segunda-feira, 12 de agosto de 2013

"CIRANDA DE SOMBRAS" O MAIS NOVO LIVRO DE SILVÉRIO DUQUE...


Autor: Silvério Duque
Editora: É Realizações
Formato: 14 x 21 cm
Número de Páginas: 128
Acabamento: Brochura
ISBN: 978-85-8033-139-4
Lançamento: 2013

Adquira já o seu aqui:  http://www.erealizacoes.com.br/livros/Ciranda-de-Sombras.asp






PROFUNDAMENTE

(por Jessé de Almeida Primo*)








O retorno de Bruno Tolentino ao Brasil, em 1993, com a publicação de seu quarto livro, As horas de Katharina (Cia. das Letras, 1994), mostrou às novas gerações o quanto a grande poesia, com seus metros, formas fixas e opulência de rimas, é também contemporânea, e o quanto as suas possibilidades não foram ainda esgotadas, tornando assim mais confortável à situação daqueles para os quais a poesia deve a um só tempo servir à forma, à riqueza de imagens e, principalmente, à língua.


Enfim, um espaço foi aberto para que uma poesia sofisticada se manifestasse de modo mais franco. Ao menos essa alcançou maior visibilidade.

Estamos falando de uma geração cuja formação poética se deu quando o bardo carioca ainda se encontrava na Europa, e que buscava inspiração numa poesia que de fato conquistou a sensibilidade das gerações que a antecederam: Camões, Gregório de Matos, Tomás Antônio Gonzaga, Florbela Espanca, Olavo Bilac, Guilherme de Almeida, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto... Enfim, autores que renovaram a língua e o mundo das formas a partir dos elementos oferecidos pela própria tradição, ou descobriram nesses elementos possibilidades não suspeitadas, mas que uma vez descobertas não havia como negar-lhes a naturalidade.

Na Bahia, tive o privilégio de conviver com uma geração que se destacou mais pela pesquisa das formas já existentes, dando-lhes desse modo continuidade, do que pelo desespero de tirar uma forma do nada: a começar pela geração de sessenta e setenta, como é o caso de Ildásio Tavares, com os belíssimos IX Sonetos da Inconfidência (“Meu coração é de metal sonante/e se eu tivesse trinta corações/eu venderia todos”. [1999]), Antônio Brasileiro, com Licornes de Quintal (“São teus, meu pai, os frutos/ duramente/ não colhidos”.[1989]) e Roberval Pereyr com Amalgama (“Entrei de costas na vida/e vi o passado morrer”. [2004]).

Num lapso de 30 anos, e na geração que passou a conviver com a poesia tolentiniana, não posso me esquecer de Patrice de Moraes, com o livro Eurótico (2005), em que o conteúdo, por vezes, fescenino encontra sua melhor expressão não em versos ditos livres e numa construção indigente, mas, ao melhor estilo Gregório de Matos, numa sintaxe bem construída em sonetos impecáveis (“um texto de idioma universal/que assente seu império lexical/fluente à proporção que seja lido”) e numa terça-rima exemplar (“Sentindo o mastro lhe beijar a vinha/e vagarosamente introduzir-se,/ regia com a batuta da espinha”); Nívia Maria Vasconcellos, que teve uma bela estreia com o opúsculo Invisibilidade (2002), no qual as sucessivas tentativas de definir o homem distribuem-se na forma espiralada dos tercetos brancos e livres, seguido de Para não Suicidar (2006), uma série de contos sobre all the lonely people  que não sabem where do they all come from, e Escondedouro do amor (2008), no qual nos deparamos com poemas de inspiração hilstiana, além de dísticos muito bem elaborados e que emolduram uma linguagem clara, um fraseado limpo e elegante (“Descarto-me do olhar que me apresenta/o mundo que, por vezes, me descarta”.); e Gustavo Felicíssimo, que, com Procura e outros Poemas (2012), encontra soluções bem inventivas para a não menos inventiva forma fixa “retranca” criada por Alberto da Cunha Melo, provavelmente a partir do soneto inglês, e pela qual dá voz ao Don Juan, a partir da leitura de Tirso de Molina (“Desejo todas as mulheres/antes mesmo de as conhecer”.).

Vindo para São Paulo em 2007, tal qual alguém que recebe um grande presente, fui apresentado a O Livro de Scardanelli (É Realizações, 2008), de Érico Nogueira, um poeta que radicaliza a relação entre o autor e seus modelos, realizando uma poesia original, com alto grau de sofisticação (“A hora acorda, a altura se ilumina”), e sem medo de mostrar uma origem nobre, a partir de emulações em que, mais precisamente, a partitura formal de seus poetas preferidos servem ao propósito da sua – como é também o caso de Dois, seu segundo livro, recém-publicado pela É Realizações, em que As elegias romanas, de Goethe, e as famosas sequências hoelderlinianas de Pão e Vinho são retomadas numa linguagem, dir-se-ia, mais pop, i.e., despojada dos adornos neoclássicos do livro anterior, posto que nele já despontassem os primeiros indícios do rumo que sua obra tomou (“Não quero já de novo ser banal:/ ‘Ó sol etcétera’, ‘ó mar’, ‘ó céu’”.). Pouco tempo depois, apresentado pelo mesmo Érico Nogueira, li o Cânone Acidental (É Realizações 2010), de Marco Catalão, em que esse, seguindo mais ou menos o esquema de Nogueira, utiliza a forma dos clássicos de língua portuguesa para, entre outras coisas, dar voz ao homem cotidiano, atingindo dessa forma um efeito inusitado e não raras vezes hilário: basta imaginar um homem cotidiano reclamando do trânsito, da fila no banco, lamentando a derrota de seu time com a prosódia e a sintaxe de Camões, de Tomás Antônio Gonzaga, Cecília Meireles.... ou mesmo a expressar os delírios típicos do maconheiro-cult-alternativo com o auxílio luxuoso de Olavo Bilac: “Vocês dirão: ‘Coisas de bicho grilo!/Ouvir estrelas, ver ETs’”.


Se Bruno Tolentino criou uma situação mais confortável para aqueles que querem dar continuidade à tradição do verso, por outra não exerceu sobre essa geração uma influência de escola, afinal, como já foi dito, essa já escrevia quando ele ainda se encontrava na Europa, de modo que são outras as suas referências e seus modelos.

Silvério Duque, o autor de Ciranda de Sombras, que ora apresento neste prefácio, poderia ser visto como um caso à parte nessa mesma geração. O intervalo entre o seu contato com a obra tolentiniana e absorção dela na própria poética não foi muito longo. Ademais, a receptividade a várias influências poéticas revela-se bastante franca, bastante direta, e, paradoxalmente, valendo-se de várias vozes, encontra a sua própria voz, como veremos mais adiante.

Este é o seu quarto livro. Em 2002, publicou O Crânio dos Peixes, um belíssimo diário de viagem no qual, como um rio cabralino, as imagens são vistas como de um automóvel em movimento; em 2006, Baladas e outros Aportes de Viagem, um passado que de tão recordado se torna um passado ideal, em que as sombras cirandeiras agora são retomadas com mais substância; e, neste ano de 2010, A pele de Esaú, uma meditação pessoal do episódio de Esaú e Jacó, dividida em duas partes, a primeira uma sequência de sonetos mais diretamente relacionada ao episódio bíblico, e uma segunda em que predomina uma sequência de poemas salmídicos com o leitmotiv rilkiano: “Todo anjo é terrível”, a culminar num soneto finale em que o tema inicial é retomado como numa suma.

Finalmente, Ciranda de Sombras, obra essa dividida em três partes, cada uma das quais é menos identificável por temas que por tons específicos, mais precisamente movimentos musicais. Em cada uma delas destaca-se a voz de alguns poetas que por sua vez revelam algo do espírito do próprio poeta que os homenageia ou emula. Como já tinha observado a escritora Nívia Maria de Vasconcellos no prefácio a Baladas: “Prenhe de epígrafes e dedicatórias, este livro faz alusão de maneira expressa às intervenções deliberadas que sofreu. Nele podemos perceber autores lidos por Silvério e a leitura que efetuou de suas obras”. É o caso da voz bucólica, de dicção sertaneja, na qual, destacando-se, entre outras, a de Eurico Alves Boaventura, predominam as reminiscências infantis e algumas experiências extáticas relacionadas a esses momentos; ou a voz camoniana lida pela poesia de Jorge de Lima de Invenção de Orfeu. Presenciamos o amanhecer revelando os contornos de uma paisagem árida por meio do metro fortemente acentuado e de cores intensas que caracterizam os Sonetos Pavônicos de Sosígenes Costa; a implacabilidade do tempo nos pentâmetros shakespeareanos; a poesia grega a partir da lírica sáfica ou o auxílio luxuoso do mito; e entre outras vozes aqui não citadas, a dicção e sugestões imagéticas da poesia de Bruno Tolentino e sua relação com a arte pictórica, um autor cuja presença é uma das mais marcantes nesta obra, seja pelas alusões diretas, seja pelo uso de recursos que, embora já usados por outros autores, na poética tolentiniana acabam por se constituir uma marca pelo uso recorrente: o alexandrino mais flexibilizado e por isso mais próximo à respiração natural, um enjambement mais elástico, os períodos que se prolongam em várias estrofes ou tom das metáforas.



Se por um lado nos deparamos com essa pletora de vozes, por outro elas vão se afunilando numa única voz pessoal, que é a do nosso autor em questão. Autor que conheci aferrado aos poemas expansivos e polimétricos de um Álvaro de Campos sensacionista e com algo da poesia condoreira, mas que aos poucos definiu melhor sua forma: tornou-se menos teórica e mais expositiva, como de resto é o modo como a poesia mais bem se manifesta; sua linguagem foi adquirindo cada vez mais concisão, tornou-se mais mineralizada, e tornando-se mais ajustável a uma moldura, aproximou-se mais do objeto tratado, dando, dessa maneira, a impressão de assumir o aspecto da matéria, melhor dizendo, da matéria em plena formação:

E assim seguia a procissão
como um só homem arrastando-se sobre a colina
dissolvendo-se em muitos outros homens
que iam habitar as paragens do morro e os nossos olhos
que de longe avistavam o imenso humano de couro
e lamentos a abraçar a capela.
        

Por fim, ler Ciranda de sombras é algo como ler um memorial, é acompanhar a história íntima de um homem por meio da sua relação com seus poemas preferidos e que lhe apontaram o caminho a seguir e lhe amadureceram a pena. É, sem dúvida, uma obra de formação, uma obra que narra a passagem do tempo. Assim, não parece ser mera coincidência este livro começar com uma alegre narrativa da subida de algumas crianças a uma serra (“...subíamos a Serra/como quem imitava a própria vida;”) e terminar com quatro elegias que desembocam no poema final, no qual se lê: “Tudo é memória...! Nesse breve instante”, ecoando, por sua vez, o Manuel Bandeira de A velha chácara, de Ovalle, e de uma obra em prosa, de teor memorialista, como O itinerário de Pasárgada,  uma das mais belas páginas de crítica já escritas no Brasil, e dos versos com que encerro esta apresentação e que constituem ademais uma ciranda de sombras:

          Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
          ----------------------------------------------------
          Onde estão todos eles?
          - Estão todos dormindo
          Estão todos deitados
          Dormindo
          Profundamente.


*Jessé de Almeida Primo é crítico literário e autor de A Linguagem da Poesia (Tulle, 2007).



quarta-feira, 31 de julho de 2013

PR'UMA LÍRICA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO...

Sérgio Torretta, Canavial (2009) -  Óleo sobre tela: 0,50 X 0,70 m (coleção particular).






PR'UMA LÍRICA DE
JOÃO CABRAL DE MELO NETO

(por Silvério Duque)








 Um poema é como uma cana
seu mel
          o sabe
quem a prova.

Todo
amor é um poema
de afiado
         gume
agudo e doce.







segunda-feira, 29 de julho de 2013



LANÇAMENTO DA Revista da Academia de Letras da Bahia, edição nº 51









Mantendo uma tradição de mais de 50 anos, a Revista da Academia de Letras da Bahia é um veículo anual de literatura, artes e ideias, para a publicação de artigos, ensaios, poemas, contos e discursos dos acadêmicos, além da colaboração de outros poetas e escritores da Bahia, dos demais estados brasileiros e do exterior.

A Revista da Academia de Letras da Bahia, edição nº 51, será lançada nesta quinta-feira, 1º de agosto, às 18h, na sala de reuniões do Palacete Góes Calmon, sede da ALB, na Avenida Joana Angélica, 198, no bairro de Nazaré, em Salvador, com entrada franca. 

Nessa edição, a Revista da ALB traz textos de Aarón Rueda, Alain Saint-Saëns, Aleilton Fonseca, Antonella Rita Roscilli, Antonio Carlos Secchin, Antonio Maura, Aramis Ribeiro Costa, Carlos Ribeiro, Cássia Lopes, Consuelo Novais Sampaio, Consuelo Pondé de Sena, Cyro de Mattos, Dom Emanuel D’Able do Amaral, Dominique Stoenesco, Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Fernando da Rocha Peres, Flamarion Silva, Florisvaldo Mattos, Francisco Senna, Gláucia Lemos, Hélio Pólvora, Herculano Assis, Joaci Góes, João Eurico Matta, João Ubaldo Ribeiro, José Inácio Vieira de Melo, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Manuel Anastácio, Maurício Melo Júnior, Max Alhau, Myriam Fraga, Rita Olivieri-Godet, Ruy Espinheira Filho, Silvério Duque e Waldir Freitas Oliveira.



segunda-feira, 15 de julho de 2013

MANUEL BANDEIRA: CRÍTICO...

Manuel Bandeira, visto pelos pincéis de Cândido Portinari










UM ALGOZ DA MEDIOCRIDADE:
MANUEL BANDEIRA E A CRÍTICA LITERÁRIA


Dir-se-ia que até a pedra
Morreu de sede e de sol…
JOÃO CABRAL DE MELO NETO

para Bernardo Solto, Walter Ramos
e Renato Suttana.










Manuel Bandeira é, acima de tudo, um poeta. E poeta maior e, diferentemente à definição que, com a modéstia digna dos grandes, ele mesmo tomou para si, tornou-se o arauto de uma poesia tão verdadeira que não foi menos que superior a todo o movimento de 1922, o qual o próprio Manuel defendeu, quando necessário, e se desvinculou, quando preciso.

Eliminados certos resíduos simbolistas e parnasianos, presentes em Cinza das horas e Carnaval, mas sem perder o que de melhor e essencial esta influência lhe poderia trazer, enquadrando-se na vertente “mais clássica” do espírito modernista que se formava após 1922 – aquela em que se processa uma fusão entre a confissão pessoal e a vida cotidiana –, Manuel Bandeira não se desprende de um lirismo que lhe é tão próprio quanto predominante, sem que desapareça uma apreensão cotidiana que se mostraria como uma síntese feliz entre subjetividade e objetividade e que será, em toda obra do poeta pernambucano, sua característica mais peculiar. Isto se dá porque uma relação dialética estabelece-se entre ambos. Assim, a poesia do cotidiano se alia ao eu-lírico fazendo com que tudo em sua poesia não seja mera visão interior, digna dos românticos tardios – comuns em sua época – e nem tampouco lhe agradar a simples fotografia realista de mundo que sempre lhe pareceu desgostoso e insuficiente.

Todavia, é certo lembrar que, à medida que sua poesia assume um caráter confidencial, as referências biográficas tornam-se importantes e, desta forma, tanto a tuberculose, quanto a decadência da família, poderia nos explicar o clima de desejo insatisfeito e amargurado que percorrem seus versos. A doença impediu-o de realizar uma série de experiências e vivências e, desta maneira, a literatura, realmente, representou para ele "toda a vida que podia ter sido e que não foi". Daí a frequência e a intensidade de seus sonhos, geradores de universos imaginários, onde não há repressões e os homens são felizes. Mas, ao contrário dos românticos que acreditam em suas fantasias, Manuel Bandeira ironiza os seus próprios desejos, dando-os como ilusões, como em seu conhecidíssimo Vou-me embora pra Pasárgada. Por isso, como reflexo da sua crise pessoal, aproxima-se continuamente da temática da morte como um dos seus maiores motivos poéticos, conforme podemos constatar no expressivo Momento num café:

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade

Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.



A tristeza do autor de Estrela da manhã não tomará, contudo, uma direção crepuscular, lamentosa, nostálgica ou doentia. Gilberto Freyre afirma que há, em Manuel Bandeira, uma sábia conciliação entre a lucidez pessimista com a paixão instintiva pela vida.  E aliando-se a tudo isso, há o uso tanto das formas mais radicais das vanguardas do século XX, quanto das formas clássicas do lirismo ocidental. Em síntese, Manuel Bandeira delimita um estilo de absoluta simplicidade, aliado ao que de mais sofisticado pode existir na construção poética.

Não obstante, não é necessariamente do poeta que falaremos aqui, e sim do crítico. Há pouca diferença entre um e outro... é importante salientar. Como poeta, Manuel Bandeira sempre viu seu ofício como uma missão de extrema importância, quando não de alto risco. A literatura não é um passatempo para diletantes; é redação de altíssima qualidade; sublime resultado de um espírito criativo e elegante que busca não menos que a perfeita elaboração que se extrai da soma de nossos conflitos mais intensos e concretos buscando significados cada vez maiores e complexos. Com este ofício, o poeta não quer outra coisa senão ultrapassar a si mesmo. E com a mesma audácia que tratou seus poemas, Bandeira usou em sua crítica literária, por vezes apaixonada, por vezes mordaz, mas de uma sinceridade como pouco se vê hoje em dia; e se cobrou qualidade e ousadia daquilo que criticou, é porque sua poesia era deveras ousada e grandiloquente.

Em Apresentação da poesia brasileira, por exemplo, Bandeira mostra-se um crítico sem nenhum medo e totalmente claro; mesmo que, aos olhos mais leigos, o poeta pareça, em sua crítica, concentrado muito mais na procura de si mesmo no que de melhor possa achar no trabalho de outros, mas é, obviamente, lógico que, poeta ou não, nenhum crítico busque algo alheio a sua própria pessoa, pois é a experiência de vida e leitura de quem lê que forma tanto o escritor quanto as análises que possam advir de seu trabalho. Ao falar de nosso Boca do Inferno, por exemplo, Manuel Bandeira não pensa duas vezes em taxá-lo como um poeta de segunda linha, ao mesmo tempo que ressalta o grande valor de sua personalidade forte que contribuiu para a afirmação de Gregório de Matos como a primeira grande voz poética a aparecer em nossas Letras. O mesmo acontece com o renomado inconfidente Cláudio Manuel da Costa, cuja falta de originalidade de seu cansativo Vila Rica não é atenuada pelo seu contexto político, como farão, praticamente, quase todos os críticos depois de Bandeira. É perceptível, então, que, para o autor de Belo Belo e Lira dos Cinquent’anos, a real justiça empreendida por um crítico estava em sua fidelidade a si e ao que considerava verdadeiro e correto (um tapa na cara do politicamente correto que parece ser a essência de toda crítica atual) e, assim, livrar-se de uma série de modelos previamente incorporados – uma desgraça para qualquer analista sério.

José Castello, por exemplo, afirma que, mesmo ao criticar os poetas do Modernismo, amigos e contemporâneos seus, Manuel Bandeira não se refreia e, como consequência, acaba por antecipar ideias que, àquela época, já poderiam parecer apressadas e agressivas, mas que, com o tempo, concluir-se-iam em verdadeiras profecias, tal a maneira como considerava Mário de Andrade um deslocado da real cena literária brasileira, com pendores que se voltavam muito mais para a música do que para a poesia que, ressaltava, foi abraçada, pelo autor de Pauliceia Desvairada, “muito mais como uma causa do que verdadeira vocação”. Sobre Pauliceia Desvairada, e o estilo de seu autor, ainda arremata: rebenta em “excessos de liberdade estrepitosa”. Oswald de Andrade seria outro que não escaparia... Sobre o autor de Serafim Ponte Grande, Bandeira não pensou duas vezes em apontá-lo como um repetitivo e bajulador de marxistas, e outras criaturas semelhantes, mas tudo que conseguiu com este irmão paupérrimo de Memórias sentimentais de João Miramar, foi parecer inteligente e simpático a burgueses e letrados metidos a moderninhos, como o próprio Bandeira. Oswald, com seu romance edulcorado, era, para Manuel, “um palhaço para a burguesia” que muito se afastava daquilo que o próprio Oswald tinha de realmente grande e melhor: o Sarcasmo.


         Entretanto, Bandeira soube ceder aos apelos do afeto – mas sem se esquecer da responsabilidade que a literatura esperava dele – àqueles poetas que julgou “seus pares”. Com toda razão, chama a atenção para a o “esmero técnico” de Cecília Meireles, a “mescla de humor e sensibilidade” de Drummond, os não raros momentos de “alta beleza”, em Jorge de Lima, e a “complexidade estranha”, e fecunda, de Murilo Mendes. Sobre Vinicius de Moraes, por exemplo, escreveu, no Diário de Notícias, já em 1933, a seguinte profecia:

“...dos livros que nomeei atrás o que revela maior fatalidade de vocação é, sem dúvida, O Caminho para a Distância, do Sr. Vinicius de Moraes... Se eu tivesse alguma autoridade para dar um conselho ao poeta, dir-lhe-ia que renunciasse por algum tempo ao verso livre, onde ainda a sua inspiração muitas vezes se espraia sem nervo em palavras demasiado fáceis”...


e, mais tarde, por volta de 1939, no Anuário Brasileiro de Literatura, deixou claro a muitos o quanto se orgulhava de suas palavras terem dados frutos tão numerosos e de qualidade inquestionável:

“Quando Vinicius de Moraes estreou com o livro O Caminho para a Distância... louvei-o com uma certa secura. Quatro anos depois, em 1935, o poeta dava-nos um segundo livro – Forma e Exegese... Uma coisa porém me deixava insatisfeito: a persistência do poeta num tom sublime e no ritmo inumerável. ‘Bicho da terra tão pequeno’, eu queria ver outro bicho nesse rapaz que pairava continuamente nas regiões irrespiráveis da estratosfera poética. O vasto planejamento rítmico dos seus poemas dava-me de repente uma saudade irreprimível de versos curtos... Vinicius de Moraes fez-me a vontade: este seu novo livro, intitulado de Novos Poemas, traz vários poemas metrificados, sonetos, redondilhas; o bicho da terra desceu das Itatiaias, desceu, firmou os pés no solo, saiu andando naturalmente... a sua poesia ganhou com isso uma humanidade mais vasta e mais profunda”.



         Manuel Bandeira é um crítico que não perdia de vista, nos outros, aquilo que esperava do próprio Manuel Bandeira... Assim também era o poeta. E se o próprio poeta é a medida do que ele faz, ao crítico cabia a sua leitura, sinceridade e compromisso com ela. Seu livro, Itinerário de Pasárgada é exemplo não só de um livro que conta a vida literária de seu autor e seu encontro com a poesia: ele é um tratado sobre a busca do verdadeiro sentido de se escrever que é também a busca pelo verdadeiro sentido de se estar no mundo como homem e poeta. Porque a poesia, como a vida, modifica-se continuamente.

         O poeta pernambucano é representante de um tempo onde crítica literária era formada por pessoas realmente compromissadas com a literatura e sua verdade e não essa que está aí: entregue ao academicismo corporativista de professores medíocres que, imbuídos de um discurso esquerdista – Manuel odiava comunistas e só por isso já podia ser considerado um dos homens mais inteligentes do Brasil – e de busca por uma “destruição das formas”, o qual não tem outra função ou razão para existir a não ser o de criar diferentes maneiras de não se fazer ou dizer algo realmente interessante. A crítica literária de hoje é, em sua maioria, uma variação de jargões técnicos institucionalizados para que uma seleção criteriosa seja substituída pelo simples papo furado ou, quando não, pelos tapinhas nas costas de algum amiguinho que, utilizando-se da máquina institucional, garantirá seu futuro salarial em uma de nossas Universidades. 

         Com nossa crítica literária entregue a tamanha mediocridade e a insipidez intelectual academicista, não é à toa que a última coisa que se espera hoje de quem analisa uma obra literária, seja ela qual for ou de quem for, é a total falta de vontade, ou mesmo competência, de um exame rigoroso e, sobretudo, sincero do trabalho de um autor. De certo, Manuel Bandeira não deixou o afeto de lado ao fazer sua crítica literária. Sabe-se que ele trazia um carinho muito especial aos poetas que considerava como seus “pares” dentro do movimento modernista. Mas todos tinham talento e qualidades inegáveis, e a história da literatura mostrou o quanto isso era verdadeiro. E, evidentemente, Bandeira cometeu lá seus “erros”, como quando coloca um nome como o de Amado Fontes como um autor de fôlego maior que José Lins do Rego, embora se possa considerar que, à maneira de Bandeira, Ribeiro Couto é um escritor de inegável qualidade, independentemente do facto de ele, hoje, estar praticamente esquecido.

         Uma coisa é certa: se Manuel Bandeira estivesse vivo para testemunhar o clubinho medíocre – ele que sempre se mostrou um algoz da mediocridade – de lambedores de botas e abanadores de bunda no qual se tornou a crítica literária brasileira e, por conta, o próprio ciclo de poetas e escritores... ele morreria.












Candeias, 25 de junho de 2013.











sexta-feira, 21 de junho de 2013

SONETO DO CORAÇÃO MALDITO...



 
O monge diante do mar de Gaspar David Friederich (1810), 110 X 172 cm, Museu Nacional de Berlin







– Ao velho pátio do colégio antigo
até a lua regressou mais triste
mas há tanto de mim nestes silêncios
que a própria morte se achará sozinha.

Recordar é adiar outros regressos
sem que me doa a pressa doutros dias
sem que eu invente a infância que não tive
nas voltas em que a vida é reinventada.

Agora o que me cabe é viver
simplesmente e deixar para outros dias
as minhas súplicas e este tempo

qual o velho pátio do colégio antigo
irmão de meu vazio e minha ruína
ou como fazem os cães por entre as noites.



terça-feira, 18 de junho de 2013

EIS AQUI, TAMBÉM, O MEU PROTESTO... E VOCÊS SABEM CONTRA QUEM OU O QUÊ!!!

Lula em reunião com membros de seu partido... Charge de Angeli






A profissão de presidente
não é assim tão opressora;
o que é o peso de uma caneta
pra quem já usou metralhadora?

***



Ó Sócrates, bendito Sócrates,
foi de ti a frase mais querida,
"Filho, eu só sei que nada sei...!"
E resumiste a minha vida.

***



Mais de 1.000.000 de brasileiros
pediram por minha cabeça,
mas sou por Lula apadrinhado:
Oh, gentinha idiota, esqueça...

***



Um dia eu hei de ser PTista,
nem que pra isso eu vire puta,
com o pão, furtar um voto ao pobre,
com muito engano e pouca luta.

terça-feira, 11 de junho de 2013

VINICIUS DE MORAES: POETA DE PAIXÃO E DESESPERO...


Vinicius de Moraes, em Paris, 1976: "Vinícius sempre se encontrou na antinomia entre a paixão e o desespero, entre o sexo e a morte, a culpa e o prazer; e mesmo entre a vida de poeta e compositor".



VINICIUS DE MORAES:
POETA DE PAIXÃO E DESESPERO...


para Marcos Pérsico e Bernardo Linhares, este legado...

 Mon âme éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.
ARTHUR RIMBAUD








Gramaticalmente, eu aprendi que diminutivos servem para, basicamente, duas coisas: identificar algo de pequeno porte e demonstrar, por extensão, carinho que temos por certas coisas.  Em ambos os casos, parece-me que o diminutivo acaba em equívoco em se tratando da pessoa e da poesia de Vinícius de Moraes.

A verdade, é que o poeta carioca passou a vida inteira a carregar tal alcunha: “poetinha”... quase como a dizer que é alguém de quem se gosta, mas sem grandes seriedades. Desta maneira, a grande poesia de nosso Modernismo caberia apenas à tríade formada pelo existencialismo prosaico de Carlos Drummond, pelo lirismo neobarroquista de Bandeira e pelos mineralizantes e politizados versos de João Cabral de Melo Neto. Na verdade, acontecera com Vinícius o mesmo que aconteceria com toda uma geração a que hoje chamamos de Pré-modernista que, não tenho como enquadrar Vinícius e seus poemas dentro daquilo que consideravam o verdadeiro modernismo, o cânone acadêmico, praticamente, jogou para segundo plano a sua literatura, construída a partir de uma trajetória singularíssima, que vai do uso das formas e das influências mais tradicionais da poesia à carreira de compositor popular. A isso também se aplique fenômenos como em Cecília Meireles, Jorge de Lima, Mário Quintana e os mais recentes casos: Bruno Tolentino e Alberto da Cunha Melo.    

No entanto, Vinicius de Moraes foi um poeta que sempre mesclou a intensidade das paixões com seus conflitos interiores – e isso serve também para o homem Vinicius de Moraes. Como os antigos românticos que sempre admirou, Vinicius poetizou sua própria vida interior; era o poeta que refletia em seus versos sua vida pessoal atormentada e sujeita a freqüentes períodos de depressão e tristeza. E tem mais: Vinicius de Moraes, à maneira de poetas como Drummond e Cabral se dá ao luxo de possuir muitas fases distintas desde seus primeiro livro O caminho para a distância (1933) aos sonetos que lhe deram fama, prestígio e, contraditoriamente, desrespeito por parte dos mais “vanguardizados”. Essas fases trazem influências igualmente diversas e acentuam traços que vão do catolicismo atormentado à poesia leve e sensual de poemas como A balada das meninas de bicicleta. Podemos ver em Vinícius tanto a influência de Arthur Rimbaud, na primeira fase de extração simbolista, como a de Camões – pasmem – na fase dita “mais leve”, onde, como dirá Ferreira Gullar, Vinícius de Moraes se converte em Vinicius de Moraes.

Uma coisa é facto em todas essas fases: Vinícius sempre se encontrou na antinomia entre a paixão e o desespero, entre o sexo e a morte, a culpa e o prazer; e mesmo entre a vida de poeta e compositor (esta segunda muito confundida com sua obra poética; outro equívoco muito comum e imperdoável com relação à obra de Vinicius de Moraes). Sem tal contradição, torna-se impossível compreender a dimensão que sua obra terá sobre toda a história de nossa literatura, muito menos a profundidade da paixão pela qual o poeta é conhecido e reconhecido até hoje. Um bom exemplo disto está naquele que se tornará seu poema mais célebre, o Soneto de fidelidade, onde a paixão descrita em versos como:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento...

mescla-se com o desespero apresentado em seu primeiro terceto:
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama...

Vinicius, resumidamente, foi isso: um poeta de paixão e desespero onde a vida é, ao mesmo tempo, apreciação e sucessão de decepções. Para quem escuta os versos e os acordes de uma Garota de Ipanema ou lê e declama um poema como Feijoada à minha moda, não imaginam Vinicius de Moraes como um homem a quem a vida e o mundo incomodavam tanto ao ponto de ambos viverem em completo descompasso. Mas tudo em sua poesia, e para se perceber isso basta-nos um olhar um pouquinho mais atento, encaminhar-se-á e se findará nesta bipolaridade tão barroca quão psicológica. A influência de Arthur Rimbaud em versos como os presentes em Une saison en enfer lhe deram os primeiros empurrões para essa situação e seus primeiros versos só confirmam isso. Daí em diante, a paixão e o desespero, a sensualidade e a tristeza... serão dicotomias que o acompanharão para o resto de sua vida de homem e poeta: ao poeta, tão sozinho/tudo pouco se lhe importa/e por muito delicado/faz um carinho na morte (...)//A morte sorri feliz/como quem canta vitória/ao ver o poeta tão triste/tão fraco tão provisório... escreveria ele em Romance da amada e da morte.
Os nove casamentos aos quais se entregou, é outra prova de que a paixão e o desespero foram além de mera caracterização e estilismo poético: escravo da paixão, Vinicius de Moraes amava a condição de se apaixonar e a poesia ganhou muitíssimo com isso... o mesmo, infelizmente, eu não possa dizer de suas esposas. Mesmo nas relações mais furtivas, como a que viveu com a poetisa Hilda Hilst, a mínima idéia de tristeza era-lhe insuportável, até o amor acabar e a ela o poeta entregar-se profundamente. E assim, o lado obscuro da poesia de Vinicius de Moraes sempre aparecia, seja em circunstâncias desculpáveis, como na morte de seu pai, que lhe rendeu o belíssimo Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes:  

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância
Dizíamos: "E-vem meu pai!" Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e freqüentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no último lance da maratona.
Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.
(...)

ou no encantador, sensual e triste Soneto de luz e treva, dedicado à baiana Gesse Gessy, sua sétima esposa; um exemplo magnífico de como o côncavo e o convexo de um mesmo poeta pode aparecer grandiosamente em uma único poema:

Ela tem uma graça de pantera
no andar bem comportado de menina
no molejo em que vem sempre se espera
que de repente ela lhe salte em cima

Mas súbito renega a bela e a fera
prende o cabelo, vai para a cozinha
e de um ovo estrelado na panela
ela com clara e gema faz o dia

Ela é de Capricórnio, eu sou de Libra
eu sou o Oxalá velho, ela é Inhansã
a mim me enerva o ardor com que ela vibra

E que a motiva desde de manhã.
-- Como é que pode, digo-me com espanto
a luz e a treva se quererem tanto...



Vinicius de Moraes foi um reabilitador do espírito romântico de entrega total ao sentimento e todo o desespero que isso pode trazer a um homem, seja ele poeta ou não, numa época em que isso consistia em um verdadeiro pecado. E mais, também foi um reabilitador do soneto, uma forma tão desprezada pelos modernistas de 1922 e tão rebuscado e retalhado pelos poetas da geração de 30, mas que ganhou na simplicidade e verdade expostas por Vinicius um lugar ao sol em nossa literatura do qual não lograva desde a Belle Époque e seus parnasianos.

No ano em que nos lembramos do centenário de sua morte, mas que é também ano de Copa das Confederações no Brasil, talvez o próximo dia 9 de julho passe tão despercebido como qualquer coisa de real grandeza pode passar despercebida em um país em que se gastou mais em um estádio de futebol do que em educação em séculos. Porém, àqueles poucos que sabem reconhecer a importância de alguém como Vinicius de Moraes, só resta relembrar os versos de seu enigmático Poema de Natal e dizer: Ave, poeta! Poetinha, camarada... :


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.









Feira de Santana, 09 de junho de 2013...