quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

CENESTRA DI FRUTTA (1596)... OU UM POEMA DE NATAL


Cesto com frutas de Caravaggio (14596): óleo sobre tela 46x64 cm; Pinacoteca ambrosiana, Itália.





Esculpo
uma cesta de frutas
a cozinha
os cheiros da manhã
lá fora.


A solidão dos frutos:
a mesma solidão das coisas vivas
dos propósitos
das palavras que esperam por seus usos.


A beleza destas frutas

é a mesma beleza dos milagres

das súplicas

das lágrimas

da lâmina da morte e os seus cortes.

A beleza destas frutas

é a mesma beleza das obras inconclusas

do canavial ao vento

d’outras matérias

enfim

vencidas.

Todo amor é madureza

encanto descoberto

instante exato

cesto de mangas

bananas

romãs

tanjerinas

jabuticabas...

goiabas

figos

e melancias abertas como carne.

Todas as coisas trazem seu desejo

e o que não foi ou não quis

hoje

agoniza.

De aparições surgem brotos

abrem-se flores

abrigam-se grãos

e sucos...

Tudo que é belo assim o é e assim se mostra.

Mas

mesmo as coisa belas

mudam
envelhecem

amarelam-se como papel

frutos

peles

depressa ou lentamente escrevem seus nomes

suas promessas

seus sabores.

Assim é a poesia...

assim, os homens:

frutos da eternidade

e de tudo

que apodrece.





3 comentários:

MaRiShKa disse...

'(...)Frutos da eternidade e de tudo
que apodrece.' -Essa parte é a pura verdade! *.*

Rosangela disse...

Olá poeta! No final seremos todos comidas de vermes, incluindo as frutas e os belos legumes.
1º vez aqui e voltarei, pois gostei...
Bjs poéticos!

FOLIÃO DE RAÇA disse...

Silverio tem se tornado uma espécie de profeta do tempo, ainda que pareça um oxímoro ou paradoxo, tal afirmação. Acontece que ele consegue, vem conseguindo criar antecipações, pela poesia, da mais alta estirpe estética e de uma maturidade que beira a velhice, quando sábia. Não são poucos os poemas, versando sobre o tempo, em que Silvério consegue se livrar do lugar-comum, tão frequente a esse tema, e criar um templo de orações ao belo, eternizando-o. Sugiro aos leitores a leitura dos sonetos do poeta. Abç a todos.