado


os ossos,


ou


o teu rosto


nos retratos.









Este é o segundo poema do volume Ciranda de sombras, de Silvério Duque, ao qual faço um comentário e que também trata da morte e, de certa forma, de uma perda. Digo “de certa forma”, uma vez que, no primeiro caso, a perda é de entes queridos, com os quais houve uma intensa convivência e que foram todos, graças a um sentimento de vingança, mortos num curto espaço de tempo: um marido e todos os filhos. No presente caso, há algo como uma perda, mas de uma perda daquilo que nunca se teve e nem por isso perde sua importância.





É, por outra, uma forte presença de alguém que nunca foi visto. Para ser mais preciso, é a forte presença da história desse alguém, da sua memória(...nunca tive em mim palavra tua/ que não me fora dada/ de outra boca;), e de como essa memória se faz presente não apenas pelo esforço mental, mas se confunde com a personalidade mesma do filho que nunca conheceu o pai de quem herdou tal personalidade(mas reconheço em mim a trajetória secular,/ a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência/ mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos).





Lendo esse poema lembrei-me do primeiro verso de “Integração da noite” de Antônio Carlos de Brito e que estampa seu volume Palavra cerzida de 1967: “Meu neto prolonga meu filho”, e principalmente de um diálogo marcante entre o carrasco nazista, Maximilian Aue, com um judeu idoso: “Mon nom est Nahum ben Ibrahim, de Magaramkend dans la goubernatoria de Derbent. Pour les Russes, j'ai pris le nom de Chamiliev, en honneur du grand Chamil avec qui mon père s'est battu. Et toi, quel est ton nom? ” – “Je m'appelle Maximilien. Je viens d'Allemagne.” – “Et qui était ton père ?” Je souris: “En quoi est-ce que mon père t'intéresse, vieillard ? ” – “Comment veux-tu que je sache à qui je m'adresse si je ne connais pas ton père?”





É uma passagem do memorável Les bienveillantes (As benevolentes) do escritor norte-americano Jonathan Littel. O velho judeu, seguindo a tradição do seu povo, apresenta-se por meio do seu passado, da sua história, mais ainda, da própria História simbolizada pelo seu pai e pelos seus feitos. Quanto ao jovem carrasco, diz apenas o primeiro nome, sem o sobrenome, seguido do local não propriamente de origem, mas a morada atual, Alemanha, quando na verdade nasceu na França. Diante de tão breve e pobre apresentação o velho pergunta como é possível conhecer o interlocutor sem antes lhe conhecer o pai.





Sem pai, sem substância. Eis o que deixam claro o diálogo e o poema de Silvério Duque.





O primeiro verso tem a qualidade de uma boa luta. Se realmente há a intenção de derrotar o adversário, que um golpe muito forte seja dado no primeiro instante para que não haja chance de reagir. Foi assim que David matou Golias, sobrepôs-se ao então rei Saul e garantiu seu futuro reinado.





Seguindo essa regra à risca, de primeira nos deparamos com “– Quando soube de ti,/ já eras morto”. Reparem que na verdade se trata de um único verso decassílabo que, para efeito de ênfase, foi reduzido a dois hemistíquios, e tanto a cesura como a quebra ocorrem exatamente no pronome, como se a partir desse ponto a morte tivesse se manifestado e desse modo mostrado quem foi por ela atingido. A mesma regra, a da quebra a partir da cesura, se aplica aos quarto e quinto versos(que não me fora dada/ de outra boca).





A força do primeiro verso se prolonga nos seguintes(vives em mim como os santos/ sobre as abóbadas de ouro/ nestes antigos templos,) e culminam no “onde o amor é demais para tão/ simples lembrança”. Ou seja, outro grande golpe e mais outros até o nocaute certeiro “mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos,/ ou/ o teu rosto/ nos retratos.” Mais uma vez uma quebra de um decassílabo, porém em fragmentos menores, como se desenhasse o olhar a percorrer demorada e atentamente cada ponto. Para cada verso, com exceção do antepenúltimo, uma palavra de valor substantivo e sempre referente à figura do pai, a saber, os seus “ossos”, o seu “rosto”, o qual pode ser visto nos seus “retratos”.





Esse decassílabo reduzido a quatro versos conclui ritmicamente o decassílabo que o antecede(mesmo sem nunca ter te visitado). Desse modo, e com o reforço das rimas assonantes (retratos/visitado), podemos dizer que o poema, na verdade, fecha com um belo dístico – camuflado em cinco versos –, como ocorre ou nos sonetos ingleses ou ao final das falas das personagens num drama:





mesmo sem nunca ter te visitado


os ossos, ou o teu rosto nos retratos



















Fonte: http://jesseprimo.blogspot.com/2011/04/indesejada-das-gentes-iiios-bens-de.html









UMA PARTIDA DE XADREZ...






Les joueurs d'échecs de Honoré Daumier (1863), Musée du Petit-Palais, Paris.







Um grande mestre e amigo chileno, Jaime P. Stone, manda-me dois poemas: um seu e outro de autoria de seu irmão, Juan di Dios, homenageando, cada um, os maiores mestre do xadrez, por eles considerados. Julguei esta partida interessante e publico-a aqui para o deleite e julgamento de quem quiser... a tentativa de “tradução” é minha.











EL ENROQUE DE CAPABLANCA


(por Juan de Dios)




Se ha sembrado el campo


de cuadrículas lozanas


tersas, pulidas y de longas llanuras


se ha velado el silencio


de las vísperas eternas


se encoge la Graupera


un 19 de Noviembre


de un mil y su triángulo de ochos


caballo en riestre


con hidalga montura


acechan el Castillo del Príncipe


mientras se queman


las torres de papel


San Pelayo ofrenda su milagro.



Jaque al arlequín


peones colgantes


epístola del arzobispo


astucia del canciller


y por el sueño cuadriculado


le veneran los prohombres


los jurados y el esposo de la reina


la hojarasca del tablero


se tiñe de victorias envejecidas


los alfiles parpadean


pero ya es tarde


está amaneciendo


y en La Habana


se ufana el cañaveral.



Enroque en Buenos Aires


por la sonrisa de Arlequín.





O ROQUE DE CAPABLANCA


(Trad. Silvério Duque)




Lavrado o campo


de exuberante beleza


com suas terras limpas de polidas planícies


onde, destas vésperas eternas


se guardou o silêncio


nasce Graupera


num 19 de novembro


de um mil e três triangulos de oito


cavalos apostos


nas mais nobres posturas


contra o castelo do Príncipe


quando as torres de papel


em chamas se consomem –


é San Pelayo oferecendo seu milagre.



Xeque do Arlequim


piões colgantes


carta do arcebispo


ou astúcia do chanceler...


é pelos sonhos


que se veneram os grande homens


vêem-se jurados e o esposo da rainha


nas folhas do tabuleiro


pelas vitórias envelhecidas


sinalizam os bispos


mas é tarde demais


amanhece


em Havana


sobre um canavial que se alegra.



Um roque em Buenos Aires


para a alegria do Arlequim.





EL REY DEL AJEDREZ


(por Jaime Peralta Stone)




Ha nacido el favorito de Kaissa


Que sobre un tablero, costurado


De fronteras y sueños, impresiona a sus rivales.


Nova Orleans su cuna, orgullosa y fecunda,


Con su prodigio, reta al mundo ufana.


Joven diáfano como un diamante,


Iluminado de ideas y combinaciones.


Con su caballo arisco y el otro indómito,


Son lozanos a sus opuestos.


Alfil oblicuo y penetrante,


Apóstol de fantasías.


En los extremos, torres blindadas,


Que vaticinan el movimiento antagónico.


Infantes de gambito, por Morphy saben luchar.


Su dama astuta, la mejor casa encontrara,


Y en ese campo de previsiones, se tiñe la victoria,


Ocho lances antes del mate anunciar.





O REI DO XADREZ


(Trad. Silvério Duque)




Ele nasceu o favorito de Kaissa


sobre um tabuleiro, alinhavado


de caminhos e de sonhos, levando medo aos seus rivais.


Nova Orleans é seu berço orgulhoso e fecundo,


desafiando, com seu talento, o mundo presunçoso.


Jovem diáfano como um diamante


iluminado de idéias e de estratégias.


Com um cavalo arisco e outro indômito –


tão belos em seus opostos.


E o bispo oblíquo e penetrante,


apóstolo de fantasias.


Nos extremos, duas torres imponentes,


que predizem confusos movimentos;


soldados que, por Morphy, lutarão.


Sua dama sagaz a melhor casa encontra,


e, neste campo de previsões, tem-se a vitória:


oito lances... e o inesperado xeque-mate.













UMA ENTREVISTA COM KARLENO BOCARRO POR HILTON VALERIANO...


O escritor Karleno Bocarro... grande conhecedor dos meios e das influências que lhe despertaram e aprimoraram um imenso e necessário talento...









Numa entrevista, ao meu amigo e poeta Hilton Valeriano, para o Blogger: http://www.poesiadiversidade.blogspot.com, Karleno Márcio Bocarro nos dá um exemplo de porque é um de nossos melhores intelectuais e romancistas de nossa atual literatura. Na busca incansável de seu personagem, como aquele Salieri, do Filme do Milos Forman, incapaz de aceitar sua mediocridade, por um lugar na História – lugar este que não lhe pertence –, o livro As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro, possui todas as qualidades de uma grande obra; dentre elas, a que eu mais gosto: a capacidade de nos desafiar, de nos instigar a buscar outras histórias, informações, leituras... e de onde, muitas vezes, buscamos a nós mesmo. Tudo isso com a grandeza sutil dos maiores mestres. Ignorar uma obra como esta, ou as futuras grandes obras que virão da pena de Karleno Bocarro, é ignorar o que a nova Ficção Brasileira tem de melhor. Além do mais, seu autor é um grande conhecedor dos meios e das influências que lhe despertaram e aprimoraram um talento tão grande. Principalmente em uma época de tantos escritores de faxada, completam,nte ignorantes do mínimo de História da Literatura, ver alguém imbuído de tanto talento quanto de sabedoria para maturar este atlento é-nos sempre um motivo de alegria e de esperança. Não ler este que é um dos mais bem escritos e enigmáticos romances de nossa Literatura, como os próximos que seu autor prepara para nos brindar, para mim, é assinar um atestado de ignorância. Não obstante, convido a todos para um passeio pelo Blogger de Hilton Valeriano; sem dúvidas um dos espaços mais bem elaborados e preocupado com a qualidade de tudo que nele é publicado... é o tipo de lugar, infelizmente, muito pouco freqüentado pela grande maioria dos internaltas, menos àqueles que buscam sempre o melhor conteúdo.





Hilton Valeriano: Como ocorreu seu contato inicial com a literatura?



Karleno Bocarro: Ainda criança. Meu pai era um grande leitor, embora não tivéssemos muitos livros em casa. Éramos pobres; minha infância foi difícil. Uma época triste, não trago boas lembranças. Um dia ele me presenteou com Os Contos dos Irmãos Grimms, uma edição completa. Acho que isso hoje não é mais permitido, alguns contos dos Grimms traumatizam a criança. Além de ofender certa crítica literária de vertente feminista, segundo a qual os contos dos Grimms perpetuam uma dominação machista, a sujeição e a passividade femininas. Ou de teor marxista: a injustiça social e a opressão de classe é resolvida por meios mágicos, o que escamotea a realidade da luta de classes. Ou que a intenção dos irmãos Grimms era educar as crianças, mas para a sociedade burguesa, para a ideologia da concorrência desenfreada típica do capitalismo. Engraçado era que meu pai era marxista, mas ele não enxergava tão longe. Para ele, o livro era bom e merecia a minha atenção. Mas eu até posso entender algumas dessas ressalvas, aquelas de que alguns contos são em demasia “adultos”. Originalmente esses contos se destinavam realmente ao público adulto; a intenção dos Grimms era preservar a tradição camponesa oral alemã. Há contos de confrontação com a morte, de estranhos duendes (Rumpelstilskin), ansiosos por almas ingênuas, pactos demoníacos, pais que dão os filhos em troca de prosperidade, bruxas, dragões… Eu adorava esses contos, os mais pesados. Mas lia-os de dia. À noite tinha medo, muito medo; todos os bichos perversos presentes nos contos importunavam-me o sono. Contudo, acho que valeu a pena tanto pavor na infância. Os Grimms são a primeira, e permanente, influência na minha literatura. Por exemplo, no meu romance – bem como nos outros –, As Almas que se Quebram no Chão, a presença do demonismo, de obsessões, do horror, é fundamental. Como escreve James Joyce: “Terror é o sentimento que arrasta a mente à presença de tudo que seja grave e constante nos sofrimentos humanos e o unifica com a causa secreta”.




Hilton Valeriano: Quais são suas influências literárias e quais autores contemporâneos você destacaria?



Karleno Bocarro: Além dos grandes, aqueles que sempre estamos relendo, Homero, Shakespeare, Cervantes, e de um livro imprescendível a qualquer escritor que se preze, falo das Sagradas Escrituras, destaco as modernas literaturas russa e norte-americana. Mas porque elas não rejeitam o sobrenatural, o mítico, a abertura à transcedência, o mistério que é a realidade. É óbvio que aqui generalizo, há escritores americanos, tais como John Steinbeck, Sinclair Lewis, que se preocupam em entender a psicologia e o comportamento humanos num contexto social. Isso não me interessa! A visão de mundo que me instiga é aquela da tragédia, da epopéia… O homem em meio a forças gigantescas; Deus e o demônio lutando por sua alma, e ele instigado a cada segundo a tomar um partido. Infelizmente o romance moderno, em especial, o europeu, e somos influenciados por ele, rompe com esta visão de mundo. O seu interesse é o mundo secularizado; o romance se aproxima perigosamente do jornalismo, pois o que anseia é retratar os aspectos sociais, cotidianos, da vida moderna. Ora, alinho-me ao grande Dostoiévski e sua visão de Shakespeare. Para ele, o “realismo” de W. Shakespeare não se limitava a uma imitação empobrecedora da vida cotidiana; o bardo inglês era para ele um profeta enviado por Deus “para nos proclamar o mistério do homem e da alma humana”. Estou justamente com os dois, com esta percepção. Autores contemporâneos… Cito os vivos: Philip Roth, Mario Vargas Llosa, Thomas Pynchon, J. M. Coetzee… Mas nenhum me dá tanto prazer, e remói a alma – suas palavras são profundas, sombrias, traiçoeiras –, quanto Cormac McCarthy. Ele é o meu contemporâneo favorito.




Hilton Valeriano: Comente sobre a temática de seu romance As almas que se quebram no chão.



Karleno Bocarro: Há uma frase de Goethe que muito aprecio: ele afirma que se temos um destino, a percepção de que estamos a cumprir um, então, nosso dever é viver esse destino. Bem, os personagens de meu romance, ao contrário, tendem a fugir das próprias responsabilidades. A escolha é pela diversão, mas de maneira inconsequente. Ignoram que um modo de sair-se bem nos estudos (eles são estudantes na época da queda do muro de Berlim) , ou na vida de um modo geral, é tomar cuidado com as experiências extremas, as convivências supérfluas, os lugares obscuros. Um parêntesis: talvez eu seja supersticioso, mas para mim um quarto, uma casa, um prédio abandonado, pode ser sim um lugar ruim. Uma influência de minhas primeiras leituras, a dos Grimms? É bem provável. Então, são pessoas de vidas desperdiçadas, e embora passem por crises interiores constantes, recusam a experiência da conversão. Conversão aqui entendida com a postura apropriada de seriedade para com as coisas da vida. E seguem adiante, mas para espalhar erros por onde passam. Essa é a temática do livro. Mas essas pessoas, como personagens, podem ser, e são, fascinantes. Talvez pela razão de que assim é o homem, assim somos nós. Somente alguns poucos, por uma graça inexplicável, conseguem fazer algo de si: criar algo duradouro e amar desinteressadamente. E como pano de fundo de seus dramas coloquei o evento mais significativo de nosso tempo, a queda do Muro de Berlim; um tempo que se estende à unificação da Alemanha. Além de Berlim, os personagens transitam por Leipzig, Moscou; há viagens a Praga, na República Tcheca, alguns acabam em Amsterdam, buscam a Romênia, outros retornam para o Brasil, continuam no Nordeste… Enfim, o livro tem um aspecto épico que muito me agrada. Esforcei-me para fazer um bom trabalho, espero ter conseguido.




Hilton Valeriano: Você prepara um novo romance denominado “O Advento”. Comente sobre sua temática.



Karleno Bocarro: Comecei O Advento antes de ter As Almas que se Quebram no Chão publicado. Mas é que não consigo passar muito tempo sem escrever. Assusta-me a vida sem a literatura! Se n’As Almas… os personagens são estetas, n’O Advento dou um passo adiante, a discussão é ética. Explico: no meu curso de filosofia em Berlim ocupei-me bastante com Nietzsche e Kierkegaard. Fiz um seminário sobre o Entweder/Oder (o título em alemão de sua obra-prima: Ou… Ou…), onde Kierkegaard discute as fases da existência, a estética e a ética, a partir de uma questão aristotélica: Como devemos viver? O “esteta” é aquele que assume conscientemente uma vida descompromissada, recusando os deveres e as responsabilidades que para o “ético” são fundamentais. No meu livro, essa discussão gira em torna da paternidade. Aderbal Semei, o personagem principal, um escritor de um livro só, a recusa como um incômodo aos seus projetos pessoais. Uma posição que entra em choque com o que a namorada espera; ela quer ter filhos. Partindo de uma ideia completar, colhida em Dom Quixote – o episódio do Curioso Impertinente – e n’O Eterno Marido, de Dostoivéski, Semei passa, numa mistura de sentimentos confusos – tara, recusa às reinvidicações da amada, simples deboche –, a desejar que a namorada se apaixone por um amigo em comum. Os aspectos sombrios, os quais, como eu disse, prezo bastante, giram em torno da ideia de maldição. É comum, entre os personagens d’O Advento, desejar o pior ao outro… Semei é um personagem bíblico! No Segundo Livro de Samuel, lemos que ele encontra Davi, o qual se encontra em fuga de Saul, e passa a amaldiçoá-lo; segue uma trajetória considerável atrás de Davi lançando-lhe as mais terríveis imprecações. O meu Semei é algo parecido, embora ele sofra mais… A maldição nele parece ser uma punição de Deus, a pior coisa que possa acontecer a um homem. Se ele a merece, e como vai lidar com isso, o livro revela, ou deixa em aberto ao leitor.




Hilton Valeriano: Em uma de suas entrevistas você diz: “Sem a ajuda de fontes importantes do conhecimento – a fé, a tradição, a revelação, a experiência de santos e místicos – corremos o risco de cairmos o tempo todo, como se tateássemos no escuro, próximo ao abismo da morte.” Qual o papel da literatura em um tempo onde as grandes tradições são renegadas por estéticas experimentais e pela perspectiva niilista que parece assolar toda forma de pensamento?



Karleno Bocarro: Não acho que as estéticas experimentais são um problema… William Faulkner, por exemplo, usa muito bem , em sua literatura, técnicas modernas de narrativa. O experimentalismo se torna um problema quando o norte é a novidade pela novidade. O que, no caso, não é norte. É bússola sem rumo, leva o barco para o abismo. O problema dos artistas hoje é que eles acham que a arte começa com o Dadaísmo. No Brasil, com a Semana de Arte de 22. E tudo o que há antes é, para usar uma frase de Plutarco, “areais estéreis, infestados de bestas selvagens”. Então, o artista gira os olhos para inovações, embriagando-se de superficialidades. Meu Deus, como eu posso escrever prosa e poesia decentes sem o conhecimento dos clássicos? Posso, mas encho mais ainda de porcarias um mundo já saturado de asnice. O nihilismo é consequência desse empobrecimento da cultura. Concluindo, eu diria que a realidade das coisas, o próprio sentido da existência, não podem ser compreedidos ao menos que estejamos prontos para mergulhar no vasto universo da tradição, a qual, no nosso caso, significa o legado judaico-cristão e greco-romano.













Fonte: http://poesiadiversidade.blogspot.com/2011/06/entrevista-com-o-romancista-karleno.html