sábado, 5 de setembro de 2009

EMBATES POÉTICOS... I


O poeta Eurico Alves Boaventura (1909-1974), em sua biblioteca


O poeta Manuel Bandeira (1886-1968), também, em sua biblioteca


ELEGIA PARA MANUEL BANDEIRA

Eurico Alves Boaventura



Estou tão longe da terra e tão perto do céu,
quando venho de subir esta serra tão alta ...

Serra de São José das ltapororocas,
afogada no céu, quando a noite se despe
e crucificado no sol se o dia gargalha.

Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens
tecem céus de corolas para o meu acalanto.
Perdi completamente a melancolia da cidade
e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem.

Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra,
e é como se arranhassem um seio verde, moreno.

Manuel Bandeira, a subida da serra é um plágio da vida.
Poeta, me dê esta mão tão magra acostumada a bater nas teclas
da desumanizada máquina fria
e venha ver a vida da paisagem
onde o sol faz cócegas nos pulmões que passam
e enche a alma de gritos da madrugada.
Não desprezo os montes escalvados
tal o meu romântico homônimo de Guerra Junqueiro
Bebo leite aromático do candeial em flor
e sorvo a volúpia da manhã na cavalgada. Visto os couros do vaqueiro
e na corrida do cavalo sinto o chão pequeno para a galopada.

Aqui come-se carne cheia de sangue, cheirando a sol.

Que poeta nada! Sou vaqueiro.

Manuel Bandeira, todo tabaréu traz a manhã nascendo nos olhos
e sabe de um grito atemorizar o sol.

Feira de Santana! Alegria!

Alegria nas estradas, que são convites para a vida na vaquejada,
alegria nos currais de cheiro sadio,
alegria masculina das vaquejadas, que levam para a vida
e arrastam também para a morte!

Alegria de ser bruto e ter terra nas mãos selvagens!

Que lindo poema cor de mel esta alvorada!

A manhã veio deitar-se sobre o sempre verde.
Manuel Bandeira, dê um pulo a Feira de Santana e venha comer pirão de leite com carne assada de volta do curral
e venha sentir o perfume de eternidade que há nestas casas de fazenda,
nestes solares que os séculos escondem nos cabelos desnastrados das noites eternas venha ver como o céu aqui é céu de verdade
e o tabaréu como até se parece com Nosso Senhor.



***


ESCUSA

Manuel Bandeira


Eurico Alves, poeta baiano,
salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito.
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.

Sou poeta da cidade. Meus pulmões viraram máquinas inumanas e
aprenderam a respirar o gás carbônico das salas de cinema.

Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata. Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.

Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.

Eurico Alves, poeta baiano, não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.


TRÊS DICAS DE LEITURA... INDISPENSÁVEIS


Razão do poema de José Guilherme Merquior (Rio, Topbooks, 1996).


Aristóteles em Nova Perspectiva: introdução à Teoria dos Quatro Discursos de Olavo de Carvalho (Rio, Topbooks, 1997).


Uma gota de sangue de Demétrio Magnoli (São Paulo, Contexto, 2009).

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA


Moça com brinco de pérola de Jan van der Meer Van Delft- (1665) Óleo - 46,5 x 40 cm.

MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA



à Sr.ª Irene Carneiro da Silva, minha mãe.

Mas, é assim que emprestamos, à verdade,
a maravilha oculta em meio às sombras
que uma luz vai buscar, na intimidade
de um olhar, outro olhar em meio às dobras
que o fulgor vai traçar parte por parte...
A outra metade é escrita pelas sobras
de um frágil instante entre o real e a arte
que todo artista traz em suas obras,
e, esse instante evidente da emoção,
é quando o olhar desacredita a pérola
na iminência de um susto, aparição
que se prende, no mesmo rosto, à auréola

silenciosa de um lume sobre a tela:
de amor, toda falena se une à vela.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

AS VÍTIMAS-ALGOZES DE JOAQUIM MANUEL DE MACEDO



Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882)


A importância de Joaquim Manuel de Macedo resulta de uma percepção do próprio escritor: o público leitor nacional, centralizado na capital federal e devorador de folhetins europeus, estava disposto a aceitar um romance adaptado a cenários brasileiros, desde que a conservado o modelo de enredo das narrativas inglesas e francesas. Além disso, o escritor deu-se conta de que precisava vencer a barreira moral – imposta pela estrutura patriarcalista – que não via com bons olhos a explosão de sentimentos naquelas histórias que afirmavam o direito da paixão sobre a obediência e sobre a hierarquia social. A adaptação que Macedo fez, portanto, era uma necessidade, podendo ser assim resumida:

Romance brasileiro =
Romance romântico europeu + cenários brasileiros + valores patriarcais

O produto desse esforço foram relatos desprovidos de grande valor artístico, mas que possibilitavam ao leitor várias identificações. Tropeçava-se a todo instante em ruas, praças, praias e outras paisagens conhecidas. Aqui e ali, sob algum disfarce, topava-se com uma figura típica da sociedade carioca (fluminense, se dizia então). Um nome era lembrado, um costume coletivo evidenciado, de tal forma que a alegria do reconhecimento tornava-se contínua – como se, atualmente, alguém descobrisse o seu mundo e a si próprio num filme ou numa telenovela.

Outro fator de identificação resulta do processo de abrandamento do folhetim europeu. Embora o tema predileto de Macedo fosse o amor, as aventuras sentimentais que imaginou não possuíam nem a violência nem o velado amoralismo das histórias dos romances europeus de então. Afinal, aqui era o Brasil, país em que a burguesia não tinha expressão e a ideologia patriarcal dominava completamente os espíritos. Afetos sim, mas afetos mantidos nos limites do decoro, para não ferir os leitores, nem com a tragédia, nem com a revolta. Mais açúcar do que sangue. Em vez de paixões intempestivas, respeitáveis namoros que, passando pelo noivado, terminam obviamente no casamento e outras educorações.

Não por casualidade, na obra de Macedo os impulsos íntimos dos enamorados sempre se enquadram nas normas da família patriarcal. Nada de vulcões, nada de protestos, nada de desrespeito. O universo pré-capitalista brasileiro ainda não podia conviver com a liberdade sentimental. Até os vilões sabem adaptar-se às conveniências sociais. Como disse um crítico, só praticam a vilania na medida em que o enredo assim o exige. Quer dizer, o mundo narrativo de Macedo, praticamente, não tem abismos.


AS VÍTIMAS ALGOZES (1867)

Um dos quadros sociais mais alegóricos da História do Brasil é a escravidão, principalmente no que se refere ao final do século XIX, dividido entre os defensores da Escravidão e aqueles que a repudiavam por considerá-la um dos maiores símbolos do atraso político-social do País.

Como já destacado, alguns autores se tornaram notórios defensores do abolicionismo, como Trajano Galvão, Rui Barbosa, Thobias Barreto, José Bonifácio (o “Velho” e o Moço), Fagundes Varela, Luís Gama, José do Patrocínio, Bernardo Guimarães, Raimundo Correa, e, o mais destacável, Antônio Frederico de Castro Alves, entre outros, expressaram o seu repúdio pelas práticas escravistas em prosa e verso, legando uma das ações políticas e humanitárias mais belas e vitoriosas de nossa História. Por outro lado existiram aqueles que pintavam um quadro bem diferente da Escravidão e que possuíam idéias não muito humanista. Eram escritores que viam a situação com um peculiar sentimento de medo; não um medo político, um medo de uma revolução, ou rebelião ou coisa do tipo, mas um medo físico e moral cuja principal vítima seria o Senhor de Escravos e o negro seu principal executor. Um dos arautos desta inconveniente verdade será Joaquim Manuel de Macedo, em seu outrora esquecido As Vítimas-Algozes.

A obra não agradou o público oitocentista e recebeu várias críticas publicadas na imprensa, sendo considerado, por Ubiratan Machado, como o livro mais atacado pela crítica durante o período romântico. As Vítimas-Algozes teve apenas três edições, a de 1843, depois 1896 e a de 1988, mas não por isso deixou de ser uma leitura essencial para a compreensão de um dos mais importantes períodos da História do Brasil.

Macedo comporá uma obra abolicionista um pouco diferente daquelas a que o grande público leitor de nosso País está mais acostumado, pois este abolicionismo é visto pelo ponto de vista do Senhorio que tem, na escravidão pela qual subjuga seus negros, a possível destruição de seus bens maiores: a Família, a Moral e a Propriedade. O objetivo do livro, que não é necessariamente um romance, mas um livro de novelas, três para ser exato: Simeão – o crioulo, Pai-Raiol – o feiticeiro e Lucinda – a mucama é convencer os leitores da necessidade de libertar os escravos, pois estes cativos, de natureza vil e obscura e, se não bastasse, submetidos ao horror do cativeiro, levam, para dentro de seus, lares a corrupção física e moral para o seio de suas famílias. Para uma sociedade que se quer moral, incorrupta e limpa, o escravo é, em potencial, um agente corruptor da mais baixa e perigosa espécie.

Para comprovar uma afirmação desta natureza Macedo se valerá de descrições intensas e de uma galeria de tipos negros comuns à realidade dos Senhores de Escravos; assim, as três novelas que compõem o livro trazem, por exemplo, o negrinho ingrato, o negro feiticeiro, os negros vagabundos, o escravo traiçoeiro, a mucama promiscua, escrava assassina... e muitos outros exemplos que demonstram o quão comprometedor é a presença do negro, do escravo dentro da casa-grande, perto de sua família, na intimidade da vida dos Senhores de Escravos.

RESUMO DAS NOVELAS

1ª NARRATIVA: SIMEÃO – O CRIOULO


O protagonista, Simeão, perdera a mãe, que fora ama-de-leite da sinhazinha, aos dois anos, tendo sido criado pelos patrões. Até os oito anos de idade Simeão teve prato à mesa e leito no quarto de seus senhores, e não teve consciência de sua condição de escravo.

Em função disso, tinha algumas regalias, mas não deixava de ter o estatuto de escravo e de ser tratado como tal, fator que, conforme ele se tornava adulto, se agravava e se fazia mais claro. Foi privado da mesa e do quarto em comum depois dos oito anos; continuou, porém, a receber tratamento de filho adotivo, mas criado com amor desmazelado e imprudente, e cresceu enfim sem hábito de trabalho. Devia ter 20 anos, crioulo de raça pura africana, cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice e afetação, era calçado e tinha vícios de linguagem. Havia, no entanto, a expectativa de que seria alforriado quando o seu patrão morresse, o que não acontece, tendo este, em seu testamento, transferido a alforria certa para o momento em que a esposa viesse a falecer.

Simeão, juntamente com um comparsa, já alimentado de ódio contra os patrões, trama e realiza o assassinato da família toda e o saque do ouro e da prata que guardados no interior da Casa Grande. O quadro vem a se revestir de crueldade maior porque os proprietários de Simeão se achavam, no íntimo, protetores bem-intencionados do mesmo, tendo, inclusive, na véspera do crime, decidido alforriá-lo imediatamente. Não eram, no entanto, capazes de questionar o sistema que os privilegiava, em todos os sentidos, e desumanizava o outro pólo, ou seja, os escravos, da sociedade. Sistema que, Macedo diz com todas as letras, produz o ódio e o crime, no que o romancista estava se apoiando em dados da sociedade real. Sua personalidade era ingratidão perversa, indiferença selvagem, inimizade, raiva, vícios, era vadio, dissimulado, ladrão, tinha instintos animais e era atrevido. Seus senhores eram: Domingos Caetano, Angélica, Florinda e Hermano de Sales. Eram bons e humanos, tinham delicadeza de sentimentos e sentimentos generosos. Honestos e trabalhadores e o tratavam como a um filho, bastardo, mas filho.

O autor constrói um perfil aterrorizante para o escravo, misto de tigre e serpente, de vítima e algoz, capaz de atacar quando menos se espera. Procura, claramente, encher de medo os brancos, senhores de escravos, e sugere como solução: o fim da escravatura. Solução que configura a tese básica que passa pela conclusão de cada um dos três quadros da escravidão. A novela não tem por final um desfecho romanesco típico; a morte cruel dos senhores não se parece em nada com o Happy End mui comum aos romances macedianos, por exemplo, mas a reafirmação da tese do autor é que Simeão foi o mais ingrato e perverso dos todos os homens da terra e afirma: que, Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso. A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes.

2ª NARRATIVA: PAI-RAIOL – O FEITICEIRO

As considerações sobre os cultos e crenças africanas é a forma escolhida pelo narrador para apresentar o papel do feiticeiro africano. A descrição física do feiticeiro já assusta: era um negro africano de trinta a trinta e seis anos de idade, um dos últimos importados da África pelo tráfico nefando: homem de baixa estatura tinha o corpo exageradamente maior que as pernas, à semelhança de um chimpanzé, por exemplo; a cabeça grande, os olhos vesgos, mas brilhantes e impossíveis de se resistir à fixidade do seu olhar. Segundo o narrador, trazia, porém, nas faces, cicatrizes vultuosas de sarja duras recebidas na infância: um golpe de azorrague lhe partira pelo meio o lábio superior, e a fenda resultante deixara a descoberto dois dentes brancos, alvejantes, pontudos, dentes caninos que pareciam ostentar-se ameaçadores; e prosseguia: uma de suas orelhas perdera o terço da concha na parte superior cortada irregularmente em violência de castigo ou em furor de desordem.

Em suma, Pai-Raiol tinha, para variar, uma má fama terrível, é um escravo que nenhum senhor queria por muito tempo. Ele conquista escravas por meio do medo e do pavor. As mucamas de que ele se aproxima obedecem-lhe cegamente. No momento da narrativa, é escravo de Paulo Borges e Teresa, um casal trabalhador, que vive muito bem até a chegada do feiticeiro. Paulo Borges é um homem trabalhador, dedicado ao lar; Teresa, esposa também dedicada e bondosa. Ambos viviam para sua família, seus filhos e para o trabalho.

Pai-Raiol incitou Esméria, mucama que cuidava das crianças a seduzir seu amo, o que de fato acontece. Os vícios e a sedução da escrava deixam Paulo enfeitiçado, até o dia em que a mulher os surpreende trancando-se no quarto sem nunca mais querer ver o marido. Esméria vai assumindo o papel de dona da casa aumentando a humilhação de Teresa. Quando nasce uma criança, filha de Paulo e Esméria, Pai-Raiol mostra à escrava a necessidade de que seu filho seja o único herdeiro. Paulo, no entanto, começa a sentir remorsos por seus atos, pois até os filhos ficam contra ele. Ensinada pelo feiticeiro, Pai-Raiol, Esméria coloca ervas especiais na comidas das crianças. Mas dentro em pouco estava a casa em movimento, Paulo Borges em sustos, a crioula em desespero: terrível indigestão se declarara em todas as crianças que em gritos e vômitos, em convulsões e delírio, e com as mãozinhas nos ventres, que se abrasavam e se dilaceravam em fogo e em dores horríveis, avançavam depressa para a morte que se manifestava já na decomposição dos traços fisionômicos. Ao amanhecer estavam mortos os dois filhos legítimos de Paulo Borges e os de alguns escravos – estes, para funcionar como álibi à maldade de ambos. Esméria, agora que as crianças estão mortas, orientada por Pai-Raiol, pede a Paulo que reconheça o filho deles. Ela vai encontrar-se com Pai-Raiol, com medo.

Não suportando mais, Esméria conta seus segredos para um escravo, Alberto, e fala sobre o domínio que o feiticeiro exerce sobre ela. Há uma luta entre Pai-Raiol e Alberto; o feiticeiro é morto, ao ser atirado por Alberto, de um desfiladeiro. Quando Alberto está amarrado e preso, Paulo, que já sabia da trama entre Esméria e Pai-Raiol, intervém dizendo que foi salvo por Alberto, dando-lhe carta de alforria. Esméria é, também, castigada.

A conclusão do narrador é de que não importa a morte de Pai-Raiol, o castigo de Esméria. O que fica é que Teresa tinha vivido vida de martírio em seus últimos meses, e morrera envenenada. Luís e Inês, filhos legítimos de Paulo Borges, tinham também morrido por atroz e dilacerante veneno. O pobre anjinho do berço fora privado dos seios de sua honesta mãe, bebera a sífilis e a morte nos peitos imundos de negra corrupta. A asa negra da escravidão roçara por sobre a casa e a família de Paulo Borges, e espalhara nela a desgraça, as ruínas e mortes violentas dos senhores e a escravidão, mãe das vítimas algozes, é prolífica.


3ª NARRATIVA: LUCINDA – A MUCAMA
A narrativa conta a história de Cândida, filha de honrado negociante e agricultor do interior da província do Rio de Janeiro. Em seu aniversário de onze anos, a menina recebera de presente do padrinho, Plácido Rodrigues, “o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar”, uma escrava crioula chamada Lucinda, de doze anos, que havia sido enviada à Corte para aprender a servir de mucama. A mucama logo conquistou a senhorinha ao dizer que sabia fazer bonecas e penteá-las. O padrinho empenhara-se em conseguir uma escrava que pudesse agradar a afilhada porque sabia que a menina andava triste devido à recente partida de Joana, “uma boa senhora, mulher pobre, mas livre e de sãos costumes, que fora sua ama de leite e a idolatrava como seus pais”. Joana, que enviuvara ainda moça, encontrara segundo noivo num “laborioso e honrado lavrador”, deixando por isso a sua adorada Cândida “com o maior pesar”.

Macedo oferece uma primeira ilustração de sua tese no romance ao contrastar a virtuosíssima Joana com a mucama Lucinda. Joana é descrita como uma segunda mãe, criada e também amiga, companheira do seu quarto de dormir, mulher simplória, bondosa e religiosa. Cândida, perdera segundo Macedo, “a companhia da mulher que era nobre, porque era livre” e que servia com o “coração cheio de amor generoso”, algo só possível “quando a liberdade exclui toda imposição de deveres forçados por vontade absoluta de senhor”. Em substituição, a menina recebera a crioula quase de sua idade, para Joaquim Manuel de Macedo: “a mulher escrava, uma filha da mãe fera, uma vítima da opressão social, uma onda envenenada desse oceano de vícios obrigados, de perversão lógica, de imoralidade congênita, de influência corruptora e falaz, desse monstro desumanizador de criaturas humanas, que se chama escravidão”.

Diante desse quadro os acontecimentos desenrolam-se naturalmente, sendo que o maior desafio é entender o porquê de Macedo ter achado necessário escrever quase quatrocentas páginas para contar essa história. A mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente nos anos seguintes. Ensina-lhe o que ocorre quando a menina vira moça, despertando-lhe a curiosidade pelos rapazes, ministra-lhe lições de flerte e namoro, mostrando-lhe ser mais divertido namorar vários rapazes ao mesmo tempo, e assim por diante, num desfilar constante de idéias destinadas a excitar os sentidos da donzela cândida e pura. As lições de amor da mucama eram inspiradas pelo sensualismo brutal, em que, de acordo com a tese do autor d’ A Moreninha, resume-se todo o amor nos escravos; portanto, a mucama escrava, ao pé da menina e da donzela, é o charco posto em comunicação com a fonte límpida.

Com a mucama escrava, infiltrada no quarto da donzela, foi possível, a um conquistador barato, um francês estróina e ladrão, insinuar-se aos amores de Cândida, conquistá-la efetivamente e tirar-lhe o maior símbolo da honestidade feminina. Lucinda, criatura ruim como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, tornara-se ela mesma amante de Souvanel, tramara tudo com ele, e até abrira o quarto da virgem para a consumação do delito. A idéia dos biltres era forçar o casamento de Souvanel com Cândida; dado o golpe do baú, Lucinda ganharia a liberdade e ficaria teúda e manteúda do francês. No final, Frederico, criatura virtuosa como nunca se viu mesmo em folhetins televisivos hodiernos de horário nobre, filho do padrinho de Cândida, apaixonado por ela desde menino, perdoa o erro da amada e casa com ela. Descobrira-se que Souvanel era na verdade Dermany, criminoso procurado na França. O vilão é preso e deportado. Lucinda e o pajem do pai de Cândida, também envolvido na trama para aproximar Souvanel da donzela, fogem dos senhores, são capturados, mas acabam abandonados ao poder público pela família. Frederico, o anjo, fecha o romance e o nosso martírio com um discurso abolicionista que aqui transcrevo, para martirizar o leitor, ou ao menos para dividir com ele o meu sofrimento.

Ainda que Macedo atribua os defeitos morais de Lucinda e seus pares à instituição da escravidão, a sua descrição dos cativos é tão impiedosamente desfavorável que torna-se difícil pensar na possibilidade de que essas pessoas, uma vez libertas, possam usufruir de direitos de cidadania e participar da vida política. De fato, uma característica intrigante de vários pronunciamentos favoráveis à lei de 1871 era a descrição dos escravos como seres quase destituídos de humanidade, pois a violência da instituição os desprovia de cultura, de regras de comportamento; por conseguinte, não desenvolviam laços de família, relacionavam-se sexualmente como animais, atacavam os senhores como bestas feras. Enfim, pareciam condenados a uma espécie de coisificação moral, resultado direto de sua condição de propriedade, de sua representação como coisa no direito positivo.

UM ROMANCE DE TESE?
Joaquim Manuel de Macedo constrói As Vítimas-Algozes dentro de uma tese: as desgraças e as corrupções das famílias dos Senhores de Engenhos são trazidas pela escravidão, pois ela transforma o negro num ser vil, violento e vingativo e, conseqüentemente, capaz das mais infames atitudes. Macedo demonstra, pelas três novelas de seu livro, como, gradativamente de maneira pautada e planejada, o negro vai se transformando de vítima para algoz. A proximidade quase íntima entre patrão e escravo nos últimos anos do cativeiro, uma intimidade que, segundo Macedo, beira o sado-masoquismo, é outro aspecto fundamental deste livro. Ele denuncia que, se o escravo é inegavelmente vítima de um regime desumano, a sua presença igualmente desagrega a sociedade branca no que ela teria de mais recomendável.
Assumindo um papel de arauto dos Senhores de Engenho do Século XIX, tais como Plácido Rodrigues, “o mais opulento fazendeiro e capitalista do lugar”. O autor procura demonstrar, com suas três novelas, como a escravidão pode significar a destruição das famílias de seus proprietários. As suas mulheres, seus filhos e filhas, todas as suas famílias encontravam-se ameaçadas, em tempo integral, pela presença de um indivíduo movido pelas malícias e pelo sentimento de vingança para como os seus acolhedores, ou seja, o escravo. Construindo a figura dos escravos sobre “tipos” e “estereótipos” que aumentam a imagem de medo por eles carregada, Macedo é muito feliz na criação do pânico e na linguagem direcionada à Classe Aristocrática a qual também pertence. Neste ínterim, estilisticamente, o livro ganha uma força descritiva e alegórica muito forte, com histórias de tristes realidades e influências, relações sexuais lascivas e desprezíveis pela sociedade da época, a natural repulsa do escravo pelo seu Senhor, por outro lado, perde em seu contexto ficcional em detrimento ao forte teor documental com o qual é envolvido. Em suma, na obra, o autor expressa a idéia de que a escravidão faz vítimas algozes e deve ser gradualmente extinta, sem prejuízo para os grandes proprietários de terra. Num tom conservador e usando personagens como a escrava Lucinda, o autor defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente, mas com uma perversão lógica, imoral e com influência corruptora oriunda da própria índole natural do escravo negro.
Para melhor engendrar sua tese, Macedo se utilizará de características e de esquemas narrativos comuns aos romances naturalistas. Por ter sempre um alicerce ideológico, um argumento, uma tese, a se comprovar, o autor de A Moreninha mescla o apelo à imaginação, comum ao Romantismo, com a busca pelo verossímil, característica comum ao Naturalismo, criando uma narrativa bastante peculiar na Literatura Brasileira, onde se mesclam Romantismo e Naturalismo. As Vítimas-Algozes é um alinhavo que traz elementos românticos como as constantes intrigas, a extrema sentimentalidade e compaixão dos senhores e senhoras de engenho, o heroísmo de alguns jovens, mistério, suspense e, claro, o sacrifício pela pessoa amada entrelaçados com características dos romances naturalistas como o determinismo do meio, da raça e da classe social, valorização do momento presente e verossimilhança, descritivismo e gosto pelo grotesco, presença do patológico, predomínio dos instintos, meio corrompido, ora moralmente, ora economicamente, ora os dois, aspectos sórdidos da consciência humana, desvios comportamentais, zoomorfismo dos indivíduos. Notoriamente, todas essas características se mesclam para que Joaquim Manuel de Macedo de coerência e forma poética à sua tese romanesca.

A obra é, certamente, um retrato perfeito do Brasil pós-abolicionista. O objetivo político das três histórias que compõem o livro está claro desde a nota inicial aos leitores. Professando narrar apenas histórias verídicas, Macedo procurava firmar, na consciência da população mais abastada, principalmente, o medo e as represálias do escravo sobre o seu senhor. Obra de convencimento, portanto, As vítimas-algozes era tentativa de obrigar os leitores a encarar de face profunda de um mal enorme que afeia, infecciona, avilta, deturpa e corrói a nossa sociedade, e a que nossa sociedade ainda se apega semelhante a desgraçada mulher que, tomando o hábito da prostituição, a ela se abandona com indecente desvario, segundo o próprio autor. Em sua retórica, Macedo lembra o isolamento internacional do país, do exemplo da guerra civil americana, do processo de emancipação em Cuba, e do caráter implacável da reforma, exigência da civilização e do século. Afirma que a escravidão é câncer social, que se não estirpa sem sofrimento; mas o adiamento teimoso do problema agravaria o mal, pois o país poderia ter de enfrentar a emancipação imediata e absoluta dos escravos, colocando em convulsão o país, em desordem descomunal e em soçobro a riqueza particular e pública, em miséria o povo, em bancarrota o Estado.

Macedo antevê um cenário apocalíptico como decorrência de uma possível emancipação imediata dos escravos revelando, já de início, o que seria esta obra, a forma como faz desfilar uma galeria medonha de escravos astuciosos, trapaceiros e devassos, sempre dispostos a ludibriar os senhores e ameaçar os valores e o bem-estar da família senhorial. Preocupado em não deixar nada por explicar, Macedo esclarece que havia dois caminhos a seguir para mostrar aos leitores a profunda reprovação que deve inspirar a escravidão: o primeiro consistiria em narrar as misérias e os sofrimentos dos escravos, suas vidas de amarguras sem termo – seria o quadro do mal que o senhor faz ao escravo, ainda que sem querer; o segundo caminho, aquele escolhido por Macedo, mostraria os vícios ignóbeis, a perversão, os ódios, os ferozes instintos dos escravos, inimigo natural e rancoroso do seu senhor. Seria o quadro do mal que o escravo faz ao senhor, de assentado propósito ou às vezes involuntária e irrefletidamente, ou, por que não, por instinto.

Joaquim Manuel de Macedo não foi o único – aliás, não foi nem o primeiro nem o último – a defender esse tipo de tese. Várias vezes, na literatura oitocentista, o negro foi pintado como corruptor da moral, da higiene e dos bons costumes da sociedade brasileira. Seguem, também, esse exemplo os romances: O Demônio Familiar, de José Martiniano de Alencar, História de uma moça rica, de Pinheiro Guimarães, A carne de Júlio Ribeiro e A falência de Júlia Lopes de Almeida.



* * *


Joaquim Manuel de Macedo nasceu em Itaboraí, Estado do Rio de Janeiro, filho de uma família abastada, Formou-se, jovem ainda, no Curso de Medicina, profissão, a qual, jamais praticara, pois fora seduzido pela carreira de escritor, pelo magistério (foi preceptor dos filhos da princesa Isabel e professor de História no colégio Pedro II) e pela política (tornou-se deputado pelo Partido Liberal em várias legislaturas), além de fazer constantes incursões pela carreira jornalística. Foi o primeiro escritor brasileiro a conhecer grande popularidade, deixando uma obra bastante vasta de mais de quarenta títulos. Morreu no Rio de Janeiro. Suas obras principais são: A moreninha, de1844; O moço loiro, de1845; Memórias do sobrinho de meu tio, de1867; A luneta mágica, de 1869 e, pelo que parece, graças ao Vestibular da UFBA, As Vítimas Algozes, também de 1867.




terça-feira, 25 de agosto de 2009

X CAMINHADA DO FOLCLORE


Bumba-meu-boi...uma das muitas manifestações folclóricas que poderão ser vista na X Caminhada do Folclore de Feira de Santana

Resgatar e preservar a tradição popular como forma de valorização da cultura que é expressão maior de um povo é o objetivo da Caminhada do Folclore, promovida pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), através do Centro Universitário de Cultura e Arte (CUCA), este ano, chega a sua décima edição marcando o encerramento das comemorações da Semana do Folclore.

Inserida no Guia de Bens Culturais do Brasil, a Caminhada do Folclore conta com a participação de 52 grupos de Feira de Santana e 32 de outras cidades da região, a exemplo de Ipirá, Água Fria, Pedrão, Irará, São Gonçalo, Alagoinhas, Serra Preta, Santo Amaro, Ouriçangas, Cachoeira, Tanquinho...

Para Selma Oliveira, diretora do Cuca, “estes 10 anos de Caminhada sintetizam o percurso de um evento que expressa de forma significativa as raízes da cultura popular”. Ela acrescenta que para marcar os 10 anos da Caminhada, o CUCA presta uma homenagem a Feira de Santana, com a participação de um grupo de encourados, que abrirá o cortejo.

A X Caminhada do Folclore vai mostrar na avenida, o que de mais autêntico existe em nossa cultura local e nacional como repentistas, aboiadores, grupos de baianas, capoeira regional e de angola, bumba-meu-boi, vaqueiros encourados, burrinha, maculelê, sambas, nego fugido, caretas, reisado, grupos musicais e bandinhas típicas, entre outras manifestações da cultura de raiz.

A caminhada realizar-se-á neste domingo, dia 30... a concentração dos grupos será no Centro de Cultura Amélio Amorim, a partir das 7 horas, enquanto a organização do cortejo acontecerá na rua Frei Aureliano. O desfile está programado para as 9horas, saindo da avenida Getúlio Vargas, com encerramento na Praça de Alimentação. A caminhada conta com a parceria da TV Subaé, Prefeitura Municipal e Serviço Social do Comércio (Sesc).

sábado, 22 de agosto de 2009

SONETO AO VAQUEIRO...


O Vaqueiro de Juracy Dórea (1980): Mista sobre azulejos; 180 x 220 cm – Mercardo de Arte Popular, Feira de Santana, Bahia, Brasil.

O poeta e amigo Miguel Antõnio Carneiro

GALOPE

ao amigo e velho vaqueiro consangüíneo, Miguel Carneiro



( pr’ uma aquarela à Emilio Moura )

Esquecidos, no vento, procuramos
por aquilo que outrora fomos – tanto
faz se a luz que nos guia agora é pranto,
se tudo se desfez... Nós perduramos.

Tudo torna a viver, e reencontramos
a força de existir, o próprio encanto
que transfigura o nosso grito em canto
oportuno, o caminho pr’onde vamos:

é a memória a deter a nossa sina
de ter, nos pés, os giros que há no mundo
e a vontade de amar que o Amor ensina,

porque a alma há de fazer sua própria sorte
ante o esplendor mais límpido e profundo
ou do anjo frio que nos trará a morte.




quarta-feira, 29 de julho de 2009

EURICO ALVES BOAVENTURA (1909-2009)


O poeta Eurico Alves Boaventura (1909-1974)

No ano que passou, o romance, Vidas secas, do alagoano de Quebrângulo, Graciliano Ramos, completou 70 anos, merecidamente festejado como uma das maiores obras da História da Literatura Brasileira. Graciliano encontra-se no centro de uma tendência literária que se divide, historicamente, entre a celebração e o olhar depreciativo – o Regionalismo; que, desde o exotismo romântico de José de Alencar, e, não totalmente, do Visconde de Taunay, ao quase desprezo de autores, tanto já veteranos, como João Ulbaldo Ribeiro e Antônio Torres, a contemporâneos de igual qualidade, tais quais Milton Hatoum, José Lins Passos e Ronaldo Correa, acusando tal tendência de ser uma forte variante de “beletrismo estético”, sofre severo bombardeio pejorativo.

O Regionalismo (e entenda-se aqui toda literatura que, desde a segunda metade do século XIX, se direciona para o interior geográfico do Brasil, apresentando uma série de aspectos muito próprios das comunidades afastadas dos grandes centros urbanos, que vão desde o modo como declinam a minudências na descrição de dados locais, à maneira como incorporam certos maneirismos lingüísticos), à revelia de seus detratores, é responsável por muitas das melhores obras de nossa Literatura, além de ser o pioneiro no desbravamento cultural de regiões, até meados do século XX, desconhecidas do grande público leitor, como o Sertão do Nordeste, os Pampas gaúchos, os canaviais próximos ao litoral nordestino, a região cacaueira da Bahia ou a Amazônia; e isso se dá, ao mesmo tempo, pelo já citado exotismo de alguns românticos, ou, com o realismo profundo, aliado a uma verdadeira preocupação político-social e histórico-cultural, propostos, já no fim do século XIX, por Franklin Távora, em seu célebre O Cabeleira.

Com a geração neo-realista de 1930, o Regionalismo atingirá seu apogeu, através de obras de indiscutível valor literário, como o, já, citado Vidas secas, além dos antológicos Fogo morto, de José Lins do Rêgo, Gabriela, de Jorge Amado, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, A Bagaceira, de José Américo de Almeida... Já o que me parece ser muito pouco comentado, inclusive nos livros didáticos que chegam às mãos de milhões de alunos de todo o País, com respeito ao Regionalismo, é a grande participação que a Poesia assume nesse contexto; até porque, a linguagem poética, extremamente diversa e subjetiva – abrindo-se a infinitas possibilidades de interpretação, e, inclusive, a péssimas interpretações –, por mais que muitos a queiram anti-lírica e objetiva, não se limitaria totalmente a quaisquer paradigmas, por mais que os autores se dedicassem à tamanha proeza. Cabe dizer aqui, no entanto, que, alguns, tais quais João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Alberto da Cunha Melo,tornaram-se famosos por trazer, à poesia, as mesmas propriedades presentes nos romances ditos regionais, como o tão desconhecido do grande público, quanto notável em suas aptidões de poeta, o baiano, de Feira de Santana, Eurico Alves Boaventura, que, neste ano, completa seu primeiro centenário, e de quem recolho um dos melhores exemplos de uma poesia no mais autêntico e perfeito sentido do termo Regionalismo:




Há uma douçura nos longes de um azul discreto.

A manhã desce pela serra,uma doce, suave manhã adolescente.
Há um gosto de mulher nua pelo ar úmido de luz.
E as longas estradas esquecem-se de si mesmas,
numa indolência vaga, indefinida.

Mugidos de reses nos currais perto da vida adormecida.

Os meus pulmões cansados de civilização,
agora gritam como cabritos ágeis e vadios,
bebendo o ar puro da manhã de sol,
quando vêm este perfume de rosa-amélia dos quintais abertos.
Nem anúncios de jornais, nem estrídulos de carros,
nem o drama angustioso de mocinhas para o trabalho,
nem o tédio bom das boemias doiradas, nem o rumor, da vida encantadora da cidade, nada, nada...
A vila é um compêndio natural de moral e probidade
Que vive da ignorância de viver, que é a felicidade afinal.
Manhã pura.
Salpicada de orvalho, atarantada, suja,
passa na douce manhã vilarenga, numa auréola de mosquitos,
a doidinha trazendo no chapéu braçadas de malua veludosa, para lavar a louça das casas abastadas da vila.

Olho as estradas.


Penso nas lindas mulheres que adormecem ainda,
lá pelas cidades grandes, depois das reuniões veladas.
Um juiz, para a vila pacata, não devenunca ter pensamentos assim. Comprometê-los-ão tais pensamentos.


* * *
Os caminhos perdem-se na boca escancarada do céu,
deitado sobre o horizonte lá longe...
E, na manhã doce como amora madura,
a pequena vilazinha, sem ninguém, descuidada, ressoa.




I



Meu primeiro contato com a poesia de Eurico Alves Boaventura não aconteceu de uma forma, diga-se, comum... diria melhor, deu-se de uma maneira inusitada, repleta de grande perplexidade, como, comumente, se dão as grandes descobertas.

A pouco mais de 30 km de distância de Feira de Santana, para quem segue rumo ao norte da Bahia, pela rodovia BR 324, encontra-se, aos pés de um intrépido quão majestoso inselberg, tão grande e magnífico quanto a Serra de São José da Itapororocas que enchia de esplendor e susto o jovem Eurico, a sobrepor-se sobre aquele pedaço de agreste nordestino, encontra-se o município de Tanquinho, onde morei por quase dez anos e, por lá, vivi alguns dos melhores e mais instrutivos anos de minha infância e pré-adolescência, num ambiente muito semelhante no qual nascera o poeta feirense. Lá, numa praça imediata aos portões da cidade e um pouco atípica para os “padrões interioranos", que o tempo e descaso, até então, não consumiram de toda, se é possível ler, em letras garrafais, as seguintes palavras:



VÊ-SE QUE, EM TODA PARTE,
POR ONDE SE OUVIU UM ABOIO VESPERTINO,
PARA O REPASTO RUDE DE UMA TROPA,
QUE SE ACENDEU A TREMPE,
CAIU A SEMENTE DE UMA CIDADE
OU VILA SERTANEJA.




e, onde, um pouco abaixo, também, se lê:



Eurico Alves Boaventura


Li, àquele tempo, estas palavras, pouco delas entendi, e nada, absolutamente nada, sabia de seu autor, além do nome que, à parede da praça, ali, se escrevia. Em minha mente e coração de criança, porém, uma forte curiosidade se me fazia inquieta: como, mesmo sem entender direito uma frase ou seu propósito, poderia saber existir, dentro dela, tanta beleza e intento? É-me, praticamente, impossível descrever este estranhamento, mesmo se passado tanto tempo; primeiro, pela minha ignorância de menino; em segundo, pelo encanto que, delas, emanavam. Por menos que eu fizesse idéia do significado de algumas de suas palavras, e menos ainda de seu propósito, era óbvio que o seu autor falava de coisas de meu convívio, pois, àquela época, eu podia precisar de um dicionário (o “Pai dos Sábios”) para descobrir o que queriam dizer trempe e repasto, mas vila e sertaneja eu sabia, e as vivia muito bem; o que eu não poderia saber era como dizeres, aparentemente, tão simples e, até então, despropositados, traziam-me uma inquietude comum apenas àqueles que se põem diante do Mistério e da Graça; e, por mais inútil que me fosse abordar as mais velhas e distintas pessoas daquele lugar, na busca de uma explicação para aquelas palavras ou, pelo menos, o porquê de elas, ali, se encontrarem, sabia que nelas se encerravam coisas importantes, história e estórias diversas, muitos e muitos sentidos...

(Nunca mais li esta frase e nem sei se, realmente, a transcrevi na íntegra, pois há anos não vou àquela cidadezinha e, como tantas coisas que por lá vi, vivi e deixei, ela mora, quase que de favor, em minha modesta e já cansada memória.)

Anos mais tarde, solitário sobre uma das mesas da Universidade onde estudei e me formei, eis um pequeno livro cinza, de capa simplória e mal diagramada, onde lera: POESIA e, um pouco acima, em diminutos caracteres azuis, eurico alves, impresso pela Fundação das Artes e Empresa Gráfica da Bahia e trazia a organização dos textos, a pesquisa, a seleção dos poemas e as notas por Maria Eugênia Boaventura, que, mais tarde viria a saber, era uma das filhas do poeta, a qual, através de um árduo e admirável trabalho de pesquisa, “garimpara” grande quantidade de periódicos, manuscritos e correspondências, num “processo bastante pessoal”, como ela mesma afirma na nota à edição, organizou esta obra, levando sempre em conta o planejamento do próprio pai, que, por uma esquisitice ou outra, nunca publicou, em vida, um único livro de poemas, o que não impediu que tamanha tarefa não tivesse suas compensações, pois, particularmente, não conheço outro trabalho sobre Eurico Alves Boaventura que apresente melhor seleção, nem maior representatividade para seus poemas; e é exatamente ele, e só ele, que me guiam à composição destas páginas... Ah, Santo. Agostinho, o livro estava lá; tomei-o e li.


Epifanias à parte, não precisei mais do que uma leitura de seus poemas para saber que, naquele livrinho, encontravam-se os versos de um dos melhores poetas dos tantos que li e uma das minhas mais inventivas influências. Foi de imediato que reconheci e admirei a beleza de vocábulos simples e de locuções que me eram tão costumeiras e de rever, numa tão agradável poesia, uma infância, uma vivência e uma realidade que eu, também, experimentara, embora, o poeta tenha morrido quatro anos antes de eu nascer, e, quase um século, separasse o nosso tempo de travessuras; uma realidade composta de uma cidade grande, tumultuada e espantosa que, a não podendo entender ou suportar, abandona-a para mergulhar num mundo interiorano, sentimental, melancólico, repleto de estórias, tradições, lendas, vaqueiros devidamente ornados, pequenas praças, caatingas, velhos e novos solares ora pomposos ou abandonados, mas que traziam uma certa nostalgia aristocrática, bons e antigos hábitos, tranqüilas capelas, igrejas suntuosa, fé verdadeira e inominável, pessoas alegres ou envoltas em sua solidão e saudades, um perturbado desejo de desvendar o desconhecido... Assim, li, e me revi, na poesia deste feirense: duas vidas, outro tempo, e, de certa forma, o mesmo mundo.






II




A poesia de Eurico Alves Boaventura é um rico registro de um passado que teima existir, seja na memória de quem o viveu, ou em distantes localidades do interior nordestino; ela nos serve de amostra para a sua maneira irreverente e espontânea de ver, captar e criar, sem medo ou disfarces, um eu que “parecia sofrer sorrindo”, como no dizer de seu amigo, e parceiro, Carlos Chiacchio, e, bem longe da poesie purê de um Mallarmé, e de outros tantos despojos vanguardistas, sua produção impressiona por construir uma poesia onde as palavras se desprendem, muitas vezes, do raciocínio e a música das sílabas não ecoa mais que seus significados habituais. São versos que se compõem ao léu da inspiração e a favor das idiossincrasias, do regionalismo e da tradição ibérica. Isso, aliás, leva-me a comentar uma característica controversa de Eurico Alves que é a sua facilidade em assimilar influências, o que, em seu caso, vão da confessável leitura de Émile Verhaeren à perceptível influência de Walt Whitman, da admiração por Manuel Bandeira à correspondência com Jorge de Lima. Tal particularidade, comum a todo iniciante e, de certa forma, útil a um poeta de grande porte, como é o caso de Eurico, constitui-se, infelizmente, em seus Poemas Metálicos, como um grande defeito.

Os poemas que compõem esta primeira fase de sua obra poética nada mais são que exemplos bem elaborados de um artista à procura de caminhos próprios, exercícios verborrágicos de uma obra tão jovem e incerta quanto o seu autor, àquela época, e, por isso mesmo, não passam de tropeços comuns na longa caminhada rumo ao amadurecimento que não se lhe tardaria chegar, mas não seria nos anos de 1926 e 1932.

À medida que se volta a quantas direções lhe é possível, Eurico Alves pouco se afastará das fronteiras do simplesmente imitável. Acometido pelos modismos de sua época e das influências mais comuns e imediatas, não iria muito além do “lugar-comum” e do “meramente esperado”, e, embora não fosse um defeito único do poeta Eurico Alves, em muitíssimo pouco foi além do que outros, acometidos pelos mesmos “erros de tendência”, como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima, cometeram. Não fosse o grande aparato verbal, aliado a uma perspicácia elegante e expressiva, que, em muito, servem para minimizar os excessos descritivos e gongóricos que, muitas vezes, verdade seja dita, são conseqüências da busca por uma linguagem moderna a qual, o bardo feirense, como a grande maioria de seus contemporâneos, entrega-se apaixonadamente, seus primeiros poemas não passariam de meros exercícios inglórios do mais puro artificialismo.

Mas, é exatamente nesta paixão, nesta entrega sem recato, nesta peculiar romantização de temas do Modernismo, algo imperdoável para muitos leitores, críticos e colegas de ofício coetâneos seus, que advém o que de melhor existe nestes poemas de iniciante, onde a chama de um talento indomável começa a fazer-se viva. Isso, aliás, não demoraria muito, pois, já em seus Poemas, produzido entre os anos de 1928 a 1937, sua obra tomaria a proporção, e a qualidade, dignas de um talento, antes provável, agora, inquestionável. Ao escrever:


(...) molas azeitadas,
rodas ruidozamente perfurando o solo,
rodando movendo compaçadamente.



Vai pelo campo a fora
abrindo pautas intermináveis
para o poema da fartura que a chuva escreverá.


Nestes versos, por exemplo – o grifo é meu –, Eurico Alves vai muito além da criação de uma série de jogos verbais, ou de uma contínua sucessão de imagens ao gosto da época, que se apagarão quando o poema, no silêncio, precipitar-se. Através de versos como estes, o “poeta baiano” relembra-nos que, de todas as artes, como bem acentuou César Leal, em Os cavaleiros de Júpiter, ao referir-se à lírica de Carlos Pena Filho, a Poesia “é a que mais profundamente deixa raízes na alma”; que serão mais profundas se o poeta erige essas raízes com o adubo da tradição.

É uma pena que, no primeiro ato de sua obra poética, momentos como os transcritos acima não sejam constantes. Todavia, no capítulo que se segue, acontece exatamente o contrário, como, por exemplo, quando escreve, já em 1934, genialidades deste tipo:


Alteia teu braço, serenamente,
orgulhosamente
e deixa que o sol coroe de música a tua taça.

Bebe alegre, depois, o licor do teu sofrimento...

Mas, faze como todas as cigarras:
duvida da tortura e do padecimento,
pensa que não tens sangue e nem és feito de carne,
e canta como o sol os teus versos de ouro e luz.

Sob a alegria divina dos teus risos doirados,
que sob esta música, a dor se diviniza...


A poesia de Eurico Alves Boaventura tornar-se-á grande, exatamente, com a eliminação de uma linguagem poética de caráter modernista ou, pelo menos, àquela que se remete aos maneirismos do Modernismo paulista de 1922; e, quando esta retorna a uma simplicidade e a um coloquialismo que alude diretamente às reminiscências de seu autor, todas ligadas ao cotidiano ensimesmado das pessoas da roça, prova na prática, a afirmação de T.S. Eliot de que, a criação artística, é sempre um complexo retorno às velhas formas, influenciada por novos estímulos originados de fora do campo das artes”. Isto se dá porque, num sentido mais amplo, e, ao mesmo tempo primevo, a arte nunca deixou de “ser um serviço”; assim sendo, não constitui um elemento isolado e que a si mesmo alimenta; ela se liga à vida de seu autor e ao mundo que o rodeia, e, por que não, que, também, existe dentro dele; e, como já disse, Eurico, em sua poesia, é prova disto, pois, seguindo este raciocínio, veste de uma autenticidade que dificilmente encontra similaridade (os melhores exemplos de uma autenticidade assim, que eu me lembre, estão em Ariano Suassuna, em seu monumental Romance d’A Pedra do Reino, na poesia de Ascenso Ferreira, que desfrutava, entre tantas coisas, da admiração do poeta feirense, ou, ainda, em Marcos Pérsico e seu Era uma vez no Sertão, para termos um exemplo mais local e contemporâneo), revelando elementos estruturais que desencadeiam uma vigorosa consciência artística e uma verdadeira identificação com o mundo e a vida sertaneja, sem afogar-se no naturalismo insípido, ou num regionalismo panfletário, nem recorre a um romantismo nostálgico que, na contramão do Modernismo, levaria sua obra a um pieguismo insuportável.

O que se verá, então, principalmente a partir dos anos 30, em poemas como A canção da cidade amanhecente, Canção para a capela de Nossa Senhora dos Remédios, Cantiga simples, Elegia do solar abandonado, Poema leve da rua Barão de Cotegipe, é a captação da essência espiritual de um povo simples – mais do que isso... de uma cidade inteira que, mesmo impregnada por tantos sonhos de grandeza, teimara (e, até hoje, teima), por atavismo, a agarrar-se a uma tradição interiorana sem nenhuma angústia ou culpa profunda. Revelar a essência misteriosa das coisas e não imitá-las simplesmente é, segundo Aristóteles, a grande função da arte; Eurico, a partir dos poemas acima citados, como ninguém, aprendeu tal lição, pois conviveu tanto com um Sertão de vaqueiros quanto de caminhões e buscou, tanto na vida cotidiana, como através de seu eu-lírico, preservar este mundo de aboios, roupas de couro e tropas de gados.

No dizer de Agripino Grieco, Eurico Alves seria uma espécie de “filigranista lírico”, um sentimental à antiga... E é exatamente quando a docilidade e o lirismo profundo se lhe apoderam que a sua poesia ganha a mais bela e abrangente dimensão – convenhamos que a metáfora do “filigranista”, principalmente quando associada à idéia de “lírico à moda antiga”, é simplista, de muito mau gosto e de pouca inteligência, entretanto, Agripino acerta ao afirmar que os mais belos poemas de Eurico Alves são exatamente aqueles em que põe, no papel, “com toda docilidade, aquilo que o coração lhe vai ditando” – . Nosso poeta centenário é um grande conhecedor do mundo onde nasceu e cresceu, presenteando-o com tantas lembranças e inspirações, quanto a uma poética que se remete da mais meiga e sutil lembrança de menino a mais pura tradição ibérica, que encontram, em Cantigas de bem dizer e Baladas antigas, sua melhor expressão. Eurico conhecia bem a poesia popular medieval, a longa marcha que essa percorreu até chegar às terras tupiniquins, e sua contribuição para a poesia popular brasileira, que ele conhecera tão bem, já convertida à alma brasileira, nas feiras do interior, través dos romances de cordel e dos desafios entre violeiros; também as sentia como poucos. Mas era um apaixonado pela lírica moderna e sua ousadia. O resultado para um caso de amor tão peculiar, que envolvia duas paixões tão fortes e tão aparentemente insanas, é uma fusão que se faria imprescindível para a boa qualidade de sua obra.

Não se resguardando da atitude de um poeta maior, Eurico Alves Boaventura, à maneira de um Manuel Bandeira – sua melhor referência e grandessíssima admiração –, pensou, elaborou e produziu uma poesia, como poucas, singular e, em diversos momentos, grandiosa – o mínimo que se espera de quem se almeja como tal – onde se mostrou capaz de abranger, com maestria e perspicácia, as mais diversas direções históricas e estilísticas, de refletir, constantemente, algo de transcendental em relação ao mundo onde se encontra e de onde surgiu, de poder falar de coisas simples, ou complexas, sem mascarar-lhes a essência, nem desnudar-lhe os artifícios, de se rebelar contra padrões e instrumentos de estilos tomados pelo desgaste, mas de sua poesia não ter, em si mesma, um fim, ou nenhum outro propósito que não ela mesma, de sua obra não pertencer a uma determinada época, mas sim a todas, como bem resumiu Ben Jonson, ao referir-se ao legado literário de seu amigo William Shakespeare. É o próprio Eurico Alves, aliás, que nos dá uma boa síntese deste enlace literário ao afirmar que não existem passados maiores nem melhores do que outros, pois todos são brilhantes a partir do momento em que “construíram seu tempo, projetaram um presente e deixaram margem para o futuro”.

Todavia, nem o próprio Eurico poderia negar que nada o aproximou mais de um poeta maior do que a negação dos vanguardismos de sua época que ele, de livre e espontânea vontade, fizera – por mais que tenha tido um flerte temático e estilístico com o progresso urbano deslumbrantemente futurista – tornando-se um rebelde às avessas, cobrindo-se do véu da tradição e do regionalismo idiossincrático, o qual se somou a novos elementos, tanto no estilo de época quanto aos trazidos, ou surgidos, de sua personalidade, e, crendo quase que exclusivamente no poder das palavras e de suas expressões, elaborou uma poesia tão sensorial, e, em sua maioria, sinestésica, quanto espiritual, tanto objetiva quanto subjetiva, tão hodierna quão tradicional, simples em sua apresentação e complexas e reflexiva com relação ao seu conteúdo. Não é à toa que, por mais que não tenha publicado, em vida, um único livro de poesias, nem freqüentado tantos periódicos quanto queria ou podia, tenha uma obra bem mais agradável, profunda e sensível se comparada à produção de seus outros colegas, membros e colaboradores da revista Arco & Flexa.

Por mais que tal atitude não seja bem vista pela grande maioria de nossos críticos, quase todos amantes dos movimentos de vanguarda, e que, de certa forma, o prosaísmo de seus versos espante um bom número de leitores desavisados e mal costumados, por conseqüência, principalmente, da falta de intimidade com certas “expressões locais”, a grandeza da poesia de Eurico Alves Boaventura só acontece com esta mudança de direção, com o abandono da linguagem verhaereniana para uma poética onde imperam o regionalismo e a tradição, porque toda vanguarda, como nos adverte César Leal, novamente, em Os cavaleiros de Júpiter, só pode se dar como uma ação, realmente, espiritual no campo da poesia, como de quaisquer formas de arte, após sofrer os efeitos do tempo, depois de se apagarem todos os encantos mais imediatos, passados os choques teóricos e polemistas, quando longe estiverem todas as hordas de “revolucionários” movidos pela “frustração” e pelo “ressentimento” e, principalmente, quando os carentes de atenção e desprovidos de talento forem postos de lado ou mergulharem no esquecimento que lhes é merecido, teremos aquilo que é realmente verdadeiro e digno de expressão e confiança, cabendo, então, ao poeta, abraçar o que deste modismo lhe é útil ou optar por ficar com as velhas e seguras doutrinas. No caso de Eurico Alves Boaventura, ao abandonar artesanatos como:

Ralam o ar, rodopiando em roucos ronrons rudos,
as ruivas, rúbidas rodas raivosas, rápidas, ao fogaréu ...

Negras fauces monstros de fornalhas, abocanhando as sombras,
num doido torvelinho desordenadamente bruto,
de permeio às turbinas, aos êmbolos, às válvulas e a loucura
de mil garras de fogo — as alavancas víboras —
no vai-e-vem, vem-e-volta,
subindo, descendo, afogando-se na fofa negrura do óleo chiando ...

Tatala, lá fora, ao dorso polido das chaminés,
a crespa asa rascante e do grande morcego chagado
a noite.

Correm escuros arrepios no alto céu de ferrugem,
mordendo a usina ...

Mas, a um canto, possante, brutal, estouvadamente,
entre o delírio de carótidas veias e artérias de aço,
bates, rebates, fremes, latejas, precípite,
em cólera chispando,
rudo, rouco, raivoso, rasgando a noite,
— dínamo da fábrica — meu desvairado coração pulsando!


para a elaboração de grandes esculturas como esta:


Estou tão longe da terra e tão perto do céu,
quando venho de subir esta serra tão alta ...


Serra de São José das ltapororocas, afogada no céu, quando a noite se despe
e crucificado no sol se o dia gargalha.
Estou no recanto da terra onde as mãos de mil virgens tecem céus de corolas para o meu acalanto.
Perdi completamente a melancolia da cidade e não tenho tristeza nos olhos
e espalho vibrações da minha força na paisagem.

Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra,
e é como se arranhassem um seio verde, moreno.

Manuel Bandeira, a súbida da serra é um plágio da vida.


Poeta, me dê esta mão tão magra acostumada a bater nas teclas
da desumanizada máquina fria e venha ver a vida da paisagem
onde o sol faz cócegas nos pulmões que passam
e enche a alma de gritos da madrugada.

Não desprezo os montes escalvados
tal o meu romântico homônimo de Guerra Junqueiro
Bebo leite aromático do candeial em flor
e sorvo a volúpia da manhã na cavalgada.
Visto os couros do vaqueiroe na corrida do cavalo sinto o chão pequeno para a galopada.
Aqui come-se carne cheia de sangue, cheirando a sol.

Que poeta nada! Sou vaqueiro.


Manuel Bandeira, todo tabaréu traz a manhã nascendo nos olhos
e sabe de um grito atemorizar o sol.


Feira de Santana! Alegria!


Alegria nas estradas,
que são convites para a vida na vaquejada,
alegria nos currais de cheiro sadio, alegria masculina das vaquejadas,
que levam para a vida e arrastam também para a morte!
Alegria de ser bruto e ter terra nas mãos selvagens!

Que lindo poema cor de mel esta alvorada!

A manhã veio deitar-se sobre o sempre verde.

Manuel Bandeira, dê um pulo a Feira de Santana e venha comer pirão de leite com carne assada de volta do curral

Venha sentir o perfume de eternidade que há nestas casas de fazenda,

nestes solares que os séculos escondem nos cabelos desnastrados das noites eternas venha ver como o céu aqui é céu de verdade
e o tabaréu como até se parece com Nosso Senhor.


percebemos o quão é categórica a afirmação de que não se pode ser autor de uma poesia, que se diga inovadora, sem Homero ou Virgílio, sem Dante ou Camões, sem Shakespeare ou Bocage, sem Wordsworth ou Castro Alves, ou, até mesmo, sem Baudelaire ou Manuel Bandeira. Sendo assim, o Jorge Matheus de Lima, só por motivo de exemplo, de Poemas Negros, descobriu o Jorge de Lima de A túnica inconsútil, e o Eurico Alves Boaventura – que admirava a poesia do bardo alagoano, mesmo sem ser, como ele, um dominador, por inteiro, de todos os mecanismos de expressão poética (pois Jorge de Lima é, também, um exemplo de poeta maior) –, descobriu o Eurico Alves de Poemas sentimentais, após abandonar o Eurico do já citado Poemas metálicos. Do contrário, tanto um, como o outro, não passariam do vanguardismo panfletário e magoado, e acabariam por se condenarem a um degredo intelectual típico de quem não foi além daquilo que lhe fora incumbido fazer, mas, novamente citando César Leal, em seu imarcescível Os cavaleiros de Júpiter, “resta-nos saber que, historicamente, só os verdadeiros poetas fracassam nos movimentos de vanguarda, ao criar aquilo que não haviam intentado” e é daí que nos surge, em sua totalidade, a grande poesia de Manuel Bandeira, de Jorge de Lima e, claro, de Eurico Alves.






III




É uma pena que a grande maioria de nossos críticos, ainda, veja autores como Eurico Alves Boaventura, Jorge de Lima, Murilo Mendes e até mesmo Mário Quintana, Dante Milano e Bruno Tolentino, por exemplo, como produtores de uma visão “arcaizante”, “alienada” e “pequena burguesa”, frutos de uma “consciência transferida” e de uma poética que só será vista, por tal crítica, como simplista e meramente acadêmica, pois, como já nos ensinara Esopo há tantos e tantos séculos, é costume do tolo, que almeja aquilo que se sabe incapaz de conseguir, desdenhar do que tanto deseja. Este tipo de reducionismo não atinge, nem jamais atingirá a qualidade de tais escritores, embora, muitos, acabem por amargar, como é o caso do Eurico Alves, um longo período de ostracismo injusto por conseqüência da burrice, do despreparo, do descaso e da cegueira ideológica de muitos cujo ofício, a reputação e a boa colocação não deveriam permitir o uso tão bem colocado de tais adjetivos; mas nada que o grande talento inerente a tais artistas não supere com o tempo que é o melhor dos críticos, porque só ele, como disse Santo Agostinho, é capaz de dar paz a toda dor.

Infelizmente, a grande maioria de nossos críticos é parva, preguiçosa e aproveitadora e, sendo ela, quase toda marxista, tais adjetivos só não lhe cabe muito bem, como podem ter o seu valor e significado quadruplicados. Porém, como certa feita afirmou Bruno Tolentino, “guardamos nossas, jóias e nossas cartas de amor com o mesmo deslumbramento, mas em estojos separados; e quando os vamos abrir, no primeiro deles achamos exatamente o mesmo valor, o mesmo brilho, realçado pela pátina do tempo; no outro, encontramos a tinta esmaecida, o papel amarelado, em suma, a palidez desbotada daquilo que tanto amávamos, que um dia nos resumiu e que, de repente, se tornou quase irreconhecível, quase ilegível, doce apenas como a vaga lembrança da emoção de um tempo que se foi como um assovio na noite”...

Os grande poemas são como estas jóias, que com maior ou menor tamanho e valor, intentam-se contra a mão do tempo; e eu gosto de pensar que, entre tantas jóias, há o pequenino diamante da poesia de Eurico Alves Boaventura fulgurando sobre o chão das falsas críticas, as cinzas das vanguardas e o pó do marxismo.


Enfim, se existe algo de grande e sincera importância a dizer sobre Eurico Alves Boaventura, algo que possa ir muito além de qualquer crítica que se possa fazer com respeito a sua obra, é a obvia certeza de ele ser o maior poeta da história de Feira de Santana, um dos melhores poetas da história literária da Bahia e um grande poeta brasileiro, mesmo sem o eruditismo e o Formalismo de um Godofredo Filho (só para ter, novamente, um exemplo local), sem aprofunda herança de tradição clássica de um Jorge de Lima, e, independentemente, de a sua poesia não contar, até hoje, com uma edição e uma crítica que façam justiça à grandeza que lhe é inata, certamente sua obra reza entre as mais bem realizadas de toda a nossa Literatura... Poesia essa tão imensa e verdadeira que é capaz de, passados tantos anos, tantas leituras (dela e de outras tantas de quantos poetas pude ler e compreender), trazer-me, ainda, o mesmo espanto, mistério e beleza daquelas palavras que, quando eu menino, me encantaram tanto.









Feira de Santana, de 04 a 27 de junho de 2009.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

TRÊS QUADRINHAS POPULARES AO GOSTO DA FORMA CLÁSSICA E DA PIEGUICE ULTRA-ROMÂNTICA PARA LUCIFRANCE CASTRO...


Saudade (1899) de José Ferráz Almeida Júnior

I

Tens amor nesses cachos d’anjo
e nesses olhos de incerteza...
( Mas se pena não tens de mim,
por que me ofertas tal tristeza? )


II

Mesmo morto hei-de estar ao lado teu,
e sem sequer saber, sentir ou ser,
teus olhos tristes, calmos, hão-de ver,
em noite escura, os muitos olhos meus.


III

Hei de sentir teu rosto sobre a pele fria;
então, quando apagar-se o lume desse dia,
quando teu rosto meigo perder a alegria,
verei um bem na morte e na sua agonia.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BANDO ANUNCIADOR DE FEIRA DE SANTANA...


A cantora Céliah Zaiin durante o Bando Anunciador de 2008



Promovendo um dos resgates mais importantes para a cultura popular de Feira de Santana, e d'uma das festas mais bonitas de nossa cidade (que há muito se fez esquecida), é que o Projeto Bando Anunciador da Festa de Santana entra em seu terceiro ano de edição, saindo, às ruas, neste domingo, dia 12, às 7:00 h, antecedendo o Novenário da Padroeira da cidade.

A festa conta sempre com a participação de fanfarras e grupos de mascarados que dão um colorido especial e nostálgico a todo o evento.

A diretora do CUCA ( Centro Universitário de Cultura e Arte), Selma Oliveira, explica que a idéia é reviver o evento com as suas características originais, como aconteceu no ano passado. Selma salienta que, em 2007, no primeiro ano do projeto, a participação popular superou todas expectativas, segundo ela, "O público prestigiou o evento de maneira espontânea”, como devem ser, aliás, todas as manifestações deste tipo.

O projeto será aberto nesta sexta-feira, dia 10, às 19 h, com uma mesa redonda onde personalidades do município falarão sobre o tema O Bando Anunciador: Memória Recente. Durante o evento haverá lançamento em DVD do documentário A volta do Bando Anunciador, do jornalista Marcondes Araújo. O trabalho aborda a primeira edição do Bando Anunciador, resgatado pela em 2007, com imagens do desfile e entrevistas.
É previsto, ainda, a exposição O Bando Anunciador: registro iconográfico 2008, com fotografias de George Lima, Beto Souza, Juraci Dórea e Tomaz Coelho.

Não percam...!!!

Feira de Santana, 09 de julho de 2009.


sábado, 27 de junho de 2009

UMA HOMENAGEM A BRUNO TOLENTINO...


O poeta Bruno Tolentino (1940-2007)
A BALADA DA MEDUSA
de um Trompe L’œil à Tolentino
sob a forma de um possível soneto inglês




ao Jessé de Almeida Primo.


Nosso amor, como tudo neste mundo,
é um risco, um faz-de-conta... uma impressão
sem sentido, uma tola profusão
do imperfeito e do imprevisto, do fundo
escuro e sem sentido do desejo.
Nossa dor como tudo nesta vida
é um desespero – pedra confundida
com a ânsia alucinada do teu beijo – ,
uma alucinação – olhar desfeito
ante à sombra, à luz, à escuridão –
e tantos mais contrários desta união
do feito, do perfeito e do refeito:
e, assim, se somam tudo quanto é triste
sem saber qual de nós menos existe.

Improvisado após a leitura de A Balada do Cárcere de Bruno Tolentino.Feira de Santana, 12 de julho de 2004.

OUTRA TRADUÇÃO DE SHAKESPEARE...


Geni de Gabriel Ferreira (acrílico sobre tela - 70x70 - 2007), coleção particular.
Teu verão eterno...

Devo igualar-te aos termos do verão,
lindos e afáveis como teu semblante?
O vento, que desfaz cada Estação,
igual a tudo, dura um breve instante.
Tudo que é Belo, à luz do olhar, fascina,
porém, se o que era luz perde a clareza,
de seu belo, a Beleza, enfim, declina
por si ou pela ação da Natureza.
Só teu verão eterno então perdura,
com seu mais terno e mais profundo intento;
a impor-te a sombra, a Morte só murmura,
porque esta estrofe a de se opor ao Tempo,

e, enquanto houver viventes nesta Lida,
há de existir meu verso a dar-te vida.




A FUNDAÇÃO CASA DE JORGE AMADO, COVIDA...



Segunda-feira, 29/06, o escritor italiano Giovanni Ricciardi lançará o volume 6 da coleção Biografia e Criação Literária, a partir das 18h, na Fundação Casa de Jorge Amado, Pelourinho.



Compareçam!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

UMA FONTE À CRUZ E SOUZA...


O poeta Cruz e Sousa (1861-1898)

UMA FONTE À CRUZ E SOUZA



No lago, as águas cristalinas dormem
a espelhar todo um céu emoldurado;
é o próprio céu na terra embalsamado
numa aparente quão sutil desordem.

No ocaso, a luz do sol, na lagoa, escorre;
e Eu sempre vejo as sombras afrontando
essa Paz que me faz viver sonhando,
mesmo que o sol mais abrasado jorre.

É verde a margem, deleitável e erma,
qual minha alma extasiada e enferma
a roçar sobre o espelho destas águas.

É uma mulher de enrubescidas faces,
que, sussurrando, é como se lavasse
as minhas tristes e profundas mágoas.




terça-feira, 16 de junho de 2009

UMA TRADUÇÃO DE SHAKESPEARE


As três idades do homem e a morte de Hans Baudung

AS IDADES DO HOMEM

à Fernanda Oliveira





Quando a hora move míseros instantes,
em noite horrenda se desfaz o dia,
na angústia, se converte meu semblante,
à foice, a rosa entrega sua alegria;
já sem folhas eu vejo o torso altíssimo,
que outrora era conforto ao manso gado,
e ir-se, em funéreo passo – e em pêlo alvíssimo –,
o que era verde estio, então, ceifado;
ponho-me a perguntar por tua beleza,
consumindo-se toda em vil renova,
como há de ser a toda Natureza,
e a todo ser vivente... dura prova;

fora a prole, a assistir teu passamento,
nada te salvará da mão do Tempo.







segunda-feira, 15 de junho de 2009

DVD: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON








Com o lançamento, nesta semana, em DVD, do filme, O curioso caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button) do aclamado diretor David Fincher, com Brad Pitt, Cate Blanchett, Kimberly Scott, Jason Flemyng, Taraji Henson, Elle Fanning, Mahershalalhashbaz Ali e Emma Degerstedt, produzido numa parceria dos estúdios Warner e Paramount, com a consagrada direção de David Fincher, faz-se necessário “redizer” muitas das coisas que já tive o prazer de falar aqui mesmo quando o assisti no cinema: O curioso caso de Benjamin Button é um daqueles filmes onde uma velha máxima se faz surpreendentemente verdadeira: "O Cinema é mágico". Não importa se nascemos jovens e morramos velhos, ou se fosse ao contrário, como é a existência singular do personagem que nomeia este conto de Scott Fitzgerald, de onde o filme é baseado; não podemos nos furtar daquilo que a vida nos oferece, nem daquilo que ela é. Molharemos as calças, sentiremos medo, ficaremos curiosos, teremos prazer, dor, dúvida, e, no fim, esquecidos ou não, teremos que aceitar, de uma forma ou de outra. Não podemos nos furtar ao tempo e de como, nele, a vida se conduz única para qualquer um de nós. Isto que estou a dizer até poderia soar tenebroso, mas em nenhum momento do filme isto é mostrado desta maneira – e eu duvido que alguém tenha se sentido assim, mesmo naquela que, para mim, é uma das mais "barrocas" cenas já construídas pelo cinema, que é a da morte de Benjamin (ops!, contei o que não devia), nos braços de sua amada Queenie, ele, inconsciente, por sua condição, finalmente, de recém-nascido ao inverso, e, ela, envelhecida, no mais profundo sentido da palavra; desta forma, onde, à primeira vista, deveria haver uma cena de amor trivial entre avó e neto, revela-se uma das mais angustiantes representações da morte que o cinema poderia proporcionar. Além do mais, não tive, como em todo bom filme, que ficar indiferente a tudo que me era ali mostrado, principalmente na história de um homem que rejuvenesce em um século que também parece ficar mais jovem – um século que começou com a primeira guerra mundial (uma tragédia proporcionada pelo homem) e parece terminar com uma tragédia natural que o homem fez questão de tornar mais horrenda – à medida que se aproxima de seu término; como me foi impossível ficar indiferente à minha própria vida, a qual eu mesmo fui levado a rever, ao assistir este filme. O Curioso caso de Benjamin Button me deu algumas das 3h15 mais prazerosas de minha vida.

UMA INDICAÇÃO TÃO TARDIA, QUANTO MERECIDA E NECESSÁRIA...


O poeta Antônio Brasileiro (1944 - )


Ciclistas, óleo de Antônio Brasileiro Borges



O poeta Antônio Brasileiro Borges foi eleito, na última segunda-feira, por unanimidade, para ocupar a cadeira de nº 21, que pertenceu a Jorge Amado e, por conseqüência de pensão-alimentícia, à Zélia Gattai, na Academia de Letras da Bahia (ALB), tornando-se o primeiro imortal, desta Instituição, não nascido nem radicado em Salvador. Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, e professor de Teoria da Literatura na Universidade Estadual de Feira de Santana, o grande fundador, e, certamente, o melhor representante do grupo Hera, que tem mais de 25 títulos publicados entre poesias, ensaios, romances e contos, mas nunca fora agraciado com uma publicação por uma grande editora – uma injustiça que, eu espero, solucione-se em breve –, entre os quais A estética da sinceridade & outros ensaios (Imprensa Universitária da UEFS, 2000), Antologia Poética (Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 1996) e Dedal de areia, que venceu a edição de 2004 do Prêmio Durval de Morais, da ALB, é, sem dúvidas, uma escolha acertada em todos os pontos pelos membros da ABL e que lhe dá diversidade e qualidade... A indicação de Antônio Brasileiro para tal instituição pode até ser tardia, mas merecidamente necessária.

Eis um dos melhores exemplos da poesia de Antônio Brasileiro:




QUE DEUS GUARDE MEU PAI...



Não passar. Ficar para semente.

Não era isto que meu pai queria?
Sentava-se na rede e adormecia
julgando ter domado a dama ausente.

E sonhava talvez. Talvez menino
montando burros bravos, nu, ao vento;
um homem é a sua ação sobre o destino.

Meu pai então fazia um movimento
e a rede, a adormecer, estremecia:
pequenos sustos no tempo, era só isto.

E escancarava os olhos duramente
para mostrar que se Ela o procurava
era de cara a cara que a encarava.

Que Deus guarde meu pai. Eternamente.



Poema extraído de Poemas Reunidos, de Antonio Brasileiro, poeta brasileiro radicado em Feira de Santana. O livro foi editado pelo Selo Letras da Bahia, em 2005.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

IMPERDÍVEL... NOVA EXPOSIÇÃO DE GABRIEL FERREIRA NO MAC (MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE FEIRA DE SANTANA) DE 05 DE MAIO A 07 DE JUNHO DE 2009






EXPOSIÇÃO DESENHO DE POESIA 2009

Gabriel Ferreira é natural de Tanquinho-BA, artista plástico e desenhista, músico percussionista, professor do IMAQ (Ponto de Cultura) e graduado em economia/UEFS.

Exposições desde 1994 no Tríduo Cultural de Tanquinho; exposições individuais no Museu de Arte Contemporânea-MAC, Pouso da Palavra em Cachoeira, CUCA e UEFS; exposições coletivas no CUCA, Museu Regional de Artes-MRA e MAC em Feira de Santana; Salões de Artes da Funceb em Feira e Itabuna, Salão do MAN em Salvador-BA, Bienal do Recôncavo, Bienal da UNE. Conta também com premiação em Salão de Arte; publicação de ilustrações em livros, revistas e jornais. Desenvolvimento de oficinas de xilogravura e artes plásticas no Projeto Recriando e Criando Lendas e Mitos na região do sisal.



EXPOSIÇÃO DESENHO DE POESIA 2009 - NO MAC (05 DE MAIO A 07 DE JUNHO DE 2009)

A temática intitulada Desenho De Poesia faz a “ponte” pintada entre literatura e tela do artista. A poesia, a letra de música, o conto, a prosa e o palavreado desenham muita imaginação e instigam o desejo pela mistura de cores e traços, o que se configura em nova ação de interpretar a obra e recriá-la em linguagem visual.

A edição de 2009 faz um passeio pela letra da música, com uma atenção especial a um fragmento da obra do Pixinguinha: umas “pixingas” (como diria Larissa Lelis) sobre tela, umas vontades soltas.

São ilustrações figurativas, fragmentadas, esfaceladas. Tudo para parecer feito à mão e sem compromisso com as coisas tortas existentes.