segunda-feira, 1 de agosto de 2011
UMA CRÔNICA PATERNA...
quarta-feira, 20 de julho de 2011
A BALADA DE INÊS...

Súplica de Inês de Castro de Vieira Portuense. Óleo sobre tela (165X275); Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.
tuas mãos terminadas em segredo
sobre um peito de sopros findos
e então sentirás dentro de ti uma completude
como as folhas que mortas deixam nua aquela essência de vida
que as árvores nos trazem sobre os galhos
secos e escuros, como a carne que à terra volta
pois é da terra a carne, como do vento
a nuvem e sua possível imagem.
os teus olhos fechados em repouso
e, na noite escura dos desejos sólidos
velar teu sono, com mil olhos claros
o coração que sofre de amor e de saudade e
que um dia, em tarde clara disse-te em segredo
“Amo-te!”, como ama em segredo, ao sentimento, a Sabedoria
pois é do mar o cais e a imensidão
que amedronta e também encanta.
Nesse momento, amada minha
quando fechada sobre um leito de duras sombras
combinadas: a dor, a ausência e a distância
na noite imensa de teu coração tão quieto
verás o meu Amor refeito em sonho leve
e toda a realidade te parecerá vazia,
como um Céu que um dia olhaste sem ternura e sem verdade...
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE "CORISCO VERMELHO EM CASA CAIADA"... O MAIS NOVO LIVRO DE MIGUEL CARNEIRO

Editora: Virtual Books
quarta-feira, 13 de julho de 2011
JORGE ELIAS NETO... DUAS PALAVRAS...

Jorge Elias Neto (1964) é Natural de Vitória, Espírito Santo. É médico cardiologista, pesquisador e poeta. Autor de Verdes versos (Vitória: Flor&cultura, 2007) e Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&cultura, 2010). Também tem poemas publicados em diversas antologias poéticas. Participa de vários portais e sites de literatura. Escreve o blogger O Estalo da Palavra.
Pelo muito pouco que sei, há apenas um caminho para se alcançar a verdadeira poesia; este caminho consiste na busca incessante pela forma, adequando-se à idéia que a precede e a exige, e no preceito de que nada deve ficar além o necessário.
Na poesia não a lugar para o supérfluo ou para substituível.
Jorge Elias Neto, pelo que tenho apreciado em seus poemas desde seu Verdes Verso, ao seu mais recente trabalho, Rascunhos do Absurdo, com o qual, não faz muito tempo, gentilmente me presenteou, entende muito bem este preceito e, pelo visto, tem seguido e vencido este caminho.
Vale apena conferir, também, a entrevista que Jorge Elias Neto concedeu ao poeta Hilton Valeriano, em seu Blogger, Poesia Diversa:
http://poesiadiversidade.blogspot.com/2010/06/entrevista-com-o-poeta-jorge-elias-neto.html#comments
SONOLENTO
Quisera eu poder contar-te tudo, lúdico luar...
É que pálpebras me pesam de mais um dia...
Mas bem sei que, entre amantes, basta um sutil entreolhar,
para retirar dos guardados a palavra fugidia.
Mesmo assim, me esquivo dos teus olhos, cândida Lua...
É que as verdades fogem mais fácil de um olhar cansado...
Sei, entretanto, que é inútil querer poupar-te do que se insinua.
Em cada gesto tenso de meus dedos crispados.
Queria deitar-me em teu colo, luar idílico.
Apagar de minha mente esses pensamentos nômades;
e num ressonar de anjo te dizer de meu medo.
Só que a bruta vida que me faz ridículo
fez-me preso a esse chão de homens distantes.
Parto... outra vez sem ti... para o sono... com meus segredos...
Jorge Elias Neto
(Verdes versos - ed. Flor&cultura - 2007)
sexta-feira, 17 de junho de 2011
SONETO DAS PROCISSÕES...

A procissão de Santo Isidro de Goya (1820-23), Óleo sobre tela e painel, 140X438 cm, Museo del Prado, Madrid.
ao poeta e amigo, João Carlos Teixeira Gomes
que um anjo fez brotar entre os instantes,
em que se avistam as coisas luminosas
e cujos olhos meus ( tão vacilantes )
esquivam-se da luz e dos agravos
e negam-se à beleza, antes cativa,
sob este céu de arroubos constelados,
onde o meu ser se aloja às coisas vivas
agitando-se no ar qual velhas flamas;
como fantasmas que, no arder, se esquivam
das sombras que lhes roubam as vivas chamas,
louvando a noite como a um deus risonho –
feito a tola esperança dos que se amam –
surgido do vazio como de um sonho.
"QUE DEUS GUARDE MEU PAI"... CONSIDERAÇÕES DE JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO SOBRE UM DE MEUS POEMAS...

São Jerônimo de Antônio Peredas (1643), Óleo sobre tela, 105X84 cm, Museo del Prado, Madrid.
INDESEJADA DAS GENTES III:
OS BENS DE SANGUE, HEREDITARIEDADE E OUTROS ATAVISMOS:
UMA ELEGIA
DE MEU PAI, AMARÍLIO DE SOUZA DUQUE
(Improviso)
– Quando soube de ti,
já eras morto;
nem nunca tive em mim palavra tua
que não me fora dada
de outra boca;
vives em mim como os santos
sobre as abóbadas de ouro
nestes antigos templos,
onde o amor é demais para tão
simples lembrança
mas reconheço em mim a trajetória secular,
a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência
mesmo sem nunca ter te visitado
os ossos,
ou
o teu rosto
nos retratos.
Este é o segundo poema do volume Ciranda de sombras, de Silvério Duque, ao qual faço um comentário e que também trata da morte e, de certa forma, de uma perda. Digo “de certa forma”, uma vez que, no primeiro caso, a perda é de entes queridos, com os quais houve uma intensa convivência e que foram todos, graças a um sentimento de vingança, mortos num curto espaço de tempo: um marido e todos os filhos. No presente caso, há algo como uma perda, mas de uma perda daquilo que nunca se teve e nem por isso perde sua importância.
É, por outra, uma forte presença de alguém que nunca foi visto. Para ser mais preciso, é a forte presença da história desse alguém, da sua memória(...nunca tive em mim palavra tua/ que não me fora dada/ de outra boca;), e de como essa memória se faz presente não apenas pelo esforço mental, mas se confunde com a personalidade mesma do filho que nunca conheceu o pai de quem herdou tal personalidade(mas reconheço em mim a trajetória secular,/ a herança de honra e sangue, traçada muito antes desta ausência/ mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos).
Lendo esse poema lembrei-me do primeiro verso de “Integração da noite” de Antônio Carlos de Brito e que estampa seu volume Palavra cerzida de 1967: “Meu neto prolonga meu filho”, e principalmente de um diálogo marcante entre o carrasco nazista, Maximilian Aue, com um judeu idoso: “Mon nom est Nahum ben Ibrahim, de Magaramkend dans la goubernatoria de Derbent. Pour les Russes, j'ai pris le nom de Chamiliev, en honneur du grand Chamil avec qui mon père s'est battu. Et toi, quel est ton nom? ” – “Je m'appelle Maximilien. Je viens d'Allemagne.” – “Et qui était ton père ?” Je souris: “En quoi est-ce que mon père t'intéresse, vieillard ? ” – “Comment veux-tu que je sache à qui je m'adresse si je ne connais pas ton père?”
É uma passagem do memorável Les bienveillantes (As benevolentes) do escritor norte-americano Jonathan Littel. O velho judeu, seguindo a tradição do seu povo, apresenta-se por meio do seu passado, da sua história, mais ainda, da própria História simbolizada pelo seu pai e pelos seus feitos. Quanto ao jovem carrasco, diz apenas o primeiro nome, sem o sobrenome, seguido do local não propriamente de origem, mas a morada atual, Alemanha, quando na verdade nasceu na França. Diante de tão breve e pobre apresentação o velho pergunta como é possível conhecer o interlocutor sem antes lhe conhecer o pai.
Sem pai, sem substância. Eis o que deixam claro o diálogo e o poema de Silvério Duque.
O primeiro verso tem a qualidade de uma boa luta. Se realmente há a intenção de derrotar o adversário, que um golpe muito forte seja dado no primeiro instante para que não haja chance de reagir. Foi assim que David matou Golias, sobrepôs-se ao então rei Saul e garantiu seu futuro reinado.
Seguindo essa regra à risca, de primeira nos deparamos com “– Quando soube de ti,/ já eras morto”. Reparem que na verdade se trata de um único verso decassílabo que, para efeito de ênfase, foi reduzido a dois hemistíquios, e tanto a cesura como a quebra ocorrem exatamente no pronome, como se a partir desse ponto a morte tivesse se manifestado e desse modo mostrado quem foi por ela atingido. A mesma regra, a da quebra a partir da cesura, se aplica aos quarto e quinto versos(que não me fora dada/ de outra boca).
A força do primeiro verso se prolonga nos seguintes(vives em mim como os santos/ sobre as abóbadas de ouro/ nestes antigos templos,) e culminam no “onde o amor é demais para tão/ simples lembrança”. Ou seja, outro grande golpe e mais outros até o nocaute certeiro “mesmo sem nunca ter te visitado/ os ossos,/ ou/ o teu rosto/ nos retratos.” Mais uma vez uma quebra de um decassílabo, porém em fragmentos menores, como se desenhasse o olhar a percorrer demorada e atentamente cada ponto. Para cada verso, com exceção do antepenúltimo, uma palavra de valor substantivo e sempre referente à figura do pai, a saber, os seus “ossos”, o seu “rosto”, o qual pode ser visto nos seus “retratos”.
Esse decassílabo reduzido a quatro versos conclui ritmicamente o decassílabo que o antecede(mesmo sem nunca ter te visitado). Desse modo, e com o reforço das rimas assonantes (retratos/visitado), podemos dizer que o poema, na verdade, fecha com um belo dístico – camuflado em cinco versos –, como ocorre ou nos sonetos ingleses ou ao final das falas das personagens num drama:
mesmo sem nunca ter te visitado
os ossos, ou o teu rosto nos retratos
Fonte: http://jesseprimo.blogspot.com/2011/04/indesejada-das-gentes-iiios-bens-de.html
UMA PARTIDA DE XADREZ...

Les joueurs d'échecs de Honoré Daumier (1863), Musée du Petit-Palais, Paris.
Um grande mestre e amigo chileno, Jaime P. Stone, manda-me dois poemas: um seu e outro de autoria de seu irmão, Juan di Dios, homenageando, cada um, os maiores mestre do xadrez, por eles considerados. Julguei esta partida interessante e publico-a aqui para o deleite e julgamento de quem quiser... a tentativa de “tradução” é minha.
EL ENROQUE DE CAPABLANCA
(por Juan de Dios)
Se ha sembrado el campo
de cuadrículas lozanas
tersas, pulidas y de longas llanuras
se ha velado el silencio
de las vísperas eternas
se encoge la Graupera
un 19 de Noviembre
de un mil y su triángulo de ochos
caballo en riestre
con hidalga montura
acechan el Castillo del Príncipe
mientras se queman
las torres de papel
San Pelayo ofrenda su milagro.
Jaque al arlequín
peones colgantes
epístola del arzobispo
astucia del canciller
y por el sueño cuadriculado
le veneran los prohombres
los jurados y el esposo de la reina
la hojarasca del tablero
se tiñe de victorias envejecidas
los alfiles parpadean
pero ya es tarde
está amaneciendo
y en La Habana
se ufana el cañaveral.
Enroque en Buenos Aires
por la sonrisa de Arlequín.
O ROQUE DE CAPABLANCA
(Trad. Silvério Duque)
Lavrado o campo
de exuberante beleza
com suas terras limpas de polidas planícies
onde, destas vésperas eternas
se guardou o silêncio
nasce Graupera
num 19 de novembro
de um mil e três triangulos de oito
cavalos apostos
nas mais nobres posturas
contra o castelo do Príncipe
quando as torres de papel
em chamas se consomem –
é San Pelayo oferecendo seu milagre.
Xeque do Arlequim
piões colgantes
carta do arcebispo
ou astúcia do chanceler...
é pelos sonhos
que se veneram os grande homens
vêem-se jurados e o esposo da rainha
nas folhas do tabuleiro
pelas vitórias envelhecidas
sinalizam os bispos
mas é tarde demais
amanhece
em Havana
sobre um canavial que se alegra.
Um roque em Buenos Aires
para a alegria do Arlequim.
EL REY DEL AJEDREZ
(por Jaime Peralta Stone)
Ha nacido el favorito de Kaissa
Que sobre un tablero, costurado
De fronteras y sueños, impresiona a sus rivales.
Nova Orleans su cuna, orgullosa y fecunda,
Con su prodigio, reta al mundo ufana.
Joven diáfano como un diamante,
Iluminado de ideas y combinaciones.
Con su caballo arisco y el otro indómito,
Son lozanos a sus opuestos.
Alfil oblicuo y penetrante,
Apóstol de fantasías.
En los extremos, torres blindadas,
Que vaticinan el movimiento antagónico.
Infantes de gambito, por Morphy saben luchar.
Su dama astuta, la mejor casa encontrara,
Y en ese campo de previsiones, se tiñe la victoria,
Ocho lances antes del mate anunciar.
O REI DO XADREZ
(Trad. Silvério Duque)
Ele nasceu o favorito de Kaissa
sobre um tabuleiro, alinhavado
de caminhos e de sonhos, levando medo aos seus rivais.
Nova Orleans é seu berço orgulhoso e fecundo,
desafiando, com seu talento, o mundo presunçoso.
Jovem diáfano como um diamante
iluminado de idéias e de estratégias.
Com um cavalo arisco e outro indômito –
tão belos em seus opostos.
E o bispo oblíquo e penetrante,
apóstolo de fantasias.
Nos extremos, duas torres imponentes,
que predizem confusos movimentos;
soldados que, por Morphy, lutarão.
Sua dama sagaz a melhor casa encontra,
e, neste campo de previsões, tem-se a vitória:
oito lances... e o inesperado xeque-mate.
UMA ENTREVISTA COM KARLENO BOCARRO POR HILTON VALERIANO...

O escritor Karleno Bocarro... grande conhecedor dos meios e das influências que lhe despertaram e aprimoraram um imenso e necessário talento...
Numa entrevista, ao meu amigo e poeta Hilton Valeriano, para o Blogger: http://www.poesiadiversidade.blogspot.com, Karleno Márcio Bocarro nos dá um exemplo de porque é um de nossos melhores intelectuais e romancistas de nossa atual literatura. Na busca incansável de seu personagem, como aquele Salieri, do Filme do Milos Forman, incapaz de aceitar sua mediocridade, por um lugar na História – lugar este que não lhe pertence –, o livro As almas que se quebram no chão, de Karleno Bocarro, possui todas as qualidades de uma grande obra; dentre elas, a que eu mais gosto: a capacidade de nos desafiar, de nos instigar a buscar outras histórias, informações, leituras... e de onde, muitas vezes, buscamos a nós mesmo. Tudo isso com a grandeza sutil dos maiores mestres. Ignorar uma obra como esta, ou as futuras grandes obras que virão da pena de Karleno Bocarro, é ignorar o que a nova Ficção Brasileira tem de melhor. Além do mais, seu autor é um grande conhecedor dos meios e das influências que lhe despertaram e aprimoraram um talento tão grande. Principalmente em uma época de tantos escritores de faxada, completam,nte ignorantes do mínimo de História da Literatura, ver alguém imbuído de tanto talento quanto de sabedoria para maturar este atlento é-nos sempre um motivo de alegria e de esperança. Não ler este que é um dos mais bem escritos e enigmáticos romances de nossa Literatura, como os próximos que seu autor prepara para nos brindar, para mim, é assinar um atestado de ignorância. Não obstante, convido a todos para um passeio pelo Blogger de Hilton Valeriano; sem dúvidas um dos espaços mais bem elaborados e preocupado com a qualidade de tudo que nele é publicado... é o tipo de lugar, infelizmente, muito pouco freqüentado pela grande maioria dos internaltas, menos àqueles que buscam sempre o melhor conteúdo.
Hilton Valeriano: Como ocorreu seu contato inicial com a literatura?
Karleno Bocarro: Ainda criança. Meu pai era um grande leitor, embora não tivéssemos muitos livros em casa. Éramos pobres; minha infância foi difícil. Uma época triste, não trago boas lembranças. Um dia ele me presenteou com Os Contos dos Irmãos Grimms, uma edição completa. Acho que isso hoje não é mais permitido, alguns contos dos Grimms traumatizam a criança. Além de ofender certa crítica literária de vertente feminista, segundo a qual os contos dos Grimms perpetuam uma dominação machista, a sujeição e a passividade femininas. Ou de teor marxista: a injustiça social e a opressão de classe é resolvida por meios mágicos, o que escamotea a realidade da luta de classes. Ou que a intenção dos irmãos Grimms era educar as crianças, mas para a sociedade burguesa, para a ideologia da concorrência desenfreada típica do capitalismo. Engraçado era que meu pai era marxista, mas ele não enxergava tão longe. Para ele, o livro era bom e merecia a minha atenção. Mas eu até posso entender algumas dessas ressalvas, aquelas de que alguns contos são em demasia “adultos”. Originalmente esses contos se destinavam realmente ao público adulto; a intenção dos Grimms era preservar a tradição camponesa oral alemã. Há contos de confrontação com a morte, de estranhos duendes (Rumpelstilskin), ansiosos por almas ingênuas, pactos demoníacos, pais que dão os filhos em troca de prosperidade, bruxas, dragões… Eu adorava esses contos, os mais pesados. Mas lia-os de dia. À noite tinha medo, muito medo; todos os bichos perversos presentes nos contos importunavam-me o sono. Contudo, acho que valeu a pena tanto pavor na infância. Os Grimms são a primeira, e permanente, influência na minha literatura. Por exemplo, no meu romance – bem como nos outros –, As Almas que se Quebram no Chão, a presença do demonismo, de obsessões, do horror, é fundamental. Como escreve James Joyce: “Terror é o sentimento que arrasta a mente à presença de tudo que seja grave e constante nos sofrimentos humanos e o unifica com a causa secreta”.
Hilton Valeriano: Quais são suas influências literárias e quais autores contemporâneos você destacaria?
Karleno Bocarro: Além dos grandes, aqueles que sempre estamos relendo, Homero, Shakespeare, Cervantes, e de um livro imprescendível a qualquer escritor que se preze, falo das Sagradas Escrituras, destaco as modernas literaturas russa e norte-americana. Mas porque elas não rejeitam o sobrenatural, o mítico, a abertura à transcedência, o mistério que é a realidade. É óbvio que aqui generalizo, há escritores americanos, tais como John Steinbeck, Sinclair Lewis, que se preocupam em entender a psicologia e o comportamento humanos num contexto social. Isso não me interessa! A visão de mundo que me instiga é aquela da tragédia, da epopéia… O homem em meio a forças gigantescas; Deus e o demônio lutando por sua alma, e ele instigado a cada segundo a tomar um partido. Infelizmente o romance moderno, em especial, o europeu, e somos influenciados por ele, rompe com esta visão de mundo. O seu interesse é o mundo secularizado; o romance se aproxima perigosamente do jornalismo, pois o que anseia é retratar os aspectos sociais, cotidianos, da vida moderna. Ora, alinho-me ao grande Dostoiévski e sua visão de Shakespeare. Para ele, o “realismo” de W. Shakespeare não se limitava a uma imitação empobrecedora da vida cotidiana; o bardo inglês era para ele um profeta enviado por Deus “para nos proclamar o mistério do homem e da alma humana”. Estou justamente com os dois, com esta percepção. Autores contemporâneos… Cito os vivos: Philip Roth, Mario Vargas Llosa, Thomas Pynchon, J. M. Coetzee… Mas nenhum me dá tanto prazer, e remói a alma – suas palavras são profundas, sombrias, traiçoeiras –, quanto Cormac McCarthy. Ele é o meu contemporâneo favorito.
Hilton Valeriano: Comente sobre a temática de seu romance As almas que se quebram no chão.
Karleno Bocarro: Há uma frase de Goethe que muito aprecio: ele afirma que se temos um destino, a percepção de que estamos a cumprir um, então, nosso dever é viver esse destino. Bem, os personagens de meu romance, ao contrário, tendem a fugir das próprias responsabilidades. A escolha é pela diversão, mas de maneira inconsequente. Ignoram que um modo de sair-se bem nos estudos (eles são estudantes na época da queda do muro de Berlim) , ou na vida de um modo geral, é tomar cuidado com as experiências extremas, as convivências supérfluas, os lugares obscuros. Um parêntesis: talvez eu seja supersticioso, mas para mim um quarto, uma casa, um prédio abandonado, pode ser sim um lugar ruim. Uma influência de minhas primeiras leituras, a dos Grimms? É bem provável. Então, são pessoas de vidas desperdiçadas, e embora passem por crises interiores constantes, recusam a experiência da conversão. Conversão aqui entendida com a postura apropriada de seriedade para com as coisas da vida. E seguem adiante, mas para espalhar erros por onde passam. Essa é a temática do livro. Mas essas pessoas, como personagens, podem ser, e são, fascinantes. Talvez pela razão de que assim é o homem, assim somos nós. Somente alguns poucos, por uma graça inexplicável, conseguem fazer algo de si: criar algo duradouro e amar desinteressadamente. E como pano de fundo de seus dramas coloquei o evento mais significativo de nosso tempo, a queda do Muro de Berlim; um tempo que se estende à unificação da Alemanha. Além de Berlim, os personagens transitam por Leipzig, Moscou; há viagens a Praga, na República Tcheca, alguns acabam em Amsterdam, buscam a Romênia, outros retornam para o Brasil, continuam no Nordeste… Enfim, o livro tem um aspecto épico que muito me agrada. Esforcei-me para fazer um bom trabalho, espero ter conseguido.
Hilton Valeriano: Você prepara um novo romance denominado “O Advento”. Comente sobre sua temática.
Karleno Bocarro: Comecei O Advento antes de ter As Almas que se Quebram no Chão publicado. Mas é que não consigo passar muito tempo sem escrever. Assusta-me a vida sem a literatura! Se n’As Almas… os personagens são estetas, n’O Advento dou um passo adiante, a discussão é ética. Explico: no meu curso de filosofia em Berlim ocupei-me bastante com Nietzsche e Kierkegaard. Fiz um seminário sobre o Entweder/Oder (o título em alemão de sua obra-prima: Ou… Ou…), onde Kierkegaard discute as fases da existência, a estética e a ética, a partir de uma questão aristotélica: Como devemos viver? O “esteta” é aquele que assume conscientemente uma vida descompromissada, recusando os deveres e as responsabilidades que para o “ético” são fundamentais. No meu livro, essa discussão gira em torna da paternidade. Aderbal Semei, o personagem principal, um escritor de um livro só, a recusa como um incômodo aos seus projetos pessoais. Uma posição que entra em choque com o que a namorada espera; ela quer ter filhos. Partindo de uma ideia completar, colhida
Hilton Valeriano: Em uma de suas entrevistas você diz: “Sem a ajuda de fontes importantes do conhecimento – a fé, a tradição, a revelação, a experiência de santos e místicos – corremos o risco de cairmos o tempo todo, como se tateássemos no escuro, próximo ao abismo da morte.” Qual o papel da literatura em um tempo onde as grandes tradições são renegadas por estéticas experimentais e pela perspectiva niilista que parece assolar toda forma de pensamento?
Karleno Bocarro: Não acho que as estéticas experimentais são um problema… William Faulkner, por exemplo, usa muito bem , em sua literatura, técnicas modernas de narrativa. O experimentalismo se torna um problema quando o norte é a novidade pela novidade. O que, no caso, não é norte. É bússola sem rumo, leva o barco para o abismo. O problema dos artistas hoje é que eles acham que a arte começa com o Dadaísmo. No Brasil, com a Semana de Arte de 22. E tudo o que há antes é, para usar uma frase de Plutarco, “areais estéreis, infestados de bestas selvagens”. Então, o artista gira os olhos para inovações, embriagando-se de superficialidades. Meu Deus, como eu posso escrever prosa e poesia decentes sem o conhecimento dos clássicos? Posso, mas encho mais ainda de porcarias um mundo já saturado de asnice. O nihilismo é consequência desse empobrecimento da cultura. Concluindo, eu diria que a realidade das coisas, o próprio sentido da existência, não podem ser compreedidos ao menos que estejamos prontos para mergulhar no vasto universo da tradição, a qual, no nosso caso, significa o legado judaico-cristão e greco-romano.
Fonte: http://poesiadiversidade.blogspot.com/2011/06/entrevista-com-o-romancista-karleno.html
