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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

UMA MENSAGEM DE NATAL...

A Adoração dos Magos, de Giotto de Bordonni (1304-06) Afresco, 200 x 185 cm; Cappella Scrovegni, Pádua.







EU ACREDITO EM DEUS...


aos mestres: José Jerônimo de Moraes, Hilton Valeriano,
Jessé de Almeida Primo, Olavo de Carvalho e Elpídio Fonseca.

Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este eu, e não outro, é o que há de morrer? Sim. Mas reviver e ressuscitar à imortalidade. Mortal até ao pó, mas depois do pó, imortal. Quando considero na vida que se usa, acho que nem vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida, como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

PE. ANTÔNIO VIEIRA







Sim, eu acredito em Deus, e porque faria diferente? Com Deus existindo, já dizia um Riobaldo maduro e ponderado, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços...

Sempre que me deparo com um ateu – principalmente os mais exaltados em seus auto-enganos –, não me acode imagem mais elucidativa do que aquela utilizada por aquele jagunço-filósofo do livro do Guimarães Rosa: “meninos sem pernas e braços”. Pouco me importa se pareço radical, mas é só assim que consigo considerar o ateísmo: meninos desmembrados tentando rir. Para mim, o ateísmo é meramente um “problema de consciência”, muito mais que, necessariamente, uma formulação racional; é um aspecto trágico da essência humana – e, nesse sentido, sua maior tragédia –, fruto colhido diretamente da amargura, da culpa, da impossibilidade de aceitação e do desespero; sintomas muito comuns desta estranha doença do espírito que consiste em negar aquilo que nos completa, que nos livra de todos os abismos, de toda dor e das impossibilidades que nos trazem o vazio.

De Robert Burton, passando por Kierkegaard, e, culminando, em Constantin Noica e René Girard, essa enfermidade, e todo desespero por ela causado, é um prenúncio da morte em vida; uma mentira romantizada que faz com que os homens vivam, realmente, do ilusório, ou seja, do desejo por aquilo que deseja seu semelhante; ou pior: de desejar, no impossível, o inalcançável. Dessa forma, valeram-se, ao longo de séculos, todo tipo de ideia a buscar, como princípio, a negação do fato de que o homem é a mais excelsa das criaturas, o mais nobre de todos os seres. Negação que não me causa nenhum espanto, pois a substituição do Criador por outro deus menor e enganoso, a se valer das graças deste mesmo Criador desprezado, é o ponto de partida de todo paganismo e de toda ideologia ateísta; até porque, a visão grandiosa do homem não é fruto do Humanismo, ou do Iluminismo, muito menos do Comunismo ou de qualquer outra ideologia de nosso mundinho politicamente correto (se, realmente, existe algo de bom no Socialismo, por exemplo, é porque foi furtado do pensamento cristão). Sobre Marx, por exemplo, e seu legado, Eric Voegelin, em seu História das Idéias Políticas – com a ajuda da tradução de meu amigo Elpídio Fonseca –, avisa-nos sobre este apocalipse humano, ao afirmar que, “na raiz da ideia marxista, encontramos a doença espiritual, a revolta gnóstica”, por mais que não se diga muito a seu respeito; doença que mostra o que já observamos no caso de Comte e suas características, que, a seu turno, pertencem ao padrão mais amplo da “doença cientificista e anti-religiosa”. Para Voegelin, a alma de Marx está demoniacamente fechada à realidade transcendental, não conseguindo se desprender das dificuldades, retornando à liberdade do espírito e o ativismo gnóstico, graças à sua impotência espiritual, é a única saída que lhe resta. Advém daí, como afirmará Voegelin, a combinação característica de “impotência espiritual com  o desejo mundano de poder”, acarretando “in a grandiose mysticism of Paracletic existence”. Eric Voegelin, então, sentencia: “and again we see the conflict with reason, almost literally in the same form as in Comte, in the dictatorial prohibition of metaphysical questions concerning the matrix of the universe, questions that might disturb the magic creation of a new world behind the prison walls of revolt”.

Marx, à maneira de Comte, não permite uma discussão racional de seus princípios – ou se é marxista ou se se põe em silêncio. O que sobra disso tudo é a mera correlação entre impotência espiritual e anti-racionalíssimo, ou, melhor dizendo, não se pode negar Deus e conservar a razão. E o que eu concluo disso tudo? Ora, se não há uma metafísica como Comte e Marx queriam que pensássemos, então, na há coisa nenhuma, porque tudo que nos rodeia é metafísica antes de ser qualquer coisa. E se há um Socialismo, um Antropocentrismo, ou coisa parecida, em sua verdade e plenitude, estes só podem advir do fato de o homem aceitar-se como uma criação do Divino, a mais poderosa obra de Deus, a maravilha entre as maravilhas da Criação. E mesmo que sejamos pó, resquício de estrelas ou coisa semelhante, como querem alguns, ainda assim somos “pó levantado” (como dissera Pe. Antônio Vieira) da ansiedade de si mesmo e do desejo de retornar ao seu Princípio. Negar tal coisa é transformar-se num autômato, em uma máquina ou um mero gorila morto no Congo a quem idiotas sem esperança choram como se fossem por seus entes mais queridos; é não dar sentido nenhum a sua vida; negar isso é negar a verdadeira natureza humana, e, pela melancolia e pelo desespero, condenar-se, vivo, a um inferno de incertezas através de um falso humo universalis, que não possui outra função senão destruir o Criador pelo desmantelamento de sua obra maior.

De Platão a Ortega y Gasset, a genuína grandeza do homem é trabalhar para a construção de uma sociedade justa, unida e vigorosa. Neste sentido, ninguém se entregou mais a esta construção do que Cristo... e isso é facto. Ou, como poetizara Bruno Tolentino, na voz de uma freira mal comportada:


O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

nem um clavicórdio
nos dedos da luz,
nem um monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamado Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

do teu coração:
de um lado teu medo
teu ódio, teu não;

do outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde teu degredo,

onde teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto
da ressurreição.


O resultado desta entrega a que Jesus tanto se dedicou foi nada mais nada menos que o Cristianismo (embora os não-cristãos sejam os que mais discordam disso, do mesmo modo que os não católicos são os que mais dão palpites sobre os dogmas da igreja ou sobre as palavras do Sumo Pontífice... C'est la vie!). As religiões sempre se puseram como o caminho dos homens rumo a Deus, mas não o Cristianismo; e nisso reside toda a sua sofisticação e superioridade ante todos os outros cultos: o Cristianismo, como defendera Hans Urs von Balthasar, é “Deus pondo-se a caminho dos homens”. Só no Cristianismo é que o homem tem a possibilidade de se tornar "coparticipante da Criação de Deus", e isso se dá, justamente, não nos atos de grandiosidade dos homens, mas se principia quando o Cristo, livre de milagres ou oratórias, oferece sua própria carne para que essa se uma à carne de cada homem; seu sangue para que este se una ao sangue de todos nós; seu Espírito para que sejamos um só espírito. A grandiosidade máxima de Deus está aí, fazer-se pequeno ao ponto de chegar ao nosso nível, de querer nossa colaboração nos rumos e destinos do Universo; é esse “o maior dos Milagres”, como dissera Nicolae Steinhardt, em seu O Diário da Felicidade.

Não é à toa que, de todos os credos existentes, nenhum é mais atacado do que o Cristianismo, porque nele reside o fim a que se destinam todas as possibilidades de grandeza do homem; e o homem não busca a plenitude no Cristianismo, ele a recebe, cuidando-a para que esta não lhe escape. Por isso mesmo, na construção de um mundo sem Deus, e, consequentemente, de virtudes frágeis, a rejeição deve ser feita à sua Criação; na substituição de Deus pela natureza, como modelo de perfeição, na negação do sentido da realidade histórica por meio do homem, que perde seu papel de sujeito do processo civilizacional, no descrédito do Cristianismo dentro do próprio Cristianismo, seja por “padres vermelhos” ou pedófilos de posse de batinas; em tudo isso reside a forma mais eficaz, usada tanto pelos iluministas, bem como pelos “comunas”, para matar Deus dentro do homem, que é a justificação e a racionalização do mal, do assassinato em nome da ideia: eis a blasfêmia máxima que se ramificou por quase três séculos e cresce até hoje.

E por que isso acontece...?! Ora, é muito mais interessante a um mundo, digamos,“prático e grosseiro”, que Deus não exista, porque, desta forma, a satisfação desmedida das paixões mais frívolas e baixas se faz mais simples e eficaz. A questão aqui vai além da formulação de uma incredulidade, pois não se trata disso; trata-se, simplesmente, do desejo de não querer que Deus exista porque, desta maneira, é mais cômodo esquecer a certeza de que Deus o condenará. É exatamente aqui que acredito ser o calcanhar de Aquiles de certas “minorias” que, ao se dizerem menosprezadas e discriminadas pela Igreja, ou mesmo pelas palavras do Livro Sagrado, chegam a assumir uma forte preocupação com os dogmas de uma religião que sequer professam ou mesmo a criar denominações religiosas a corrigir tais “falsas interpretações”, só para que suas consciências se sintam limpas, mas a sujeira sempre continuará ali, a criar aberrações, à maneira de certos indivíduos que preferem acreditar que certas condutas que eles mesmos escolheram para si são condutas lícitas porque no fundo sabem que estão em profundo erro e, consequentemente, tomados de indescritível culpa, pois poeira debaixo do tapete não é necessariamente uma limpeza decente. E é aqui, justamente quando levanto a questão para esta falta de caráter, em nome de certas frivolidades, que me recordo do personagem Camilo, do conto A Cartomante, de nosso Machado de Assis, um racional de araque que, não querendo negar seus instintos, crendo que, desta forma, negaria sua própria natureza humana, procura acreditar numa falta de fé que, convenientemente, ele julga ter, mas seu ateísmo é tão artificial como a vida mesquinha que ele chama de sua e que lhe parece tão verdadeira. Mas se não há imortalidade não há virtude; se não existem o bem e o mal, então, tudo é lícito.

Não querendo desvalorizar o nosso Bruxo do Cosme Velho, mas, apesar do bom exemplo retirado de A Cartomante, nenhum literato, em sua época, forneceu mais informações sobre as ideias destrutivas que fechariam o século XIX (e alimentariam o século XX), do que Dostoievsky. Ele, que se considerava “um filho da dúvida e da descrença”, mostrou a todos que quiserem ver, através de uma obra, até hoje, sem pares ou adversários à altura, que nada é mais belo, profundo e perfeito do que o Cristo. Para ele, a virtude é impossível sem a fé, e a existência de Deus se demonstra pelo simples fato de que a permissividade não é absoluta. Um bom exemplo disso está em um de seus personagens mais famosos e antagônicos: Rascolnikov. Como um dos primeiros símbolos de uma figura que o mundo contemporâneo aprendeu a temer na vida real e admirar no mundo da ficção, a do psicopata, o assassino de Crime e Castigo é o melhor exemplo que se conhece de um homem cingido entre a sua consciência e suas convicções filosóficas – um dos temas, mais caros, aliás, à obra dostoievskyana. Suas elucubrações sobre os limites para a moral nada mais são do que a busca incessante para dar razões ao assassinato em nome das ideias – algo muito comum ao Fascismo, ao Nazismo e ao Comunismo, diga-se. Essas “razões”, que Rascolnikov julga possuir, no entanto, só encontram força num mundo e numa realidade desprovidos da Divindade. Quando confrontados com a inabalável fé de uma Sônia Marmeladov – e, segundo Steinhardt, "nada nos confronta mais com a realidade do que a fé" – essas razões sequer se formulam.

Immanuel Kant que me perdoe, mas a nobreza moral é impossível sem Deus. Como a história de Crime e Castigo nos mostra, toda noção de nobreza se esfacela sem a noção da imortalidade; a moral, em um mundo niilista, é um elefante branco. E, mesmo que alguém seja criado em um ambiente desprovido de fé, ainda assim, ela permeia o mundo, faz-se incrustada em nossa cultura; para falar bem a verdade: crianças boas, por exemplo, não o são por acaso – e, de certa forma, o medo do Inferno pode ser um método pedagógico interessante e muito eficaz. E se, ainda assim, a crença no Eterno, por alguma razão, não garanta, realmente, a integridade moral de ninguém, o que fazer sem essa crença...? Basta qualquer um dar uma olhada em nosso mundo e ver os caminhos pelos quais ele está trilhando agora. Num mundo cada vez mais desvalorizador das coisas para além dele, em nome de um falso racionalismo, ou, pior ainda, mergulhado na mentira do relativismo, seria muita ousadia de minha parte defender tais ideias, no entanto, não pensar assim, acredito, é-me um retrocesso e, se tudo é permitido, como pensam e querem muitos, que diferença há entre nós e os macacos que disputam galhos de árvores na floresta? Se não podemos ser mais que chimpanzés, golfinhos ou qualquer outro bicho nós estamos tanto contra Deus, bem como contra Darwin. E é aqui, inclusive, que me recordo de Sto. Agostinho, que diz que o mal pode não existir como coisa, todavia, é o resultado daquilo que fica quando o bem não floresce. O próprio conceito de pecado é isso: quando aquilo que se esperou de alguém ou de algo não se completa. É triste pensar (e pior ainda ter a certeza) que o mundo, por negar-se ao mistério, está em pecado: é apenas a sombra daquilo que um dia se quis belo... Se não, olhem, por exemplo, para os caminhos que a arte e a literatura (até porque falar de arte e literatura são o propósito deste Blog existir, ainda) têm percorrido neste último fim de século. 

Ora, toda arte é necessidade de transbordamento. O poeta, por exemplo, é alguém que tem a missão de não se conter, é um possuidor daquela “sã loucura” comum aos santos e aos educadores por vocação: de fazer aquilo que deve ser feito; que se espera que seja feito, mas poucos, verdadeiramente, se propõem a fazê-lo. Sentimental ou racional, erudita ou popular, a arte é demonstração. Para a arte, mostrar é muito mais que argumentar: esta lógica sempre foi mais forte no mundo dos artistas, por isso que, em se tratando de arte, os fatos reais importam menos que a qualidade de como são contados. Mais que a verdade, para a arte, importa aquela subjetividade que existe em tudo que é verdadeiro em um nível mais profundo, seus valores e posições existenciais mais básicas. Não é à toa que a transmissão de um acontecimento, feito por meio de elementos artísticos, é muito mais forte e eficaz; quando não, mais verdadeiro. E se mostrar é mais importante que argumentar, não é de se estranhar que um espectador, por menos conhecedor que seja da história da arte ou dos mecanismos mais essenciais da crítica estética, passe mais tempo se deslumbrando sobre a imagem de Guerra e Paz, de Portinari, do que se convencendo de que há algum conteúdo ou valor estético nos herdeiros de Marcel Duchamp, por mais que mil livros ou “sabichões de cátedra” digam o contrário.

Não é de se condenar o modo como o público, por mais bem intencionado que seja e possa ir a uma bienal de arte contemporânea, relaciona-se com as obras ali expostas. Se o espectador, bem ou mal intencionado, estiver diante de uma exposição de arte renascentista, por exemplo, essa relação seria bem menos problemática, pois a fruição de seu entendimento dar-se-ia, naturalmente, melhor do que diante de uma exposição de Hélio Oiticica e, neste caso, o conhecimento profundo acerca da estética desse período não é condição de possibilidade para a apreciação das obras, mas a fruição decorrente de uma experiência estética que envolve pura contemplação... essa, sim, é importante. Isso porque os códigos que a envolvem tanto a sua produção quanto a sua avaliação são partilhados por todos os membros de uma determinada cultura, por envolverem, advertidamente ou não, um decoro ou cânones estéticos consagrados por uma tradição...

E o que isso tem que ver com o assunto de que há pouco falava...? Tudo. Porque, levando-se em conta tudo que disse sobre a arte como necessidade de transbordamento, e da importância daquela subjetividade que existe em tudo que é verdadeiro em um nível mais profundo, entre outras coisas, o elemento primordial da arte é Deus, pois, em princípio, foi para o Mistério e para o Divino que toda arte se fez; nela se encerram e se praticam, ainda, os elementos mais fundamentais de todas as religiões. Toda arte precisa de Deus, nem que seja para negá-lo. Essa necessidade pode ser vista tanto em um católico militante, como nestes Sonetos Gêmeos, de Jorge de Lima:


Se me vires inúmero, através
deste poema, entre as coisas e as criaturas,
como se eu próprio fosse o que outrem é,
dissipado nas páginas impuras,

arrebatado pelo próprio poema,
possesso, surpreendido, fragmentado,
travestido de herói ou de réu, em
quase todos os versos degredado,

negarás, meu irmão, a alma que vive
perdida na ansiedade de si mesma
sonhando a paz, querendo a paz; a paz

mas nas tormentas em que a paz revive
mas nos tormentos em que a paz se lesma
e se intumesce. Eu enlouqueço! Mas

até na álgida paz da insânia Deus
me busca para ser o seu convulsivo
a amado filho em torno de quem crês
morar a paz que Ele destina viva

a todo aquele que lhe faz perguntas.
Eis as respostas nessas vozes gêmeas,
deblaterando sobre o teu defunto,
sobre teu louco, sobre o teu recente

corpo hoje inda nascido e já julgado
e já descido, e já movido nesses
campos da morte, sob os passos, pássaros,

aos ventos indo, sob as noites gastas,
passos sobre as caliças, sob os gessos,
sob as bocas sem choro, em seus nadas.


Na Oração de um agnóstico, tal Alberto da Cunha Melo:

Senhor, nesta manhã de outubro,
ainda com o jeito de quem ia
reiniciar longa viagem,
meu poema chegou ao fim.

Agora todo meu trabalho
é procurar uma palavra
que te agradeça humildemente
todas as outras que me deste.

Entretanto, nem mesmo isso,
posso sozinho conseguir:
Dá-me, Senhor, essa palavra,
antes que chegue o último verso.

Que ela se espalhe como as brisas
dentro das minas, de repente,
e una-se sólida na hora
em que apertar a tua mão.

Quero morrer, quero alcançá-la,
e já começo a persegui-la
como se fosse uma serpente
que fugisse com minha morte.



ou mesmo na perplexidade de um ateu convicto, qual Carlos Drummond de Andrade, que, à casa de Deus, exclama:




Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.
Trouxeste-me a São Francisco
e me fazeis vosso escravo.

Não entrarei, senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
Vossas flores e querubins
são matéria de muito amar.

Mas entro e, senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
por que esta nova cilada?

Senhor, os púlpitos mudos
entretanto me sorriem.
Mais do que vossa igreja, esta
sabe a voz de me embalar.

Perdão, Senhor, por não amar-vos.


Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que perder esse elemento mágico é o primeiro passo em direção àquela decadência que se iniciou com o Renascimento e culminará com o vazio deixado pela herança de Andy Wahrol e seus seguidores. O pluralismo radical que toda arte possui faz com que o homem encontre-se com as suas necessidades espirituais, principalmente as da Beleza e as do Mistério – como foi desde o princípio –, mas quando o homem, desesperado pelo ateísmo, se vê num mundo de desespero e vazio, a arte não pode mais alcançá-lo e, com o tempo, também se destruirá, pois o universo criado pela arte é proporcional às nossas capacidades, por nascer de dentro delas. Num mundo onde a Beleza perdeu seu verdadeiro sentido, e nada se mostra para além da decadência, o que acham que a arte pode, de verdade, nos mostrar, além de uma lata de sopa ou de um rosto de mulher feito de lixo?! Quando algo verdadeiramente artístico não floresce, só nos resta a rejeição daquilo que um dia se quis belo – Viva a Sto. Agostinho e toda a sua clareza... E, se ainda me for permitido usar as palavras de outro, faço minhas as observações que meu amigo Elpídio Fonseca fez-me certa vez em ocasião da elaboração deste texto: “Algures Voegelin diz que a existência de Deus não é uma questão metafísica, mas é pré-metafísica, bastando, para reconhecê-la olhar para o mundo exterior e olhar para o passado e fazer as seguintes perguntas: este mundo aí fora, não fui eu que o criei, pois ele já existia antes de eu existir e continuará a existir mesmo depois de minha morte. Quem criou o mundo exterior? É um Mistério. Quanto a mim mesmo, tampouco fui eu que me criei, quem me criou foram meus pais, mas e quem criou meus pais? Meus avós. E meus avós? Meus bisavós? E meus bisavós? Meus trisavós, mas e quem criou o primeiro homem? Um Mistério. Esse, segundo Voegelin, é o mistério da existência, e chamemos a isso, Mistério, ou Deus, dá no mesmo. Não sabemos O que seja isso. Esse mistério é Deus”.



Diferentemente do que pensavam os iluministas do século XVIII, e os inúmeros herdeiros de suas ideias sem paz e sem raízes – todos empenhados em satirizar a religião e fazendo com que muitos pensassem que crer em Deus não pertença às discussões racionais –, ao mesmo tempo em que eles se entregavam a um mundo de aparências e sem alicerces, nada nos abre mais possibilidades do que a crença, nada nos dá mais resoluções do que a fé; sem Deus só existe acaso, todavia, não se pode contar com o acaso, pois o acaso não se explica, nem se faz crer. Sem Deus a vida é presa, aleijada, burra e sem estética. Desraigados da existência e da realidade em suas camadas mais profundas, os ateus são como aqueles “meninos sem pernas e braços” de que fala o protagonista de Grande Sertão: Veredas. Empenhados na formulação de um mundo onde a Eternidade não existe, o ateísmo – e os pensadores aos seus serviços –, na vida ou na arte, nada consegue além de criar anomalias, como aqueles meninos mutilados que se "acreditam" felizes.








Candeias/Feira de Santana, inverno de 2012.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

HENRIQUE WAGNER EM ENTREVISTA CONCEDIDA A HILTON VALERIANO PARA O BLOG “POESIA DIVERSA”, EM 18 DE NOVEMBRO DE 2011:



Henrique Wagner é baiano de Salvador, onde reside. Nascido no dia 16 de maio de 1977, é poeta, contista, ensaísta e crítico de cinema. Colaborou com os jornais A TARDE, Correio Brasiliense, Rascunho, entre outros. Publicou os livros de poemas O grande pássaro e As horas do mundo, e o livro de ensaio A linguagem como estética do pensamento.








Vivemos em tempos difíceis, inclusive para a literatura, por quenão!?; e, cada dia que passa, o mundo todo parece ignorar cada vez mais as razões para se viver e apenas aceitam uma vida de pretextos, esquecendo-se de que a civilização é, antes de tudo, "vontade de convivência"... como diria o bom e velho Ortega y Gasset. Em épocas como esta, de agitação conturbada e contrastante – barroquismo de niilistas –, o dever de um intelectual seria qual? Manter-se calado, sem dúvidas. Nessas ocasiões, saiba, é melhor calar-se, mesmo tendo algo a dizer; seria preciso mentir, com certeza; mas o intelectual não tem esse direito. O intelectual não pode mentir. Daí o seu dever, a sua missão... e o poeta e crítico literário, Henrique Wagner cumpre-a com alegria e afinco, como podemos ver nesta incisiva entrevista que ele concede a Hilton Valeriano.


Silvério duque


1) Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?

Resposta: Creio que esse contato inicial com a poesia se deu mais cedo do que imaginei, por muito tempo, ao longo de minha vida, e por um caminho aparentemente sem muita relação com a arte das palavras. Deu-se pelo silêncio. É que sempre fui um garoto extremamente tímido, do tipo que filava os dias e as aulas, e freqüentava a vida apenas nas tardes de quarta ou quinta-feira, quando me isolava na laje da imensa casa de meus pais, para desenhar histórias em quadrinhos. Depois do silêncio veio a letra de música traduzida. Eu era assinante da revista Bizz, e vivia lendo as letras enquanto ouvia as bandas mais famosas do rock and roll americano. Tanto que meu primeiro “poema” parece a letra traduzida de uma canção americana, e eu até uso palavras do tipo “baby”, “garota”, e frases descritivas, cruas, tipicamente americanas. Eu tinha mais ou menos treze anos de idade, à época. Com o fim do meu primeiro namoro sério, escrevi, quase convulso, um texto desesperado, diretamente na máquina de datilografar – uma Remington portátil –, apinhado de erros de digitação que davam ao “poema” a aparência de um poema tipográfico mallarmeniano. Seguiu-se a essa experiência um longo feriado lírico, no qual vivi tormentas de toda ordem e muitos namoros, uma vida intensa ao lado de mulheres fortes que me ensinaram muito sobre poesia, na medida em que a mulher é de uma profundidade equivalente à mãe das artes. Retomei a poesia em forma de poemas aos dezoito ou dezenove anos, depois de sentir o desejo de ler poemas e não mais as letras traduzidas citadas acima. O que mais pode influenciar um poeta é outro poeta, e não a vida, como gostam alguns. E não afirmo que se trata de escrever imitando alguém, mas de fazer uso de uma mimese pouco aristotélica, pouco grega, que diz mais sobre o poder que tem a arte de incitar a arte, como uma espécie de parceria ou relação amistosa entre gêmeos. Um bom poeta é um digest, e certamente fez uso de outro poeta e outras leituras para a composição de sua obra, de modo a transmitir sua mensagem, séculos a fio, usando seu ethos transusbstanciado, um misto de natureza e cultura, vida e livros.


2) Como você vê a cena poética atual no Brasil?

Resposta: Quase não vejo, porque tenho me ocupado mais com prosa e dramaturgia, há alguns anos. E porque, também, quando leio poesia, ultimamente, busco um lugar seguro, leio os poetas que gosto ou que sei fazerem parte de uma linhagem que participa de minha orientação literária. Acresce ainda o fato de que jamais houve tanta poesia exposta no mundo, em função da internet, com seus tantos blogs repletos de poemas – em geral bilhetes suicidas e cartas de amor. De todo modo, preciso dizer que a poesia brasileira, a partir do pouco que li de poetas contemporâneos, vai muito mal. Vive-se ainda o restolho da poesia concreta, que, se já não era lá grande coisa, imagina em seus resíduos. Por outro lado, há aqueles que insistem em fazer poesia regional nordestina, tentando a sorte de um Cabral de Melo Neto. Há ainda a turma que anda fazendo uma poesia mais formal, numa retomada à geração de 45. E por fim, há a poesia “fácil” de uma turma sempre justificada por seu lirismo – nessa turma se encaixa perfeitamente o caso do poeta baiano Ruy Espinheira Filho, com sua mania de lembrança e seus poemas mornos, sem qualquer “susto” ou arrebatamento. Dos autores vivos mais velhos gosto muito de Alberto da Costa e Silva, Ledo Ivo – sempre esquecido por quem gosta de fazer afirmações bombásticas do tipo “o maior poeta vivo do Brasil, e sempre esbarram em Ferreira Gullar e Manoel de Barros; Ledo Vivo, ousaria o trocadilho, pedindo desculpas pelo fácil expediente –, Paulo Bomfim e o não tão velho Nelson Ascher. Gostaria de poder citar o Bruno Tolentino, encaixá-lo no time dos grandes poetas vivos brasileiros. Infelizmente, o secularismo não me permite tamanha metafísica. Pensando nos mais jovens, gosto do Alexei Bueno, algumas coisas do Ivan Junqueira, mais conhecido por seus ensaios e traduções do francês, e Rodrigo Petrônio, vencedor de alguns prêmios de poesia respeitados, autor de poemas com um elevado senso de forma e consideração pelo conteúdo. Recentemente o amigo Raimundo Bernardes, poeta, ensaísta e tradutor baiano, me apresentou a dois poetas interessantíssimos: Érico Nogueira e Marcos Catalão. Ainda estou em fase de leitura da obra desses dois nomes. Mas já é possível perceber que são talentosos e originais, pelo que li até o momento. Infelizmente, depois de toda uma tradição de bons poetas, a Bahia de Gregório, Castro Alves, Junqueira Freire, Arthur de Salles, Sosígenes Costa, dentre outros, vem produzindo poesia de péssima qualidade. Aposto, atualmente, na poesia séria, consistente e sem firulas do Silvério Duque, com seus sonetos maduros quanto aos temas escolhidos e quanto à reserva feita a fórmulas fáceis. Há o que se trabalhar, ainda, mas penso que Silvério vem construindo uma poesia que nos prepara para uma grande obra, mais cedo ou mais tarde. E há a poeta Fabrícia Miranda, que faz uma poesia com profundo conhecimento do idioma e da complexidade da condição humana, escrevendo poemas marcados pela excelência em conduzir o leitor, por meios os mais sofisticados, ao cerne das grandes questões humanas, sempre com uma linguagem muito elegante, refinadíssima. Seus poemas inéditos, alguns postados em seu blog, são impactantes pelos temas e pelo trato dado aos temas. Quero ainda voltar ao amigo Raimundo Bernardes. Esse jovem poeta e intelectual está por trás da produção poética de quase todos os jovens poetas com alguma qualidade, na Bahia e fora da Bahia. Ele vem funcionando como um mentor para diversos autores, que, de forma ingrata, não dão os devidos créditos. Sempre que houver um poeta baiano escrevendo bem, acredite, há a mão de Raimundo Bernardes na construção do pensamento e da poética desse autor. Raimundo é muito generoso com os iniciantes, e trabalha na coxia, sem alardes. Mas é preciso lembrar que Raimundo não é milagreiro: ele faz o que pode, e pode muito, e se a poesia baiana vai mal, provavelmente é porque não tem a disciplina necessária para ser um epígono do amigo supracitado. Em tempos de preguiça, decorrente das facilidades e da pouca leitura invectivadas pelo mundo virtual, não há qualquer surpresa quanto a isso.


3) Como você vê a relação entre tradição poética e movimentos de vanguarda? É possível o diálogo entre a tradição e as vanguardas, ou uma poesia de invenção deve ser necessariamente uma poesia de ruptura?

Resposta: O diálogo é feito de perguntas e respostas, não? Pois bem, a vanguarda é a pergunta. Destarte, digo que o diálogo entre a tradição e as vanguardas não só é possível como existente, desde a Antologia Grega e as sátiras de Horácio. Uma poesia de invenção é, antes de qualquer coisa, uma poesia de qualidade. Com ou sem ruptura. Não vejo qualquer problema em inventar a roda, desde que se faça alguma contribuição à evolução da roda. É possível torná-la menos circular, por exemplo. O Borges poeta é um grande exemplo de autor entre a tradição e a vanguarda, que “deu certo”. Mas que vanguarda? Aquela que ousa inovar dentro da tradição. Isso, para mim, é mais louvável – e mais difícil, embora a dificuldade não seja um critério válido para mim – que um poema visual, que atesta a insuficiência da palavra escrita, por imperícia do poeta visual, não da poesia. Borges descobriu um modo de fazer poesia original porque investiu no passado, aumentando-o para os tempos modernos. Borges voltou à origem, e parece ter começado tudo de novo a fim de construir sua teogonia e sua odisséia. E o resultado é uma poesia de Borges, mais ninguém.


4) Parece existir um preconceito proporcionado por posturas pseudo-vanguardistas em relação à poesia que se pratica no Nordeste, sobretudo no eixo Sudeste-Sul. Muitos poetas de grande talento são totalmente ou propositalmente ignorados em outras regiões do país. Estaríamos diante de uma espécie de monopólio cultural (revistas, jornais, editoras, prêmios literários) cuja principal característica seria a recusa de qualquer poesia com os pés na tradição, ou seja, a aceitação de uma poesia que somente apresentasse um viés “inovador”?

Resposta: Não gosto muito de reclamar leitores. Há muito o que fazer na vida. Ler poesia é apenas uma das atividades humanas, e não acho que seja a mais prazerosa, aliás. O Nordeste já deu muita literatura – e muita arte, de um modo geral –, e acredito que está cansado, esgotou-se, assim como os leitores cansaram de tanta produção nordestina. Os grandes poetas ignorados pelo eixo Sudeste-Sul são verdadeiras lendas em suas aldeias. E uma aldeia fica. Muito mais que um exemplar da revista Cult. O monopólio cultural não existe apenas no eixo Sudeste-Sul. Existe no Nordeste também, que recusa a poesia “moderninha” dos filhos de Leminski e netos de Oswald de Andrade. Infelizmente o Nordeste não tem a força midiática que o eixo já citado aqui, tem. Mas isso não é resultado de uma política literária, mas de uma política “agrária” que envolve questões muito mais urgentes que literatura.


5) Como você vê a importância dos movimentos Modernista de 22, e do Concretismo para o desenvolvimento da poesia brasileira?

Resposta: Para mim foram movimentos de suma importância para tornar clara a supremacia, quanto à qualidade literária, da literatura feita depois desses dois movimentos. Todo modernismo tem, como obrigação, ser relativista, ainda que pareça, sempre, intolerante, radical etc. O relativismo se dá porque, enquanto o modernismo acontece, milhões de voltas ao mundo em 80 dias vão acontecendo. A necessidade de criar um manifesto, um panfleto, é tão grande, que esquecem de fazer arte, e uma arte que ponha em prática a teoria, que seja fiel às idéias propaladas muito mais por vontade de entrar para a história como inventor de uma tendência do que para criar, de fato, uma ruptura necessária. Aliás, alguns autores apontam para a infidelidade de Oswald de Andrade em relação a suas idéias, seus manifestos, seus panfletos. Dentre esses autores estão dois poetas respeitáveis: Ferreira Gullar e o extinto Bruno Tolentino. Em suma, esses movimentos foram importantes para o desenvolvimento da poesia brasileira porque mostraram algumas ruas inóspitas e becos sem saída. Mostraram ao autor brasileiro o que não se deve cultivar, por falta de consistência dos objetivos e das supostas teorias. A poesia brasileira, depois desses movimentos, voltou a estacar impávida.


6) O crítico literário Antonio Candido afirmou que todo país possuiria um representante máximo de sua literatura, um escritor que encarnasse a identidade cultural de seu país, sobretudo no âmbito da linguagem, e citou como exemplos nomes como Cervantes na Espanha, Goethe na Alemanha, Dante na Itália, Borges na Argentina, Camões em Portugal. O mesmo crítico afirmou que o Brasil não possuiria essa figura máxima em sua literatura. Talvez dois nomes: Guimarães Rosa e Machado de Assis. Qual a sua opinião sobre essa questão? O que pensar de um nome como o padre Antonio Vieira?

Resposta: Antonio Candido precisa lembrar, e não é tarde ainda, que o Brasil tem apenas 500 anos de zumbi. Não há tradição com quinhentos anos de vida, se pensarmos no hinduísmo, por exemplo, e ainda no velho continente, a Europa, que é uma invenção dos gregos, aliás. O poeta Hesíodo foi o primeiro a empregar esse nome, e o célebre Heródoto, o “pai da História”, no século V a.C., escreveu: “Quanto à Europa, parece que não se sabe de onde veio seu nome e nem quem o deu”. Sabe-se ainda um pouco da lenda: uma princesa chamada Europa, filha do rei Agenor, é raptada por um touro gentil, mas voluntarioso. Ele a levou para uma grande ilha grega, Creta. O touro uniu-se à princesa, tornando-a “mãe de nobres filhos”. Mas há o exemplo de Borges na Argentina, usado pelo famoso crítico literário e sociólogo brasileiro. Acontece que a Argentina é uma Nova Europa, assim como houve e há a Nova Inglaterra nos Estados Unidos da Hawthorne, com a sua letra escarlate. Acredito em Machado de Assis, sem qualquer hesitação, como figura máxima da literatura feita no Brasil até o momento. Mas outros virão, embora os prognósticos não sejam favoráveis. Quanto ao padre Antonio Vieira, há que pensar em seus lusitanismos – afastando-o, portanto, do posto de representante máximo brasileiro –, e na imensa parte de sua obra voltada para uma função social, porquanto religiosa em terra de índios, que diminui consideravelmente o valor artístico necessário a todo autor que se queira representante de uma literatura, em qualquer país.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ENTREVISTA: CONCEDIDA A HILTON VALERIANO PARA O BLOG "POESIA DIVERSIDADE", NO DIA 22 DE MARÇO DE 2011...

 
O poeta Silvério Duque (1978-     )



Pode a poesia expressar a busca permanente do homem pelo belo, pelo eterno, pelo sublime estigma do Ser entre a transitoriedade constitutiva de todas as coisas? Há poetas que cantam ruínas cotidianas. Há poetas que cantam o derradeiro sonho primevo, anterior a Queda, grande narrativa simbólica das ações humanas e seus anseios pela perfeição, pela unidade, arquetípico platônico, Éden Bíblico. Assim é Silvério Duque, um poeta definitivo. Seu livro, A pele de Esaú, manifesta em forma e conteúdo, uma lírica existencial, metafísica, como grandes são os poetas desse gênero, Jorge de Lima, Rilke, T.S. Eliot, para citar alguns. Verdadeira catarsis aristotélica, que busca no precário horizonte da vida, o desvelamento do eterno, a justificação de todo itinerário outorgado ao homem como seu destino: "Hoje, é chegado o tempo dos retornos/e toda forma espera o seu ofício/como o vaso existente em todo barro". Purificação de uma busca que se inicia pelo Amor: "Teu corpo me é louvor e desengano/e eu sou como que um sopro em teus anseios", e prossegue pela arte: "Toda palavra se renova em seu ofício,/todo verso vasculha venhas cinzas", porque a criação do poeta compartilha o gesto do Criador: "É preciso criar quando se crê,/é necessária a fé antes do fim,/rogar por quem (na fé) perdeu seu Deus.../Neste poema há mais que a minha vida". Se pertence à essência humana buscar a eternidade, essa busca realiza-se na temporalidade de nosso exílio: Somos a nossa ação por sobre o tempo, diz o poeta em seu verso. E assim, Silvério Duque exerce seu ofício de porta-voz do Eterno pela arte que pratica como exímio escritor.

(Hilton Valeriano)
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ENTREVISTA:

Hilton Valeriano: 1) – Como ocorreu seu contato inicial com a poesia?



Silvério Duque: Eu comecei, muito cedo, a ler poesia; escrever, no entanto, foi algo que veio depois... bem depois. E eu, sinceramente, não conseguiria dizer, com certeza, quando ou como foi, verdadeiramente. Sei que apareceu, sei que Fernando Pessoa, Drummmond, Camões, Shakespeare, Dante, e, logo depois, Eurico Alves Boaventura, Manuel Bandeira, João Cabral, Rilke, Tolentino, começaram a fazer parte de minha vida... mas, hoje, prefiro acreditar, o me limitar a responder, na seguinte idéia: Poeta nascitur, orator fit, como diria Sêneca.


2) – Como é seu procedimento ao escrever um poema?

A idéia me vem. Aí, eu a capturo, “deixo rolar”, como dizem os mais jovens. Depois, ponho “no complicador”, como diria o João Cabral. Tenho poemas feitos de uma só vez, cujos retoques foram mínimos e outros que levaram horas, dias, meses e até anos. Em meu próximo livro, Ciranda de Sombras, a sair pela É Realizações, há um poema que construir ao longo de oito anos... Retoco aqui, refaço ali, reproduzo e experimento várias combinações sonoras. Sou músico, componho um poema como quem combina notas, melodias, harmonias, timbres... Este é o caminho de quem quer algo bem feito, é o caminho percorrido pelos grandes, é o caminho que quero e devo seguir. Se o resultado, ao final, foi ruim, a culpa não é de todo minha... luto constantemente com as palavras para que elas me dêem um pouco do que elas têm de melhor. Quem faz o contrário é um idiota preso à sua própria vaidade de inepto.


3) – O que é poesia para Silvério Duque?

É uma afirmação diante da vida e de suas limitações. A poesia é uma das poucas coisas que, eu sei, valer, verdadeiramente, alguma coisa. Com ela, a vida é maior e já não sei olhar para ávida (ou para mim mesmo) sem olhar para ela, para a poesia, pois nos tornarmos uma coisa só, o mesmo propósito, a mesma vontade de completude. Ela me dá a certeza de que é possível criar, realizar... E realizar é afirmar a vida, vencer a morte; como eu mesmo escrevi, para um amigo poeta que morria de câncer:


É preciso criar para sentir;
nada somos se nada construímos,
pois se nada inventamos, nada existe...
Somos a nossa ação por sobre o tempo.


No dia em que tecemos tudo vive,
realizar é escapar da morte... mas,
não durarei apenas entre os outros,
pois dou aos versos usos e clarezas.


De tanta falta e busca me revejo,
de tanto amor e anseio, me reinvento,
nessas rotas e fugas me refaço.


Necessário é criar e a vida é pouca,
no dia em que eu me faço estou e existo.
Neste poema há todos os meus passos.




4) – Como você vê o atual panorama da poesia brasileira contemporânea?


Eis, aí, uma pergunta difícil...

A poesia, em nosso País, sempre foi algo muito forte, ligada demasiadamente à construção de nossa nação, à nossa idéia de brasileiros, à identidade brasileira. O problema é que, de uns tempos para cá, alguns critérios muito básicos vêm mudando radical e erroneamente. Exceto por uma duas dúzias de esmerados perdidos por nosso vasto território, a cultura, que, no Brasil, um dia, se chamou de erudita, é quase uma alucinação.

Um dos grandes problemas de nossa atual sociedade foi desaprender o sentido, tanto teórico quanto prático, da palavra “critério”, ou mesmo “juízo” e “discernimento”. De pessoas que acham, por exemplo, que a Ivete Sangalo é a maior cantora do Brasil porque cantou no Madison Square Garden ou que o Romero Britto, que, claro, possui lá o seu valor, é um grande pintor porque vendeu quadros para a Madona e para a mulher do Arnold Swarchenegger...“me poupe”! E a poesia, principalmente a contemporânea, acabou sofrendo muito com isso, também. Assim, se tu me perguntas sobre a nossa poesia e se ela vai bem, é claro que vai, sempre foi maravilhosa. A questão é que a poesia, mesmo se apresentando como uma forma de arte menos comercial e, muitas vezes, “sisuda”, não se livrou deste problema que no Brasil é grave, crônico e contagioso; por isso é preciso, infelizmente, dividir a poesia em dois extremos bem distintos: de um lado, aquela que ocupa a maioria das revistas, jornais e programas ditos especializados que, em sua maioria serve apenas para maquiar a total ignorância e a falta de apreciação mais acurada, aliada às trocas de favores, ao cooperativismo porco, à industria da promoção, dos diplomas, das orelhinhas de livros; do outro, aquela poesia distante da grande maioria destes veículos, feitas por pessoas que sabem que a poesia é a mais perfeita das redações, que ela não se nivela por baixo e que deveria constar nos livros de literatura e em todo material didático que chega às mãos de nossos alunos, porém, o que acontece é que aquilo que há de pior, ou, no melhor dos casos, de mais simples, óbvio e, digamos, de fácil digestão, à maneira da axé music e do hip hop, é o que se acaba estudando e aprendendo como a única poesia existente no Brasil, e isso é uma inverdade cruel e sínica, mas, ouça o que te digo, a história, no fim, excluirá os covardes, os inéptos, os sem talento, os sem critério, os sem noção...

Mas, ainda contamos com grandes nomes, como Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo, Orides Fontela, Hilda Hilzt, Ildásio Tavares, por exemplo, que, mesmo mortos, ainda que há pouquíssimo tempo, são nossos contemporâneos, incluindo mestres da velha guarda como Ferreira Gullar, Ariano Sussuna, Reynaldo Valinho Alvarez, Adélia Prado, Mirian Fraga, Antônio Brasileiro e Conceição Paranhos, Florisvaldo Mattos, João Carlos Teixeira Gomes, que ainda estão vivos e nos ensinando cada vez mais. Estes são nossos contemporâneos, claro.

Agora, se tu me perguntas, mais especificamente, de nomes e poetas mais novos, em todos os sentidos, eu muito me contento em ler os trabalhos de Rodrigo Petrônio, autor de Venho de um país selvagem, que, inclusive, ganhou prêmio, aqui, na Bahia; Érico Nogueira, Marco Catalão, Jorge Elias Neto, ou de baianos – por que acontece que eu também sou baiano –, que são responsáveis por manter uma tradição de qualidade e beleza que provem desde Gregório de Matos, passando por Castro Alves e outros mais, como Bernardo Linhares, que nos apresenta uma poesia madura e admirável, onde forma fixa, aliada à livre cadência de ritmos, compõe uma das obras mais singulares de nossos últimos tempos por se tratar, principalmente, de um livro contemplativo, que nos apresenta uma postura positiva da vida e de toda a beleza que ela nos oferta dia após dia, e, em um caso que vai um pouco além do ofício de poeta; Gustavo Felicíssimo, que é o paulista mais baiano que conheço e um dos poetas mais disciplinados e talentosos de minha geração, por assim dizer, responsável por reunir e divulgar, em seu livro Diálogos (Ilhéus/Itabuna: Via Litterarum/Editus, 2009.), uma dos maiores grupos de poetas que o Brasil já possuiu, todos baianos, da região Grapiúna, onde, sem dúvida nenhuma, se produz, atualmente, a melhor poesia da Bahia e uma das melhores do País.

Quem se aventurar nas páginas de Diálogos, encontrará a síntese perfeita entre imagem e palavra na econômica, porém dialética, poesia de Edson Cruz; o verso sincero e livre de Heitor Brasileiro Filho; a delicada angústia de Noélia Estrela; os formais e coloquiais sonetos de Piligra; a enigmática literatura de George Pellegrini; o erotismo pujante e lírico de Rita Santana; o verso livre e apaixonado de Fabrício Brandão; o deslumbramento reflexivo de Daniela Galdino; os haicais (e falando em haicais já se diz tudo) de Mither Amorim; o esmiuçar emotivo de Geraldo Lavigne. Além do mais, o leitor constatará uma coisa óbvia: o trabalho sério e impressionante do pesquisador e organizador Gustavo Felicíssimo, que, entre critérios estéticos e políticos, constrói uma obra de referência, onde novas vozes se misturam, em igual índole, a nomes referencias como Sosígenes Costa, Adelmo Oliveira e Cyro de Mattos e para onde não encontramos sinais de nenhum “verbalista” que, como bem acentuou, certa vez, o filósofo Olavo de Carvalho, são os ditos "poetas que saltam direto do estímulo verbal à reação emotiva, sem passar pelo trabalho de imaginação e muito menos pela triagem crítica das representações imaginativas e cuja sua tendência é buscar a comoção ante os simples jogos vocabulares que, bem examinados, não significam absolutamente nada e nem poderão suscitar emoção nenhuma a não ser no sucesso do movimento Concretista que se deveu a propagação do verbalismo no lugar do verdadeiro poeta...”

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E se tu (e o leitor) ainda me permitir mais um exemplo – eu disse que esta pergunta era um problema – ainda temos o caso de poeta Patrice de Moraes, que, por ainda não ter seu trabalho muito divulgado e nem lançado por uma editora, merece um tratamento um pouco especial.

Falar de Patrice de Moraes é falar de um homem de extraordinário talento, cuja produção poética, segundo o dizer de Jessé de Almeida Primo, tranqüiliza a toda crítica “por não deixá-la em dúvida quanto à sua qualidade”, não restando objeções ao seu domínio de um ofício de eleitos: a Poesia. Poesia sem medos: sem medo de mostrar suas influências, de apontar para as fontes de onde se embebera, seja uma poetisa grega, morta a mais de vinte e seis séculos ou um mineiro introspectivo, cuja derradeira herança foi um livro de versos eróticos; seja um poeta português que foi tantos ou um paraibano que não foi menos que único. Poesia sem medo de mostrar sem disfarces e subterfúgios ou de encontrar aquela liberdade presente nas formas fixas que só um grande poeta sabe dar e reconhecer. Sem medo de não se mostrar pessoal e sincera, sem perder a boa e velha veia fingidora. Sem medo de ser poesia pura e depurada. Poesia como poesia deve ser. E para ser possível obter algo assim faz-se necessário munir-se de três grandes e indispensáveis requisitos: o talento a disciplina e o amor ao que faz que, a tudo, nos obriga. Quando me refiro à poesia de Patrice de Moraes, refiro-me a uma poesia que sempre se quer cinética, que pretende romper os limites da impressão simplória e alçar à consubstanciação da mais pura e didática alegoria, ou seja, uma poesia que substitui o abstrato pelo aparentemente concreto, ou, como melhor definiu Coleridge, citado por César Leal em seu Os cavaleiros de Júpiter, uma “transposição de noções abstratas para uma linguagem de cores”. Assim, cada poema de Patrice faz-se de imagens intencificadoras, dentro de um sistema que permite muito bem a isso; uma imagem representando um conceito ao qual se pretende, ou, simplesmente, comunicar, por meio de imagens puras e gradativas, o despertar dos sentidos, onde certas questões, como a do erotismo, são bem menos um assunto do que uma maneira de metaforizar, como nos dirá Jessé de Almeida Primo: “nesse sentido, sua poesia é tão erótica quanto toda poesia de qualidade deve ser, pouco importando seu assunto”.

Mas é, evidentemente, o próprio Patrice de Moraes, quem nos dá o melhor exemplo:


Se tens em ti a alma seduzida
a contemplar o Belo onipresente,
pensa que esse recurso reverente
levar-te-á à terra prometida.


Não àquela da Bíblia conhecida.
Mas outra situada num ambiente
onde sentir é fonte permanente
de ilustrações poéticas da vida.


Falo-te com profética certeza
porque assim que a existência foi-me empresa
às bases da contemplação do Belo


meu coração coitado preparou-se
a receber o AMOR como se fosse
o prego feito à imagem do martelo.




5) – A inovação em termos de poesia é sempre necessária? Existe uma tradição perene em regiões especificas do nosso país, como o Grande Nordeste?
 
Como afirmei, no início de nossa conversa, A poesia, aqui, no Brasil, sempre foi algo muito forte, ligada demasiadamente à construção de nossa nação, à nossa idéia de brasileiros, à identidade brasileira. E é claro que há uma tradição histórica ligada aos grandes centros culturais: no Nordeste (Bahia, Pernambuco e Maranhão), principalmente, por causa dos primeiros dois séculos de nossa formação, em Minas Gerais, graças aos Inconfidentes e no Rio de Janeiro, por tudo que veio dos primeiros anos do século XIX para cá. Eis os nossos grandes centros, lugares onde há uma tradição de poesia, onde a própria poesia é uma tradição. Todavia, mais do que tradição, ou inovação, necessitamos de boa poesia, de poesia de qualidade e é aí que começa um problema que já discutimos...


6) – Comente sobre a influência bíblica presente nos poemas de seu livro A pele de Esaú.



Eu penso da seguinte forma: como não ter esta influência? Ela está em nós por mais que não queiramos aceitar, pois é na Bíblia que está o nosso Mito Fundador. Leia o artigo: Do mito à ideologia, de Olavo de Carvalho, no Jornal da manhã do dia 21 de março de 2001. Um autêntico Mito Fundador é uma verdade inicial compactada que, no decorrer da História, vai desdobrando o seu sentido e florescendo sob a forma de ciência, de leis, de valores, de civilização, não sendo ele mesmo um produto da cultura por ser ele mesmo a semente de uma cultura possível. Basicamente, prossegue o filósofo, um Mito fundador constitui-se, em geral, de uma narrativa simbólica de fatos que efetivamente os sucederam que de tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte de seu padrão de significado para tudo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional. A Bíblia é o Mito Fundador da civilização ocidental. E de que maneira este Mito Fundador se nos apresenta, e nos é repassado ao longo da História? Através da Literatura, primordialmente... Oral, depois escrita, xilogravada, depois pintada, melodiada por Bach etc. e tal... A arte é uma das muitas punções de um Mito Fundador. Quando Northrop Frye afirma ser, a Literatura Ocidental, uma variação dos enredos bíblicos, ele não só demonstra a existência e a importância do Mito Fundador como nos dá um belo exemplo do poder que a Poesia e a Arte exercem sobre nós ao longo de milênios. Até mesmo o Marxismo (que para mim é uma coisa abjeta) no que ele, supostamente, tem de melhor, é um mero decalque do Cristianismo.



No contexto mais específico d’A pele de Esaú, procurei, na figura de um Esaú destituído de seu destino, elaborar uma associação de sentimentos e pensamentos, buscando a verticalidade de múltiplos personagens que se querem fundir em um só. Afinal, o drama de Esaú é de todo ser humano, criatura destituída de seu verdadeiro lugar, como aquele Albatroz de Baudelaire,...“exilé sur le sol au milieu des huées, ses ailes de géant l'empêchent de marcher”, que um dia se apartou da presença de Deus. Um drama que, aliás, Sto. Agostinho, n’As Confissões, resumiu muito bem: “Fecisti nos ad Te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat inTe."


 

7) – Em tempos onde muitos “poetas” vanguardistas repudiam toda referência à Tradição Poética, você escreve uma poesia centra na forma fixa do soneto, ou seja, uma forma clássica. Comente sobre esse aspecto de sua poesia.

A forma, como já tive a oportunidade de dizer, outrora, sempre pareceu, aos olhos ineptos, como um grande problema para quem nutria alguma pretensão poética; durante a pantomima estilística promovida pelo modernismo paulista de 1922, a forma figurará com um problema a ser resolvido, ou melhor, um cancro a ser extirpado, e não uma condição natural do fazer poético. Ambas as concepções, no entanto, são impressões simplórias e vulgares de quem só gosta de acreditar em besteira; neste caso, na idéia de que a forma é uma mera disposição de versos e rimas, ao bem da escolha de cada poeta, principalmente, àqueles que demonstram a mais completa inabilidade para com ela. Digo isso por pura experiência, pois, de todos os poetas que convivo e convivi – dos que conheço pessoalmente ou dos que só sei de ouvir falar e ler –, somente os que não dominam a forma reclamam dela; análogos a muitos artistas plásticos de lorota, que escondem sua escassez de talento através de um dito viés abstracionista. Há muitos que se dizem poetas, desprezando o soneto e as demais formas fixas, com a velha desculpa de que a forma é uma “aprisionadora” da inspiração e, conseqüentemente, do poema... entre outros despautérios.

Mas a forma nada mais é do que a elaboração interior do poema e é a idéia nele contida que a comporá, não o contrário. Um decassílabo, por exemplo, deve nascer decassílabo, quaisquer emendas de rimas ou sílabas métricas resultariam numa deformidade a comprometer, mais do que a qualquer outra coisa, o conteúdo da poesia. Forma é assimilação de idéia; compor diretamente nela é o melhor exemplo que alguém possa ter da incorporação desta idéia ao seu resultado final, enquanto arte. Todavia, é sempre bom lembrar que, quando digo que não pode haver emendas, ou apoios à composição de um poema, não me refiro aqui à depuração, que é um ato indispensável à criação poética, e que nada mais é do que o exercício e, conseqüentemente, a adequação de melhores recursos a uma forma já existente, pois ninguém sai de um soneto alexandrino para uma retranca, ou de um octossílabo pronto para um possível decassílabo sáfico; apenas se lapida, se retoca, fazendo com que um verso defeituoso, ou inexpressivo, como bem considerou Manuel Bandeira, em seu Itinerário de Passargada, carregue-se de poesia “pelo efeito encantatório de uma ou de algumas palavras”, exprimindo, no entanto, a mesma idéia e o mesmo sentimento que as substituídas, mas “lhes dando superioridade” naquilo que é a matéria mesma da poesia: a palavra.

Essas coisas são tão óbvias e, de certo modo, tão simplórias, que é difícil de acreditar que alguém as ignore com tanta veemência, mas não faltam exemplos de que tamanha asneira prolifera-se, por aí, como baratas no esgoto. Não faltam exemplos de idiotas que não acreditam na forma como a patente e espontânea conseqüência da idéia de um poema que – como afirmou o crítico Jessé de Almeida Primo – carrega em si o caráter mimético que, de tal sorte, a forma vem a existir para calcular, bem como para dizer algo do texto, que o texto não diz, por mais que isto, antagonicamente, só seja possível, através do texto, por meio da “prosódia e do ritmo” que, para o autor de A natureza da Poesia, são sempre encenação de alguma coisa.

Acreditar que um soneto são simples catorze versos e não o resultado natural da concepção poética é, paradoxalmente, quase que dar crédito ao piano, pela bela interpretação de um concerto, do que ao pianista que, virtuosamente o dedilha, visto que, ao desprezar o resultado acabado, ele teria mais credibilidade em sua forma do que em sua essência. Vejamos então, leitor amigo, outro exemplo simples, também utilizado pelo Jessé Primo.


Na cinza desta tarde me comovo,
levado por lembranças tão pequenas
que me volta o desejo de partida
quando já estou bem próximo à chegada
e me sobram razões de ter ficado
sem sonhar o momento de partir
nem cultivar tenções de continuar.
Procedo como um louco que se perde
nas voltas renovadas do caminho
e sem saber repisa a mesma trilha.
Repasso o longo espaço percorrido
e me faço perguntas sem resposta.
Onde terei deixado o que perdi
ou que terei deixado ao me perder.



 
Os catorze versos estão aí, embora se sinta a falta dos já citados dois quartetos e dois tercetos ou, neste caso mais específico, os três quartetos e um dístico, pois se trata de um soneto inglês. Por que...? Para Jessé de Almeida Primo, há, neste belíssimo poema de Reynaldo Valinho Alvarez, um ritmo muito específico que predomina nos dose versos, levando-se em questão uma leve variação, que, por sua vez, confirmam e credibilizam o ritmo original, como na retomada de fôlego a partir do oitavo verso, no qual, ainda segundo Jessé, “tudo começa outra vez”, até a mudança mais acentuada exercida pela “uniformidade prosádica dos dois versos finais”; Jessé Primo, então, conclui que, “se a rima é igualdade de som”, como também afirmara o grande Manuel Bandeira, “neste soneto mostra ser também uma igualdade no ritmo, ou seja, a forma fixa é, antes de tudo, definida pela melopéia, de modo que, o agrupamento de versos e as rimas terminam por ser um detalhe”. O resultado disso, como vemos, é um soneto, e não catorze versos.



E por falar em soneto... Se tu perguntares a quaisquer alunos de nossas melhores escolas, ou, até mesmo, aos neófitos do Materialismo Histórico, os quais compõem a grande maioria de nossos universitários, não só nos cursos de Letras, mas, nas Universidades brasileiras, como um todo, sobre o que seria um soneto, ouvir-se-ia, entre ludibriações de todos os tipos (recurso muito comum àqueles que não gostam de admitir suas ignorâncias; talvez, a coisa mais honrosa que a grande maioria destas pessoas poderia fazer em vida) e retumbantes, porém dignos, “não sei!”, a resposta mais comum seria: “é um poema de quatorze versos, dividido em dois quartetos e dois tercetos”. Afirmação esta muito comum de se ouvir com relação àquilo que se perguntou (pois para a grande maioria dos alunos de Literatura, seja lá qual for o seu grau de instrução, extraviados do mais simples e decente rumo intelectual, esta será toda consideração, a respeito deste assunto, que eles terão em toda sua vida acadêmica), mas que, de longe, açambarcaria esta forma que, dentre as “castas” poéticas em que se diversifica o gênero lírico, é a que exige, de seu criador, o maior nível de intelectualidade, de concretude e de pensamento lógico-reflexivo, ou seja, a priori, o soneto precisaria ser rimado, metrificado e apresentar uma estrutura dissertativa em seu discurso, exigindo de seu autor grande conhecimento daquilo que faz e do que fala através dele (além do esqueleto estrófico tão comumente citado), que, em nada, ajudaria a compreender a grandeza e a complexidade desta forma, a qual se encontra no cerne de toda a Poesia Ocidental há séculos, e, ainda assim, é o mais sofisticado modelo poético existente, mostrando-nos, só por motivo de exemplo, que não foi à toa que parnasianos e simbolistas – tão diferentes entre si – preferiam-no, incondicionalmente.

Desde os exemplos mais clássicos, como os de Petrarca, Camões e Shakespeare, aos melhores mestres deste gênero em nossa literatura colonial e pré-moderna, como Gregório de Matos, Cláudio Manuel da Costa, Machado de Assis, Raimundo Correa, Cruz e Sousa e Olavo Bilac, o soneto tem se mostrado o fim a que se dirigirem os versos de muitos dos maiores poetas do mundo há mais de meio milênio. Nem mesmo o advento do Modernismo – e, quando falo de Modernismo, não me refiro, aqui, à pantomima paulista de 1922, nem à Disney World canibalística que a ela se seguiu, antes, refiro-me àquele Modernismo onde o clássico e o novo convergiam sem nenhum tipo de inconveniência ideológica ou de extravagância lírica, como é o caso do Modernismo de Euclides da Cunha, Lima Barreto e Augusto dos Anjos, logo retomado pelas gerações de 30 e 45, por exemplo – destruiu a importância e a tradição às quais o soneto se vale até os dias de hoje; pelo contrário, o Modernismo cultivou um soneto dotado de rigor e beleza como jamais se viu.

Segundo César Leal, em Os Cavaleiros de Júpiter, “o elemento protéico do soneto é o pensamento reflexivo”, mesmo quando este “alcança uma ordenação mágica como é freqüente em Jorge de Lima”. É, no soneto, que conhecimento, ciência e instrução geral se fundem com legitimidade, por isso mesmo, no Modernismo, apesar do descrédito e difamação de muitos, o soneto se aperfeiçoou, tornado-se, inclusive, “independente e diverso em relação aos modelos clássicos” – afirma César Leal –, apresentando – ainda de acordo com o poeta e ensaísta pernambucano – “traços estilísticos inconfundíveis”, como são os casos de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Vinícius de Moraes, Bruno Tolentino, Sosígenes Costa, Mário Quintana, Emílio Moura, Ariano Suassuna, Dante Milano, Ildásio Tavares... O soneto moderno – como todo bom poema de qualquer época – deve estar pleno de sentido, de significados, e não ser um mero jogo de idéias sobrepostas ao acaso; deve aparecer e soar ao seu leitor dentro de uma “imaginação auditiva” (lá vem o César Leal, de novo), tão comum em Milton, segundo T. S, Eliot, como no próprio Eliot, mas também em Castro Alves e até mesmo em Ascenso Ferreira, e, por recortar uma realidade instigante, por ter uma penetração psicológica muito intensa, por proporcionar uma fácil compreensão de tudo e de si mesmo, é uma obra da razão recortada pelos malabarismos lingüísticos e dos signos comuns, à maneira da inovação formal proposta por mestres como Jorge de Lima, e mantendo aquela tradição oral e simbólica comum que Vinícius de Moraes absorveu de Camões, por exemplo.

Além do mais, todo poema é formal quando se quer fazer algo bem feito, pois o bom poeta, que é também música, não pode admitir a desarmonia, o barulho frívolo, o ritmo descompassado. Meu livro A pele de Esaú tem metade de seus poemas em forma de soneto e a outra metade em forma livre, por assim dizer, o que ele não possui, é a deselegância instintiva dos que não querem aprender nem melhorar; trabalhei duramente para que ele tivesse, como afirmei a pouco, a plenitude de sentido, de significados, e não ser um mero jogo de idéias sobrepostas ao acaso, mas aparecer e soar ao seu leitor dentro de uma “imaginação auditiva”. Isso eu sei que se faz presente tanto em poemas como este:

E sempre, em meu olhar, o mesmo rosto,
a mesma noite, o mesmo labirinto.
O anjo que eu vi cair, já recomposto,
evola-se na luz – Eu não o pressinto...?


Avistei-o, através deste sol-posto,
sob o livor da morte e meus instintos,
ardente e triste sobre os céus de agosto
como as coisas que vi e agora sinto,


pois maior é o Mistério à minha frente.
( Nesse vento indo e vindo pelas portas,
eu penso em Deus e nada está ausente... )


– Somos memória e a morte a todos corta,
meu irmão Esaú precito e crente,
mas só a visão de Deus é o que te importa.




Como neste, também:








Tudo é tão terrível, Senhor
estes silêncios colhendo as orações e os frutos
a temeridade presente na Beleza
a navalha despertando a carne
o coração que bate
o pulso aberto
este morrer de tantas coisas
a indagação da Eternidade
a dúvida
o chão
a chuva
o barro paciente
o vaso que em todo barro existe
o oleiro
o instante fugaz como
todo instante
o instante fugaz como tudo
a noite
as estrelas
o dia sem nuvens
o corpo
o outro corpo
o espaço
a medida
o campo
as reses
a vida a brotar da morte de toda semente
o mover de tudo
o musgo
os muros
ainda que eu veja tudo
e esteja em tudo
toda mentira me é pouca
o passado
o porvir
a dor que trago agora
o peito
o braço
o olho
o sexo
os pés
o mar
o céu
( mas entre o mar e o céu o abraço insano )
o mar
o céu
( dois infinitos que no Azul se inflamam )
o mar
e o céu
( este mútuo espelhar entre os eternos )
as estrelas no espaço
tristes
o afastamento
o encontro
o martírio
o amor
a renúncia
o Minotauro
a falsa fé de Minos
as asas de Ícaro
Pasifae
o Touro
o Labirinto
o muito perder-se de Dédalos
a Esfinge
o enigma
o precipício
( esta mulher, Senhor
meu naufragar em seu corpo
o seu cheiro
a sua carne
o seu delírio
o suor
o gozo
as entranhas
toda ela e tudo... )





8) – O que você diria como forma de conselho para aqueles que estão se iniciando na prática da poesia?

Não sou a melhor pessoa para dar este tipo de conselho, pois tenho apenas 32 anos, dois livros publicados e um a caminho, sou tão aspirante quanto muitos que ensaiam seus primeiros versos; mas, para não deixar a pergunta sem resposta, vou falar dos conselhos que eu mesmo me dou. Ler muito, mas, principalmente, ler os grandes poetas. Muitos poetas com certo talento tornam-se poetas medíocres por causa de leituras igualmente medíocres. Trocar Manuel Bandeira por Cassiano Ricardo, Jorge de Lima pelos irmãos Campos, Bruno Tolentino por Manuel de Barros, Ildásio Tavares por Arnaldo Antunes é querer não ser ninguém, ou coisa alguma, nada. Ouvir os mais velhos e experientes; ser humilde, aceitar o fato de que poder errar, mas também poder se corrigir, porque um poema nunca está, verdadeiramente, terminado; há sempre a algo a mudar, a corrigir, a refazer, tudo pode ser melhorado se houver talento, exercício constante e vontade de construir sempre o melhor. Lembrar-se de que ninguém colhe manga em jabuticabeira, nem todos hão de ser poetas por mais que queiram e é preciso saber a hora de desistir, também. E se já são poetas, acreditar no que acreditam ser algo especial, porque é verdadeiramente especial; a poesia e arte tornam a vida melhor; com a poesia, como diria Gullar, “a vida é mais”, sem dúvidas. Mas, não se iludir... este não é um caminho de glória, muito pelo contrário, por causa da poesia eu ouvi muitas injúrias, muitas mentiras que disseram todo tipo de mal a mim e aos meus. Parafraseando meu velho mestre e amigo, Ildasio Tavares, o melhor conselho, assim como os melhores versos, quem nos deu foi Dante: “Lasciate ogni speranza, voi che entrate”!