quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

SONETO DA ANGÚSTIA



Silêncio de Jonh Henry Fuseli (1799-1801), Óleo sobre tela, 63,2 X 51,5, Museu nacional de Zurique.



Pesa-me sobre os ombros meu silêncio,

penso no fogo – renascer de tudo –,

na carne que perdi entre os escombros

do desejo, dos sonhos, dos sentidos...

Pesa-me esta saudade de mim mesmo,

esta vontade de partir, de estar

em toda parte e em tudo quanto vejo,

de deixar para trás tudo o que importa...

( Nada importa. Tudo é ilusão e instantes.

Entretanto, desejo, em vão, a vida

e a doce voz que o coração escuta.

Nada importa, pois tudo é solidão

e agonia; pois tudo é noite e assombro. )

Mas, a alma se deslumbra em meio às cinzas.
















quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O FLAGELO DE LUCAS [DA FEIRA]...


O flagelo de “Lucas da Feira” de Carlo Barbosa (1987):

Acrílica sobre tela; 240 x 155 cm – Centro Universitário de Cultura e Arte

( Museu Regional de Arte), Feira de Santana, Bahia.


Carlo Barbosa

viu sua dor

refletida na dor de um Mouro...



Na boca

de um silêncio enorme

sempre

se ouviu

a voz

da morte...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

DR. HOUSE... UM MACHADIANO POR EXCELÊNCIA


O ator inglês Hugh Laurie, como o impagável Dr. House.




Alguns amigos meus, numa peleja via Facebook, questionam sobre o fim da Série House M.D. (Fox, 2007/2011) e de seu personagem, ou, mais precisamente, sobre o fim de seu sarcasmo (principal cartão de visitas da série, talvez)... muitas são as opiniões; eis a minha...

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Diferentemente do que pensa Marco Aurélio Garcia*, as séries de TV, que os Estados Unidos tem produzido nos últimos anos, são o que se têm criado de mais vivo pela indústria cinematográfica.







Enquanto o cinema vem se arremessando cada vez mais à adaptação, quase kamikaze, de quadrinhos, desenhos dos anos 80 e jogos de vídeo games, o antigo “patinho feio” da cinematografia, a televisão, tem se mostrado indiferente a todos os modismos e vícios de grande parte cinema contemporâneo e, usando de fórmulas antigas, mas responsáveis pelo que de melhor foi e ainda é produzido pela telona, consegue uma humanização e uma dinâmica que nem o atual cinema americano, com seus inúmeros robôs e heróis de computador, nem boa parte do cinema europeu, com sua apatia e intelectualidade forçosas tão típicas, têm produzido.







Neste mundo de boas criações – pois as ruins também existem, é claro – House M.D., sem dúvidas, é um fenômeno... em todos os sentidos.







Sem os lugares comuns que uma série médica poderia apresentar, House foca-se nas contradições de um médico arrogante, infeliz e, muitas vezes, “desumanizado”, mas duvido muito que alguém que tenha ido a um pronto socorro de nosso amado SUS, seja para tratar de um traumatismo craniano ou de uma simples unha encravada, que não tenha desejado um médico que prioriza o bem-estar de seu paciente acima de tudo; e pro inferno que seja para satisfazer sua obsessão por charadas; se alguém é atingido por uma bala, e fica vivo para reclamar dela, este que alguém a retire e o deixe vivo e bem... o motivo, na maioria das vezes, pouco importa se a sobrevivência é o fim; isto não é Maquiavel; isto é sentir dor, angústia, desespero; isto é ser humano.







E é de dramas humanos que a série se faz, é de abismos sucessivos que a dor, seja ela física ou psicológica, abre à nossa frente, que House se mostra genial, pois, na busca incessante pelo diagnóstico perfeito, vários caminhos se abrem para um auto conhecimento que nem sempre tem a glória daquele γνθι σεαυτόν socrático ou frenesi do cogito descarteano.





Muitas vezes, a busca do auto conhecimento é tediosa e cruel, muitas vezes, na busca desesperada pelo bem, deparamo-nos com coisas que escondemos de nós porque elas merecem ser escondidasou e até esquecidas. Conhecer-se nem sempre significa encontrar o melhor e sim se deparar com o que de pior podemos ter, fazer, viver... certamente a busca por resposta nos condena a questionar mais e mais sem que possamos nos dar conta do quão fundo e escuro esta busca podenos levar.







House tem mostrado isto da melhor forma possível e se há um erro que os produtores da série podem cometer – e, graças a Deus, ainda não o cometeram – é aquela tendência à explicação a cima de tudo, do motivo indubitável por menos real que este possa parecer; isto ainda não foi feito. A falta absoluta de problemas, de enigmas, de perplexidades é um mal que assola até mesmo os grandes mestres da Literatura, como um Graciliano Ramos, que também se limitou, muitas vezes, a retratar situações vistas por uma ótica filosofia ou ideológica preexistente, de modo que tudo no fim parece óbvio e explicado. Então há sempre aquele “porquê de eu ser assim”. Explicar demais castra qualquer questionamento a respeito “do que ali já não esteja”, como diria Olavo de Carvalho. Mas isto não acontece nas tragédias gregas, nem com o melhor teatro de Shakespeare, os personagens de Machado de Assis, nem (ainda) aconteceu com House, apesar de os americanos terem uma verdadeira adoração por Freud, ao mesmo tempo que nenhuma nação gerou mais críticos deste do que a nação Norte americana.







Pode ver em House, como em Dostoievski, que ali se encontra algo de perfeitamente real e, ao mesmo tempo, inexplicável, lógico, porém e também, absurdo, é o que me parece mais sedutor na série: um personagem que é o que é, sem explicações ou deduções desnecessárias – por mais cabíveis que estas possam ser. É a invenção de um humano que, incapaz de diminuir a distância que ele próprio estabeleceu com relação aos outros, procura cerca-se de pessoas que fazem esta distância se lhe mostrar. Daí, uma imensa parada de personalidades, todas humanas, todas possíveis de ser e acontecer, todas próximas de nós, desfila grandiosamente em 22 ou 24 episódios para, logo depois, passada a euforia, descobrimos que as coisas são sempre as mesas, que as coisas quase nunca mudam a não ser a nossa maneira de vê-las e mudá-las, quando não parecemos ou nos tornamos sempre os mesmos.







Bom ou mal, na minha modesta opinião (palavra e atitude que eu odeio) o Dr. House será sempre o mesmo Dr. House... mas, e quanto a nós?!



*http://oglobo.globo.com/pais/mat/2010/marco-aurelio-garcia-ataca-programação-de-tv-cabo-915819495.asp

























quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A PALEONTOLOGIA DOS CARVALHOS: AUGUSTO DOS ANJOS (1884-1914)


Augusto dos Anjos (Cruz do Espírito Santo, abril de 1884 — Leopoldina, novembro de 1914)




Dos muitos estereótipos atribuídos ao Brasil desde o tempo das primeiras caravelas que, por aqui aportaram, o exotismo é, sem sombra de dúvidas, o mais presente, disseminado e, perdoem-me pelo possível pleonasmo, vulgarizado.


Da natureza exuberante e índios “de bons rostos e bons narizes” a exímios jogadores de futebol e mulatas com glúteos que valem por um pomar inteiro... tudo isso foi ou é tratado com estranhamento, extravagância e muito mal gosto. Todavia, se há algo de realmente exótico em nosso Brasil varonil, isso se chama: cultura erudita.


Nada mais raro, extraordinário, em resumo, algo que muitos poucos viram realmente do que este item tão indispensável à formação de uma grande nação e que, entre nós, teve vida tão densa quanto curtíssima. A história de nossa cultura erudita se inicia a passos de jabuti na aurora do século XIX, com uma corte cujo afrancesamento era o fim a que se dirigiam todas as ações e pensamentos desta, emendando com um segundo imperador com modos e aspirações político-filosóficas e cientificistas, culminando nos anos 30 do século passado. Exceto uma duas dúzias de esmerados perdidos por nosso vasto território, a cultura erudita, no Brasil, é quase uma alucinação e, muitas vezes confundida com uma piada de mau gosto. Mesmo aquilo que, entre nós, é considerado erudito, ou meramente de bom gosto, nada mais é, na grande maioria das vezes, cultura popular vestida com capricho.


Daí, um dos grandes problemas de nossa atual sociedade: ter desaprendido o sentido, tanto teórico quanto prático, da palavra “critério”, ou mesmo “juízo” e “discernimento”. Não quero, nem me cabe (aqui) levar esta questão a outras áreas, no entanto, em termos de arte, o que vemos é um público incapaz de diferenciar bossa nova de um pagode de mesa, ou que vai a um show de arrocha como vai a um show do João Bosco sem se quer saber ao certo o que ouviu e, mesmo assim, arisca-se a arrotar intelectualidade ao sair de qualquer um dos dois sem o menor recato ou razão, a começar por nossa classe média “letrada”. Por vários motivos, que seria impossível enumerá-los em tão pouco espaço, termos como “bom gosto”, “intelectual”, ou “mesmo erudito”, têm sofrido uma inversão enorme ou um total descrédito, principalmente por parte de quem deveria prezar por eles, porque, em nossas universidades, qualquer cordelzinho vale mais do que os Sonetos, de Camões, ou qualquer tese sobre letras de hip hop será aceita no lugar de qualquer estudo sobre Petrarca ou Dante.


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Dos muitos poetas de nossas Letras, nenhum foi testemunha da decadência de nossa cultura erudita nem incorporou, por assim dizer, tal decadência como o paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos.


Nascido e morto nos trinta anos que correspondem à transição do século XIX para o século XX, Augusto dos Anjos cresceu e vivenciou muitos decadentismos, por assim dizer; muitas mudanças radicais de pensamento e atitudes, muitos estilos artísticos e literários. Segundo Antônio Houaiss, já a partir de meados do século retrasado “a segurança do regime econômico e social da burguesia principiava a sofrer seus primeiros abalos”. De certo as muitas contradições internacionais, as inúmeras revoluções geraram problemas cuja Primeira Guerra Mundial (1914-1918) se tornará seu ponto culminante.


No interregno deste quadro sumário, o Brasil se encontra muito atrás, em relação à sua, por assim dizer, derivação cultural, embora a Abolição (1888) e a Proclamação da República (1889), por mais que esta tenha saído de um golpe de estado, renderam-lhe bons resultados na política e nos mercados internacionais. Em meio a tudo isso, uma pequena e já decadente intelectualidade, últimos sinais de uma cultura erudita, ainda vive e sobrevive.


Voltada muito mais para problemas filosóficos de ordem genérica do que para aspectos técnicos e matemáticos – mais comuns à sua época e ao mudo novo que, dali, se formava – temos aqueles que representarão – perdoem-me, novamente, pelo jargão – os grandes “divisores de águas” entre a cultura clássica e o verdadeiro Modernismo: Euclides da Cunha, e seu quase militante Os Sertões e Augusto dos Anjos que, com seu Eu, resume toda uma imensa problemática teleológica de um ser humano diante do mundo e da realidade e sua angustiante busca pelo saber.


No plano literário, o Brasil viveu um paradoxal anacronismo entre as muitas escolas literárias oriundas do foco europeu – principalmente o francês – que, mesclando-se, fundindo-se, não seguindo a periodização do modelo e comportamento, mas todas se manifestando, como disse, fora do tempo e, desta forma, produzindo, salvo o caso de nosso Parnasianismo, originalidades e personalismos como é o caso do próprio Augusto dos Anjos. Desta questão, surge um problema há muito não resolvido em relação à Escola a qual muitos inserem o bardo paraibano, o Pré-Modernismo.


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O grande mal do Modernismo paulista, e, até hoje, uma grande desgraça para quem se alimentou dele, foi o fato de os paulistanos se afastarem completamente de um passado que só lhes podia fazer bem. Se olharmos, só por motivo de exemplo, para os primeiros modernistas de Portugal, veremos que eles não aboliram, de todo, as formas fixas, mesmo o soneto – e nem poderiam, pois, de tão enraizados estavam as língua e as tradições portuguesas nos decassílabos camonianos que é o decassílabo a própria expressão do pensamento e da língua; nem, muito menos, aboliriam os grandes temas que percorrem a mentalidade humana há séculos e séculos; é por isso, e que nos sirva de exemplo, que as Odes de Álvaro de Campos são tão repletas de fábricas, engrenagens e automóveis velozes, quanto de uma retórica ou de um ritmo poético tradicionalíssimos, que estes mesmos elementos “modernos” tão contemporâneos não se fazem livres de um Virgílio ou de um Platão, tanto que estes chegam até a dividir os versos com aqueles; o próprio Fernando Pessoa era tão embriagado de Aristóteles quanto de Walt Whitman...


Modernos sim, idiotas nunca; os portugueses sabiam que negar estas coisas é negar-se a si e a tudo que se podia definir como cultura; o menos que isso é caos puro e simples. Agora, se olharmos para o exemplo do Brasil, ou pelo menos o exemplo paulista que, infelizmente, impera sobre os demais, a coisa é contrária: despreza-se o passado, a tradição, a forma e mesmo a linguagem apurada, que não tinha nada de preciosismo, em troca de quê? Em troca de algo que não se sustenta por si mesmo por não ter onde agarrar-se. A velha tentativa de buscar uma identidade nacional desprezando mais da metade dos elementos que constituem esta identidade só poderia dar em nada, ou pior, numa anomalia. Tudo isso, no entanto, se se considerarmos os paulista de 1922, como precursores de nosso movimento modernista; e por que não consideraria?


Porque há uma geração moderna bem antes deles que, por preguiça, incompetência de nossos críticos, ou espírito de cooperativismo porco, ou (o mais certo) os três juntos, não se enquadra como modernista, apenas como Pré-alguma-coisa... não conheço uma característica dita como moderna ou como oriunda dos modernistas de São Paulo, que não tenha sido usada por um Augusto dos Anjos, ou um Lima Barreto ou um Euclides da Cunha? Mário de Andrade não foi melhor nem nunca o será em retratar a urbis caótica do que um Lima Barreto, nem um Oswald de Andrade seria capaz de trazer tanta valorização ao passado, e às tradições culturais do Brasil, mais do que foram trazidas à luz no antológico Triste fim de Policarpo Quaresma? O que é o Manifesto Antropofágico frente àquele horror que nos traga, nos devora e, ao mesmo tempo, nos apaixona e nos faz admirados nos sonetos de Augusto dos Anjos – poemas como Os doentes e As cismas do destino, presentes em Eu, são mais repletos de urbanismo e de uma linguagem inovadora do que quaisquer textos de Mário de Andrade.


Sobre Augusto dos Anjos, Ferreira Gullar, entre muitos, aponta-nos o caráter inovador – modernista – da poesia do bardo paraibano: é quando ela rompe com as muitas conveniências verbais e sociais da época, levando, o Augusto dos Anjos, a uma mescla perfeita entre a beleza e o asco, entre os momentos sublimes e toda a sujeira da vida, sem contar certo prosaísmo, que triunfa sobre a rígida linguagem de seus sonetos... isto é ser ou não ser modernista?


O que é o Manifesto Antropofágico diante de um Eu? Antropófagos que eu saiba foram o Raul Bopp, a Tarsila e os índios que devoraram o Frei Sardinha. Certo foi o Manuel Bandeira, que não entrou de todo nessa história. Isso sem falar nos marginalizados como Graça Aranha e Monteiro Lobato; o primeiro soube enxergar, antes de muitos, os enganos e os horrores do Fascismo e do Comunismo bem antes de suas ascensões, é só ler o Canaã; o segundo caiu no ostracismo, vitimado pelo “cooperativismo de suínos”, algo que os paulistas de 22 aventaram como ninguém, por falar a verdade mais óbvia: que aqueles trabalhos de Anita Malfatti, tão aclamados pelos seus patéticos colegas, eram, e são até hoje, uma coisa ordinária. Não obstante, Monteiro nunca disse que ela era má pintora ou que, pelo menos, não era talentosa. Há, também, as inúmeras contribuições que os Contos gauchescos de Simão Lopes Neto deram a Guimarães Rosa e ao seu Grande sertão: Veredas?


Para quem buscava a liberdade e o fim das segregações, ninguém mais negou-nos a primeira, nem nos pregou mais a segunda, do que os Modernistas paulistanos; não é à toa que, referindo-se ao Modernismo de 22, Luís Augusto Ficher não se acanha em dizer que “o Modernismo brasileiro, quer dizer, paulista, aquele que a gente aprendeu no colégio e hoje virou cânone obrigatório, inescapável, a ponto de excluir (da escola, dos manuais de história da literatura, portanto do horizonte prático da vida cultural) autores que não rezem por aquele catecismo – para os gaúchos é fácil ver isso, por exemplo, com o desprezo por Simões Lopes Neto, reduzido a ‘regionalista’ e, pior ainda, ‘pré-modernista’. Sem valor, portanto”. A Semana paulista de Arte Moderna, de 1922, foi o golpe de misericórdia na já moribunda cultura erudita brasileira.


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Vivendo vida adulta de 1900 até a sua morte, em 1914, Augusto dos Anjos coexistiu com os mais diferentes estilos literários e, respectivamente, com escritores que, além de se integrarem a estes estilos, levaram consigo uma cultura erudita de massa e seus rudimentos, como Aluísio Azevedo, que morre em 1913; Inglês de Souza, morto em 1919; Machado de Assis e Arthur Azevedo, falecidos em 1908 para citar realistas e naturalistas; além de poetas parnasianos, simbolistas, seus colegas, por assim dizer, pré-modernistas, e outros, como Coelho Neto, morto em 1934; Alberto de Oliveira, 1937; Raimundo Correia, 1911; Olavo Bilac, em 1918; Joaquim Nabuco (este, ainda, um romântico, no melhor sentido do termo), em 1910; Rui Barbosa, em 1923 e, claro, Euclides da Cunha, em 1909.


Ciente de que, com estes e consigo, encerrava-se um período brilhante de toda a nossa história, foi que o poeta nascido no engenho Pau D’Arco muito bem escreveu seu soneto Debaixo do Tamarindo, onde podemos encontrar o verso que intitula este post; verso com “jogo de palavras” como, também, nos lembrou Houaiss: no primeiro sentido, o Tamarindo guarda, como bem escreveu, “o passado da flora brasileira”, porque, como indivíduo, revive a aventura biológica de sua espécie, havendo nele, como que fossilizados (a palavra paleontologia é a ciência que dos fósseis dos animais e vegetais), até os carvalhos; no segundo sentido: note-se que o poeta se chama Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, razão porque a notação com maiúscula para indicar sua família e toda a humana metafísica que a envolve, também vítima de um decadentismo que a poesia de Augusto dos Anjos, como nenhuma outra tratou de dissecar e discernir.




No tempo de meu Pai, sob estes galhos,


como um vela fúnebre de cera,


chorei bilhões de vezes com a canseira


de inexorabilíssimos trabalhos.



Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,


guarda, como uma caixa derradeira,


o passado da Flora Brasileira


e a paleontologia dos Carvalhos!



Quando pararem todos os relógios


de minha vida, e a voz dos necrológios


gritar nos noticiários que morri,



voltando à pátria da homogeneidade,


abraçado com a própria Eternidade


a minha sombra a de ficar aqui!




Ref.: ANJOS, Augusto dos (1884-1914). Poesia. Org. Antônio Houaiss – 3 ed. – Rio de janeiro; Agir, 1978.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

CENESTRA DI FRUTTA (1596)... OU UM POEMA DE NATAL


Cesto com frutas de Caravaggio (14596): óleo sobre tela 46x64 cm; Pinacoteca ambrosiana, Itália.





Esculpo
uma cesta de frutas
a cozinha
os cheiros da manhã
lá fora.


A solidão dos frutos:
a mesma solidão das coisas vivas
dos propósitos
das palavras que esperam por seus usos.


A beleza destas frutas

é a mesma beleza dos milagres

das súplicas

das lágrimas

da lâmina da morte e os seus cortes.

A beleza destas frutas

é a mesma beleza das obras inconclusas

do canavial ao vento

d’outras matérias

enfim

vencidas.

Todo amor é madureza

encanto descoberto

instante exato

cesto de mangas

bananas

romãs

tanjerinas

jabuticabas...

goiabas

figos

e melancias abertas como carne.

Todas as coisas trazem seu desejo

e o que não foi ou não quis

hoje

agoniza.

De aparições surgem brotos

abrem-se flores

abrigam-se grãos

e sucos...

Tudo que é belo assim o é e assim se mostra.

Mas

mesmo as coisa belas

mudam
envelhecem

amarelam-se como papel

frutos

peles

depressa ou lentamente escrevem seus nomes

suas promessas

seus sabores.

Assim é a poesia...

assim, os homens:

frutos da eternidade

e de tudo

que apodrece.





quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

GRANDE ELIMINATÓRIA DO PRELÚDIO 2010, NESTE DOMINGO. MAS, QUEM SAI GANHANDO COM ISSO...?


Prelúndio, único programa de calouros para música erudita no Brasil, chega a mais uma final...


Nesta foto: Os jurados Fábio Caramuru, Julio Medaglia, Silvia de Lucca e a apresentadora Estela Ribeiro*







Não faz muito tempo, em uma entrevista que concedi ao site Sopa de poesia: http://sopadepoesia.blogspot.com/ da importância de se ensinar arte nas escolas, seja poesia, música, pintura, etc. Mas também atentei para o facto de antes de qualquer coisa, ser importante estender esta meta não só com relação à poesia, mas quaisquer tipos de arte, contanto que, primeiramente, se observe o caráter e a qualidade do que se está transmitindo os nossos alunos como sendo arte.







Um dos grandes problemas de nossa atual sociedade é que ela desaprendeu o sentido tanto teórico quanto prático da palavra “critério”, ou mesmo “juízo” e “discernimento”. Não quero, nem me cabe (aqui) levar esta questão a outras áreas, no entanto, em termos de arte, o que vemos é um público incapaz de diferenciar bossa nova de um pagode de mesa, ou que vai a um show de arrocha como vai a um show do João Bosco sem se quer saber ao certo o que ouviu e, mesmo assim, arisca-se a arrotar intelectualidade ao sair de qualquer um dos dois sem o menor recato ou razão.







Por vários motivos, que seria impossível enumerá-los em tão pouco espaço, termos como “bom gosto”, “intelectual”, ou “mesmo erudito”, têm sofrido uma inversão enorme ou um total descrédito, principalmente por parte de quem deveria prezar por eles. Porque a arte é uma manifestação da raça humana plena de transcendência; porque é a mais completa manifestação do espírito e da inteligência humanos recortados pela racionalidade dos códigos possíveis: a música, a pintura, a escultura, o teatro, a dança e, claro, a poesia... E em todos reconhecemos o potencial, inato ao homem, de expressar emoção, beleza e razão. Algumas pessoas dominam ativamente estes códigos e conseguem conceber, criar a obra de arte; são os artistas: poetas, músicos, pintores, teatrólogos. Todavia, não é levando arte às escolas que, necessariamente, criaremos tais pessoas, mas não deixa de ser um incentivo e tanto; contudo, existem outras pessoas que, apesar de não serem criadoras, integram-se com a arte por meio de sua apreciação, descobrindo novas formas e sentidos; são os estudantes, os críticos e, sobretudo, os admiradores da arte. Formar estas pessoas é uma obrigação para nós que educamos... Daí, porém, mais imediatamente ainda, vem-me uma angústia: mas que poesia, ou arte, seria levada? Com que tipo de literatura os milhões de alunos deste país teriam contacto? Será que, ao saírem da escola, mesmo não se tornando escritores – ou, se quer, grandes intelectuais – estes alunos seriam capazes, como cidadãos dotados do mínimo possível de educação, de distinguir um texto de Pe. Antônio Vieira de uma das piadas bem arrumadinhas do Luis Fernando Veríssimo e, melhor ainda, dar a eles o devido valor que cada um tem em suas estruturas e contextos?





Teoricamente, qualquer escola de zona rural estaria apta a dar a seus alunos algo aparentemente tão simples e lógico, todavia, o que temos em nossa realidade...? Quando, por exemplo, um aluno tem acesso a uma educação musical esmerada, mesmo que ele não se torne um Stravinsky ele não aceitará um tipo de música que não esteja em um nível equivalente àquele ao qual está acostumado, pois, como conhecedor das estruturas musicais e, tendo em si, um gosto desenvolvido em cima de composições sofisticadas, a sua tendência é rejeitar o frívolo, o simplista e o de “mau gosto”; assim, quando não formamos grandes músicos, que é algo que depende, como na poesia, na pintura, etc., muito mais do toque da Musa, certamente, formaremos grandes ouvintes cada vez mais cuidadosos e exigentes com aquilo que lhes é passado como musica. Com a poesia não seria diferente. Eu mesmo, ainda no primário, tive professores “à moda antiga” que me “forçavam” – e também aos meus colegas – a ler em pé, e em voz alta, poemas e contos de vários escritores brasileiros e portugueses; qual foi o resultado de tudo isso...? Para mim, conheci o Camões aos 10 anos e tenho poemas de Manuel Bandeira decorados desde o primário; em relação aos meus colegas, mesmo os que não seguiram uma carreira universitária, nunca ouvi deles expressões do tipo: “para mim comprar” ou “para mim ver”, nem dificuldades em interpretações básicas de textos ou reportagens, como se é possível ver nos alunos de hoje, educados no melhor programa de recrutamento à Paulo Freire. Eu tento aplicar métodos semelhantes e, “de vez em quando”, alguns “Guardiões” da pedagogia, imediatamente, me acusam de antiquado, agressivo e aplicador de métodos de adestramento.





Muitos, após lerem o que digo neste artigo, chamar-me-ão “fascista” – xingamento muito em moda nas rodas dos ideológicos de esquerda e coisa parecida –, e dirão até que eu desprezo a cultura popular e outras bobagens do tipo – porque não há nada pior no mundo que dá razão a idiotas e sínicos –; mas não é o caso aqui; o que eu quero é por as coisas em lugar preciso e lhes dar os devidos valores. Eu penso que, se passarmos aos nossos alunos os mais novos hits do Funk, ao invés do melhor que nos pode oferecer a Música Erudita, ou mesmo o Jazz, a Bossa Nova e o Chorinho; Haroldo de Campos, ao invés de Camões, ou João Cabral de Melo Neto e Patrice de Moraes; se levarmos os nossos alunos para ver e apreciar grafiteiros ao invés de Da Vinci, Caravaggio ou mesmo Di Cavalcante, Carybé e Gabriel Ferreira; se, principalmente, os ensinarmos que não há diferenças, nem hierarquias, entre estas coisas e as outras, como querem e praticam muitos, com auxílio tanto dos cofres públicos como de uma intelectualidade tão bem intencionada quanto pode haver no Inferno, destruiríamos, como já estão a destruir, todos os grandes valores que vêem formando a sociedade humana há milênios; perderíamos a própria noção de contraste que é a forma mesma pela qual o nosso pensamento e o nosso raciocínio trabalham ou a nossa perplexidade que é a forma mesma pela qual o nosso pensamento e o nosso raciocínio se formam e pararíamos estuporados diante de um mundo onde a menor e mais insignificante expressão possível andaria de mãos dadas com a mais genuína e grandíloqua linguagem.
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Felizmente, muitas de minhas concepções, tão aparentemente pessimistas quanto mais realistas se apresentam, desaparecem quando observo trabalhos como o do programa Prelúdio, da TV Cultura de São Paulo. Numa competição musical completamente diferente do que se vê em nossa televisão, o Prelúdio é um programa de calouros que já está em sua 6ª temporada, mas ao invés de explorar as vozes maçantes de um bando de adolescentes mimados e pré-fabricados, o programa investe no talento de jovens músicos que mal saindo da adolescência, encaram dificílimas peças de Bach, Mozart, Beethoven Chopin e até mesmo Debussy e Stravisnky. Sim, é um programa de calouros, mas um programa de calouros onde a música clássica é a grande vedete. É maravilhoso ver jovens de 18 e 20 anos e até mesmo de 14 e 15 aninhos dedicando-se ao canto lírico, ao celo, ao clarinete ou ao piano forte, além do canto lírico e à difícil e ingrata arte da regência. É praticamente impossível, para mim, dizer o quanto me alegro, vibro e me emociono com jovens tão dedicados e tão certos de si, pois, quem chega aos 18 anos tocando como muitos destes garotos e garotas, impossível não saber que é justamente isso que eles querem para suas vidas. Eu e minha mulher, que não perdemos o programa, temos nossos preferidos e os defendemos com unhas e dentes como quem defende seu time de futebol preferido. Eu, como clarinetista que sou, por exemplo, procuro “vender meu peixe”, e torço pela pequena Paula Pires, 22 anos, clarinetista; mesmo sabendo que, seja lá quem for o grande campeão, todos estarão muito bem encaminhados e certos de seu papel como continuadores de uma grandecíssima arte.

O Prelúdio reúne, ao todo, 24 calouros. A seqüência classificatória conta com oito eliminatórias, duas semifinais e a grande final, que acontece dia 12 de dezembro, na Sala São Paulo, com transmissão ao vivo. O vencedor ganha uma bolsa de estudos na Alemanha, patrocinada pelo Instituto Goethe, e o direito de ser solista em um concerto promovido pela TV Cultura.

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Seja quem for o grande campeão neste próximo domingo, é certamente a cultura brasileira quem sairá ganhando.



* Créditos das fotos: http://www.facebook.com/home.php?#!/photo.php?fbid=117970538256918&set=a.117968618257110.26078.100001319171047

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O PROJETO “NATAL NA PRAÇA” CELEBRA O CENTENÁRIO DE NOEL ROSA COM A APRESENTAÇÃO DO TRIBUTO PELA CANTORA CELIAH ZAIIN...




Feira de Santana também está na lista das cidades que estão celebrando os 100 anos do sambista, cantor, compositor, bandolinista, violonista brasileiro “Noel Rosa”, com o Tributo à Noel Rosa, apresentado pela cantora e compositora feirense Celiah Zaiin, o pianista popular Tito Pereira, o Clarinetista Silvério Duque e o percussionista Tunico Freitas com apresentação de Jeam Marques, o qual será apresentado no Natal na Praça no dia 10 de dezembro (próxima sexta) sendo que no dia 11 de dezembro o compositor completou seu primeiro centenário.




O Show reune 12 músicas as quais ultrapassam os 70 anos e segundo a legislação brasileira é considerada “domínio público”, clássicos como “Com que roupa”, “Três Apitos”, “Ultimo desejo”, palpite infeliz, etc...Noel Rosa teve contribuição fundamental na legitimação do samba de morro e no "asfalto", ou seja, entre a classe média e o rádio, principal meio de comunicação em sua época - fato de grande importância, não só o samba, mas a história da música popular brasileira.




Não Percam!!!

DIÁLOGOS: 2ª EDIÇÃO... EU RECOMENDO...






Mais conhecida fora da Bahia por conta da obra de Jorge Amado e Adonias Filho, a região Grapiúna, cujas cidades pólo são Ilhéus e Itabuna, onde se desenvolveu o cultivo do cacau, também viu nascerem poetas de fundamental importância para a literatura baiana, como Sosígenes Costa, Adelmo Oliveira, Ildásio Tavares, Abel Pereira e Florisvaldo Mattos, apenas para citar alguns.


Calcados nessa forte tradição, uma nova geração de poetas grapiúnas foram apresentados em Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna (Ilhéus/Itabuna: Via Litterarum/Editus, 2009), obra organizada pelo poeta e ensaísta Gustavo Felicíssimo. Aos dez antologiados da primeira edição – Edson Cruz, Heitor Brasileiro Filho, Noélia Estrela, Piligra, George Pellegrini, Rita Santana, Fabrício Brandão, Daniela Galdino, Mither Amorim e Geraldo Lavigne – juntam-se, agora, em segunda edição, mais dois poetas – André Rosa e Marcus Vinícius Rodrigues – dessa vez com sete poemas cada um, contra cinco da primeira edição. São doze poetas (alguns deles bastante premiados) que já estão inseridos entre aqueles que produzem a melhor poesia baiana, quiçá brasileira, deste início de século. Como afirma o crítico de arte Henrique Wagner, “a segunda edição de um livro de poemas é acontecimento incomum, infelizmente, em nossos dias – e em verdade sempre o foi, mas tem sido cada vez mais incomum, a ponto da primeira edição já ser, ela mesma, uma raridade. Se tal acontece, é porque um milagre chegou perto de acontecer, se não aconteceu, de fato”.

A segunda edição, revista e ampliada, de Diálogos, será lançada no próximo dia 11 de dezembro, às 18 horas, na Academia de Letras de Ilhéus, oportunidade em que haverá um bate-papo com Jorge de Souza Araújo, prefaciador da obra, sobre a poesia baiana contemporânea.

Todos os poetas antologiados na 2ª Edição de Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna, com exceção de Edson Cruz, que reside em São Paulo, estarão presentes no lançamento para uma seção de autógrafos.


São eles: Heitor Brasileiro Filho, André Rosa, Noélia Estrela, Marcus Vinícius Rodrigues, Piligra, George Pellegrini, Rita Santana, Fabrício Brandão, Daniela Galdino, Mither Amorim e Geraldo Lavigne.

É imperdível!!!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

DOIS POEMAS E UM COMENTÁRIO... POR OVÍDIO, SILVÉRIO DUQUE E JESSÉ DE ALMEIDA PRIMO


A morte dos Nióbidas, por Pierre Charles Jombert


NÍOBE

por Ovídio

(...)Queda-se só,
entre os cadáveres dos filhos, e os das filhas, e o do marido.
Pela desgraça fica hirta. A brisa já nem um só cabelo move,
...o rosto empalidece, sem pinga de sangue, os olhos param,
imóveis, na desolada face: nada está vivo na sua figura.

Até a própria língua se congela no interior do palato
endurecido, e as veias desistem de poder palpitar.
E já nem o pescoço se flecte, nem os braços se movem,
nem os pés logram andar: até o interior das vísceras é pedra.

Porém ela chora. E, apanhada pelo turbilhão de um vendaval,
é levada para sua terra. Ali, fixada no cimo de um monte,
desfaz-se a chorar, e ainda hoje do mármore jorram lágrimas.

(...Ovídio, Metamorfoses, livro VI, VV. 301-312, trad. Paulo Farmhouse Alberto)


A CANÇÃO DE NÍOBE
por Silvério Duque

Se morta, sim, eu me fizesse, adormecendo
sobre os braços da terra amiga, pouparia
meu coração desesperado e me faria
...como a doce romã que, agora, florescendo,

amadurece alegre, e, enfim, apodrecendo,
reduz sua doçura à lembrança de, um dia,
ter sido, entre outras tantas, a que, de alegria,
povoou o chão com belas sementes; mas vendo

minha função de mãe minorada a um momento
de mais profunda angústia, assim, eu permaneço,
petrificada, imóvel pelo sofrimento,

...não recordando mais da luz do sol nascente
e nem sentindo a forma fria onde me esqueço:
esta fonte a fluir sua dor, eternamente...


COMENTÁRIO

por Jessé de Almeida Primo

Este é o momento em que Níobe - após ter disputado com Latona a primazia das oferendas - vê seus sete filhos, seu maior orgulho, morrendo um a um alvejados pelas setas de Apolo e de Diana, filhos da própria Latona. Alguém submerso numa dor tão imensurável que a única imagem possível é de uma ...pedra que chora, é uma metáfora tão poderosa quanto tocante.

O soneto - do livro Ciranda de Sombras a ser lançado proximamente - que antecede ao trecho de Ovídio foi resultado de um desafio que fiz a seu autor e meu amigo Silvério Duque. Após ouvi-lo narrar esse mito, fiquei tão impressionado com a precisão com que o fez que não vi outra saída senão pedir-lhe que ...escrevesse um poema sobre o assunto.

Afinal, da mesma forma que só a mutação em pedra-fonte poderia dizer a dor da personagem, a poesia seria a única forma de dizer essa dor.Eis que poucos dias depois, o autor me aparece com esse alexandrino em que dá voz à própria vítima do infortúnio e que encerra com um verso extraído ao fragmento da poetisa Safo de Lesbos. Salvo engano, a única parte do poema que chegou ao nosso conhecimento.Reparem a mobilidade das cesuras no primeiro quarteto que aos poucos cede espaço à sua imobilidade a partir do quarteto seguinte, sempre nas sextas sílabas, como se estivesse a ilustrar assim o processo de petrificação.

Além disso, o estilo contido que diz de algum modo esse estado pétreo da narradora, e a distribuição imitativa da rimas. Ou seja, os verbos “florescer” e “apodrecer” encerram, cada um, respectivamente, o quarto e o quinto versos, seguindo assim uma seqüência lógica.