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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

O PRIMEIRO POEMA DE 2018: COMPARTILHANDO...







SONETO

(por Silvério Duque)



aos poetas e amigos João Filho & Wladimir Saldanha




Porque antes de tudo somos sós
nem possuímos mais do que a beleza
e o espanto em nossos olhos - uma leveza
talvez trazida pela morte. Nós

poetas: mais frágeis, mais humanos, mas
ricos de sonhos e memória, dando
as mãos àqueles que por nós (chorando)
não chorarão jamais. Pois não é paz

que ofertamos, mas essa dor sem nome
para explodir no tempo de crescer.
Quem sabe é vida consumida a esmo?

Quem sabe amor?! Suas garras, sua fome
seu desejo insaciável de vencer
a tudo, a todos e a si mesmo...



(Feira de Santana, 24 de janeiro de 2018)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

"A ANUNCIAÇÃO" DE FRA ANGÉLICO...





A Anunciação de Fra Angelico (Guido de Pietro) (1441-43):
Afresco; 187 x 157 cm – Museo di San Marco, Florença.









à amiga Sonia Coutinho, com grandessíssimo afeto... 

  



– Que o Teu Espírito, Senhor, adentre
o meu corpo, extasiado por conter-Te.
E, nesse transbordar, eu posso ver-Te
na chama casta que me invade o ventre

que, agora, abriga Teu altar e berço.
Toda carne contém algo de pressa,
alguma coisa aquém dessa promessa
que se deixa infundir em todo Terço.

Mas, em mim, como em tudo, não me basta
ser minha; antes, preciso ser-me Tua, 
como é da chuva a terra e desse intenso

mar, molde da imaginação mais vasta,
a mais sublime e inesperada lua,
para nascer, de mim, o Amor imenso.  







Este soneto é um dos poemas que integram meu novo livro Ciranda de Sombras (É realizações, 2013). Compre já o seu aqui:

http://www.erealizacoes.com.br/livros/Ciranda-de-Sombras.asp 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

SONETO DO CORAÇÃO MALDITO...



 
O monge diante do mar de Gaspar David Friederich (1810), 110 X 172 cm, Museu Nacional de Berlin







– Ao velho pátio do colégio antigo
até a lua regressou mais triste
mas há tanto de mim nestes silêncios
que a própria morte se achará sozinha.

Recordar é adiar outros regressos
sem que me doa a pressa doutros dias
sem que eu invente a infância que não tive
nas voltas em que a vida é reinventada.

Agora o que me cabe é viver
simplesmente e deixar para outros dias
as minhas súplicas e este tempo

qual o velho pátio do colégio antigo
irmão de meu vazio e minha ruína
ou como fazem os cães por entre as noites.



sexta-feira, 31 de agosto de 2012

C’EST LÀ SON CHARME ET SON SECRET...

Os Gatos, sobre um poema de Charles Baudelaire de Gabriel Ferreira, 
acrílico sobre papel Paraná, 21X29,7, 2005. (Coleção particular)





C’EST LÀ SON CHARME ET SON SECRET...*

ao Ferreira Gullar






 Amar um cachorrinho é coisa fácil
girante leve e livre sobre si
a perseguir sem paz o próprio rabo
e esculpindo em seus giros a indiscreta

condição de submisso. E um passarinho?
Ao menos voasse livre nesta azul
gaiola de esplendor e espanto... Não,
há de morrer contrito em meio às grades

sem nenhuma expressão alegre ou forte –
mero flautim de exíguo e falso trilo
 – sem que um taxidermista o eternize.

Amar uma tartaruga? Bem mais fácil...
 – E um coelho...? – Que bobagem!... Quero é ver
quem é que se propõe a amar um gato.





* Este poema foi publicado pela primeira vez na revista Dicta&Contradicta, n. 8, junho de 2012.




sábado, 11 de agosto de 2012

SONETO PARA ANA LUÍZA...

Este anjinho aí, acima, é minha pequena Ana Luíza, propósito de toda a minha vida. Fiz-lhe este singelo soneto quando ela se encontrava no ventre de sua mamãe, mais precisamente aos 6 meses de gestação. Naquela época, toda ela era esperançar e eu, como acontece à grande maioria dos pais de primeira viagem, cheio de angústias e conjecturas. Compartilho com todos estes versos, para mim, tão proféticos e tão derramados, em meu primeiro e felicíssimo dia dos pais. Abraço a todos.






Como um pintor que se perdeu na própria tela
ante os cenários desse sono em que me iludo
eu dei agora de sonhar com os olhos dela
minha pequena Ana Luísa – Mas, que absurdo!

Toda visão se funde ao fogo que a revela
e sob um só clarão tudo estremece, tudo
que aos poucos se consome: o choro de uma vela
essas breves frações que fazem o instante, o mudo

espaço entre a razão e seus inversos, nossos
temores, nossos planos, nossas ilusões
e as falsas expressões que um dia serão ossos.

Ah, mas quem sabe aqueles olhos com que sonho
verão no abrir de uma janela, as remissões
de um pai e os mal traçados versos que componho...


quarta-feira, 25 de julho de 2012

PESA-ME SOBRE OS OMBROS MEU SILÊNCIO...


A tela do artistas plástico Gabriel Ferreira, feita exclusivamente para o meu soneto: "Pesa-me sobre os ombros meu silêncio...", pertencente ao meu livro "A pele de Esaú": http://poetasilverioduque.blogspot.com.br/2011/09/imperdivel-meu-livro-pele-de-esau-por.html ...



 

PESA-ME SOBRE OS OMBROS MEU SILÊNCIO...

(por Silvério Duque)



Pesa-me sobre os ombros meu silêncio,
penso no fogo – renascer de tudo –,
na carne que perdi entre os escombros
do desejo, dos sonhos, dos sentidos...

Pesa-me esta saudade de mim mesmo,
esta vontade de partir, de estar
em toda parte e em tudo quanto vejo,
de deixar para trás tudo o que importa...

( Nada importa. Tudo é ilusão e instantes.
Entretanto, desejo, em vão, a vida
e a doce voz que o coração escuta.

Nada importa, pois tudo é solidão
e agonia; pois tudo é noite e assombro. )
Mas, a alma se deslumbra em meio às cinzas.