
Cesto com frutas de Caravaggio (14596): óleo sobre tela 46x64 cm; Pinacoteca ambrosiana, Itália.
Esculpo
uma cesta de frutas
a cozinha
os cheiros da manhã
lá fora.
A solidão dos frutos:
a mesma solidão das coisas vivas
dos propósitos
das palavras que esperam por seus usos.
A beleza destas frutas
é a mesma beleza dos milagres
das súplicas
das lágrimas
da lâmina da morte e os seus cortes.
A beleza destas frutas
é a mesma beleza das obras inconclusas
do canavial ao vento
d’outras matérias
enfim
vencidas.
Todo amor é madureza
encanto descoberto
instante exato
cesto de mangas
bananas
romãs
tanjerinas
jabuticabas...
goiabas
figos
e melancias abertas como carne.
Todas as coisas trazem seu desejo
e o que não foi ou não quis
hoje
agoniza.
De aparições surgem brotos
abrem-se flores
abrigam-se grãos
e sucos...
Tudo que é belo assim o é e assim se mostra.
Mas
mesmo as coisa belas
mudam
envelhecem
amarelam-se como papel
frutos
peles
depressa ou lentamente escrevem seus nomes
suas promessas
seus sabores.
Assim é a poesia...
assim, os homens:
frutos da eternidade
e de tudo
que apodrece.